2. CONON, CONONITES. Em 451, sob notificação da carta do papa são Leão, acrescida de um apêndice onde certos textos patrísticos, recolhidos por Teodoreto em seus Dialogues, Epist., CLXV, P. L., t. LIV, col. 1178 sq., encontravam-se utilizados com outros, coligidos pelo próprio papa, o concílio de Calcedônia havia proclamado a existência, em Jesus Cristo, de duas naturezas distintas, tendo cada uma suas propriedades, na unidade de pessoa ou de hipóstase. Esta definição não deteve as controvérsias cristológicas no Oriente. O monofisismo, em particular, continuou a agitar-se, sobretudo na Síria e no Egito, e a multiplicar as seitas. Opunha-se tradição a tradição.
Emprestavam-se de são Gregório o Taumaturgo, de são Atanásio, do papa são Júlio, passagens onde era ensinada a unidade de natureza. O autor anônimo do notável tratado Adversus fraudes apollinistarum, atribuído ordinariamente a são Leôncio de Bizâncio, P. G., t. LXXXVI, col. 1947-1976, em vão provou, e com razão, assim como demonstraram Lequien, Caspari e os críticos recentes, que essas passagens falsamente atribuídas eram na realidade da pena de Apolinário, nomeadamente o ékhtéois Tisitis, ou exposição detalhada da fé; em vão demonstrou igualmente a interpretação ortodoxa que convinha dar aos textos autênticos de são Cirilo de Alexandria, tais como a Lettre a Acace e as Lettres a Succensus, aproximando-os daqueles onde o grande bispo sustentava claramente a existência de duas naturezas distintas no Cristo, nada adiantou.
No curso do século VI, o Egito tornou-se o teatro de lutas apaixonadas. Dois bispos, refugiados em Alexandria em 518, Severo de Antioquia e Juliano de Halicarnasso, ambos monofisitas, criaram no seio do partido duas escolas rivais, que tomaram cada uma o seu nome. O primeiro sustentava que o corpo do Cristo, antes da sua ressurreição, estava submetido às fraquezas e aos sofrimentos comuns, isto é, corruptível. De modo algum, replicava Juliano; pois, nesse caso, introduzís uma distinção demasiado nítida entre o corpo e o Verbo, e isso seria dar razão ao concílio de Calcedônia; e ele qualifica de phthartolâtres, ou adoradores do corruptível, os partidários de Severo; o corpo de Jesus Cristo era isento de toda alteração, incorruptível, desde antes da sua ressurreição. A isso os severianos respondiam: Vós sois aphthardocètes, partidários do incorruptível, phantasiastes, que não admitis senão um corpo aparente.
Sobrevém a morte do patriarca de Alexandria. Dois competidores disputam sua sucessão: um, partidário de Severo, Teodósio; o outro, partidário de Juliano, Gaianus. Teodósio vence, mas é exilado. Seu discípulo, o diácono Temístio, aplicando à alma do Cristo o que os phthartolâtres diziam do corpo, sustentou que o Cristo ignorava, como homem, o dia do juízo; ele formou a seita dos agnoetas. Ver t. I, col. 588-592. Leôncio de Bizâncio, um contemporâneo, combateu Severo e os phthartolâtres, em suas Τριάκοντα κεφάλαια κατὰ Σευήρου e sua Ἐπίλυσις τῶν ὑπὸ Σευήρου προβεβλεμένων συλλογισμῶν, P. G., t. LXXXVI, col. 1901-1915, 1915-1945; Juliano e os aphthardocètes, em seu Contra nestorianos et eutychianos e seus Scholia ou De sectis, act. V, II, ibid., col. 1269-1396, 1229; os gaianitas e os agnoetas, em seu De sectis, act. V, IV; X, I-II, ibid., col. 1282, 1260-1263.
Ao mesmo tempo, um gramático filósofo de Alexandria, João apelidado Filopono, toma parte na controvérsia. Ele dizia aos católicos: Uma vez que admitis duas naturezas em Jesus Cristo, é preciso concluir, segundo os princípios de Aristóteles, que há igualmente duas hipóstases. Ele confundia assim a natureza e a hipóstase. Os católicos replicavam: Se a vossa conclusão fosse justa, seria preciso concluir que, na Trindade, há também três naturezas, visto que professamos que há três hipóstases ou pessoas. — Certissimamente, respondia Filopono, pois cada indivíduo ou pessoa tem sua natureza própria e uma natureza comum, o que deve aplicar-se à Trindade. Leôncio de Bizâncio, De sectis, act. V, VI, ibid., col. 1232-1233; Fócio, Biblioth., 21, P. G., t. CIII, col. 80. Isso era adotar o triteísmo de João Askunages, diretor de escola em Constantinopla. Assémani, Biblioth. orient., t. I, p. 827. Conon, bispo de Tarso na Cilícia, abraçou este erro e foi triteísta. Nicéforo Calisto, H. E., XVIII, 48-49, P. G., t. CXLVII, col. 428-432.
Ora, estes triteístas foram interpelados não somente pelos católicos, mas ainda por certos monofisitas. Uma conferência ocorreu mesmo diante de João de Constantinopla, sob o imperador Justino (518-527), entre Conon e Eugênio, de uma parte, e, de outra parte, Paulo e Estêvão, do partido dos hesitantes. Postos em condição de anatemizar Filopono, seus partidários Conon e Eugênio recusaram-se, pretextando que Filopono pertencia à escola dos phthartolâtres, Teodósio e Severo. Fócio, Biblioth., 24, P. G., t. CIII, col. 60.
Filopono ensinava outra coisa ainda em seu Περὶ ἀναστάσεως, obra perdida. Ele pretendia que o mundo atual e também o corpo humano devem desaparecer e ser destruídos um dia na sua forma e na sua matéria; mas, na ressurreição, serão criados corpos humanos, inteiramente novos quanto à matéria e quanto à forma, bem superiores aos primeiros, e é a esses corpos que as almas se unirão para sempre. Este ponto de doutrina desagradou ao monge Teodósio, a Temístio, o chefe dos agnoetas, e em particular aos triteístas Eugênio e Conon. Fócio, ibid., col. 60. Conon sustentou que, na morte, apenas a forma desaparece, mas que a matéria persiste, que, ao fim, esta matéria receberá uma forma mais bela e que a ressurreição não será outra coisa senão a união indissolúvel da alma racional com o seu antigo corpo transformado. O entendimento já não era possível. Conon repudiou o ensino de Filopono, rejeitou as suas obras e fundou a seita rival que leva o seu nome, a seita dos cononitas. Nicéforo Calisto, H. E., xviii, 49, ibid., col. 432.
Fontes: Leôncio de Bizâncio, Fócio, Nicéforo Calisto, obras citadas. Trabalhos: Assémani, Biblioth. orient., t. III, diss. De monophysitis; Ceillier, Histoire des auteurs ecclésiastiques, Paris, 1862, t. xi, p. 650; Hefele, Histoire des conciles, trad. franç., Paris, 1908, t. ii, p. 857 sq.; Smith et Wace, Dictionary of christian biography, t. i, p. 622; Kirchenlexikon, t. iii, p. 948; U. Chevalier, Répertoire. Bio-bibliographie, 2° édit., col. 4006; Topo-bibliographie, p. 775.
Autor original: G. Bareille
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