COCHLÉE Jean, célebre controvertista alemão do século XVI, um dos mais ardentes adversários do protestantismo, nasceu a 10 de janeiro de 1479, em Wendelstein, perto de Nurembergue, e morreu em Breslávia, a 10 de janeiro de 1552. Seu nome de família era Dobneck. Doutorado em teologia em Ferrara, em 1520, foi cônego de Mogúncia em 1526 e de Breslávia em 1539.
Desde cedo exercitou-se na controvérsia, para a qual tinha aptidões particulares: conhecimento bastante extenso, talvez pouco aprofundado, dos pontos em litígio entre católicos e protestantes, grande facilidade de palavra, dom de persuasão dos mais notáveis. Contudo, o ardor de seu zelo, certas audácias excessivas e muita amargura na discussão prejudicaram por vezes o sucesso de sua eloquência. Ele permanece, a este respeito, bem abaixo de Eckius, na estima dos católicos.
Conta-se que, estando em Worms, desafiou Lutero e propôs-lhe uma conferência pública, após a qual o vencido deveria ser queimado. Lutero aceitou tais condições. Mas os amigos dos dois antagonistas impediram a execução desse projeto insensato.
Foi por volta dessa época que Cochlée começou a escrever. O número de obras que lhe são atribuídas bastaria para preencher várias colunas (contam-se 190). Encontramo-las enumeradas na Bibliothèque de Boissard, Icones virorum illustrium.
Citemos, entre as principais: Musica activa, in-8°, Colónia, 1507; Tetrachordum musices, in-4°, Nurembergue, 1512; De Christi natura, pro et contra, in-8°, 1527, livro muito curioso onde, por um conjunto de textos colhidos um pouco por toda a parte na Escritura, ele prova que Jesus Cristo não é Deus. Escreveu outro, em 1528, onde, pelo mesmo processo, demonstrava que se deve obedecer ao diabo e que a santa Virgem perdera sua virgindade. Era uma forma original de mostrar o singular abuso que se podia fazer da Escritura quando se queria prescindir da autoridade da Igreja.
Possuímos ainda dele Concilium delectorum cardinalium et aliorum prelatorum, de emendanda Ecclesia, Paulo III jubente, etc., accessit J. Cochlei discussio equitatis super concilio, etc., ad tollendam per generale concilium inter Germanos in religione discordiam, in-8°, 1539; Vita Theodorici, regis quondam Ostrogothorum et Italiz, in-4°, Ingolstadt, 1544; Estocolmo, 1699; a primeira edição é a mais rara, mas a segunda é mais estimada devido às adições de Peringskiold; Speculum antique devotionis circa missam, in-fol., 1549; Historiæ Hussitarum libri XII, in-fol., Mogúncia, 1549, livro raro e curioso, um dos melhores do autor, mas maculado, no entanto, por alguma parcialidade; Commentaria de actis et scriptis M. Lutheri, ab anno 1517 ad 1546, in-fol., 1549. Estas três últimas obras foram impressas na abadia de Saint-Victor, perto de Mogúncia. Tendo o fogo deflagrado nessa tipografia em 1552, atribui-se, habitualmente, a esse acidente a raridade deste último livro. A vida de Lutero foi reeditada, in-8, Paris, 1565, com um tratado de Boniface Britannus.
Cochlée estivera demasiado pessoalmente envolvido nesses acontecimentos e era, por outro lado, demasiado apaixonado contra os seus adversários para que se possa, em todos os pontos, confiar no seu relato. Sente-se muitas vezes transparecer, nas suas disputas contra os Pais da Reforma, Lutero, Osiander, Bucer, Melâncton, Calvino, um tom de invectiva que choca e que torna o leitor suspeitoso. O Sr. Friedensburg publicou uma parte da correspondência de Cochlée em Zeitschrift für Kirchengeschichte, 1897, t. XVI, p. 106 sq., 233 sq., 420 sq. Alguns dos seus escritos foram colocados no Index librorum prohibitorum.
Dom Ceillier, Histoire générale des auteurs sacrés, 2ª ed., t. I, p. 385; t. IV, p. 148; t. XIII, p. 116; t. XIV, p. 292; U. de Weldige-Cremer, De Joannis Cochlei vita et scriptis, Munique, 1865; Otto, Johann Cochleus der Humanist, Breslávia, 1874; F. Gess, Johannes Cochleus der Gegner Luthers, Leipzig, 1886; Realencyclopädie, Leipzig, 1898, t. IV, p. 194-200; Spahn, Johannes Cochleus, etc., 1898; O. Clemen, Zur Biographie der Joh. Cochleus, em Neues Archiv für sachs. Geschichte, 1903, t. XXIV, p. 336-337; Hurter, Nomenclator, 3ª ed., t. III, col. 1411.
Autor original: C. Toussaint
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