CLEMENTE VI

CLEMENTE VI

6. CLEMENTE VI, papa, sucessor de Bento XII, eleito em 7 de maio de 1342, falecido em 6 de dezembro de 1352. O cardeal Pierre Roger, que o conclave escolheu onze dias após a morte de Bento, pertencia à ordem dos beneditinos. Antigo guarda dos selos do rei da França, depois arcebispo de Rouen, ele era inteiramente devotado a Filipe de Valois, cujos interesses formaram o pivô de sua política.

No próprio ano de sua elevação, tomou partido contra as cidades de Flandres revoltadas contra o rei da França, seu suserano, depois, intervindo não como papa, para «dar sentença», mas, segundo os termos impostos pelo rei Eduardo da Inglaterra, «como pessoa privada, a título de amigo comum dos dois soberanos», ele fez com que os dois reis consentissem por três anos a trégua de Malestroit (19 de janeiro de 1343). Mais tarde, esforçou-se por prevenir a ruptura da trégua e, no dia seguinte à derrota de Crécy (29 de agosto de 1346), interveio com todas as suas forças em favor da França.

Sucessos mais aparentes coroaram sua política na Alemanha, onde perseguiu até o fim a guerra empreendida por seus predecessores contra Luís da Baviera. Rejeitando todas as aberturas do príncipe que, cansado, as decepções de uma luta que durava há vinte anos inclinavam à conciliação, exigiu uma submissão sem reservas; por meio de negociações habilmente conduzidas com certos eleitores, suscitou-lhe um rival ao império na pessoa de Carlos de Luxemburgo (20 de julho de 1346). A morte inopinada de Luís da Baviera, que ocorreu em 11 de outubro de 1347, a de Gunther de Schwarzbourg, que os adversários de Carlos haviam levado ao império e que morreu no mês de maio de 1349, apressaram o sucesso do «imperador dos padres». Mas Carlos IV, ele próprio, havia se dado conta da necessidade de subtrair a eleição imperial ao controle e à ratificação do papa, considerados doravante como uma intervenção estrangeira. O divórcio do império e do papado tornava-se tanto mais razoável quanto a Itália se constituía cada vez mais em um agregado de repúblicas e de pequenas soberanias onde o imperador não tinha mais autoridade real. Mas a Bula de Ouro de Carlos IV só foi publicada em 1356, sob o pontificado de Inocêncio VI.

Negociações ocorreram entre a Santa Sé e os gregos e armênios do Oriente (1344 e 1351); a união com a Igreja romana servia de preâmbulo para obter auxílios contra os turcos; mas nada de definitivo foi concluído, nem nenhuma cruzada empreendida. Clemente VI não fez nenhuma tentativa para transferir a sede pontifícia para Roma. Tinha sido, contudo, rogado a fazê-lo no início de seu reinado por uma embaixada dos romanos onde figurava Petrarca. Protestando ao mesmo tempo sobre suas boas intenções para o futuro, o papa desculpou-se pela inoportunidade presente e concedeu apenas aos romanos fixar no ano de 1350 o retorno do jubileu, que não deveria, primitivamente, ser celebrado senão a cada século.

A Itália, abandonada pela Santa Sé, via levantar-se podestás, tiranos de pequena monta, que, no terreno movediço das cidades populares, tentavam fundar seu poder. Milão tinha seus Visconti; não teria Roma os seus? Pôde-se acreditar nisso ao ver o obscuro Nicolau Rienzi cumprir a obra de restauração que ele havia inutilmente rogado a Clemente VI que viesse empreender. Tornado mestre do governo de Roma sob o título de tribuno em 1347, reorganizou a administração e a polícia da cidade, levantou uma milícia, fez reinar a boa ordem e a justiça ao ponto de merecer de Clemente VI um breve de encorajamento. Concebeu a ideia de um congresso das cidades italianas onde seriam lançadas as bases de uma confederação. Infelizmente, uma tão alta fortuna subiu à cabeça do aventureiro, que se pôs a agir como mestre, como o «tribuno augusto», o «amigo do universo», atacando o poder temporal do papa, citando os imperadores rivais ao seu tribunal, cunhando moeda com sua efígie, sonhando tornar-se o chefe de um verdadeiro império italiano. Clemente VI pôs fim a essas loucuras atingindo-o com censuras e empurrando os nobres a se revoltarem. Rienzi teve de fugir após oito meses de poder, abandonado pelo povo (fim do ano de 1347). A aventura, tão logo desfeita, era um indício do perigo que a ausência dos papas fazia correr à soberania temporal da Santa Sé. De fato, após 1350, Clemente foi impotente para reerguer o partido guelfo na Itália e para recuperar a cidade de Bolonha, que teve de ceder por doze anos ao arcebispo de Milão, que a disputava (1352).

É, contudo, após a queda de Rienzi que o papa Clemente VI pareceu consolidar sua sede em Avinhão, adquirindo o senhorio da cidade. A rainha Joana de Nápoles, que era também soberana da Provença e, a esse título, de Avinhão, era acusada pelo rumor público de ter estado envolvida no assassinato de seu marido André da Hungria. Posta em fuga por seu cunhado Luís, rei da Hungria, ela compareceu perante o papa, que a ouviu em consistório e a declarou inocente. A rainha cedeu a cidade de Avinhão ao papa por uma soma de 80.000 florins de ouro (19 de junho de 1348); todavia, os habitantes da cidade, descontentes, só reconheceram a soberania do papa sob o reinado de Inocêncio VI.

O papa Clemente VI tinha os costumes e os defeitos de um grande senhor. Era bom, liberal, generoso; deu o exemplo da coragem durante a grande «peste negra» dos anos 1348 e 1349; manteve-se firme na cidade de Avinhão no momento em que o flagelo dizimava a população, levando por toda parte esmolas e consolações; mais tarde, quando o povo, um pouco por toda parte, atacou os judeus por causa da peste, massacrando-os ou queimando-os sem piedade, o papa escreveu aos bispos para excomungar aqueles que os molestassem. Em parte alguma os judeus foram melhor protegidos do que nas terras da Igreja.

Mas, sob outros aspectos, o pontificado de Clemente VI foi danoso à Igreja. Melhor político e melhor príncipe do que pontífice, ele logo teria gasto, em construções, em festas luxuosas, o tesouro amealhado pelo papa Bento XII; ampliou e mandou decorar com pinturas o palácio dos papas; uma mesa ricamente servida, recepções brilhantes onde as damas eram admitidas, uma liberalidade que degenerava em prodigalidade, contrastavam com os esforços de seu predecessor para introduzir uma certa reforma. As necessidades de dinheiro do papa, sua leviandade na distribuição das graças levaram-no a reservar para si um número cada vez mais considerável de benefícios, de bispados, de abadias. As queixas mais vivas surgiram.

Ao defender seu clero e seu povo contra esses abusos, os reis davam-se como os protetores dos verdadeiros interesses da Igreja. O rei Pedro de Aragão pediu a Clemente VI para reenviar os prelados de seu reino que permaneciam em Avinhão e para não conferir mais benefícios em seus Estados a clérigos estrangeiros (1351). Na Inglaterra, Eduardo III ordenara prender e expulsar do reino os procuradores que vinham tomar posse de benefícios em nome dos cardeais nomeados.

Foi por ocasião de seus conflitos com o rei da Inglaterra sobre este assunto que Clemente VI emitiu a pretensão que servia, há muito tempo, de base para todas as práticas do papado absolutista; a de que cabe ao Papa dispor das prelazias e dos benefícios de toda a cristandade. Ad romanum pontificem omnium ecclesiarum, dignitatum, personatuum, officiorum et beneficiorum ecclesiasticorum plenaria dispositio noscitur pertinere (11 de julho de 1344).

Por volta de meados do século XIV, produziu-se uma recrudescência de escritos polêmicos contra o papado e contra os costumes da corte de Avinhão. Clemente VI, de caráter demasiado indulgente para reprimir as desordens ao seu redor, tinha, pelo menos, a franqueza de reconhecê-las, e tomou, contra os prelados de seu séquito, a defesa dos religiosos mendicantes, cuja conduta durante a peste fora admirável e que haviam recolhido grandes bens, objeto de ciúme e inveja.

Bom teólogo, espírito aberto e culto, Clemente VI não perdia de vista as questões teológicas: após a morte de Luís da Baviera, recebeu a submissão de Guilherme de Ockham e dos franciscanos fanáticos que aceitaram enfim a constituição de João XXII; entre eles, menciona-se Francisco de Ercolo. Clemente VI condenou os flagelantes, cujos excessos desolavam a cristandade.

As grandes viagens de descobrimento do século XIV haviam levado a uma extensão da Igreja a regiões novas. O Papa Clemente VI, a pedido do príncipe Luís de la Cerda, concedeu-lhe a investidura da soberania sobre as ilhas Canárias, com o título de príncipe da Fortúnia (por volta de 1344); o príncipe não pôde manter-se; em 1351, Clemente deu um bispo às Canárias na pessoa de um religioso carmelita, o Pe. Bernardo.

Clemente VI morreu em 6 de dezembro de 1352. Seu sucessor foi o Papa Inocêncio VI.

E. Desprez, Lettres closes patentes et curiales des papes d'Avignon se rapportant à la France, Clemente VI, Paris, 1901 (em curso de publicação); Werunsky, Excerpta ex registris Clementis VI et Innocentii VI, Inspruck, 1885; Vatikanische Akten zur deutschen Geschichte, Inspruck, 1896, p. 765; Baluze, Vitæ paparum Avenionensium, Paris, 1693, t. 1, p. 243; Raynaldi, Annales ecclesiastici, Turim, 1872, t. xxv, p. 275; Hefele, Conziliengeschichte, 2ª ed. por Knopfler, Friburgo em Brisgóvia, 1890, t. vi, p. 663; von Hofler, Die avign. Paepste, Viena, 1871; Jules Gay, Le pape Clément VI et les affaires d’Orient, Paris, 1904; no artigo JOÃO XXII, todas as obras gerais sobre o conflito do papado com Luís da Baviera; Freyberg, Die Stellung der deutschen Geistlichkeit zur Wahl Karls IV, Halle, 1880; Werunsky, Geschichte Karls IV und seiner Zeit, 2 vols., Inspruck, 1880-1886; Lindner, Deutsche Geschichte, Estugarda, 1890, t. 1, p. 457; Gregorovius, Geschichte der Stadt Rom im Mittelalter, 4ª ed., 1898, t. vi, p. 220; Pastor, Histoire des papes depuis la fin du moyen âge, trad. Furcy-Reynaud, Paris, 1888, t. 1, p. 100; Christophe, Histoire de la papauté pendant le xive siècle, Paris, 1853, t. ii; Souchon, Die Papstwahlen von Bonifaz VIII bis Urban VI, Brunsvique, 1888; Faucon, Notice sur la construction de l’église de la Chaise-Dieu, 1904; Kirsch, Die päpstlichen Kollektorien in Deutschland während des xive Jahrhunderts, Paderborn, 1894; Id., Die päpstlichen Annaten in Deutschland während des xiv Jahrhunderts, Paderborn, 1904 (coleção das Quellen und Forschungen aus dem Gebiete der Geschichte); Id., Die Verwaltung der Annaten unter Klemens VI, em Römische Quartalschrift, 1902, p. 125-151; J. de Loye, Les archives de la Chambre apostolique au xive siècle, I parte, Inventaires, Paris, 1899; Klicman, Monumenta Vaticana res gestas Bohemicas illustrantia, t. 1, Acta Clementis VI (1342-1352).

Autor original: H. Hemmer

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