CLEMENTE, O ESCOCÊS

CLEMENTE, O ESCOCÊS

49. CLEMENTE, O ESCOCÊS. Herético do século VIII. Desde 722, após uma visita ao papa, o intrépido anglo-saxão Winfried, o célebre apóstolo da Gália franca e da Germânia, conhecido sob o nome de São Bonifácio, restabelecia junto a Carlos Martel as relações epistolares entre o papado e a realeza merovíngia, que estavam interrompidas desde 613. Desde 742, encorajado pelos soberanos pontífices e secundado por Carlomano e Pepino, ele restabelecia também a tradição dos antigos sínodos pela convocação regular de concílios nacionais, que a cada ano passariam a tratar as questões político-religiosas mais urgentes.

Ora, no intervalo, ele não se tinha apenas entregue a um apostolado fecundo junto aos bárbaros ainda pagãos, tinha também trabalhado, segundo os desejos de Gregório II e de Gregório III, na reforma da sociedade cristã na Gália através da reforma da Igreja, e na reforma da Igreja através da do clero. Isto não ocorreu sem numerosos obstáculos nem sem graves dificuldades, pois, em razão dos interesses, das paixões, dos preconceitos e dos erros que reinavam, ele encontrara em seu caminho espíritos conturbadores, fautores de desordem e manchados de heresia, nos escalões dos quais se deve colocar o franco Adalberto, ver t. I, col. 367-368, e o escocês Clemente.

Clemente é-nos pintado ao vivo em uma carta de São Bonifácio ao papa Zacarias. Epist., XVII, P. L., t. LXXXIX, col. 753; Hardouin, Act. conc., t. III, p. 1936. Tendo acorrido da Escócia, a exemplo de tantos outros escoceses ou anglo-saxões, com o objetivo de praticar o apostolado cristão na Europa ocidental, ele esteve longe de possuir o espírito de subordinação e a ortodoxia da maioria de seus compatriotas. Incapaz, em particular, de dominar suas paixões, ele deu o escândalo de uma vida de desordens com uma concubina de quem teve dois filhos. Mas resolvido, por outro lado, a desempenhar um papel religioso, ele juntou-se a Adalberto e fez-se sagrar, como ele, bispo por um desconhecido.

Em realidade, não era mais que um revolucionário e um herético. Do ponto de vista disciplinar, ele rejeitava toda regra eclesiástica. Contrariamente à prática da Igreja, ele pretendia, por exemplo, que, para se conformar à lei de Moisés, o irmão pudesse casar-se com a viúva de seu irmão. Ele não reconhecia autoridade nem à Escritura sagrada, nem aos concílios, nem aos Padres da Igreja, nomeadamente a São Jerônimo, a Santo Agostinho e a São Gregório Magno.

Do ponto de vista dogmático, ele professava opiniões errôneas sobre a predestinação. Ele ensinava que Cristo, em sua descida aos infernos, tinha libertado todos os que se encontravam no limbo, os incrédulos e os idólatras, assim como os crentes e os verdadeiros servos de Deus. Tal conduta e tais ensinamentos constituíam um perigo para a fé e para os costumes.

São Bonifácio tentou, pela palavra, reduzi-lo ao silêncio e livrar a Gália cristã dele. Não podendo chegar a fazê-lo, submeteu seu caso à assembleia dos bispos. Assim como tinha feito condenar Adalberto no concílio de Soissons de 744, fez condenar Clemente no concílio germânico de 745, convocado por Carlomano e presidido por ele como legado do papa. P. L., t. LXXXIX, col. 829-830; Hardouin, t. III, p. 1933.

A notificação desta condenação, com documentos comprobatórios, foi enviada a Roma, e o papa Zacarias reuniu, nesse mesmo ano, um concílio no Latrão, que ratificou a condenação deste herético escandaloso. P. L., ibid., col. 831-837; Hardouin, ibid., p. 1935-1943. Cf. S. Zacharie, Epist., IX, X, P. L., t. LXXXIX, col. 939, 942.

Desde então não se ouviu mais falar de Clemente; ignora-se como terminou sua vida. Em todo caso, sua influência foi definitivamente arruinada, e São Bonifácio pôde prosseguir sua fecunda missão. Smith et Wace, Dictionary of christian biography, Londres, 1877, t. I, p. 583; Kirchenlexikon, Fribourg-en-Brisgau, 1884, t. III, p. 517; Hardouin, Act. conc., t. III, p. 1933 sq.; P. L., t. LXXXIX, col. 751-753, 829-837.

Autor original: G. Bareille

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