CIENFUEGOS (ÁLVARO)

CIENFUEGOS (ÁLVARO)

ALVARO CIENFUEGOS, teólogo dogmático, nascido em 27 de fevereiro de 1657, em Oviedo, no território de Aguerra (Astúrias), entrou na Companhia de Jesus em Salamanca em 1676, lecionou filosofia em Compostela e teologia em Salamanca com grande sucesso. Durante a Guerra da Sucessão Espanhola, aceitou do pretendente Carlos, arquiduque da Áustria, uma missão na corte de Lisboa e, com o triunfo do duque de Anjou, Filipe V, não pôde retornar à Espanha.

O arquiduque Carlos, tornado o imperador Carlos VI, chamou-o a Viena e confiou-lhe ainda missões de Estado na Inglaterra e na Holanda; depois, pediu para ele ao papa Clemente XI o barrete cardinalício. Sua criação ocorreu em 1720, após ter sido retardada por algum tempo por uma obra que ele havia publicado em Viena, em 1717, e onde certos doutores romanos haviam apontado proposições temerárias concernentes à Trindade e à liberdade divina. Cienfuegos havia, com efeito, pretendido tratar as dificuldades inerentes a esses grandes mistérios nova quadam via et singulari cogitatione, como ele mesmo diz.

Eis, aliás, quase inteiramente o título dessa obra, que revela por si só o desígnio do autor, seu método demasiado exclusivamente racional em tal assunto e, por conseguinte, pouco respeitoso para com o mistério, como também o caráter de decadência orgânica onde, ao refinar-se, a escolástica da época se ressecava cada vez mais. É todo um documento: Aenigma theologicum, seu potius enigmatum, et obscurissimarum questionum compendium, nunquan hactenus prorsus solutum, nec solis viribus ingenii plane solvendum, expedilissime enodatur modo, nova quadam via et singulari cogitatione. Qua solide et profunde stabilita, veluti ex radice feracissima lucis, oritur clarissima et universalis explicatio plurium inplexissimarum difficultatum, tum intra fines arcani Trinitatis et libertatis divine, quam extra, scholasticorum mentes torpentium, et in factiones oppositas vehementer torquentium, et in factiones oppositas vehementer concitantium : ita ut ea doctrina semel firmata admissaque, vel omnino dispareant et exulent a theologia nostra, vel apertissime dissolvantur, in unumque deinceps in prefatis tractatibus conspirent omnes : perinde ac si alma pax magna ex parte illuxisset orbi litterario...

A ideia fundamental era, todavia, muito simples e nada menos que uma novidade; ela tendia a provar que a pluralidade hipostática na unidade essencial não está, de forma alguma, em contradição com este princípio primeiro: duas coisas iguais a uma terceira são iguais entre si. Mas, por vezes, as audácias da expressão podiam causar equívoco sobre o justo valor do pensamento.

Ministro plenipotenciário do imperador em Roma, desde 1712, o cardeal Cienfuegos foi ainda provido do bispado de Catânia, na Sicília, depois, em 1724, do arcebispado de Monreale (também na Sicília), ao qual teve de renunciar quando Carlos de Bourbon se apoderou do reino das Duas Sicílias, enfim do bispado de Finf. Humilde, modesto, afável para com todos, apesar de suas altas dignidades, levava em Roma a vida de um religioso. Morreu lá em 19 de agosto de 1739.

Cienfuegos deve sobretudo sua celebridade a um tratado dogmático sobre a vida eucarística de Cristo, publicado em Roma em 1738 e cujo longo título resume igualmente o conteúdo: Vita abscondita, seu speciebus eucharisticis velata, per polissimas sensuum operationes de facto a Christo Domino ibidem indesinenter exercita circa objecta altari, et amori vicina : ejus mira utilitas, decor et claritas; et ad tuendam veram rationem tum sacrificii incruenti, tum sacerdotii necessitas : fructuumque ex ea focunda radice prodeuntium ubertas, gravitas et vetusta novitas : Accedit conjunctio intima (eucharistie peculiaris gloria) sancte communicantis cum Servatoris nostri anima, tanquam cum motore assumente, postquam desinit sacramentalis presentia, nondum theologis satis nota; queque incipit, et proficit in via, et exundat in patria.

As duas questões agitadas nessa obra, tanto o modo de presença sacramental sob as espécies quanto o modo de presença unitiva no comungante, não eram, de forma alguma, novas na Escola, e as soluções propostas pelo autor também não o eram sob todos os aspectos. Que Cristo, em estado sacramental, possa exercer miraculosamente certos atos da vida sensitiva, nenhum teólogo jamais fez dificuldade em reconhecer; que ele os exerça realmente, esses atos, que ele nos ouça e nos veja pelo uso de seus sentidos, é uma opinião que Cornelius a Lapide, Lessius e Gonet haviam aceitado. Mas Cienfuegos vai mais longe do que a possibilidade e do que o fato em si: essa ação dos sentidos torna-se, para ele, uma necessidade, a tal ponto que, sem ela, o sacrifício místico do altar não se conceberia mais. Pois o sacrifício, segundo este sistema, consiste precisamente na supressão momentânea dos atos da vida sensível, que Nosso Senhor começa por exercer no momento da consagração para renunciar a eles imediatamente, e que ele retoma no momento da comistão das espécies, símbolo da ressurreição. Op. cit., disp. II, lect. I, n. 1 sq.

Quanto à união que se opera, em virtude do sacramento, entre Cristo e o comungante, seria, segundo Cienfuegos, ao menos para as almas perfeitamente dispostas, uma união de ordem física, sobrevivendo à corrupção das espécies, e consistindo em que a alma de Nosso Senhor permaneceria associada efetivamente ao corpo do comungante, quase como se associavam os espíritos angélicos aos corpos de forma humana sob os quais apareciam (modo assumptionis proprio). A alma de Cristo tornar-se-ia, assim, um princípio de movimento orgânico, falando por nossa boca, pensando por nosso cérebro, agindo por todos os nossos membros. Ela não é, aliás, senão um intermediário entre o Verbo e nós; pois é, propriamente falando, o Verbo, com a exclusão das outras pessoas, precisive ab aliis personis, que se une a nós. Op. cit., disp. VIII.

Essas teorias, que nos limitamos a expor historicamente, sem as avaliar, foram acolhidas na Espanha com o maior favor. Cf. J.-B. Gener, Theologia dogmatico-scholastica, Roma, 1767, t. I, prodr., n. 61.

Apenas o dominicano espanhol Thomas Madalena, em Ludus estivalis circa fervorem igneum, 1730, aguçou contra elas alguns epigramas; mas elas foram defendidas por diversos teólogos da Companhia de Jesus, entre outros por François Rabago, sob o pseudônimo de Granvosca, em Christus hospes, stabile beneficio eucharistie apud selectissimas animas ponens domicilium, Nápoles, 1732, e Paschase Agramunt, sob o pseudônimo de Perea e Hontemar, em Allegatio physico-polemica pro unione eucharistica, Valência, 1732. O capuchinho Ludovic de Múrcia também se fez seu defensor. Cf. Franzelin, Tractatus de SS. eucharistie sacramento, thes. XI, coroll. 2, p. 166; Dalgairns, La sainte communion, Paris, 1868, t. I, p. 182; Bougaud, Le christianisme et les temps présents, Paris, 1886, t. v, p. 224 e seguintes.

A obra do cardeal foi reduzida a um compêndio pelo Pe. Francisco Xavier Alegre. Resta mencionar de Cienfuegos, além de uma Epistola pastoralis, Roma, 1737, um opúsculo hagiográfico de juventude: Breve relacion de la vida, y heroicas virtudes de el P. Juan Nieto de la Compania de Jesus, Salamanca, 1693, e uma Vida de São Francisco de Borja, Madri, 1702, etc.

Mémoires de Trévoux, 1732, p. 5-57, 191-221; 1748, p. 1014 e Sommervogel, Bibliotheque de la C.ie de Jésus, t. II, col. 1182-1185; Hurter, Nomenclator, t. II, col. 980-985; Kirchenlexikon, t. II, col. 362-364.

Autor original: H. Dutouquet

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