CARPÓCRATES.
I. Vida.
II. Doutrina.
III. Discípulos.
I. Vida. — A vida de Carpócrates é pouco conhecida; o que se sabe reduz-se aos detalhes seguintes. Carpócrates, Karpocras ou Karpokrates, era de Alexandria como seu predecessor, o judeu-doceta Cerinto, e como seus contemporâneos Basilides e Valentim, dois chefes importantes do gnosticismo. Viveu na primeira metade do século II, sob o reinado de Adriano. Casado com uma mulher da ilha de Cefalônia, chamada Alexandria, teve dela um filho, Epifânio, de quem se fez instrutor e a quem ensinou o conjunto das ciências e a filosofia platônica. Este jovem morreu aos 17 anos, após ter assombrado o mundo pela precocidade de seu espírito e pela imoralidade de sua conduta, deixando uma obra, Περὶ δικαιοσύνης, onde condensou tudo o que pode legitimar a perversão dos sentidos; após sua morte, a pátria de sua mãe erigiu-lhe um templo e rendeu-lhe honras divinas ao canto de hinos. Clemente de Alexandria, Strom., III, 2, P. G., t. VIII, col. 1106.
Carpócrates sobreviveu ao seu filho. De todos os gnósticos, foi o mais imbuído das ideias platônicas; pronunciou-se contra o judaísmo por um antinomismo absoluto, do qual quis ver um exemplar na pessoa de Jesus. Tertuliano trata-o de mago e fornicador. De anima, 35, P. L., t. II, col. 710.
II. DOUTRINA. — Graças às informações fornecidas por Santo Irineu, Clemente de Alexandria, Tertuliano e o autor dos Philosophumena, pode-se reconstituir, ao menos em parte, a doutrina de Carpócrates e marcar seu caráter gnóstico e antijudaico.
1° Teogonia e cosmologia. — No primeiro escalão dos seres, Carpócrates coloca um Deus eterno, inefável: é o Père ingenitus de Irineu, Cont. her., I, 25, n. 1, P. G., t. VII, col. 680; ἀγέννητος dos Philosophumena, VII, v, 32, édit. Cruice, Paris, 1860, p. 385; a mônada, princípio de emanação primeiro para os seres espirituais e superiores, depois, mas a uma longa distância, para os anjos e as virtudes que fazem o mundo. Pseudo-Tertuliano, Prescript., 48, P. L., t. II, col. 66; Philosophumena, loc. cit., p. 385; Epifânio, Her., XXVII, 2, P. G., t. XLI, col. 364.
Segundo toda a verossimilhança, esses ἄγγελοι κοσμοποιοὶ eram considerados por Carpócrates como tiranos que, contrariamente às visões de Deus, faziam pesar sobre os homens um jugo intolerável; daí a necessidade de uma intervenção divina para sacudir esse jugo e emancipar os homens, intervenção confiada a Jesus.
2° Cristologia. — O redentor imaginado por Carpócrates porta o mesmo nome que o do Evangelho, mas não tem a mesma natureza e não desempenha o mesmo papel. Segundo ele, de fato, Jesus não é Deus; não é senão um homem como os outros, filho de José e de Maria, mas de uma natureza superior pela justiça e pela integridade de sua vida, Pseudo-Tertuliano, Prescr., 48, P. L., t. II, col. 66-67; Philosophumena, loc. cit., p. 385, possuindo uma alma firme e pura que se recorda do que viu em uma vida anterior.
Foi educado segundo a lei e os costumes judaicos, mas desprezou-os e deveu a esse desprezo libertador uma virtude que lhe permitia subtrair-se à tirania dos anjos demiurgos. Philosophumena, loc. cit. Desse desprezo ao mosaísmo fez um instrumento de salvação para os homens. É toda a redenção, segundo Carpócrates, que não fala nem dos sofrimentos nem da morte de Jesus.
3° Antropologia. — O homem é composto de uma alma e de um corpo; mas a alma pertence a um mundo superior onde nasceu, e do qual guarda uma lembrança mais ou menos nítida; ela não está senão de passagem no corpo, onde está aprisionada, não se sabe por qual motivo, mas de onde deve sair, terminada a sua prova, para reintegrar seu centro de origem.
Ora, para subtrair-se à tirania dos anjos e romper vitoriosamente os laços que a acorrentam, a alma só tem que imitar, que igualar a alma de Jesus, fazendo reviver nela a lembrança de seu estado primitivo e exibindo, como Jesus em relação à lei mosaica, o mais soberano desprezo, sendo seu triunfo e sua grandeza medidos exatamente por esse desprezo. Philosophumena, VII, v, 32, p. 386.
É nisso que consiste a γνῶσις μονάδικη, a ciência libertadora, a salvação, que não coloca nenhuma diferença entre o que se chama o bem e o mal, o justo e o injusto. Pois, como ensina Epifânio, a justiça não é senão uma κοινωνία μετ’ ἰσότητος, isto é, um direito igual para cada homem de participar de todos os bens, não apenas da luz do dia, mas ainda e sobretudo do necessário exercício das relações sexuais. Clemente de Alexandria, Strom., III, 2, P. G., t. VIII, col. 1105-1108.
Em consequência, sobre a terra, a alma, omnium facinorum debitrix, segundo a enérgica expressão de Tertuliano, De anima, 35, P. L., t. II, col. 741, deve, para realizar obra de salvação, violar todas as leis, porque as leis são obra dos anjos demiurgos. Seu dever consiste em satisfazer todas as suas paixões, desfrutar de todos os prazeres, esgotar toda a série dos crimes possíveis, sem o que ela é condenada, após a morte, a ser reincorporada várias vezes se for necessário, até que tenha plenamente preenchido essa condição indispensável. É assim que Carpócrates entendia o donec exsolvas novissimum quadrantem do Evangelho. S. Irineu, Cont. her., I, 25, n. 4, P. G., t. VII, col. 682-683; Tertuliano, De anima, 35, P. L., t. II, col. 710; Philosophumena, p. 387.
Como se vê, a doutrina de Carpócrates toma de Platão a teoria da preexistência das almas e da reminiscência; ela desfigura completamente a economia do dogma cristão da redenção; ela nega a divindade de Jesus e desemboca em um antinomismo que tem por ponto de partida um ódio feroz por tudo o que toca a lei de Moisés. Além disso, ela enxerta aí a metempsicose com um sentido particular; pois não é a de Pitágoras, que condenava a alma, em punição por suas faltas, a passar pelo corpo de diversos animais, segundo a natureza ou o grau de sua culpabilidade; é antes a de Simão, o Mago, com essa diferença, porém, de que Simão pretendia libertar a alma decaída de Helena, enquanto Carpócrates não admitia decadência no sentido ordinário da palavra, ou melhor, fazia dela a condição absoluta da salvação. Questiona-se como, para legitimar tal teoria da metempsicose, se podia invocar o exemplo de Elias revivendo em São João Batista. Tertuliano, De anima, 35, P. L., t. II, col. 711.
Seja como for, em um sistema semelhante, a alma devia um dia ou outro esgotar a série de suas provas, isto é, terminar de percorrer o ciclo dos crimes, e finalmente retornar ao seu centro superior.
Em semelhantes condições, não podia haver nem condenados nem inferno; a alma acabaria por subir ao céu, abandonando o corpo à terra, não devendo o corpo ressuscitar. Pseudo-Tertuliano, Prescr., 48, P. L., t. XLII, col. 67.
4° Moral. — As consequências de uma tal doutrina adivinham-se facilmente. As obras não servem para nada, observa Santo Irineu; tudo é indiferente; não há nem bem nem mal. Cont. her., I, 25, n. 5, P. G., t. VII, col. 683. Sendo toda lei vista como obra dos anjos demiurgos, e constituindo essencialmente a salvação o ódio a toda lei, é a imoralidade erigida em sistema, instinto desenfreado, o vício consagrado, a prática do mal proclamada um ato de virtude, a ordem social derrubada ao mesmo tempo que a ordem moral. A alma, por um desprezo resoluto por todo legislador e toda legislação, liberta-se de uma tirania, alforria-se de toda religião positiva e torna-se digna de Deus, cujo objetivo era unicamente quebrar o poder despótico dos anjos. Para que serve, então, o casamento e a continência! Explica-se assim que se tenha feito da comunidade das mulheres um direito e uma regra entre os partidários de Carpócrates. Clemente de Alexandria, Strom., III, 2, P. G., t. VIII, col. 1112. Em todo caso, é num sentido de uma impudência revoltante que Carpócrates e seu filho interpretavam o πᾶν ἀποδοῦναι esse δανεῖζον. Luc., VI, 30. Clemente, Strom., III, 6, P. G., t. VIII, col. 1157.
II. Discípulos. — Exceto Epifânio, não se conhece outro personagem marcante entre os partidários de Carpócrates. Estes, aliás, mal deviam recrutar-se senão nas camadas mais baixas da sociedade, sobretudo no Egito e em Cefalênia. Roma, no entanto, recebeu, sob o pontificado de Aniceto, a visita de uma carpocraciana de nome Marcelina, que pregou as abominações da seita e fez numerosas vítimas. S. Irineu, Cont. her., I, 25, n. 6, P. G., t. VII, col. 685.
As fontes não dizem se os carpocracianos praticavam o esoterismo e se cercavam de mistério; mas é muito provável que devessem imitar seus contemporâneos e aguçar a curiosidade pelo atrativo do desconhecido. Sabe-se, ao menos, que faziam uso de procedimentos mágicos, de encantamentos, de filtros, de encantos e de invocações aos espíritos que proporcionam os sonhos. S. Irineu, Cont. her., I, 25, n. 3, P. G., t. VII, col. 682; Philosophumena, loc. cit., p. 386, 387; Eusébio, H. E., IV, 7, P. G., t. XX, col. 317.
Os iniciados reconheciam-se por um sinal distintivo que traziam na orelha direita. Reuniam-se diante de pinturas ou esculturas representando aqueles que chamavam de ancestrais da gnose, os verdadeiros emancipados, Pitágoras, Platão, Aristóteles; pretendiam até possuir um retrato de Jesus feito por Pilatos. S. Irineu, Cont. her., I, 25, n. 6, P. G., t. VII, col. 685; Philosophumena, loc. cit., p. 388. No momento dado, durante as reuniões noturnas, apagavam as tochas e entregavam-se à devassidão, o que chamavam sacrilegamente de sua ágape. Clemente de Alexandria, Strom., III, 2, P. G., t. VIII, col. 1112.
O inimigo da salvação, diz Santo Irineu, inventou esta doutrina para difamar o cristianismo, excitar contra ele a indignação dos pagãos e deter o progresso do Evangelho. É fato que se reprovaram aos cristãos os ignóbeis excessos, Eusébio, H. E., IV, 7, P. G., t. XX, col. 320, demasiado realmente praticados pelos carpocracianos, os adamitas, os ofitas e outras seitas tão miseráveis. Os apologistas tiveram de mostrar a inverossimilhança de tais acusações, sem impedir que o rumor público veiculasse essas calúnias, sem impedir mesmo que certos espíritos cultos se tornassem o seu eco demasiado complacente.
A seita carpocraciana não parece ter sobrevivido por muito tempo aos seus fundadores; desde o século II, não se fala mais dela. E quando, no início do IV, Eusébio fala dela, é a título de lembrança histórica e como de uma coisa passada. O seu sucesso efêmero explica-se muito menos pela originalidade do sistema do que pelo atrativo de suas consequências imorais. S. Irineu, Cont. her., I, 25, P. G., t. VII, col. 680 sq.; Philosophumena, VII, IV, 32, édit. Cruice, Paris, 1860, p. 385 sq. ; Pseudo-Tertuliano, her., 48, P. L., t. XLII, col. 66-67; Tertuliano, De anima, 35, P. L., t. II, col. 710, 714; Clemente de Alexandria, Strom., III, 2, P. G., t. VIII, col. 1104 sq. ; Eusébio, H. E., IV, 7, P. G., t. XX, col. 317 sq.; S. Epifânio, Her., XXVII, P. G., t. XLI, col. 364 sq. ; Filástrio, Her., 35, P. L., t. XII, col. 1151; S. Agostinho, Her., 7; Praedestinatus, I, 7, P. L., t. LIII, col. 590; Teodoreto, Heret. fab., I, 5, P. G., t. LXXXIII, col. 349.
D. Massuet, Dissertationes, diss. I, dans P. G., t. VII; Tillemont, Mémoires, Paris, 1701-1709, t. II, p. 253 sq.; Mosheim, De rebus christianis ante Constant., Helmstadt, 1753, p. 363 sq.; Fuldner, De carpocratianis, Leipzig, 1824; Lipsius, Zur Quellenkritik der Epiphanios, Vienne, 1865; Smith et Wace, Dictionary of Christian Biography, Londres, 1877-1887; Kirchenlexikon, 2e édit., Fribourg-en-Brisgau, 1880; Duchesne, Les origines philosophiques, Paris, 1885; Amélineau, Essai sur le gnosticisme, Paris, 1887, p. 153 sq.; U. Chevalier, Répertoire des sources historiques. Bio-bibliographie, col. 396.
Autor original: G. Bareille
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