CAPUCIÉS (FIM DO SÉCULO XII)

CAPUCIÉS (FIM DO SÉCULO XII)

CAPUCIÉS (fim do século XII), membros de uma espécie de confraria, cujo objetivo era a manutenção da paz. Um grande número de brabançons, cotereaux (ver este termo), mercenários (routiers), devastava a França. Chamados a título de mercenários, no curso das guerras contínuas entre os reis da França e os Plantagenetas, depois entre os príncipes da casa da Inglaterra, esses aventureiros tinham, ainda mais do que seu soldo, o saque como recurso. Eles molestavam particularmente os clérigos e os monges. O mal localizou-se aproximadamente nos países aquém do Loire. Os capuciés combateram-no.

Essa confraria teria tido por origem uma aparição da Virgem a um pobre carpinteiro de Puy, chamado Durand, em 1182. A santa Virgem havia-lhe dado um papel, onde ela estava representada sentada em um trono e segurando em suas mãos a imagem de Jesus menino; em torno do papel havia esta inscrição: « Agneau de Dieu, qui ôtez les péchés du monde, donnez-nous la paix. » Ela lhe havia prescrito ir ver o bispo de Puy, e pedir-lhe para criar uma associação destinada a procurar a paz para a Igreja e tendo por insígnias uma imagem, a qual reproduziria esse papel, e um capuz branco onde seria fixada a imagem. O relato dessa aparição, qualquer que seja o juízo sobre a sua veracidade (o Chronic. Laudunense, no Recueil des historiens des Gaules et de la France, t. xvii, p. 705, vê nela o resultado de uma fraude), tornou-se rapidamente popular.

A confraria foi instituída; a famosa igreja de Notre-Dame-du-Puy foi seu centro. O capuz que distinguia seus membros valeu-lhes o nome de capuciés. Aqueles que eram « da paz de santa Maria » não deviam fazer falsos juramentos, blasfemar, jogar dados, entrar nas tavernas, usar roupas de luxo. Entre eles, estavam unidos pelo laço de uma solidariedade muito forte. Eles se comprometiam a guardar a paz e a defendê-la contra seus inimigos. A criação dessa confraria constitui, portanto, um episódio da história da paz e trégua de Deus. Cf. E. Sémichon, La paix et la trêve de Dieu, Paris, 1857, p. 194.

Os começos da liga dos capuciés foram felizes. Por um tempo, eles pacificaram a província. Esse movimento estendeu-se na Auvergne inteira, e ganhou o Berry, a Aquitânia, a Gasconha, o Auxerrois, o Orléanais. Uma vitória, conquistada sobre os mercenários pelo exército real (1183) e cujo mérito coube aos capuciés em boa parte, acabou por lhes dar importância. A sorte deles foi breve. Um ou dois anos após seu triunfo, quiseram impor suas vontades aos senhores com uma insolência tal que estes últimos, chamando os mercenários em seu auxílio, esmagaram-nos.

No intervalo, os capuciés haviam se libertado da tutela e até mesmo da doutrina da Igreja, tanto quanto se pode julgar pela Historia episcoporum Antissiodorensium, no Recueil des historiens des Gaules et de la France, t. xvi, p. 729. Lemos ali que os capuciés não tinham medo nem respeito pelas potências superiores, mas « todos se esforçavam para conquistar essa liberdade que diziam ter de seus primeiros pais desde o dia da criação, ignorando que a servidão foi o castigo do pecado... Não havia mais distinção entre os pequenos e os grandes, mas sim uma confusão fatal, acarretando a ruína das instituições que agora, graças a Deus, são regidas pela sabedoria e o ministério dos grandes. Por aí se encontrava destruída essa disciplina política ou católica que é feita para nos dispensar a paz e a salvação. Por aí era aumentado o número dos hereges que aproveitam a derrota da Igreja para estabelecer o reino da carne ». Trad. H. Géraud, na Bibliothèque de l’école des chartes, Paris, 1842, t. II, p. 145.

Este testemunho é interessante; seria ainda mais se fosse menos vago. O autor parece ser o eco dos senhores, dos quais o Chronic. Laudunense nos diz, loc. cit., p. 706, ao descrever os inícios dos capuciés: tremebant principes in circuitu, nihil preter justum hominibus suis inferre audentes, nec ab eis exactiones aliquas vel precarias preter redditus debitos exagere presumebant. Pode-se, pois, perguntar se realmente os capuciés tinham se desviado de forma grave, e se se deve acolher a acusação de heterodoxia dirigida contra eles.

I. Fontes. — Geoffroy du Vigeois, Chronic. Lemovicense, no Recueil des historiens des Gaules et de la France, Paris, 1822, t. XVIII, p. 219; Chronic. Laudunense, ibid., p. 705-706 ; Historia episcoporum Antissiodorensium, ibid., p. 729-730 ; Rigord, De gestis Philippi Augusti, op. cit., t. XIX, p. 12; Chroniques de Saint-Denis, ibid., p. 355; Gervais de Canterbury (Dorobernensis), Chronic. de rebus Angliæ, ibid., p. 663; C. Duplessis d’Argentré, Collectio judiciorum de novis erroribus, Paris, 1728, t. I, p. 123-125; Guyot de Provins, em Méon, Fabliaux et contes des poètes françois, Paris, 1808, t. I, p. 307.

II. TRABALHOS. — H. Géraud, Les routiers au XIIe siècle, na Bibliothèque de l’école des chartes, Paris, 1842, t. II, p. 125-147; H. Haupt, na Realencyklopädie, 3ª ed., Leipzig, 1897, t. III, p. 722-723; A. Luchaire, Un essai de révolution sociale sous Philippe-Auguste, na Grande revue, Paris, 1º de maio de 1900; P. Alphandéry, Les idées morales chez les hétérodoxes latins au début du XIIIe siècle, Paris, 1903, p. 13-22.

Autor original: F. Vernet

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