CANISIUS (O B. PEDRO)

CANISIUS (O B. PEDRO)

CANISIUS (O B. Pedro), primeiro jesuíta alemão, teólogo distinto e insigne promotor da reforma eclesiástica no século XVI. — I. Nota biográfica. II. Escritos. III. Característica.

I. NOTA BIOGRÁFICA. — A vida do santo que foi Canisius comportaria desenvolvimentos que não cabem no quadro do presente artigo; tratar-se-á apenas do teólogo e do apóstolo, na medida em que os dois papéis se compenetram.

1° Preparação do apóstolo, 1521-1548. — Pedro Canisius nasceu em Nimega, na Guéldria, em 8 de maio de 1521, o mesmo ano em que Lutero rompeu definitivamente com Roma, e em que o futuro fundador da Companhia de Jesus, Inácio de Loyola, ferido sob as muralhas de Pamplona, disse adeus ao mundo. O pai do Bem-aventurado tinha sido várias vezes burgomestre de sua cidade natal e honrado por importantes missões na corte de diversos príncipes. Sobre a grafia múltipla e a origem incerta do sobrenome dos Canis, ver O. Braunsberger, Beati Petri Canisii epistulae et acta, t. I, p. 70.

Uma recordação de infância, relatada pelo Bem-aventurado no I das suas Confissões, exerceu sempre sobre a sua alma uma viva impressão: sua mãe Egidie van Houweningen, prestes a morrer, conjurou os seus a permanecerem inviolavelmente fiéis à fé de seus pais. Após ter recebido, primeiro em Bolduque, depois em Arnhem, uma educação literária e religiosa cuidada, Pedro, com catorze anos, foi completar os seus estudos na universidade de Colônia. Seus estudos de filosofia tiveram como coroamento o grau de mestre em artes, conquistado em 25 de maio de 1540. Ordenado diácono em 20 de dezembro de 1544, tornou-se, em 26 de junho do ano seguinte, bacharel em teologia, e começou desde logo a dar lições de Escritura sagrada na universidade; ao mesmo tempo, exercitava-se na pregação e preparava edições ou traduções de obras teológicas. Em junho de 1546, recebeu a consagração sacerdotal.

Nesta vida de Canisius em Colônia, três circunstâncias merecem ser destacadas pela influência que tiveram na sua formação moral ou na continuação da sua vida. Primeiro, a direção devotada e vigilante de um santo sacerdote, Nicolau van Esche, autor de exercícios de teologia mística, juntamente com relações íntimas com os cartuxos, nomeadamente o prior João Landsperge e o futuro hagiógrafo Lourenço Surius. Nesse meio, Canisius não entrou apenas numa via de alta perfeição, atestada pelo voto de castidade perpétua que fez em 25 de fevereiro de 1540; dedicou-se ainda, segundo a expressão de Sacchini, à teologia mística. Daí a sua primeira obra, uma tradução alemã das obras de Tauler.

Uma segunda circunstância foi mais decisiva: no início de 1548, Pedro foi encontrar em Mogúncia o B. Pedro Lefévre, um dos primeiros companheiros de Santo Inácio, realizou sob a sua direção os Exercícios espirituais, e no dia 8 de maio tornou-se o primeiro recruta da Companhia de Jesus na Alemanha. Evento que um autor protestante considera com razão "como muito importante para toda a Alemanha e o seu futuro religioso". P. Drews, Petrus Canisius, der erste deutsche Jesuit, in-8°, Halle, 1892, p. 10.

A terceira circunstância é de outra ordem; fez com que o Bem-aventurado aprendesse o que seria mais tarde um dos seus mais delicados ministérios. Os católicos de Colônia estavam em luta aberta com o seu arcebispo, Hermann von Wied, circunvenido pelos inovadores. Canisius foi encarregado em três ocasiões diferentes de pleitear a causa do catolicismo: uma primeira vez, em agosto de 1545, junto ao imperador Carlos V de passagem por Colônia; uma segunda, três meses mais tarde, junto ao mesmo príncipe nos Países Baixos; uma terceira, em dezembro de 1546 e janeiro de 1547, junto ao bispo de Liége, Jorge da Áustria, tio do imperador, e depois junto ao próprio monarca, a quem viu em Ulm. Epist., t. I, p. 162, 164, 234. O resultado final respondeu aos desejos dos católicos: Carlos V confirmou a deposição do arcebispo apóstata, e a sua substituição por um digno prelado, Adolfo de Schauenbourg.

Canisius não retornou a Colônia. Um personagem, cuja estima e proteção seriam em breve o seu mais firme apoio, Otão Truchsess, cardeal de Augsburgo, o enviou ao concílio de Trento. Chegou, por volta de meados de abril, a Bolonha, onde o concílio acabara de ser transferido, e tomou parte nos trabalhos dos teólogos. O seu papel foi secundário; ajudou os Padres Laynez, Salmeron e Le Jay na preparação de decretos dogmáticos, e nas congregações particulares de 23 de abril e 6 de maio, emitiu dois votos sobre artigos relativos aos sacramentos da penitência e do matrimônio. Epist., t. I, p. 684; S. Merkle, Concilii Tridentini diariorum pars prima, Fribourg-en-Brisgau, 1901, p. 632, 644, 646, 649.

De resto, a assembleia de Bolonha foi logo dissolvida, e Santo Inácio fez vir o Bem-aventurado a Roma; queria pôr ele mesmo a última mão na formação de um sujeito tão precioso para o futuro da sua ordem na Alemanha. Cinco meses depois, em março de 1548, enviou-o para ensinar retórica em Messina; mas logo no ano seguinte, chamou-o de volta, recebeu em Roma a sua profissão solene, em 4 de setembro de 1549, e satisfez finalmente os seus mais caros desejos ao lhe atribuir definitivamente a Alemanha como campo de apostolado; devia dirigir-se à universidade de Ingolstadt. Canisius partiu, encorajado pela bênção do vigário de Jesus Cristo e trazendo em sua alma, como atestam as suas notas íntimas, a firme convicção de uma grande obra a realizar. Por desejo de Santo Inácio, e para poder apresentar-se sem desvantagem perante os campeões humanistas da Reforma, submeteu-se em Bolonha, com os seus dois companheiros, Salmeron e Le Jay, à prova do doutorado em teologia. Epist., t. I, p. 53, 685.

2° Apostolado de Canisius na Alemanha, 1549-1580. — Estes trinta anos marcam o ponto culminante na vida do Bem-aventurado; compreendem todo o tempo que passou na Alemanha desde a sua chegada a Ingolstadt, em novembro de 1549, até à sua partida para a Suíça, no final de 1580. Anos plenos, em que Canisius aparece ora, ou até ao mesmo tempo, como educador da juventude, pregador e missionário, organizador e sustento da sua ordem, conselheiro e diretor de príncipes, campeão do catolicismo nas dietas do Império, núncio dos papas, publicista.

Mas nesta vida tão variada, uma ideia domina, que a tornou alma e unidade: opor à pretensa reforma dos inovadores um movimento de “verdadeira e salutar reforma religiosa, para consolidar a fé católica nos territórios que permaneceram fiéis a Roma, e fazer destas regiões um baluarte contra o protestantismo que ameaçava invadir a Alemanha inteira. Por isso, protestantes e católicos frequentemente caracterizaram a obra de Canisius dando-lhe o nome de Contrarreforma. A obra era urgente. Alguns anos mais tarde, em uma carta ao cardeal Truchsess, Canisius emitia este pensamento, ao falar da Áustria e da Baviera: se estes dois países mais importantes, senão os únicos onde o catolicismo ainda subsiste, caírem sob o poder dos heréticos, será o fim da Igreja da Alemanha. Epist., t. 1, p. 596.

E quantos motivos de temor ele experimentava ao ver o terrível contragolpe que a pregação do novo Evangelho havia tido nestes países! Para se ter um quadro vívido da anarquia moral e religiosa que reinava nos centros onde se exerceu a ação do Bem-aventurado, basta percorrer as numerosas cartas que, de Ingolstadt, de Viena, de Praga, de Cracóvia, de Augsburgo e outros lugares, ele escreveu aos generais de sua ordem ou a esses grandes cardeais, Othon Truchsess e Stanislas Hosius, dos quais foi o zeloso colaborador e o íntimo confidente.

Nas universidades e nas escolas, uma juventude licenciosa e sem gosto pelo estudo; mestres impregnados frequentemente de luteranismo ou deixando livre curso à difusão dos livros heréticos. No povo, a negligência das práticas mais vitais do catolicismo, o desprezo pela autoridade dos pastores e da Igreja e, como consequência, uma ignorância profunda e tendências anticatólicas que se traduziam por pedidos imperiosos, como o da comunhão sob as duas espécies.

No clero, não havia mais disciplina nem respeito pela lei do celibato eclesiástico, a ignorância atingindo ali também proporções incríveis, a escassez de vocações fazendo com que muitas paróquias permanecessem sem pastores ou fossem servidas por padres heréticos. Entre os soberanos católicos, ameaçados por seus inimigos protestantes e pouco apoiados pela nobreza de seus próprios Estados, muita timidez e indecisão; daí uma política de esquiva, toda feita de compromissos e concessões, que acabava finalmente em vantagem para os inovadores. Mesma atitude, ou quase, nos príncipes eclesiásticos, muito desigualmente zelosos, mas sempre impedidos em seus bons desejos pelo elemento heterodoxo de suas dioceses e pela resistência que encontravam em seu clero, sobretudo em seus capítulos. Ver o resumo das cartas do Bem-aventurado nos prefácios das Epistulæ, t. 1, p. XXXv; t. II, p. XX; t. III, p. xix. Cf. Janssens, L’Allemagne et la Réforme, trad. E. Paris, t. IV, p. 401 sq:

Sem se assustar com estas dificuldades múltiplas, mas forte da missão que havia recebido, Canisius pôs-se ao trabalho com uma confiança sem limites, e ele prosseguiu a empresa com uma energia de ferro; ele a prosseguiu sobretudo com uma inteligência perfeita das circunstâncias onde viveu e dos meios a tomar. É isso que merece fixar a atenção, muito mais do que os detalhes de sua laboriosa carreira.

3° Ação sobre a juventude; reforma das universidades, fundação de colégios e de seminários. — Entre os meios próprios para consolidar ou despertar a fé dos católicos, Canisius colocava em primeiro lugar a boa educação da juventude, tantum facit proba et catholica educatio. Por aí, ele entendia a dupla formação do coração e do espírito, a virtude e a ciência, vitæ sinceritas cum sancta eruditione conjuncta. Epist., t. 1, p. 326; t. II, p. 139.

Em suas cartas ao Pe. Lefevre, ele se queixa da insuficiência dos estudos na universidade de Colônia. As circunstâncias serviam-no a contento, ao lhe dar Ingolstadt como primeiro teatro de seu apostolado; pois, ao pedir jesuítas a santo Inácio, o duque da Baviera, Guilherme IV, havia tido principalmente em vista a reforma da instrução pública em seus Estados. Enquanto vivera João Eck, o grande antagonista de Lutero, a universidade de Ingolstadt permanecera o baluarte do catolicismo e da antiga formação na Alemanha; após sua morte, ocorrida em 1543, a decadência fora rápida, para os estudos como para a disciplina. A campanha feita pelos inovadores contra a escolástica havia tido como consequência o enfraquecimento dos estudos teológicos, ainda mesmo quando eram mais necessários que nunca: collapsa nimirum theologiæ studia, quæ nunc florere potissimum oportuerat. E basta ler uma carta que o Bem-aventurado endereçou, em 30 de abril de 1551, a um professor de Colônia, para ver que, nestes estudos, ele dava à escolástica o seu devido lugar: non omissa etiam illa theologiæ parte, quam scholasticam appellamus, et hoc tempore necessariam ducimus, ne alioquin hæreticorum sophismata, quæ passim occurrunt, non satis a nobis discerni repellique possint. Epist., t. 1, p. 336, 366.

Canisius passou pouco mais de três anos em Ingolstadt, de 13 de novembro de 1549 ao fim de fevereiro de 1552. Lá ensinou teologia, pregou na cidade e na universidade, foi reitor de 18 de outubro a 24 de abril de 1551, e exerceu durante vários meses as funções de pro-chanceler. Toda a sua influência tendeu a elevar os estudos, ao mesmo tempo que a disciplina e a piedade, a fim de preparar para a Igreja da Alemanha uma geração de padres dignos desse nome. Ver os Monumenta Ingolstadiensia Canisii, em Epist., t. 1, p. 686 sq. Quando ele partiu, a obra da reforma estava apenas começada, mas prosseguiu sob sua direção e com sua cooperação. Os conselhos que ele deu, em particular uma nota que redigiu no fim de 1555, serviram na redação dos novos estatutos da universidade, que se fez em 1562. Dois artigos denunciam sobretudo sua influência: reintroduzir na escola a dialética de Aristóteles; não admitir professores públicos que não pertençam à antiga crença. Ibid., t. 1, p. 582; t. III, p. 682; cf. C. Prantl, Geschichte der Ludwig-Maximilians-Universitat in Ingolstadt, Landshut, München, 2 in-8°, Munique, 1872, t. II, p. 195 sq.; Pachtler, Ratio studiorum et institutiones scholastice Societatis Jesu per Germaniam olim vigentes, Berlim, 1887, 1890, t. 1, p. 355; t. II, p. 480.

Em Viena, onde chegou em 9 de março de 1552, Canisius levou o mesmo espírito. Vinculado à faculdade de teologia como professor, depois reitor em outubro de 1558, ele foi na universidade o adversário declarado da heresia e de seus defensores. Epist., t. 1, p. 732 sq.

Os documentos que nos restam não permitem precisar que parte ele teve na reforma operada por Fernando I, então rei dos Romanos; mas é certo que ele não foi alheio às deliberações em que o plano de reforma se elaborou, e que, entre os novos estatutos publicados em 1º de janeiro de 1554, alguns testemunham sua influência pessoal; tais os artigos 17 e 18, que concernem ao bom comportamento das casas de estudantes e ao controle dos novos livros. Ibid., p. 740; R. Kink, Geschichte der kaiserlichen Universität zu Wien, in-8°, Viena, 1854, t. II, p. 62.

A universidade de Viena conservou o nome do Bem-aventurado entre aqueles das personalidades que ela se honra mais particularmente de contar no número de suas ilustrações. Em 7 de junho de 1556, Canísio foi nomeado primeiro provincial da Companhia de Jesus para a Alemanha, Áustria e Boêmia. Este encargo estendia o campo de sua influência; doravante, ele poderia prosseguir mais ativa e eficazmente a reforma da educação, criando colégios de sua ordem nos países submetidos à sua jurisdição. Não que ele tenha feito desta obra, como se tem dito, o objetivo de sua vida; não era senão um meio, mas, aos seus olhos, o mais poderoso meio de ação para seu verdadeiro objetivo, o reerguimento ou a conservação da fé católica na Alemanha: nullum enim subsidium magis idoneum novimus, havia ele escrito de Ingolstadt a Santo Inácio, em 2 de novembro de 1550. Epist., t. 1, p. 340.

Seus esforços, favorecidos pelo crédito de que gozava junto aos príncipes seculares e eclesiásticos, não foram infrutíferos. Sob sua administração, de 1556 a 1569, colégios importantes, quase todos destinados a um futuro brilhante, foram fundados em Ingolstadt, em Praga, em Munique, em Innsbruck, em Tréveris, em Mogúncia, em Dillingen, em Espira e em Würzburg. Uma dezena de outros, estabelecidos na Hungria, ou nas províncias da Áustria e do Reno já separadas do tronco primitivo, ou na própria província da Alta Alemanha sob o governo de seu sucessor, devem, na realidade, ao Bem-aventurado a sua primeira origem.

Ao fundar esses centros de educação católica, Canísio não tinha em vista apenas a formação das classes elevadas; ele pensava também no recrutamento e na reforma do clero. Por isso, dedicava-se com uma constante solicitude a fornecer aos filhos pobres os meios de estudar. Onde quer que pudesse, obtinha para eles bolsas nas universidades, ou fazia anexar aos colégios de sua ordem casas para recebê-los. Assim foi em Viena, em Ingolstadt, em Munique, em Innsbruck, em Dillingen e em Würzburg. Em Praga, em 1559, fez imprimir um escrito para levar os boêmios a fundar um estabelecimento desse gênero, e, dois anos mais tarde, pleiteou pessoalmente a mesma causa junto ao arquiduque Fernando II. Na dieta de Augsburgo, fez-se pedinte e pôde tomar a seu cargo até duzentos estudantes pobres, que reuniu sob um mesmo teto.

Quando o Concílio de Trento recomendou a ereção de seminários eclesiásticos, Canísio foi, junto aos bispos, o apóstolo desta grande obra, que estimava necessária para a manutenção e o progresso da religião na Alemanha. O pouco zelo que encontrou em um certo número entristeceu-o muito. "Sem bons seminários, os bispos jamais conseguirão remediar o mal atual", escrevia ele ainda em 1585 em um memorial endereçado ao Pe. Aquaviva. Foi no mesmo espírito que Canísio sustentou com todo o seu poder, pelas esmolas que recolheu e mais ainda pelos sujeitos de elite que lhe enviou, o Colégio Germânico, fundado em Roma por Santo Inácio em 1552. Fez mais; foram seus conselhos, somados aos do cardeal Truchsess, que determinaram Gregório XIII a assegurar o futuro deste colégio, dotando-o de rendas fixas e suficientes para uma centena de alunos. Cardinal Steinhuber, Geschichte des Collegium Germanicum Hungaricum in Rom, in-8°, Friburgo na Brisgóvia, 1895, t. 1, p. 87 sq.

O mesmo Papa realizou ideias caras ao Bem-aventurado quando fez abrir seminários pontifícios em Dillingen, em Fulda, em Praga, em Olomouc, em Braunsberg, em Vilnius e até nas novas cristandades da Índia e do Japão, enquanto, por seus cuidados, os colégios dos ingleses, dos gregos, dos maronitas, erguiam-se na própria Roma e rivalizavam com o Colégio Germânico. Em 1879, os católicos alemães e Roma prestaram homenagem a este grande apóstolo da educação católica: aqueles, fundando uma Sociedade do Bem-aventurado Canísio, Canisius-Verein, destinada a promover a formação da juventude alemã; Roma, aprovando esta fundação e dando-lhe oficialmente o Bem-aventurado por protetor. Ver J. Knabenbauer, S. J., Der selige Canisius und die Schulfrage, em Stimmen aus Maria-Laach, 1879, t. xv, p. 352 sq.

4° Ação sobre o povo; apostolado da palavra. — À educação da juventude, Canísio juntou desde o início, em Ingolstadt como em Viena, um ministério que lhe permitia atingir não apenas uma classe de indivíduos, mas a massa própria do povo. Onde quer que os deveres de seu estado e os grandes interesses da religião o fizessem residir ou simplesmente passar, na cidade ou no campo, nos meios mais modestos como na corte dos príncipes ou nas dietas do Império, ele exerceu o ministério da pregação; exerceu-o durante quase meio século, com um zelo incansável e sem jamais buscar nele outra coisa que não um meio de instrução e de reforma religiosa.

Calmo, claro e lógico na exposição da doutrina, animado de uma convicção íntima e penetrante, sabendo fazer da Escritura e da tradição um feliz e contínuo uso; instruído dos erros protestantes, mas moderado na refutação e atento a captar as ocasiões, a de um jubileu por exemplo, para dar e explicar o verdadeiro pensamento católico, Epist., t. III, préf., p. XXXII sq., ele teve sobre seus ouvintes um poder que era ainda realçado pela veneração inspirada a todos por seu caráter e sua santidade. Sua palavra fez-se ouvir e deu fruto na maior parte das grandes catedrais do Império: Viena, Praga, Ratisbona, Worms, Colônia, Estrasburgo, Osnabrück, Würzburg e, sobretudo, Augsburgo, onde foi, durante vários anos, pregador ordinário. Esta cidade, a primeira do Império nesta época, estava em tal estado de decadência religiosa que, no ano mesmo em que o Bem-aventurado começou a pregar nela, contaram-se, no máximo, oitocentas comunhões na Páscoa e vinte pessoas presentes à procissão da Festa de Deus.

O pregador não teve, no início, senão uns cinquenta ouvintes; mas logo o número cresceu, tanto dos ouvintes quanto dos praticantes; conversões brilhantes produziram-se, em particular na nobre e poderosa família dos Fugger. O renascimento católico provocado pelo zelo de Canísio foi tal que, no século seguinte, um bispo de Augsburgo consignava esta nota no relatório de sua visita pastoral de 1629: "Augsburgo deve reconhecê-lo como seu apóstolo e confessar-se grandemente devedora para com ele." Der selige Canisius. Eine kurze Lebensgeschichte, mit besonderer Berücksichtigung seines Wirkens in Augsburg, in-16, Augsburgo, 1865, p. 53.

À pregação de Canísio se liga seu ensino catequético, digno de uma menção especial pela parte tão grande que teve em sua ação sobre os católicos. A ignorância religiosa que ele via reinar entre eles excitava ao mesmo tempo sua piedade e seu zelo; daí esse cuidado constante de ensinar a doutrina cristã ao povo, especialmente às crianças. Representaram-no com o catecismo na mão, rodeado de crianças. Essa foi a realidade onde quer que ele permanecesse, onde quer que ele conduzisse missões, na Áustria, na Baviera, na Hesse, na Alsácia, na Suábia, no Tirol, mais tarde na Suíça. Desse zelo pela instrução religiosa dos católicos nasceu esta Summa doctrinae christianae, que ele compôs em Viena, de 1552 a 1554, a mais célebre sem contestação e a mais popular de suas obras, aquela que mais pôs em alvoroço os teólogos protestantes do século XVI, e que perpetuou mais a influência do Bem-aventurado.

5° Ação sobre os príncipes católicos; dietas, legações. — Uma das forças de Canísio foi o apoio que lhe prestaram os príncipes do Império, sobretudo três soberanos que podiam fazer muito para a manutenção da fé católica, Fernando I da Áustria e os duques da Baviera, Alberto V e Guilherme V. A posição desses príncipes era difícil; o Bem-aventurado dava-se conta disso, como se vê por uma carta de 17 de janeiro de 1556, onde ele enumera judiciosamente todos os seus motivos de preocupação. Epist., t. I, p. 596. Não permanecia menos convencido de que uma política tímida e sinuosa, como a do Interim, era contrária aos verdadeiros interesses do catolicismo. Todos os seus esforços tenderam a encorajar esses soberanos, a excitar seu zelo, a fazê-los realizar em seus Estados o plano de reforma que ele havia exposto, em 14 de março de 1555, a um conselheiro do duque Alberto: Per nostros catholicos principes exturbentur pestes, tollantur errorum magistri, dissensionum studia sopiantur, agnoscatur Christi vicarius et Ecclesiae pastor, ac tamdiu desiderata nobis pax redeat Ecclesiarum. Ibid., p. 518.

Na Baviera, os resultados corresponderam aos votos de Canísio. Durante alguns anos, o duque Alberto seguiu uma política de concessões; mas, por volta de 1563, ele mudou de atitude e entrou resolutamente em uma linha de conduta que foi sempre depois cada vez mais conforme ao programa do Bem-aventurado. Epist., t. II, préf., p. xx. A Baviera tornou-se o centro da contrarreforma, e Janssens, op. cit., t. IV, p. 457, pôde dizer de Alberto V e dos dois príncipes que lhe sucederam, que foram «os patronos, os guias temporais da Alemanha católica».

Na Áustria, a influência de Canísio, sem ser tão decisiva, foi considerável. Seu zelo apostólico, suas sólidas pregações na corte de Viena, seu ardor em combater a heresia, seu desinteresse ganharam-lhe muito rapidamente a estima e a confiança do rei dos Romanos, Fernando I, de quem se tornou o conselheiro ouvido nos assuntos mais importantes. É quase se, fiel ao espírito de sua vocação, ele pôde conseguir subtrair-se à dignidade episcopal. Administrou ele realmente em 1554, como se havia crido até aqui, a diocese de Viena, este é um ponto posto em questão pelo Dr. N. Paulus em Zeitschrift für katholische Theologie, Inspruck, 1898, t. XXII, p. 742 sq. O Bem-aventurado aproveitou-se de sua influência para sugerir ao rei dos Romanos diversas medidas em favor do catolicismo; ele não temeu entrar em luta aberta com Sébastien Phauser, pregador luterano de Maximiliano, filho mais velho de Fernando, nem mesmo atrair a atenção deste último sobre as simpatias que seu futuro herdeiro parecia ter pelas doutrinas novas. Epist., t. 1, p. 194; cf. Hopfen, Kaiser Maximilian II und der Kompromisskatholizismus, in-8°, Munique, 1895, p. 28.

Brevemente as circunstâncias deram à ação do Bem-aventurado um alcance mais considerável. Fernando e o cardeal de Augsburgo quiseram que ele pregasse em Ratisbona durante a dieta de 1556-1557, onde deveria ser questão de um entendimento entre os diversos partidos religiosos. Os protestantes pediram um colóquio. Fernando, desejoso de obter subsídios para combater os turcos na Hungria, e seguindo de resto nisso sua política de conciliação, submeteu o pedido a uma comissão composta por dois bispos e cinco teólogos, cujo primeiro foi Canísio. Convencido pessoalmente de que esses tipos de discussões não chegariam a nada e que um concílio geral podia apenas levar remédio à situação, o Bem-aventurado pronunciou-se resolutamente contra o pedido dos protestantes e justificou por escrito seu sentimento. Epist., t. III, p. 40.

Tendo sido, não obstante, resolvido o colóquio, os membros católicos da dieta nomearam Canísio entre os seis principais teólogos que deviam sustentar sua causa em Worms, contra um número igual de luteranos. Os príncipes protestantes designaram Melanchthon, Brentius e quatro outros corifeus do partido, todos firmemente decididos a não ceder nada de suas pretensões doutrinais e cantando vitória antes mesmo de terem começado a luta. Ibid., p. 63, 83, 127. Canísio não se inquietava quase nada com essas bravatas, mas bem antes com a indolência e a pusilanimidade dos católicos, hostem nondum visum metuunt. Ele fez muito rezar, preparou-se cuidadosamente para o combate, reergueu a coragem de seus companheiros e preocupou-se sobretudo em obter o entendimento na ação. O colóquio abriu-se em Worms em 11 de setembro de 1557, sob a presidência de Jules Pflug, bispo de Naumbourg. A discussão deveria engajar-se, de acordo com o recez de Ratisbona, sobre a base da Confissão de Augsburgo. Desde a primeira sessão, Melanchthon exaltou-se contra os católicos e seus abusos, contra «os decretos ímpios do pretendido concílio de Trento e o livro intitulado Interim».

Os católicos propuseram vinte e três artigos, dispostos quase na ordem da *Augustana* e dos quais se possui uma lista, *Index articulorum controversorum*, escrita pela mão mesma de Canísio. Epist., t. II, p. 795.

Quando se chegou à discussão, acordo não pôde ser feito sobre princípios comuns, os teólogos luteranos não aceitando o cânone integral das santas Escrituras, tal como estava em uso na Igreja há mil anos, nem o consentimento dos Padres e da antiga cristandade como regra de interpretação em matéria duvidosa. Canísio falou nos dias 16 e 20 de setembro, na quinta e na sexta sessão; ele levantou os desvios de Melanchthon que, sem levar em conta o programa traçado, havia se exaltado em invectivas contra a Igreja católica, depois, lembrando que o colóquio deveria ser feito sobre a base da Confissão de Augsburgo, ele pediu que diante das graves divergências que se manifestavam entre os partidários desta Confissão, se apegasse ao texto primitivo de 1530, e ele lhes propôs condenar as seitas que professavam doutrinas opostas. Este pedido lançou no desvario os teólogos protestantes, divididos de opinião sobre pontos de primeira importância; eles brigaram, e a maioria, inspirada por Melanchthon, acabou por excluir do colóquio aqueles que queriam aceder à proposta feita por Canísio e os católicos. Desorganizada e doravante irregular, a assembleia foi interrompida, depois dissolvida em 8 de dezembro. Sobre toda esta questão, veja o relatório redigido por Canisius e seus colegas em 6 de dezembro, a carta escrita no mesmo dia pelo Bem-aventurado ao Pe. Laynez e os Monumenta wormatensia relativos aos atos do colóquio. Epist., t. II, p. 160, 174, 795 sq.; cf. F. Fornerus, Historia hactenus sepulta colloquii Wormatensi, an. uptvit, Ingolstadt, 1624; Janssens, op. cit., t. IV; p. 23 sq.

Os inovadores não deixaram de lançar sobre os católicos, e sobre Canisius em particular, a responsabilidade deste abortamento. Tal era o sentido de um escrito que apareceu em Frankfurt am Main, primeiro em alemão, depois em latim sob este título: Scriptum collocutorum Augustane Confessionis qui in urbe Vangionum fuerunt, donec adversarij colloquium abruperunt, anno 1557. Canisius respondeu, no mês de março do ano seguinte, com um contrarrelato intitulado: Vom Abschiedt des Colloquii zu Wormobs. m. pb. Lv. Wahrhafftiger gegenbericht auff das Büchlin zu Frankfurt am Mein den Iv. Decembris ausgangen. Epist., t. 1, p. 181, 893.

Mas esta vitória sobre os teólogos protestantes, unida aos seus outros sucessos e sobretudo ao benefício pela Summa doctrinae christianae, valeu a este terrível canis austriacus um ódio implacável, que se traduziu desde então e mais tarde por toda uma literatura de panfletos injuriosos, por vezes ignóbeis. Ibid., p. 800, 802, 915; t. III, p. 800 sq.; cf. Janssens, op. cit., t. IV, p. 444 sq.

No campo católico, ao contrário, a autoridade do Bem-aventurado cresceu, e o ganho foi considerável: muitos foram fortificados em sua fé; os príncipes permaneceram convencidos de que não se devia esperar nada de sério destas espécies de colóquios, e compreenderam que força encontrariam na união. Canisius aproveitou sobretudo a circunstância para excitar o seu zelo: utinam non timeremus imbecilles, escrevia ele ao rei Fernando. Ibid., p. 173. Dois meses depois, em fevereiro de 1558, ele visitava em Nurembergue este príncipe, inquieto então e quase desesperado: encorajado pelo Bem-aventurado, Fernando dirigiu-se à dieta de Frankfurt onde, no dia 24 do mesmo mês, foi proclamado imperador.

No mês de maio, Canisius estava em Roma para a eleição de um novo geral. O papa Paulo IV acabava de decidir o envio de um núncio, Camille Mentuati, à dieta polonesa de Piotrkow; ele designou o Bem-aventurado para acompanhá-lo como teólogo. O triste estado em que se encontrava o reino da Polônia, governado por um príncipe indolente, o favor que prestava aos heréticos uma nobreza hostil aos bispos e desconfiada em relação a Roma, a impotência ou a falta de zelo no próprio clero, paralisaram a ação do núncio e de seu companheiro; eles impediram, pelo menos, que se tomasse qualquer medida contra a Igreja e que se fizesse qualquer inovação em matéria religiosa. Pessoalmente, Canisius obteve mais dos bispos; ele semeou germes fecundos para a reforma do clero e recebeu vários pedidos de colégios. Epist., t. II, p. 340, 362, 826 sq.

De regresso à Alemanha, ele teve um papel delicado a desempenhar. Uma nova dieta ia abrir-se em Augsburgo em circunstâncias difíceis, por causa do conflito ocorrido entre Paulo IV e Fernando I. Ferido pelo fato de se ter agido sem consultá-lo na eleição de Frankfurt, o papa recusava reconhecer o novo imperador, e os príncipes heréticos procuravam aproveitar a ocasião para semear a discórdia. Por suas pregações, pelas cartas que endereçava a Roma, sobretudo por sua ação pessoal sobre Fernando e os membros católicos da dieta, Canisius foi realmente o anjo da paz. O imperador fez calar os seus ressentimentos, fechou o ouvido às sugestões dos inovadores e comprometeu-se com os bispos no plano de reforma que o Bem-aventurado patrocinava. Ibid., p. 469, 502. O conflito com Roma aplainou-se com o advento de Pio IV, eleito papa em 25 de dezembro de 1559. Se a conduta do imperador Fernando em relação à Santa Sé não foi sempre irrepreensível, se ele compreendeu e quis realizar à sua maneira a reforma da Igreja, não se pode duvidar que ele tenha conservado em seus projetos, frequentemente utopistas, um sincero apego à religião católica.

6° Ação para a reforma do clero e da Igreja; concílio de Trento; conferências de Inspruck. — Canisius empregou toda a sua influência junto aos bispos, como junto aos príncipes, para excitar o seu zelo e encorajá-los. Ele mostrava-lhes, Epist., t. I, p. 597, os lobos a afastar do rebanho, as escolas e as bibliotecas a sanear, os ministros do santuário a preparar, mais bons do que numerosos, numa palavra, a reforma a operar, a das suas Igrejas e do seu clero sem dúvida, mas a deles também e primeiramente. Daí um escrito De officio et reformatione episcopi, composto em Ratisbona, para o fim de 1556, sobre as instâncias do cardeal Truchsess. Nem a veneração que ele tinha pelos primeiros pastores, nem a amizade com que vários o honraram, fizeram vacilar a sua voz, quando julgou dever falar; testemunha esta carta apostólica que ele escreveu ao mesmo cardeal, para lhe lembrar a obrigação da residência episcopal e a proibição imposta contra a pluralidade dos benefícios.

Epist., t. II, p. 228. Ele obteve muito dos bispos, mas não tudo o que teria querido: Desperata cleri consilia, ubi de reformatione agitur, morbos fatentur, pharmaca respuunt, escrevia ele de Augsburgo em 20 de maio de 1559. Ibid., p. 419.

Assim, quanto mais o tempo avançava, mais o seu pensamento ia ao concílio ecumênico, necessarium Ecclesiae remedium. Segue-se, lendo a sua correspondência, os diversos sentimentos pelos quais passou, desejos ou arrependimentos, alegria ou tristeza, segundo as dificuldades que diferenciavam o seu reinício pareciam aplainar-se ou agravar-se. Pessoalmente, ele aplicou-se tão bem a fazê-las desaparecer que, numa carta pastoral de 1865 sobre o Bem-aventurado, o cardeal Rauscher, arcebispo de Viena, não temeu atribuir em grande parte à sua influência o sucesso final. Der selige Canisius, Viena, p. 46.

Quando o concílio se reabriu, em 18 de janeiro de 1562, Canisius estava em Augsburgo, onde a sua presença parecia indispensável. Mas os legados, Hosius sobretudo, insistiram tanto junto ao cardeal Truchsess que ele teve de lhes ceder momentaneamente o apóstolo da sua diocese. Epist., t. III, p. 753 sq.

Questões iam tratar-se em Trento que diziam respeito particularmente à Alemanha e faziam parte de todo um conjunto de medidas reclamadas pelo imperador Fernando: comunhão sob as duas espécies, casamento dos padres, mitigação de diversas leis positivas, como as da abstinência, do jejum e do índice, reforma da corte romana, etc. Estas visões tinham sido expostas primeiro num escrito apresentado em 20 de junho de 1560 a Hosius, núncio apostólico em Viena, depois num Libellus reformationis, entregue em 7 de junho de 1562 aos presidentes do concílio. Resumido em Raynaldi, Annales, an. 1560, n. 55; an. 1562, n. 59, Lucques, 1756, t. xv, p. 86, 234. Texto completo do memorial de 1560 em Sickel, Zur Geschichte des Concils von Trient, Viena, 1872, p. 55 segs.; do Libellus, em Archiv für österreichische Geschichte, Viena, 1871, t. XLVI, p. 408.

Canisius chegou a Trento em 14 de maio. Não permaneceu ali muito mais de um mês, mas este tempo foi utilmente empregado. Sem contar frequentes conversações com o primeiro orador imperial, Antoine Brus de Muglitz, arcebispo de Praga, e sobretudo com o cardeal Hosius, o Bem-aventurado viu-se envolvido em duas discussões de importância desigual. Foi anexado ao comitê de bispos e teólogos encarregado de examinar e reformar o índice de Paulo IV. Sua opinião pessoal é conhecida por suas cartas; desejava muito que se mitigassem as regras relativas à leitura dos livros heréticos, Epist., t. II, p. 27, 490.

Muito mais importante foi a discussão de cinco artigos sobre a eucaristia, propostos em 6 de junho ao exame dos teólogos. Ibid., p. 463. O 2º e o 3º artigos tocavam diretamente nas questões candentes que Fernando I havia levantado, pois neles se perguntava isto: «As razões que levaram a Igreja a restringir a uma só espécie a comunhão dos leigos, excluem a possibilidade de qualquer concessão do cálice? Se parecesse conveniente fazer alguma concessão deste gênero, deveria acompanhar-se de algumas condições, e de quais condições?»

Canisius fez, a 15 de junho, um discurso cujo resumo encontra-se em Massarelli, Acta genuina SS. œcumenici concilii Tridentini, edit. Theiner, Agram, 1874, t. I, p. 16. Cf. Epist., t. III, p. 742. Estabelecia como princípio que era necessário mostrar-se difícil em conceder o cálice aos leigos. Não se deveria concedê-lo aos heréticos, ne sanctum detur canibus. Restava considerar seriamente se não seria conveniente permiti-lo a certos católicos cercados de heréticos e vacilantes na fé, no caso de ser o único meio de mantê-los na ortodoxia, e sobretudo aos boêmios, cuja ausência de padres os fizera cair em alguns erros, e que se poderia assim reconduzir à fé em todo o restante. Este parecer do Bem-aventurado não passou despercebido; os teólogos do imperador tentaram mesmo fazer dele uma arma contra o P. Laynez, cuja decisão foi mais intransigente. Epist., t. III, p. 754 segs.

De volta a Augsburgo, Canisius não cessou de interessar-se pelos trabalhos do concílio. Em suas cartas ao cardeal Hosius, encoraja esse legado e informa-o dos boatos que correm; a 3 de agosto, envia-lhe um escrito De abusibus missæ; insiste para que se ocupem da reforma do clero. Ibid., p. 470, 474, 485. Assim, lamentou a discussão muito viva que surgiu entre os Padres sobre a origem da jurisdição episcopal. Não que desconhecesse a importância da questão, ou desaprovasse a doutrina brilhantemente sustentada pelo P. Laynez em um discurso que permaneceu célebre; sua correspondência prova o contrário, ibid., p. 527, 537, 551; mas via ali um atraso trazido à obra mais urgente da reforma eclesiástica.

Temia também o descontentamento que se manifestava na corte de Viena. Quando a questão do cálice dos leigos foi, a 17 de setembro, remetida ao papa pelos Padres do concílio, o imperador submeteu a vários teólogos estas questões: Deve-se perseverar no pedido feito anteriormente? Deve-se renová-lo junto ao concílio ou junto ao papa, e como proceder? Canisius respondeu de Augsburgo, a 23 de outubro, por um memorial importante, acompanhado de uma carta onde lembrava a gravidade do assunto e a necessidade de evitar a todo custo o que pareceria um atentado aos direitos da Igreja e às suas instituições.

Nesse memorial, o Bem-aventurado dava, em substância, as mesmas conclusões que em Trento, mas com muito mais desenvolvimentos e precisão. Nada se opõe, em princípio, à concessão do cálice, mas cabe ao papa decidir se é conveniente concedê-lo. O imperador pode pedir esse favor para uma parte de seus súditos; não para os heréticos, que reclamam o cálice como um direito apoiado na autoridade divina, nem para os bons católicos, a quem essa concessão seria antes prejudicial, mas para os católicos pouco firmes na fé, que se tem a esperança, bastante frágil aliás, de reter assim na Igreja. Esse favor deve ser acompanhado de condições próprias para afastar as falsas interpretações e distinguir os católicos dos heréticos. Que se tenha cuidado, além disso, de instruir bem os fiéis sobre tudo o que concerne à santa eucaristia e à primazia do pontífice romano. Epist., t. III, p. 419-513.

Tal era a teoria; mas uma carta de 7 de novembro ao cardeal Hosius mostra que o Bem-aventurado estava preocupado com as consequências práticas que poderiam resultar de uma mudança de disciplina. Ibid., p. 528. A conduta de Fernando I aumentou suas apreensões.

No mês de janeiro de 1563, Georges Draskovicz, bispo de Pecs (Fünfkirchen) e embaixador no concílio pelo reino da Hungria, redigiu um novo memorial, Capita quædam ad fructuosam concilii celebrationem, onde pedia ao imperador que zelasse pela liberdade dos Padres e se interpusesse para que se iniciasse, enfim seriamente, a obra da reforma eclesiástica, no sentido do programa imperial. Sickel, Zur Geschichte des Concils von Trient, p. 427 segs.

No início de fevereiro, Fernando enviou o memorial a Trento e convocou junto a si, em Inspruck, sob a presidência de Draskovicz, uma comissão de teólogos, que foram encarregados de examinar dezessete artigos, ou questões relativas à continuação ou à suspensão, à liberdade, à direção e aos trabalhos do concílio, às concessões anteriormente reclamadas e à reforma da Igreja, tanto em sua cabeça quanto em seus membros. Ibid., p. 431.

Canisius fazia parte da comissão, era mesmo o membro mais influente; ao julgamento dos núncios Commendon e Delfini, presentes em Inspruck, o desfecho dependia em grande parte de sua prudência e de sua habilidade. J. Pogiani, Epistolæ et orationes olim collectæ ab Antonio Maria Gratiano..., Roma, 1756, t. II, p. 238; Archiv. Vatic., Concilio di Trento, t. XXX, fol. 28.

O Bem-aventurado, que desde sua primeira conversação com Fernando havia compreendido que a autoridade do concílio e da santa sé estava em jogo, marchou de acordo com os núncios. Em seu parecer de 22 de fevereiro, pronunciou-se fortemente contra qualquer ingerência do poder laico na ordem espiritual; o concílio devia continuar, mas plenamente independente em sua esfera própria; cabia ao papa nomear os legados e dirigir a assembleia conciliar; a ele também decidir a reforma da corte romana e aplicá-la. Quanto ao restante, as coisas deviam tratar-se amigavelmente; não se devia retomar em Trento a questão do cálice, mas dirigir-se ao próprio papa. Aliás, por que não se trabalhava primeiramente na emenda dos costumes nos indivíduos? Feito isso, a maior parte das medidas propostas não teria mais razão de ser.

O resultado das deliberações no Conselho de Estado foi que se entraria em relações com o soberano pontífice para obter a reforma desejada. Duas instruções do imperador aos seus representantes no concílio testemunham igualmente uma atitude mais conciliatória. Sickel, op. cit., p. 446, 456.

A conduta do Bem-aventurado satisfez plenamente os legados. Pogiani, loc. cit.; Archiv. vatic., op. cit., fol. 38, 41.

As conferências, interrompidas na época da Quaresma, recomeçaram no mês de abril. Quatorze novos artigos foram submetidos, no dia 24, ao exame da comissão, aumentada por vários membros; redigidos sob uma forma diferente e mais comedida, tratavam quase todos sobre a liberdade e a direção do concílio, a maneira de propor as questões, as matérias a serem tratadas ou omitidas. O 3º artigo trazia de volta o ponto delicado da reforma do papa e de sua corte: deveria o concílio intervir ou deixar o assunto à iniciativa pontifícia? Apesar dos esforços de Canisius, as conclusões da maioria ressentiram-se das ideias que, cada vez mais, se afirmavam na corte imperial: antes de se dissolverem, os Padres do concílio deviam, a todo custo, proceder à reforma da Igreja em sua cabeça e em seus membros. Bucholtz, Geschichte der Regierung Ferdinand des Ersten, Viena, 1838, t. vii, p. 545 sq., nota.

Em desespero de causa, o Bem-aventurado recorreu ao imperador; após lhe ter apresentado suas observações contra o parecer da maioria, mostrou-lhe os inconvenientes da via em que se engajava e lembrou a que era necessário tomar: não impor ao vigário de Jesus Cristo a reforma de sua pessoa sagrada e de sua corte em virtude de um suposto direito que ele não poderia reconhecer, mas agir de comum acordo com ele para a reforma geral e particular da Igreja. Esta linguagem franca deu frutos. Fernando prometeu examinar o assunto mais de perto e conferir com o núncio e, sobretudo, com o cardeal Morone, vindo de Trento a Innsbruck. Ele cumpriu a promessa, mandou retocar várias vezes o relatório da comissão e aceitou as modificações propostas pelo cardeal. Sickel, op. cit., p. 498 sq.

Pio IV, instruído de tudo o que se passara, expressou sua satisfação com a conduta do Bem-aventurado e mandou agradecê-lo. Uma nova discussão, que provocou um requerimento apresentado pelos utraquistas da Boêmia com o intuito de obter a comunhão sob as duas espécies e o casamento de seus sacerdotes, pôs mais uma vez Canisius em luta com os outros membros da comissão. Sozinho contra todos, não temeu desaprovar uma concessão que, nas condições em que era feito o pedido, parecia-lhe acarretar graves inconvenientes. Compreendeu logo que o imperador achava sua oposição importuna e já não lhe testemunhava a mesma confiança de outrora. O parecer definitivo da comissão, ou Liber in materia reformationis, de 5 de junho, continha vários pontos que ele havia combatido. Sickel, op. cit., p. 520 sq.

Após novas consultas feitas em Viena, Fernando dirigiu-se finalmente ao papa. No mês de abril de 1564, Pio IV concedeu, não o casamento dos sacerdotes, mas o uso do cálice para a Áustria, a Boêmia e diversas dioceses da Alemanha. A experiência provou que o Bem-aventurado não se enganara em suas apreensões; as desordens e os abusos foram tais que, três anos mais tarde, o santo papa Pio V via-se obrigado a revogar a concessão feita por seu predecessor.

A morte de Fernando I, ocorrida em 22 de julho de 1564, entregou o poder ao seu filho Maximiliano, cuja política não era a que pregava Canisius. A obra que este último havia começado na Áustria continuou a ser feita pelos membros de sua ordem, mas sua influência pessoal exerceu-se doravante em outros lugares, sobretudo na Baviera e no Tirol, onde suas pregações na corte do arquiduque Fernando II trouxeram felizes frutos e contribuíram muito para a santificação das cinco arquiduquesas, irmãs deste príncipe.

Mas a mais bela recompensa que a providência reservou àquele que tivera tanto zelo pelo concílio de Trento foi a de escolhê-lo como instrumento para completar sua obra na Alemanha. Tendo vindo a Roma em 1565 para a eleição de um novo geral, Canisius foi criado por Pio IV núncio apostólico, com a missão de promulgar os decretos do concílio e de promover sua execução.

Augsburgo, Colônia, Nimega, Osnabrück, Mogúncia, Tréveris, mais tarde Würzburg e Estrasburgo foram as principais etapas desta viagem apostólica, onde o Bem-aventurado certamente não obteve tudo o que teria desejado, mas o que se podia esperar nas circunstâncias difíceis em que se encontravam as Igrejas que visitou. Esta missão teve como seu coroamento a dieta de Augsburgo de 1566, onde Canisius assistiu como teólogo do cardeal Commendon. Os decretos do concílio de Trento foram ali aceitos pelos católicos, e o Bem-aventurado contribuiu ali uma vez mais para o entendimento comum. Tendo sido posta esta grave questão: «A confirmação da paz de Augsburgo é contrária aos direitos da Igreja?», ele não hesitou, com outros dois teólogos de sua ordem, em dar uma resposta negativa, e preveniu assim uma ruptura desastrosa entre católicos e protestantes. Esclarecido ele mesmo pelo cardeal Commendon, o imperador Maximiliano voltou a ter melhores sentimentos em relação à Companhia de Jesus.

7º Ação literária; apostolado da pena. — Há treze anos Canisius dirigia sua ordem na Alemanha. O número dos súditos e das casas aumentando, dois rebentos haviam se destacado do tronco primitivo: a província da Áustria-Hungria, em 1562, e a província da Baixa-Alemanha ou do Reno, em 1564. O Bem-aventurado permanecera à frente do tronco primitivo, chamado doravante província da Alta-Alemanha. Governo de uma duração anormal na Companhia de Jesus, mas necessário para a consolidação da obra começada. Frequentemente, Canisius havia suplicado aos seus superiores que o descarregassem de um fardo que pesava pesadamente sobre seus ombros. Foi apenas na Páscoa de 1569 que lhe permitiram finalmente confiar sua província ao Pe. Paul Hoffée. Mas Canisius não deixou de permanecer na Alemanha, seguindo a justa expressão de Janssens, op. cit., t. v, p. 198, «alma da Companhia de Jesus».

Um outro motivo havia aumentado seu desejo de ser descarregado do governo. São Pio V o escolhera em 1567 para refutar os erros e as falsidades acumuladas pelos autores das Centúrias de Magdeburgo na grande história eclesiástica que começaram a publicar em 1559. O Bem-aventurado desejava vivamente poder se dar inteiramente a esta tarefa; ele o desejava não apenas por um sentimento de obediência filial ao soberano pontífice, mas porque via ali um fecundo apostolado. Ele compreendia toda a potência da imprensa sobre a direção dos espíritos e queria que, neste terreno como em outros, se opusesse vigorosamente aos adversários da Igreja católica. Chegou a perguntar-se se não faria bem em deixar o ministério da pregação, para se consagrar ao apostolado da pena. Epist., t. I, p. 397.

Quanto mais o ataque e o erro se multiplicavam, mais ele achava urgente organizar a defesa e servir aos fiéis o contraveneno. Nos grandes centros onde viveu, colocou-se em contato com os impressores e os livreiros, para fazê-los publicar e difundir bons livros; dotou a cidade de Augsburgo de várias tipografias católicas. Encorajou e ajudou com todo o seu poder aqueles que escreviam para a defesa da fé. Suas cartas mostram-no atento a enviar-lhes as obras perigosas que apareciam, ou a sinalizá-las, a louvar seus trabalhos e a recomendá-los eles mesmos à benevolência dos príncipes católicos. Para vários, para Hosius sobretudo, chegou à colaboração. Em sua ordem, excitava seus subordinados a compor obras apropriadas, pelo gênero e pelo estilo, às exigências dos tempos, ou a publicar textos críticos, como os Atos do primeiro concílio de Éfeso. Epist., t. III, p. 31, 402 sq.

Em várias ocasiões, concebeu e submeteu aos seus superiores, a São Francisco de Borja em 1571, ao Pe. Aquaviva em 1583, o projeto de uma sociedade de escritores, que se comporia de súditos capazes e reunidos de diferentes províncias para trabalhar de concerto na composição de obras de controvérsia e na refutação dos erros correntes. Ideia feliz e fecunda que não lhe foi dado realizar, mas que lhe sobreviveu. Finalmente, escrevia ele mesmo na medida em que suas outras ocupações permitiam; a lista de seus escritos fornecerá a prova. Ninguém era mais atento a aproveitar a ocasião favorável de lançar essas publicações de circunstância que orientam a opinião ou a impedem de se extraviar. Em Worms, mal os protestantes fizeram aparecer seu relato fantasioso do colóquio tão bruscamente interrompido, o Bem-aventurado opõe-lhes seu «verídico contrarrelato». Em Piotrkow, vê quanto a questão da comunhão sob as duas espécies e a do matrimônio dos padres preocupam os espíritos; imediatamente se apressa em fazer imprimir os Dialogi de Hosius sobre esses dois temas. Epist., t. III, p. 339, 397 sq.

Em 1561, os inovadores imprimem em Nuremberg a Suplicação dos protestantes da França ao rei Carlos IX; Canisius opõe-lhes a Supplication der Catholischen ao mesmo rei. Ibid., t. II, p. 780 sq. Aos legados do concílio em Trento sugere a ideia, favoravelmente acolhida, de interessar o público e de elevar o crédito da augusta assembleia por algumas publicações, onde poderiam figurar os discursos mais notáveis. Ibid., p. 325 sq.

Descarregado do provincialado, Canisius retirou-se para o colégio de Dillingen, do qual seu irmão Thierry era então reitor; ali consagrou-se plenamente à refutação dos Centuriadores. Em 1571 apareceu o primeiro volume desta grande obra sobre as alterações da palavra divina, De corruptelis verbi Dei, volume cujo objeto especial é São João Batista. Diversos impedimentos retardaram a composição do segundo: a nomeação do Bem-aventurado como pregador do arquiduque Fernando em Inspruck; uma missão junto ao duque da Baviera e outros príncipes, da qual foi encarregado por Gregório XIII no início de 1573; uma viagem a Roma na sequência dessa missão, viagem de um alcance excepcional para o futuro da Alemanha católica, por causa das medidas já assinaladas que o Papa tomou após suas conversas com o cardeal Truchsess e Canisius.

De volta a Inspruck, este último partilhou sua vida entre o trabalho da pregação e o da composição. Mas, em 1576, teve ainda de acompanhar o cardeal Morone à dieta de Ratisbona. Tendo o imperador Maximiliano morrido a 14 de outubro, a assembleia foi dissolvida, e o Bem-aventurado pôde dirigir-se a Ingolstadt, onde, após um trabalho obstinado, publicou finalmente, no verão de 1577, o segundo volume de sua obra, De Maria Virgine incomparabili. Tinha em projeto um terceiro volume, e até vários outros, mas teve de parar perante uma oposição formal. O obstáculo não veio de Roma, mas do Pe.

Hoffée, cujos motivos estão claramente expressos em uma carta ainda inédita de 26 de janeiro de 1578 ao Pe. Everard Mercurian: a tensão que o Bem-aventurado colocava no trabalho e as pesquisas enormes que acarretavam a preparação de seus livros, repletos de referências e citações, criavam um grave motivo de preocupação para sua saúde; a necessidade que tinha de ajudantes e revisores para um trabalho que retocava indefinidamente e do qual nunca estava satisfeito, tornava-se um embaraço sério para o provincial; os inconvenientes seriam ainda maiores no volume que Canisius projetava, onde se trataria da Igreja e do Papa, matéria grave e difícil; seria mais útil empregar o Padre no ministério ativo e em publicações de propaganda em língua alemã do que nessas grandes obras doutrinais em língua latina.

Canisius foi dispensado do mandato que lhe fora confiado por Pio V, e foi tomado por Hoffée como companheiro em suas visitas e na administração da província, até o momento em que partiu para sua última etapa. Em 1580, o núncio Bonomio, bispo de Vercelli, visitou os cantões católicos da Suíça; pediu e obteve a fundação de um colégio em Friburgo. O Bem-aventurado foi designado para executar este projeto.

Canisius na Suíça; velhice e morte, 1581-1597. — Chegado a Friburgo a 10 de dezembro de 1580, Canisius foi apresentado pelo núncio aos magistrados «como uma relíquia, um objeto sagrado» que deveriam guardar com cuidado, «seguros de ter nele um apóstolo, um doutor, um pai totalmente dedicado.» E tal foi a realidade. Após ter passado a outro, em 1582, o cuidado do governo, o velho atleta consagrou-se doravante a uma vida toda de dedicação apostólica. Durante oito anos, pregou ainda em alemão, aos domingos e festas, na catedral de São Nicolau. No decorrer da semana, todo tipo de obras sucediam-se: o catecismo às crianças, a instrução dos pobres e dos operários, a visita aos prisioneiros e aos doentes, etc. Em 1581 e 1582, fundou sob o vocábulo da Santíssima Virgem duas congregações de homens e de mulheres, que foram afiliadas à Prima primaria de Roma. V. Alet, S. J., Le Bienheureux Canisius, Paris, 1865, p. 331, nota sobre a primeira instituição das congregações da Santíssima Virgem e a parte que nela tomou Canisius.

O apoio das autoridades eclesiásticas e civis permitiu-lhe reformar abusos inveterados e fundar, em 1587, escolas para o povo. Não só houve preservação total da heresia, mas foi no cantão de Friburgo como um renascimento do catolicismo. Quando a doença forçou o Bem-aventurado, em 1588, a não mais pregar, ele consagrou o restante de suas forças a esse apostolado da pena que julgava tão frutífero; toda uma série de obras ou de opúsculos de piedade pertence a essa época. Personalidades, como São Francisco de Sales, recorriam aos seus conselhos. O Pe. Aquaviva pediu-lhe que pusesse por escrito tudo o que sua experiência lhe sugerisse de observações úteis aos operários da Companhia, para sua própria santificação, a conversão dos heréticos e a boa formação dos alunos do Colégio Germânico; daí um memorial precioso, cujas grandes linhas Janssens resumiu, op. cit., t. v, p. 205 sq., e que será publicado integralmente nas Epistule et acta. Ele deu ainda ao preboste do cabido de Friburgo, por volta de 1589, excelentes observações sobre a maneira de estudar a teologia, De ratione studiorum theologicorum quedam notationes. Ver Pachtler, Ratio studiorum et institutiones scholastice Societatis Jesu per Germanian olim vigentes, Berlin, 1887, t. II, p. 514.

Assim foi fecunda, como todo o resto de sua vida, a velhice de Canisius. Após quatro meses de grandes sofrimentos, ele morreu em 21 de dezembro de 1597. À sua memória ligou-se um renome de santidade que os milagres obtidos por sua intercessão acreditaram. Por isso, desde 1625 e nos anos seguintes, processos foram feitos em Friburgo com vistas à sua beatificação, mas a causa só foi introduzida em Roma muito mais tarde. Interrompida pela supressão da Companhia de Jesus e retomada sob Gregório XVI, ela terminou sob Pio IX que, em 24 de junho de 1864, deu a este grande servo de Deus o título de bem-aventurado. Sua festa se celebra em 27 de abril. O terceiro centenário de sua morte, celebrado em 1897 e consagrado por uma carta encíclica de Leão XIII, mostrou quais sentimentos de veneração e de gratidão reinam no coração dos católicos da Alemanha, da Áustria e da Suíça por aquele que, nesta encíclica de 1º de agosto de 1897, Leão XIII nomeou alterum post Bonifacium Germanie apostolum. Cf. Epist., t. II, préf., p. v.

I. DOCUMENTOS. — 1° Epistule et acta, compreendendo as obras autobiográficas de Canisius, suas cartas, reeditadas ou inéditas, e ricas citações de documentos contemporâneos.

2° Monumenta historica Soc. Jesu, em curso de publicação em Madrid desde 1894; encontram-se cartas e preciosos materiais relativos a Canisius em quase todos os volumes publicados. Ver os Indices, sob a palavra Canisius ou Kanys : Chronicon Soc. Jesu, do Pe. Polanco, t. I-VII, de 1491 a 1556; Littere quadrimestres, t. I-IV, de 1546 a 1556; Epistole mixte, t. I-V, de 1537 a 1556; Epistole P. Hieronymi Nadal, t. I-III, de 1546 a 1577; Monumenta pedagogica- Monumenta Ignatiana; Epistole PP. Paschasii Broéti, Claudii Jaji, etc., p. 334-374, passim.

3° Cartas numerosas de Canisius ou relativas a Canisius nas seguintes obras: J. Hansen, Rheinische Akten zur Geschichte des Jesuitenordens, 1542-1582, in-8°, Bonn, 1896; E. S. Cyprian, Tabularium Ecclesie Romane seculi xvi, in-4°, Francfort et Leipzig, 1743; Stanislai Hosii S. R. E. cardinalis... et que ad eum scripte sunt epistole, Cracovie, 1879, 1886, t. I, II. Para as cartas disseminadas em diversos livros, ver Sommervogel, Bibliothéque, t. II, col. 683; t. VII, col. 1498-2.

4° Obras gerais: Historia Societatis Jesu, pelos PP. Orlandini, Sacchini e Possine, Roma, 1615, etc., part. I-V; J. Agricola, S. J., Historia provincie Soc. Jesu Germaniæ Superioris, t. 1, 1; F. Reiffenberg, S. J., Historia Soc. Jesu ad Rhenum inferiorem, Colônia, 1764, t. 1; A. Socher, S. J., Historia provincie Austriæ Soc. Jesu, Viena, 1740, part. I; J. Schmidt, S. J., Historia Soc. Jesu provincie Bohemiæ, Praga, 1747, part. 1; Imago primi seculi Soc. Jesu, Antuérpia, 1640, p. 861 sq., 915 sq.; M. Tanner, S. J., Societas Jesu apostolorum imitatrix, Praga, 1694, part. I.

II. OBRAS ESPECIAIS, a consultar para o estudo dos diversos períodos da vida de Canisius: L. Ennen, Neuere Geschichte der Stadt Köln, Colônia, 1875, t. 1; C.

Varrentrap, Hermann von Wied und sein Reformationsversuch in Köln, in-8°, Leipzig, 1878; L. Delplace, S. J., L’établissement de la Compagnie de Jésus dans les Pays-Bas, in-8°, Bruxelas, 1897; J. N. Mederer, Annales Ingolstadiensis Academiæ, Ingolstadt, 1872, t. I, p. 208 sq.; C. H. Verdière, S. J., Histoire de l’université d’Ingolstadt, 2 in-8°, Paris, 1887; J. Aschbach, Die Wiener Universität und ihre Gelehrten (t. ut de Geschichte der Wiener CANISIUS Universität), in-8°, Viena, 1888, p. 90 sq., 445 sq. ; R. Perkmann, Zur Geschichte der Wiener Universität, in-8°, Leipzig, 1865, p. 88 sq.; A. Wappler, Geschichte der theologischen Facultät der K. K. Universität zu Wien, in-8°, Viena, 1884; J. B. von Bucholtz, Geschichte der Regierung Ferdinand des Ersten, Viena, 1838, t. VII, IX; Th. Wiedemann, Geschichte der Reformation und Gegenreformation im Lande unter der Enns, in-8°, Praga, 1879, 1880, t. 1, 11; P. Braun, Geschichte der Bischöfe von Augsburg, Augsbourg, 1814, t. 11; A. Steichele, Archiv für die Geschichte des Bisthums Augsburg, Augsbourg, 1859, t. 1; Th. Sickel, Zur Geschichte des Concils von Trient, in-8°, Viena, 1872; A. Eichhorn, Der ermländische Bischof und Cardinal Stanislas Hosius, 2 in-8°, Mogúncia, 1854, 1855; M. Rader, S. J., Bavaria pia, in-fol., Munique, 1628, p. 142 sq.; F. J. Lipowsky, Geschichte der Jesuiten in Baiern, in-8°, Munique, 1816; Id., Geschichte der Jesuiten in Tyrol, in-8°, Munique, 1822; L, Rapp, Königin Magdalena von Österreich, Stifterin des königl. Stiftes zu Hall in Tirol, in-8°, Inspruck, 1858, contém as regras dadas, por volta de 1566, por Canisius à comunidade de Hall; J. Hirn, Erzherzog Ferdinand II von Tirol. Geschichte seiner Regierung und seiner Länder, Inspruck, 1885, t.1; H. Murer, Helvetia sancta, in-fol., São Galo, 1750; P. C. Bovet, franciscano, Le B. Pierre Canisius et le canton de Fribourg, Friburgo, 1865; Revue de la Suisse catholique, 1891, t. XXII, p. 361 sq. : Le B. Pierre Canisius et l’université de Fribourg, por D. Jacquier; 1894, t. XXV, p. 304 sq., 361 sq., sete cartas do núncio J. F. Bonomio ao Bem-aventurado, de 1581 a 1584, publicadas pelo Pe. J.-J. Berthier, O. P.

III. BIOGRAFIAS E ESTUDOS BIOGRÁFICOS.

1° Biografias principais ou fundamentais: M. Rader, S. J., De vita Petri Canisii, in-12, Munique, 1614, a mais antiga, mas pouco desenvolvida; F. Sacchini, S. J., De vita et rebus gestis Petri Canisii, in-4°, Ingolstadt, 1616; J. Dorigny, S. J., La vie du B. Pierre Canisius, in-12, Paris, 1707; J. Boero, S. J., Vita del Beato Pietro Canisio, in-8°, Roma, 1864; F. Riess, S. J., Der selige Petrus Canisius, in-8°, Friburgo, 1865; A. Kriss, S. J., Der selige Petrus Canisius in Österreich, in-8°, Viena, 1878. Estes três últimos biógrafos utilizaram novas fontes e enriqueceram muito a vida de Canisius.

2° Biografias subsidiárias, que se ligam às precedentes como traduções ou como adaptações, com mais ou menos acréscimos: F. Juligatti, S. J., Vita del P. Pietro Canisio, in-8°, Roma, 1649, abreviado de Rader; Leben des Ehrwürdigen P. Petri Canisii, in-4°, Dillingen, 1621, trad. de Rader e de Sacchini; F. de Smidt, Leven van R. P. Petrus Canisius, Antuérpia, 1652, extraído de Sacchini; Longaro degli Oddi, Vita del Venerabil servo di Dio il Padre Pietro Canisio, in-4°, Nápoles, 1755, tradução livre de Sacchini; P. Python, S. J., Vita R. P. Petri Canisii, in-8°, Munique, 1740, tradução latina de Dorigny; Leven van den Eerweerden Vader Petrus Canisius, in-8°, St. Nicolaes, 1830, tradução flamenga do mesmo; D. Schelkle, Lebensgeschichte des Ehrwürdigen Vaters P. Canisius, 2 in-12, Viena, 1837, tradução alemã do mesmo; E. Seguin, S. J., Vie du B. Pierre Canisius, in-12, Paris, 1864, inspira-se em Dorigny e em Boero; R. Garcia, S. J., Vida del Beato Pedro Canisio, in-12, Madri, 1865; Daurignac, Histoire du B. Pierre Canisius, in-12, Paris, 1866, adaptação de Boero; L. Michel, S. J., Vie du B. Pierre Canisius, apôtre de l’Allemagne et de Fribourg, d’après le P. J. Boero et des documents inédits, in-4°, Lille, 1897; E. Marcour, Der selige Petrus Canisius, der erste deutsche Jesuit und zweiter Apostel Deutschlands, in-8°, Friburgo na Brisgóvia, 1881, biografia popular que se apoia em Riess.

3° Notícias biográficas muito numerosas, mas que em geral não são mais que vulgarizações das principais vidas do Bem-aventurado; algumas merecem, todavia, uma menção especial: P. d’Outreman, S. J., La vie du Vén. P. Pierre Canisius, composta em espanhol pelo R. P. Jean Eusèbe Nieremberg, in-8°, Douai, 1642; J. Jouvancy, S. J., De vita B. Petri Canisii... commentarius, in-16, Roma, 1864, tradução francesa pelo P. Deynoodt sob o título de Esquisse biographique du Vén. serviteur de Dieu Pierre Canisius, in-12, Bruxelas, 1865; H. Raemy de Bertigny, S. J., Le B. Pierre Canisius... fondateur du collège de Fribourg, in-16, Friburgo, 1865; P. C. Bovet, Vie et apostolat du B. Pierre Canisius, 2ª ed., Friburgo, 1881; J. B. Mohler, Der selige Petrus Canisius, ein deutscher Glaubensheld, in-16, Ratisbona, 1896; A. Knoppel, Der selige Canisius, zweiter Apostel Deutschlands, in-16, Mainz, 1897, volume da coleção Lebensbilder katholischer Erzieher, editada por W. E. Hubert.

II. Escritos. — Canisius deixou numerosos escritos, mas nem todos têm a mesma importância nem o mesmo caráter. Em primeiro lugar colocam-se as obras doutrinais, que estabeleceram a reputação teológica do Bem-aventurado. Vêm depois as publicações de edificação ou de propaganda religiosa, que secundaram a sua ação apostólica ou a propagaram. Sob um terceiro agrupamento, muito artificial, serão classificadas as obras das quais Canisius foi apenas editor ou tradutor. Sob um quarto, os escritos autobiográficos e algumas peças inéditas que merecem ser assinaladas. Os folhetos de circunstância já citados não serão recordados.

I, OBRAS DOUTRINAIS. — São os catecismos, a grande obra contra os Centuriadores e, em certa medida, as notas sobre os Evangelhos.

1° Summa doctrine christianæ. Per questiones tradita, et in usum christianæ pueritiæ nunc primum edita. Jussu et authoritate sacratissimæ Rom. Hung. Bohem. etc. Regiæ Majest. Archiducis Austriæ, etc. Uma tradução alemã surgiu em Viena já em 1556. Epist., t. 1, p. 537, 641. Em 1566, o Bem-aventurado publicou uma nova edição, consideravelmente aumentada e impressa em Colônia sob este título: Summa doctrine christianæ, per questiones luculenter conscripta.

Esta Summa é o maior dos três catecismos que Canisius compôs sucessivamente, aquele que, num fragmento autógrafo, ele chama major, em oposição aos dois outros, minor e minimus. Epist., t. 1, p. 64.

A 1ª edição surgiu em Viena, sem nome de autor e sem data. Um edito de Fernando I, de 14 de agosto de 1554, que se lê no início do livro, tinha feito remeter a publicação para esse mesmo ano, mas o P. Braunsberger, Entstehung und erste Entwicklung der Catechismen des seligen Petrus Canisius, p. 27 sq., estabeleceu que a Summa não surgiu na realidade senão no mês de maio de 1555. Ponto que deu lugar a uma discussão entre o Dr. Fijalek e o P. Kneller, S. J., no Historisches Jahrbuch de Munique, 1896, 1897, t. XVII, p. 804 sq.; t. XVIII, p. 632 sq.

A obra correspondia ao desejo expresso pelo rei Fernando de ter uma boa exposição da doutrina católica que se pudesse opor aos numerosos manuais de religião que os protestantes faziam circular nos seus Estados. Decidiu-se dividir a tarefa em três partes, que compreenderiam uma soma teológica para a juventude acadêmica, um manual de pastoral para o clero e um catecismo para o povo. Diversos obstáculos detiveram aqueles que tinham sido encarregados das duas primeiras partes; a última foi a única levada a bom termo por Canisius. Muito satisfeito com o resultado, Fernando tomou a publicação sob o seu patrocínio e providenciou a sua difusão com todo o seu poder. Propôs mesmo o catecismo do Bem-aventurado ao Concílio de Trento como um daqueles cujo uso seria bom prescrever aos párocos e nas escolas. Os Padres de Trento decidiram, de fato, a redação de um catecismo; mas o de Canisius não foi então nem aprovado nem desaprovado. Epist., t. III, p. 729, 782 sq.

A sanção de Roma deveria vir no seu tempo. No breve de beatificação, Pio IX fez o elogio deste pequeno livro «composto com tanta exatidão, clareza e precisão, que nenhuma obra é mais própria para instruir os povos na fé cristã». Na sua encíclica de 1897 sobre o Bem-aventurado, Leão XIII louvou igualmente «esta obra densa e comprimida, escrita num belo latim e de uma forma que não é indigna dos Padres da Igreja», densum opus ac pressum, nitore latino excellens, Ecclesiæ Patrum stylo non indignum.

2° Summa doctrine christianæ, per questiones tradita, et ad captum rudiorum accommodata. — Edição princeps do menor, minimus, dos três catecismos, impresso primeiramente na sequência dos Principia grammatices de Canisius, Ingolstadt, 1556. Epist., t. 1, p. 592. Foi traduzido quase imediatamente para alemão, e publicado, provavelmente em Ingolstadt e no ano seguinte, sob este título: Catechismus oder die Summa Christlicher Leer für die ainfeltigen in fragstuck gestellet. Ibid., p. 640 sq.; t. II, p. 885 sq. É do mesmo que se trata nas edições dos Centuriadores.

Em 1571 surgiu o primeiro volume desta grande obra sobre as alterações da palavra divina, De corruptelis verbi Dei, volume cujo objeto especial é São João Batista. Diversos impedimentos retardaram a composição do segundo: a nomeação do Bem-Aventurado como pregador do arquiduque Fernando em Innsbruck; uma missão junto ao duque da Baviera e outros príncipes, da qual foi incumbido por Gregório XIII no início de 1573; uma viagem a Roma na sequência desta missão, viagem de um alcance excepcional para o futuro da Alemanha católica, devido às medidas já assinaladas que o Papa tomou após as suas conversações com o cardeal Truchsess e Canísio.

De regresso a Innsbruck, este último partilhou a sua vida entre o trabalho da pregação e o da composição. Mas, em 1576, teve ainda de acompanhar o cardeal Morone à dieta de Ratisbona. Tendo o imperador Maximiliano falecido a 14 de outubro, a assembleia foi dissolvida e o Bem-Aventurado pôde dirigir-se a Ingolstadt, onde, após um trabalho obstinado, publicou finalmente, no verão de 1577, o segundo volume da sua obra, De Maria Virgine incomparabili. Tinha em projeto um terceiro volume, e até vários outros, mas teve de parar diante de uma oposição formal.

O obstáculo não veio de Roma, mas do P. Hoffée, cujos motivos estão claramente expressos numa carta ainda inédita de 29 de janeiro de 1578 ao P. Everard Mercurian: a tensão que o Bem-Aventurado dedicava ao trabalho e as pesquisas enormes que acarretava a preparação dos seus livros, repletos de referências e de citações, criavam um grave motivo de inquietação para a sua saúde; a necessidade que ele tinha de auxiliares e revisores para um trabalho que retocava indefinidamente e do qual nunca estava satisfeito, tornava-se um embaraço sério para o provincial; os inconvenientes seriam ainda maiores no volume que Canísio projetava, onde se trataria da Igreja e do Papa, matéria grave e difícil; seria mais útil empregar o Padre no ministério ativo e em publicações de propaganda em língua alemã do que nestas grandes obras doutrinais em língua latina.

Canísio foi dispensado do mandato que lhe tinha sido confiado por Pio V, e foi tomado por Hoffée como companheiro nas suas visitas e na administração da província, até ao momento em que partiu para a sua última etapa. Em 1580, o núncio Bonomio, bispo de Vercelli, visitou os cantões católicos da Suíça; pediu e obteve a fundação de um colégio em Friburgo. O Bem-Aventurado foi designado para executar este projeto.

7 Canísio na Suíça; velhice e morte, 1581-1597. — Chegado a Friburgo a 10 de dezembro de 1580, Canísio foi apresentado pelo núncio aos magistrados «como uma relíquia, um objeto sagrado» que eles deviam guardar com cuidado, «seguros de ter nele um apóstolo, um doutor, um pai totalmente devotado». E tal foi a realidade. Após ter passado a outro, em 1582, o cuidado do governo, o velho atleta consagrou-se doravante a uma vida toda de devotamento apostólico.

Durante oito anos, pregou ainda em alemão, aos domingos e festas, na catedral de São Nicolau. No decurso da semana, toda a sorte de obras sucediam-se: o catecismo às crianças, a instrução dos pobres e dos operários, a visita aos prisioneiros e aos doentes, etc. Em 1581 e 1582, fundou sob o vocábulo da T. S. Virgem duas congregações de homens e de mulheres, que foram afiliadas à Prima primaria de Roma. V. Alet, S. J., Le Bienheureux Canisius, Paris, 1865, p. 331, nota sobre a primeira instituição das congregações da T.S. Virgem e a parte que nela tomou Canísio. O apoio das autoridades eclesiásticas e civis permitiu-lhe reformar abusos inveterados e fundar, em 1587, escolas para o povo.

Não só houve preservação total da heresia, mas foi no cantão de Friburgo como um renascimento do catolicismo. Quando a doença forçou o Bem-Aventurado, em 1588, a não mais pregar, consagrou o resto das suas forças a este apostolado da pena que ele julgava tão frutífero; toda uma série de obras ou de opúsculos de piedade pertencem a esta época.

Personagens, como são Francisco de Sales, recorriam aos seus conselhos. O P. Aquaviva pediu-lhe que pusesse por escrito tudo o que a sua experiência lhe sugerisse de observações úteis aos operários da Companhia, para a sua própria santificação, a conversão dos heréticos e a boa formação dos alunos do Colégio Germânico; daí um memorial precioso, cujas grandes linhas Janssens resumiu, op. cit., t. v, p. 205 sq., e que será publicado integralmente nas Epistulae et acta.

Deu ainda ao prepósito do capítulo de Friburgo, por volta de 1589, excelentes observações sobre a maneira de estudar a teologia, De ratione studiorum theologicorum quedam notationes. Ver Pachtler, Ratio studiorum et institutiones scholastice Societatis Jesu per Germaniam olim vigentes, Berlin, 1887, t. III, p. 514.

Assim foi fecunda, como todo o resto da sua vida, a velhice de Canísio. Após quatro meses de grandes sofrimentos, morreu a 21 de dezembro de 1597. À sua memória ligou-se uma fama de santidade que os milagres obtidos por sua intercessão acreditaram. Assim, desde 1625 e nos anos seguintes, processos realizaram-se em Friburgo com vista à sua beatificação, mas a causa só foi introduzida em Roma muito mais tarde. Interrompida pela supressão da Companhia de Jesus e retomada sob Gregório XVI, terminou sob Pio IX que, a 24 de junho de 1864, deu a este grande servo de Deus o título de bem-aventurado. A sua festa celebra-se a 27 de abril.

O terceiro centenário da sua morte, celebrado em 1897 e consagrado por uma carta encíclica de Leão XIII, mostrou que sentimentos de veneração e de gratidão reinam no coração dos católicos da Alemanha, da Áustria e da Suíça por aquele que, nesta encíclica de 1 de agosto de 1897, Leão XIII nomeou alterum post Bonifacium Germaniae apostolum. Cf. Epist., t. II, préf., p. v.

I. DOCUMENTS.

1° Epistulae et acta, compreendendo as obras autobiográficas de Canísio, as suas cartas, reeditadas ou inéditas, e ricas citações de documentos contemporâneos.

2° Monumenta historica Soc. Jesu, em curso de publicação em Madrid desde 1894; encontram-se cartas e preciosos materiais relativos a Canísio em quase todos os volumes publicados. Ver os Indices, na palavra Canisius ou Kanys: Chronicon Soc. Jesu, do P. Polanco, t. I-VI, de 1491 a 1556; Litterae quadrimestres, t. I-IV, de 1546 a 1556; Epistolae mixtae, t. I-V, de 1537 a 1556; Epistolae P. Hieronymi Nadal, t. I-III, de 1546 a 1577; Monumenta pedagogica- Monumenta Ignatiana; Epistolae PP. Paschasii Broëti, Claudii Jaji, etc., p. 334-374, passim.

3° Cartas numerosas de Canísio ou relativas a Canísio nas obras seguintes: J. Hansen, Rheinische Akten zur Geschichte des Jesuitenordens, 1542-1582, in-8°, Bonn, 1896; E. S. Cyprian, Tabularium Ecclesiae Romanae saeculi XVI, in-4°, Francfort et Leipzig, 1743; Stanislai Hosii S. R. E. cardinalis... et quae ad eum scriptae sunt epistolae, Cracovie, 1879, 1886, t. I, III. Para as cartas disseminadas em diversos livros, ver Sommervogel, Bibliothèque, t. II, col. 683; t. VII, col. 1498.

4° Obras gerais: Historia Societatis Jesu, pelos PP. Orlandini, Sacchini e Possine, Roma, 1615, etc., part. I-V; J. Agricola, S. J., Historia provinciae Soc. Jesu Germaniae Superioris, t. 1, 1; F. Reiffenberg, S. J., Historia Soc. Jesu ad Rhenum inferiorem, Colônia, 1764, t. 1; A. Socher, S. J., Historia provinciae Austriæ Soc. Jesu, Viena, 1740, part. I; J. Schmidt, S. J., Historia Soc. Jesu provinciae Bohemiae, Praga, 1747, part. 1; Imago primi seculi Soc. Jesu, Antuérpia, 1640, p. 861 e seg., 915 e seg.; M. Tanner, S. J., Societas Jesu apostolorum imitatrix, Praga, 1694, part. I, II.

OBRAS ESPECIAIS, a consultar para o estudo dos diversos períodos da vida de Canísio: L. Ennen, Neuere Geschichte der Stadt Köln, Colônia, 1875, t. 1; C. Warrentrap, Hermann von Wied und sein Reformationsversuch in Köln, in-8°, Leipzig, 1878; L. Delplace, S. J., L’établissement de la Compagnie de Jésus dans les Pays-Bas, in-8°, Bruxelas, 1897; J. N. Mederer, Annales Ingolstadiensis Academiae, Ingolstadt, 1872, t. I, p. 208 e seg.; C. H. Verdière, S. J., Histoire de l'université d’Ingolstadt, 2 in-8°, Paris, 1887; J. Aschbach, Die Wiener Universität und ihre Gelehrten (t. III de Geschichte der Wiener Universität), in-8°, Viena, 1888, p. 90 e seg., 145 e seg.; R. Perkmann, Zur Geschichte der Wiener Universität, in-8°, Leipzig, 1865, p. 88 e seg.; A. Wappler, Geschichte der theologischen Facultät der K. K. Universität zu Wien, in-8°, Viena, 1884; J. B. von Bucholtz, Geschichte der Regierung Ferdinand des Ersten, Viena, 1838, t. VI, X; Th. Wiedemann, Geschichte der Reformation und Gegenreformation im Lande unter der Enns, in-8°, Praga, 1879, 1880, t. 1, 11; P. Braun, Geschichte der Bischöfe von Augsburg, Augsburgo, 1814, t. 1; A. Steichele, Archiv für die Geschichte des Bisthums Augsburg, Augsburgo, 1859, t. 1; Th. Sickel, Zur Geschichte des Concils von Trient, in-8°, Viena, 1872; A. Eichhorn, Der ermländische Bischof und Cardinal Stanislas Hosius, 2 in-8°, Mogúncia, 1854, 1855; M. Rader, S. J., Bavaria pia, in-fol., Munique, 1628, p. 142 e seg.; F. J. Lipowsky, Geschichte der Jesuiten in Baiern, in-8°, Munique, 1816; Id., Geschichte der Jesuitenin Tyrol, in-8°, Munique, 1822; L. Rapp, Königin Magdalena von Österreich, Stiftering des königl. Stiftes zu Hall in Tirol, in-8°, Innsbruck, 1858, contém as regras dadas, por volta de 1566, por Canísio à comunidade de Hall; J. Hirn, Erzherzog Ferdinand II von Tirol. Geschichte seiner Regierung und seiner Länder, Innsbruck, 1885, t. 1; H. Murer, Helvetia sancta, in-fol., Saint-Gall, 1750; P. C. Bovet, franciscano, Le B. Pierre Canisius et le canton de Fribourg, Friburgo, 1865; Revue de la Suisse catholique, 1894, t. XXII, p. 361 e seg.: Le B. Pierre Canisius et l'université de Fribourg, por D. Jacquier; 1894, t. XXV, p. 304 e seg., 361 e seg., sete cartas do núncio J. F. Bonomio ao Bem-Aventurado, de 1581 a 1584, publicadas pelo P. J.-J. Berthier, O. P.

III. BIOGRAFIAS E ESTUDOS BIOGRÁFICOS.

1° Biografias principais ou fundamentais: M. Rader, S. J., De vita Petri Canisii, in-12, Munique, 1614, a mais antiga, mas pouco desenvolvida; F. Sacchini, S.

J., De vita et rebus gestis Petri Canisii, in-4°, Ingolstadt, 1616; J. Dorigny, S. J., La vie du B. Pierre Canisius, in-12, Paris, 1707; J. Boero, S. J., Vita del Beato Pietro Canisio, in-8°, Roma, 1864; F. Riess, S. J., Der selige Petrus Canisius, in-8°, Friburgo, 1865; A. Kriss, S. J., Der selige Petrus Canisius in Österreich, in-8°, Viena, 1878. Estes três últimos biógrafos utilizaram novas fontes e enriqueceram muito a vida de Canísio.

2° Biografias subsidiárias, que se ligam às precedentes como traduções ou como adaptações, com mais ou menos adições: F. Juligatti, S. J., Vita del P. Pietro Canisio, in-8°, Roma, 1649, abreviado de Rader; Leben des Ehrwürdigen P. Petri Canisii, in-4°, Dillingen, 1621, trad. de Rader e de Sacchini; F. de Smidt, Leven van R. P. Petrus Canisius, Antuérpia, 1652, extraída de Sacchini; Longaro degli Oddi, Vita del Venerabil servo di Dio il Padre Pietro Canisio, in-4°, Nápoles, 1755, tradução livre de Sacchini; P. Python, S. J., Vita R. P. Petri Canisii, in-8°, Munique, 1740, tradução latina de Dorigny; Leven van den Eerweerden Vader Petrus Canisius, in-8°, St. Nicolaes, 1830, tradução flamenga do mesmo; D. Schelkle, Lebensgeschichte des Ehrwürdigen Vaters P. Canisius, 2 in-12, Viena, 1837, tradução alemã do mesmo; E. Seguin, S. J., Vie du B. Pierre Canisius, in-12, Paris, 1864, inspira-se em Dorigny e em Boero; R. Garcia, S. J., Vida del Beato Pedro Canisio, in-12, Madri, 1865; Daurignac, Histoire du B. Pierre Canisius, in-12, Paris, 1866, adaptação de Boero; L. Michel, S. J., Vie du B. Pierre Canisius, apôtre de l'Allemagne et de Fribourg, d’après le P. J. Boero et des documents inédits, in-4°, Lille, 1897; E. Marcour, Der selige Petrus Canisius, der erste deutsche Jesuit und zweiter Apostel Deutschlands, in-8°, Friburgo em Brisgóvia, 1881, biografia popular que se apoia em Riess.

3° Notícias biográficas muito numerosas, mas que não são, em geral, senão vulgarizações das principais vidas do Bem-Aventurado; algumas merecem, todavia, uma menção especial: P. d’Outreman, S. J., La vie du Vén. P. Pierre Canisius, composta em espanhol pelo R. P. Jean Eusèbe Nieremberg, in-8°, Douai, 1642; J. Jouvancy, S. J., De vita B. Petri Canisii... commentarius, in-16, Roma, 1864, tradução francesa pelo P. Deynoodt sob o título de Esquisse biographique du Vén. serviteur de Dieu Pierre Canisius, in-12, Bruxelas, 1865; H. Raemy de Bertigny, S. J., Le B. Pierre Canisius... fondateur du collège de Fribourg, in-16, Friburgo, 1865; P. C. Bovet, Vie et apostolat du B. Pierre Canisius, 2ª edição, Friburgo, 1881; J. B. Mohler, Der selige Petrus Canisius, ein deutscher Glaubensheld, in-16, Ratisbona, 1896; A. Knoëppel, Der selige Canisius, zweiter Apostel Deutschlands, in-16, Mogúncia, 1897, volume da coleção Lebensbilder katholischer Erzieher, editada por W. E. Hubert.

II. Escritos. — Canísio deixou numerosos escritos, mas nem todos possuem a mesma importância nem o mesmo caráter. Em primeiro lugar, colocam-se as obras doutrinais, que estabeleceram a reputação teológica do Bem-Aventurado. Vêm em seguida as publicações de edificação ou de propaganda religiosa, que secundaram a sua ação apostólica ou a propagaram. Sob um terceiro agrupamento, muito artificial, classificar-se-ão as obras das quais Canísio foi apenas editor ou tradutor. Sob um quarto, os escritos autobiográficos e algumas peças inéditas que merecem ser assinaladas. As brochuras de circunstância já citadas não serão recordadas.

I. OBRAS DOUTRINAIS. — São os catecismos, a grande obra contra os Centuriadores e, em certa medida, as notas sobre os Evangelhos.

1° Summa doctrinæ christianæ. Per questiones tradita, et in usum christianæ pueritiæ nunc primum edita. Jussu et authoritate sacratissimæ Rom. Hung. Bohem. etc. Regiæ Majest. Archiducis Austriæ, etc. Uma tradução alemã surgiu em Viena logo em 1556. Epist., t. 1, p. 537, 641. Em 1566, o Bem-aventurado publicou uma nova edição, consideravelmente aumentada e impressa em Colônia sob este título: Summa doctrinæ christianæ, per questiones luculenter conscripta. Esta Summa é o maior dos três catecismos que Canisius compôs sucessivamente, aquele que, em um fragmento autógrafo, ele chama de major, em oposição aos dois outros, minor e minimus. Epist., t. 1, p. 69. A 1ª edição surgiu em Viena, sem nome de autor e sem data. Um edito de Fernando I, de 14 de agosto de 1554, que se lê no início do livro, tinha feito com que a publicação fosse remetida a esse mesmo ano, mas o P. Braunsberger, Entstehung und erste Entwicklung der Catechismen des seligen Petrus Canisius, p. 27 sq., estabeleceu que a Summa não surgiu na realidade senão no mês de maio de 1555. Ponto que deu lugar a uma discussão entre o Dr. Fijalek e o P. Kneller, S. J., no Historisches Jahrbuch de Munique, 1896, 1897, t. xv, p. 804 sq.; t. xvii, p. 632 sq. A obra respondia ao desejo expresso pelo rei Fernando de ter uma boa exposição da doutrina católica que se pudesse opor aos numerosos manuais de religião que os protestantes faziam circular em seus Estados. Decidiu-se dividir a tarefa em três partes, que compreenderiam uma soma teológica para a juventude acadêmica, um manual de pastoral para o clero e um catecismo para o povo. Diversos obstáculos detiveram aqueles que tinham sido encarregados das duas primeiras partes; a última foi a única levada a bom termo por Canisius. Muito satisfeito com o resultado, Fernando tomou a publicação sob seu patrocínio e providenciou a sua difusão com todo o seu poder. Propôs até mesmo o catecismo do Bem-aventurado ao concílio de Trento como um daqueles cujo uso seria bom prescrever aos párocos e nas escolas. Os Padres de Trento decidiram, de fato, a redação de um catecismo; mas o de Canisius não foi então nem aprovado nem desaprovado. Epist., t. III, p. 729, 782 sq. A sanção de Roma deveria vir a seu tempo. No breve de beatificação, Pio IX fez o elogio deste pequeno livro «composto com tanta exatidão, clareza e precisão, que nenhuma obra é mais própria para instruir os povos na fé cristã». Em sua encíclica de 1897 sobre o Bem-aventurado, Leão XIII louvou igualmente «esta obra densa e concisa, escrita em um belo latim e de uma forma que não é indigna dos Padres da Igreja», densum opus ac pressum, nitore latino excellens, Ecclesiæ Patrum stylo non indignum.

2° Summa doctrinæ christianæ, per questiones tradita, et ad captum rudiorum accommodata.

— Edição princeps do mais pequeno, minimus, dos três catecismos, impresso primeiro na sequência dos Principia grammatices de Canisius, Ingolstadt, 1556. Epist., t. 1, p. 592. Foi traduzido quase imediatamente para o alemão, e publicado, provavelmente em Ingolstadt e no ano seguinte, sob este título: Catechismus oder die Summa Christlicher Leer für die ainfeltigen in fragstuck gestellet. Ibid., p. 640 sq.; t, I, p. 885 sq. É do mesmo que se trata nas edições seguintes, surgidas em Dillingen: Der klain Catechismus sampt kurtzen gebetten für die ainfiltigen, 1558; Catechismus in Frag und Antwort gestellt für die gemeine Leyen und Kinder, 1568; Kleiner Catechismus Petri Canisii, 1598.

3° Parvus catechismus catholicorum, sem nome de autor, Colônia, 1558. Epist., t. 1, p. 890 sq. É o catecismo médio ou minor, no sentido acima indicado. Edições posteriores trazem títulos diferentes, por exemplo as duas seguintes, que são de Antuérpia: Catechismus catholicus juventuti formandæ hoc seculo quam maxime necessarius, 1559; Institutiones christianæ pietatis, 1566. Como os outros dois catecismos, foi rapidamente traduzido para o alemão, a primeira vez, parece, em 1560, em Dillingen. Ibid., p. 898 sq.

Canisius fez, portanto, aparecer três catecismos, todos em latim primeiro, depois em alemão. Mas estes três livros não constituem na realidade senão uma única e mesma obra; eles não contêm senão uma única e mesma doutrina, apresentada com mais ou menos desenvolvimentos e adaptada às diversas classes de fiéis que o Bem-aventurado tinha em vista. O pequeno catecismo, minimus, era para as crianças que iniciam e para as pessoas sem instrução; ele formava como que o par do pequeno catecismo de Lutero. A Summa primitiva correspondia ao grande catecismo do heresiarca; ela era destinada às universidades e, nos colégios, às classes superiores. Termo médio, o Catechismus parvus catholicorum dirigia-se aos estudantes das classes inferiores e aos jovens de mesmo alcance.

Aos três catecismos de Canisius convém adicionar a obra que compôs e publicou o P. Pierre Busée ou Buys, primeiro sob este título: Authoritatum sacræ Scripturæ et sanctorum Patrum, quæ in Summa doctrinæ christianæ D. Petri Canisii, theologi Societatis Jesu citantur, in-4°, Colônia, 1569 sq.; depois sob este outro título, mais conhecido: Opus catechisticum, sive de Summa doctrine christiane D. Petri Canisii, theologi Societatis Jesu, preclaris divine Scripture testimoniis, sanctorumque Patrum sententiis sedulo illustratum, in-fol., Colônia, 1577, etc. A obra, sem ser de Canisius ele mesmo, completa sua obra e não difere dela quanto ao fundo, uma vez que o Opus catechisticum não é outra coisa senão o grande catecismo do Bem-aventurado, mas com o texto integral das referências que a 2ª edição trazia à margem, isto é, cerca de duas mil citações escriturísticas e doze mil passagens de Padres. Chamou-se por vezes esta obra o catecismo dos teólogos; é o principal desses numerosos comentários que tiveram por objeto a Summa de Canisius. Foi traduzida para o francês pelo abade A.-C. Peltier, sob este título que pode parecer equívoco: Le grand catéchisme de Canisius, ou précis de la doctrine chrétienne, appuyé de témoignages nombreux de l’Ecriture et des Pères, in-8°, Paris, 1856, etc. Ver col. 1265-1266.

Canisius reduz a doutrina cristã às duas ideias gerais de sabedoria e de justiça. Eccli., 1, 33. Quatro capítulos desenvolvem a primeira ideia: da fé e do símbolo; da esperança e da oração dominical; da caridade e do decálogo, ao qual se vinculam os preceitos da Igreja e a Igreja ela mesma; dos sacramentos. O c. v refere-se à justiça cristã, que consiste em fugir do mal e em fazer o bem; o que leva o autor a tratar primeiro do pecado, depois das boas obras, das virtudes, dos dons e frutos do Espírito Santo, dos conselhos evangélicos. O tudo coroado pela doutrina dos quatro fins últimos. De um extremo ao outro do livro, Jesus Cristo aparece como o começo, o princípio e o termo da nossa justificação. O que não impediu os teólogos protestantes de gritar bem alto que a justiça ensinada no catecismo do jesuíta era uma justiça pagã e que os méritos do Salvador eram aniquilados. Por isso, o Bem-aventurado empenhou-se, na edição de 1566, em colocar ainda CANISIUS com mais vigor e mais frequência em relevo a eficácia do sangue de Jesus Cristo e a necessidade absoluta da graça. Acrescentou, além disso, sob a forma de apêndice, a doutrina do concílio de Trento sobre a queda e a justificação do homem.

O método geral do qual Canisius se serve é conhecido: ele procede por perguntas e respostas, muito mais numerosas no grande catecismo do que no médio e, sobretudo, no pequeno. O grande catecismo contém, com efeito, 211 na 1ª edição e 222 na edição de 1566; o médio, 122; o pequeno, apenas 59. As perguntas são muito curtas; as respostas, mais desenvolvidas, por vezes bastante longas na Summa; algumas chegam a atingir quatro ou cinco páginas, e mesmo mais. O caso apresenta-se sobretudo quando o autor se encontra em presença de dogmas rejeitados pelos hereges do seu tempo; ele esforça-se então por estabelecê-los bem e explicá-los sob a dupla luz das sagradas Escrituras e dos antigos Padres. Mas ele evita todo ataque direto, e isso por princípio; pois estava convencido de que, limitando-se a expor simplesmente a doutrina católica, obteria resultados bem maiores e melhores do que por meio de discussões e polêmicas.

Assim, o que impressiona no seu pequeno livro não é apenas a nitidez do plano e da exposição, a riqueza da doutrina aliada à concisão do estilo, o sabor escriturístico e patrístico; é também essa bela serenidade no ensino, que merece tanto mais ser notada quanto mais contrasta com o tom de polêmica amarga a que os seus adversários luteranos eram habituados. O sucesso foi extraordinário. «Nenhuma obra talvez, a Bíblia excetuada, teve mais reimpressões e traduções em todas as línguas da Europa», disse um autor protestante, P. Rouffet, artigo sobre Canisius, na Encyclopédie des sciences religieuses, Paris, 1878, t. 11, p. 376. Contam-se, com efeito, em menos de um século e meio, quatrocentas edições; Rader já podia dizer, em 1615, que este livro tinha sido traduzido para alemão, eslavo, italiano, francês, espanhol, polaco, grego, boêmio, inglês, etíope, indiano e japonês. Os frutos foram proporcionais à difusão.

«Durante três séculos, Canisius foi considerado o mestre dos católicos alemães e, na linguagem popular, conhecer Canisius e conservar a verdade cristã eram duas locuções sinônimas.» Assim fala Leão XIII na sua encíclica de 1897. Todos os escritores protestantes, que estudaram a questão a frio, reconhecem tanto o valor real do livro quanto a influência que ele exerceu; vários não hesitaram em dizer que o catecismo de Canisius foi a sua arma mais eficaz na obra da contrarreforma religiosa que ele provocou e dirigiu. Ver, por exemplo, P. Drews, op. cit., p. 45; G. Krüger, Petrus Canisius in Geschichte und Legende, Giessen, 1898, p. 10 sq.; Benrath, art. Canisius, na Realencyklopädie für protest. Theologie und Kirche, 3ª ed., Leipzig, 1897, t. III, p. 709. Cf. no mesmo sentido, Epistule et acta, t. 1, pref., p. XVIII sq.

4° Commentariorum de verbi Dei corruptelis liber primus : in quo de sanctissimi precursoris Domini Joannis Baptiste historia evangelica, cum adversus alios hujus temporis sectarios, tum contra novos ecclesiastice historie consarcinatores sive Centuriatores: pertractatur, in-4°, Dillingen, 1571, depois 1572.

5° De Maria Virgine incomparabili, et Dei Genitrice sacrosancta, libri quinque : atque hic secundus liber est Commentariorum de verbi Dei corruptelis, adversus novos et veteres sectariorum errores nunc primum editus, in-fol., Ingolstadt, 1577. — Inserido na Summa aurea de laudibus beatissime virginis Marie, Paris, 1862, t. vii, col. 613 sq.; t. IX, col. 9 sq. As duas obras foram reunidas depois num só volume, sob este título: Commentariorum de verbi Dei corruptelis tomi duo. Prior de venerando Christi Domini precursore Joanne Baptista, posterior de sacrosancta Virgine Maria Deipara disserit, et utriusque personae historiam omnem adversus Centuriatores Magdeburgicos aliosque catholice Ecclesiae hostes diserte vindicat, in-fol., Ingolstadt, 1583; Paris e Lyon, 1584.

Os Centuriadores de Magdeburgo tinham atacado a Igreja romana não apenas no terreno do dogma e da disciplina, mas ainda no da história, desnaturando muitos fatos em proveito das novas doutrinas. Canisius não empreendeu segui-los no terreno histórico; esse foi o trabalho do cardeal Baronius; ele quis apenas opor aos erros mais fundamentais dos teólogos luteranos uma justificação das crenças e dos usos católicos tirada da sagrada Escritura e da história evangélica. E daí vem o que há de característico no seu plano geral, a saber: ater-se aos personagens que tiveram mais relação com Nosso Senhor, e agrupar em torno deles uma parte das verdades que os inovadores rejeitavam.

Assim, em São João Batista personificar-se-ia, de certa forma, a concepção católica da penitência e da justificação. À Virgem Maria, considerada sob a luz das sagradas Escrituras e da antiga tradição, ligar-se-iam as doutrinas da Igreja romana sobre a virgindade, o celibato, o culto dos santos e a divindade mesma de Jesus Cristo. Com São Pedro, seria a noção mesma da Igreja católica e a primazia do seu chefe que apareceriam. Viriam depois, numa quarta parte, o apóstolo dos gentios e, numa quinta, os apóstolos São João e São Tiago. Tal era, pelo menos, o plano primitivo de Canisius, segundo um volume manuscrito que se conserva na biblioteca do liceu de Dillingen. O Bem-aventurado não terminou nem publicou senão as duas primeiras partes.

Na obra sobre São João Batista, ele segue invariavelmente um método que o prefácio do 1° livro dá a conhecer. Todas as vezes que começa um capítulo, ele enuncia um ou vários textos evangélicos que se referem ao santo precursor, por exemplo Luc., I, 41, 80, onde se trata da sua infância e da sua santificação; Matth., III, 4, onde se trata da sua vida no deserto. Segue-se o comentário dos Centuriadores citado textualmente. Depois vem a Censura, isto é, a discussão, onde o Bem-aventurado ataca os erros desses teólogos luteranos, bem como todos aqueles que deles decorrem ou que deles se aproximam. O método não é isento de inconvenientes para o curso da narrativa, que se encontra retardado, e para o desenvolvimento das provas, por vezes interrompido; mas responde ao objetivo apologético do autor.

Um número muito grande de questões debatidas entre católicos e protestantes intervém, desta forma, nos catorze capítulos que compõem o volume: a santificação dos adultos e das crianças, a vida eremítica e monástica, o jejum e a abstinência, as relações entre a lei antiga e a nova, o batismo de São João e o de Jesus Cristo, a missão do santo precursor e a sua dignidade, as boas obras, meritórias ou satisfatórias, a noção da justiça cristã e da fé. A obra termina com a refutação das objeções levantadas pelos inovadores contra a sepultura, as relíquias, os milagres e a invocação de São João Batista. Todas estas questões são tratadas com uma amplitude digna do assunto. O Bem-aventurado demonstra ali constantemente qualidades sólidas e apropriadas à sua tarefa: íntima familiaridade com a Sagrada Escritura; vasta erudição patrística e teológica; grande conhecimento da literatura protestante. Por isso, a obra mereceu os sufrágios de juízes tais como Salmeron e Stanislas Hosius. O Papa São Pio V ficou satisfeito e fê-lo saber ao autor.

No outro volume, De Maria Virgine incomparabili, Canisius, levando em conta conselhos recebidos, dividiu mais o seu assunto e absteve-se de colocar no cabeçalho dos capítulos os textos da Sagrada Escritura que deveriam sustentar a sua doutrina e os dos heréticos que tinha de combater. A obra encerra cinco livros e cento e doze capítulos. O Bem-aventurado trata primeiro do nome de Maria, dos seus pais, da sua conceição imaculada que defende, c. V-VIII, com tanta solidez quanto decisão, do seu nascimento, da sua educação e da admirável vida que levou até à Anunciação. O II livro é consagrado inteiramente à perpétua virgindade de Maria; São José não é esquecido ali, c. XI. O autor explica em seguida a saudação angélica, e estabelece largamente a maternidade divina de Maria. No IV livro, ele discute os textos dos quais os inovadores abusavam para rebaixar a Mãe de Deus; nesta ocasião, ele desenvolve felizmente a antítese tradicional da primeira e da segunda Eva, c. XVI: De Maria et Eva justa collatione, sicut veteres illam tradiderunt. O V livro tem por objeto os últimos anos da Virgem, a sua morte e a sua entrada triunfante no céu; termina com uma história apologética do culto que sempre se prestou na Igreja à augusta Mãe de Deus.

O Bem-aventurado defende os epítetos, incompreendidos pelos protestantes, pelos quais a piedade cristã honra Maria, em particular o de medianeira, c. XII. Mas ele sabe também temer o abuso, e distingue nitidamente a devoção sã e católica da cega superstição ou das práticas idolátricas; para se convencer disso, basta ler a última parte do c. XV.

Entre os teólogos de uma ordem onde se escreveu muito em honra da Mãe de Deus, Canisius é o primeiro que tratou da mariologia num corpo de doutrina tão bem coordenado quanto largamente construído, onde se encontra reunido tudo o que até então tinha sido dito em louvor da Virgem. Ele refuta ali, seja à parte, seja em grupos, mais de cem adversários de Maria; ele evoca a seu favor mais de noventa Padres e doutores ortodoxos dos oito primeiros séculos; para os tempos posteriores, põe a contribuição os trabalhos de cerca de cento e dez escritores. Por isso, não causa espanto que, numa carta endereçada de Roma ao Bem-aventurado em 25 de janeiro de 1578, o cardeal Hosius o tenha felicitado por se ter colocado, pelo seu Opus Marianum, no número daqueles que mais honraram a santíssima Virgem, ut vix quisquam sit a quo magis fuerit illustrata. Mas seria excessivo acrescentar que «é impossível desejar algo mais»: para citar apenas um ponto, a erudição de Canisius, notável, contudo, para a sua época, não escaparia, sob o aspecto da crítica, aos rigores de uma ciência mais bem informada e mais exercitada. A obra não deixa de ser um belo monumento erguido em honra da Mãe de Deus, e é com razão que um teólogo recente a chamou «uma apologia clássica de toda a doutrina católica sobre Maria». Scheeben, Handbuch der katholischen Dogmatik, Friburgo em Brisgóvia, 1882, t. II, p. 478.

Ao que se pode acrescentar que Canisius, doutor da Virgem, foi também durante toda a sua vida o apóstolo incansável do seu culto. Ver no relatório alemão do Congresso mariano de Friburgo, 1903, p. 355 ss., um estudo especial do P. Braunsberger: Der selige Petrus Canisius. Seine Arbeiten für die Verteidigung des Cultus der seligsten Jungfrau im xvi Jahrhundert.

6° Notæ in evangelicas lectiones, quæ per totum annum dominicis diebus in Ecclesia catholica recitantur, 2 in-4°, um De dominicis, o outro De festis, Friburgo, 1591, 1593. — Numerosas reimpressões, e várias traduções alemãs, das quais a última e principal é a do Dr. Haid: Petri Canisii Homilien oder Bemerkungen über die evangelischen Lesungen, etc., 5 in-8°, Augsburgo, 1844 ss. Sob este título modesto de Notas sobre o Evangelho, Canisius escondeu o fruto principal da sua laboriosa velhice. Quando a doença o impediu de subir ao púlpito, ele pensou, por conselho dos seus amigos, em rever os sermões que tinha pregado, mas em vez de os publicar simplesmente, achou preferível extrair a substância, a fim de ser mais útil ao clero paroquial e aos missionários. Epist., t. II, pref., p. LIV. Fora do texto mesmo das Epístolas e dos Evangelhos, a obra contém resumos sucintos e paráfrases ou desenvolvimentos que lembram a homilia; daí o título de Homilien de que se serviu o Dr. Haid na sua edição. Ainda agora as Note in evangelicas lectiones podem ser de real auxílio para a pregação pastoral, ao juízo do Dr. Keppler, Beiträge zur Entwicklungsgeschichte der Predigtanlage, na Theologische Quartalschrift, Tubinga, 1892, p. 99. Cf. Riess, Der selige Petrus Canisius, Friburgo, 1865, p. 485 ss. O Bem-aventurado tinha preparado uma 2ª edição que permaneceu manuscrita. Sommervogel, Bibliothèque, t. I, col. 684.

II. OBRAS DE EDIFICAÇÃO E DE PROPAGANDA RELIGIOSA. — Todos estes escritos, em si mesmos secundários, têm, todavia, o seu lugar marcado no apostolado de Canisius, na influência que exerceu sobre os católicos do seu tempo e posteriores. Por este lado, o Bem-aventurado aproxima-se dos doutores da Igreja, que não foram apenas teólogos de alta envergadura, mas também escritores populares como São Francisco de Sales e Santo Afonso de Ligório. As obras serão dadas por ordem cronológica de publicação.

1° De consolandis ægrotis, præsertim ubi de vitæ periculo agitur, in usum sacerdotum et ministrorum, qui circa ægros versantur in hospitali Regio Viennæ Austriæ salutaris formula, in-4°, Viena, 1554. — O título da obra indica suficientemente a sua natureza. O prefácio é de Canisius. É ele o autor de todo o livro? Muitos o afirmam; em todo caso, ele teve uma grande participação. Epist., t. I, p. 748.

2° Lectiones et precationes ecclesiasticæ. Opus novum et frugiferum plane, in usum scholarum catholicarum, omniumque pietatis vere studiosorum, in-8, Ingolstadt, 1556 e 1557. — Manual de piedade para os estudantes. Contém as epístolas e os evangelhos dos domingos e das festas, com um breve sumário que ajuda a compreendê-los, depois as orações ordinárias do cristão e diversos trechos retirados dos livros litúrgicos, coletas, hinos, antífonas, etc. Epist., t. I, p. 592; cf. as cartas

3° Betbuch, Dillingen, 1560. — Pequeno livro de orações que foi primeiramente impresso com a 4ª edição alemã do Parvus catechismus catholicorum, e talvez desde então publicado separadamente. Foi frequentemente reimpresso sob o mesmo título, ou os de Betbüchlein, Catholisch Betbüchlein, etc. Belo conjunto de orações onde a ingenuidade e a ternura se unem à doutrina e à unção, e que se chamou muito acertadamente de "uma flor póstuma da mística alemã da Idade Média". Agradou singularmente ao imperador Fernando, que pediu uma tradução latina de verbo ad verbum; mas não se conhece nenhum exemplar seguro dessa tradução. Epist., t. I, p. 766, 898 sq.; t. III, p. 784.

4° Selectæ preces, publicado entre 1558 e 1562. — Escolha de orações latinas mencionadas em uma carta dirigida ao Bem-aventurado pelo cardeal Hosius, em 10 de fevereiro de 1562, selectas preces quas edi curasti. No concílio de Trento, os legados pontificais fizeram recitar publicamente extratos delas com as ladainhas da quaresma. Epist., t. II, p. 375, 785. Biógrafos de Canísio, como os PP. Sacchini e Boero, viram nessas orações a tradução latina do Betbuch, mas essa identificação não é de forma alguma certa. Em uma nota bem documentada, Zeitschrift für katholische Theologie, Innsbruck, 1902, p. 574 sq., o Dr. N. Paulus mostrou que as orações recitadas no concílio se vinculam ao livro seguinte, do qual Canísio teria sido o editor: Preces speciales pro salute populi christiani, ex sacra Scriptura et Ecclesiæ usu a Reverendiss. patre D. Petro a Soto CANISIO pro collegialibus collectæ.

Quibus addita est letania Loretana, cum devotissimis vocalibus et mentalibus orationibus lingua germanica pro invocanda gratia divina, contra imminentia pericula compositis, Dillinge..., anno 1558. O autor da nota conclui, a partir deste fato, que se deve ao Bem-aventurado a introdução na Alemanha das ladainhas de Loreto. Notemos aqui o hábito frequente em Canísio de inserir após suas obras, sobretudo seus catecismos, orações ou outros exercícios de piedade. Assim, o Catechismus catholicus, impresso em Antuérpia em 1561, contém este apêndice: Preces horariæ de externa Dei sapientia Jesu Christo Domino nostro, cum piis quibusdam et christianis exercitationibus. Epist., t. II, p. 721, 778.

Entre esses piedosos exercícios encontravam-se sete meditações sobre as virtudes de Jesus Cristo, cuja leitura contribuiu em parte para a entrada de São Luís de Gonzaga na Companhia de Jesus. J. Agricola, S. J., Historia provinciæ Societatis Jesu Germaniæ Superioris, Augsbourg, 1729, t. II, p. 221 sq.; Acta sanctorum, Antuérpia, 1707, junii t. IV, p. 897.

5° Institutiones et exercitamenta christianæ pietatis, in-16, Antuérpia, 1566. Cerca de quinze outras edições. — Este volume encerra o Parvus catechismus, uma escolha de textos escriturísticos que é bom ter sempre à mão para responder aos hereges, três sentenças notáveis de Santo Agostinho, depois as Lectiones et precationes de que se falou no n. 2, — Reimpresso sob diversos títulos, especialmente sob o de Palestra hominis catholici, in-12, Douai, 1599.

6° Beicht und Communion Büchlein, in-16, Dillingen, 1567. — Opúsculo de instrução catequética sobre a maneira de se preparar para a recepção dos sacramentos da penitência e da eucaristia, frequentemente reimpresso com o pequeno catecismo, ou separadamente sob títulos um pouco modificados.

7° Christenliche und wolgegründte Predig von den vier Sontagen im Advent, auch von den heiligen Christag, in-4°, Dillingen, 1569, 1570; Ingolstadt, 1592, 1594. — Coletânea de sermões sobre os evangelhos dos domingos do Advento e das festas de Natal, onde o Bem-aventurado fala das quatro vindas de Cristo.

8° Epistolæ et Evangelia quæ dominicis et festis diebus de more catholico in templis recitantur, in-16, Dillingen, 1570; depois cerca de quinze edições em latim, e uma dezena em alemão. — Esta obra não é, a rigor, senão uma reprodução parcial ou uma edição abreviada das Lectiones ecclesiasticæ (n. 2). Na 1ª edição, os Evangelhos eram seguidos pelo Parvus catechismus.

9° Zwei und neunzig Beobachtungen und Gebett des gottseligen Einsiedlers Bruder Clausen von Unterwalden, sampt seinen Lehren, Sprüchen und Weissagungen, von seinen thun und wesen, in-4°, Friburgo, 1586. — Meditações, orações, ensinamentos, máximas e predições do Bem-aventurado Nicolau de Flue, chamado pelos suíços de irmão Colas de Unterwald. O volume foi reimpresso no ano seguinte em Ingolstadt, com a adição de uma notícia biográfica sobre os santos Beato e Meinrado.

10° Manuale catholicorum in usum piæ precandi, in-16, Friburgo e Ingolstadt, 1587. — Manual de oração, composto a pedido das religiosas de Hall no Tirol. Numerosas edições em diversos países. Traduções em alemão, Catholisch Handbüchlein, Gebetbuch für Katholiken; em francês, Le manuel des catholiques, Antuérpia, 1589, etc.; em flamengo, em inglês.

11° Die Wahrhaftige und gründliche Historie vom Leben und Sterben des hl. Einsiedlers und Martyres St. Meinradis, in-4°, Friburgo, 1587. — Biografia de São Meinrado, o fundador de Nossa Senhora dos Eremitas (Einsiedeln).

12° Wahrhaftige Historie von dem berühmten Abbt St. Fridolins und seinen wunderbarlichen Thaten, in-4°, Friburgo, 1589. — Biografia de São Fridolino, abade de Seckingen, primeiro missionário desta cidade e de Glaris.

13° Zwo wahrhafte, lustige, recht Christliche Historien... Die erste von dem Uralten Apostolischen Mann S. Beato ersten Prediger im Schweitzerland, die andere von dem berühmten Abbt S. Fridolino, in-4°, Friburgo, 1590. — Canísio reuniu neste volume duas das biografias precedentes: a de São Fridolino e a de São Beato, considerado pelas tradições suíças como o primeiro apóstolo da Helvétia e como um discípulo de São Barnabé.

14° Kurze Beschreibung der Gottseligen Frauen S. Yta, Gräfin von Kirchberg, in-8°, Friburgo, 1590; Constança, 1612. — Curta biografia de Santa Ida ou Yde, condessa de Kirchberg e de Tockembourg, na Suíça, célebre pela vida de reclusão que levou.

15° Wahrhaffte Christliche Historie von Sanct Moritzen... und seiner thebaischen Legion. Auch insonderheit von Sanct Urso... e de outros testemunhos de sangue tebanos de Cristo que sofreram na antiga cidade de Soleura, in-4°, Friburgo, 1594, — História de São Maurício e dos soldados da legião tebana que sofreram com ele o martírio perto de Martigny, no Valais; daqueles também que sofreram sua paixão com São Urso em Soleura. Canisius reimprimiu esta obra em 1596, com algumas adições e dando-lhe como primeiro título: Kriegsleut Spiegel, O espelho do soldado. Aos oficiais e aos soldados que guerreavam então contra os turcos, ele queria mostrar modelos, ao mesmo tempo que protetores, nos gloriosos mártires da legião tebana.

Todas as biografias que precedem, compostas de 1586 a 1596, referem-se a santos padroeiros da Suíça. Elas foram feitas, como observa justamente o P. Riess, op. cit., p. 488 sq., para a edificação dos fiéis simples, e não para os sábios. Lê-se em uma carta do Bem-aventurado, dirigida a um beneditino de Einsiedeln, em 4 de junho de 1588, o pensamento que as inspirou: «Gostaria que publicassem as biografias de todos os santos que trabalharam para salvar as almas, e em particular daqueles que mais se distinguiram por suas virtudes, a fim de que seus exemplos fossem mais conhecidos e mais amados, senão pelos heréticos, pelo menos pelos católicos... Prouvera a Deus que tivéssemos um bispo que tivesse no coração fazer pesquisar, nos diferentes conventos, o que foi dito e feito sobre os santos padroeiros da Suíça!» L. Michel, S. J., Vie du B. Pierre Canisius, Lille, 1897, p. 398.

16° Miserere. Das ist : Der 50 Psalm Davids, Gebetts- weiss... aussgelegt, in-12, Munique e Ingolstadt, 1594. — Exposição, sob forma de oração, do salmo Miserere, para excitar os cristãos piedosos à confiança, à penitência e à correção de sua vida.

17° Andachtige Betrachtungen auff alle Tage in den Wochen, in-16, Thierhaupten, 1595. — Piedosas meditações para todos os dias da semana.

Reimprimidas em Friburgo em 1607, sob este título: Petri Canisii Betrachtung durch die gantze Wochen.

18° Catholisch Handbüchlein, das ist ausserlesene Spruch neues und altes Testaments, in-8°, 1598. — Pequeno manual católico, ou coletânea de textos, tirados do Novo e do Antigo Testamento, e podendo servir utilmente aos católicos nestes tempos extraordinários.

19° Enchiridion itinerantium, in-16 ou in-32, Antuérpia, 1599, 1618. — Manual do viajante, contendo diversos exercícios de piedade.

20° Enchiridion pietatis quo ad precandum Deum instituitur princeps catholicus... a P. Petro Canisio Societatis Jesu theologo olim conscriptum. Nunc primum in lucem editum, petit in-8°, s. l., 1754. — Manual de piedade composto, como o título completo indica, para o arquiduque Fernando II da Áustria, in usum Serenissimi Archiducis Austriae Ferdinandi junioris. Canisius escreveu a dedicatória em Friburgo, em 1° de outubro de 1592. Tradução alemã ms. na biblioteca de Viena, Catal. mss., t. VII, n. 11758.

21° Beati Petri Canisii S. J. exhortationes domesticae collectae et dispositae a Georgio Schlosser, ejusdem Societatis presbytero, in-16, Ruremonde, 1876. — Coletânea de exortações pregadas por Canisius aos religiosos de sua ordem. Têm por objeto as regras e diversos pontos que se referem a elas, as festas do ano, a oração dominical, a renovação dos votos ou algumas outras matérias de circunstância. Nas p. 435 sq., encontram-se as sete meditações sobre as virtudes de Jesus Cristo das quais foi questão no n. 4. O editor encerrou o volume com uma nota sobre a devoção do Bem-aventurado ao Sagrado Coração de Jesus.

III. EDIÇÕES E TRADUÇÕES FEITAS PELO B. CANISIUS.

1° Des erleuchten D. Johannis Tauleri, von eym waren evangelischen Leben, Göttliche Predig, Le- ren, Epistolen, Cantilenen, Prophetien, in-fol., Colônia, 1543. — Edição alemã dos sermões e outras obras ascéticas do célebre dominicano e místico João Tauler. É o primeiro livro que foi publicado pelo Bem-aventurado, e mesmo por um jesuíta. A dedicatória, onde o autor explica como foi levado a fazer esta edição e dá seu juízo sobre Tauler, encontra-se reproduzida, e acompanhada de notas instrutivas, nas Epistulae, t. I.

2° D. Cyrilli archiepiscopi alexandrini operum omnium, quibus nunc preter alia complura nova, recens accessere undecim libri in Genesim, nunquam antea in lucem editi, t. I, II; Epistolae et synodicae constitutiones, presertim adversus Nestorium heresiarcham : quibus et alia pleraque nunc recens adjecta, summoque studio restituta cohaerent, 3 in-fol., Colônia, 1546. Epist., t. I, p. 176, 182, onde se encontram as duas dedicatórias do autor. — O trabalho era apresentado como uma edição mais correta das obras de São Cirilo já impressas, e além disso enriquecida de partes até então inéditas, em particular de onze livros sobre o Gênesis. Esta nova edição, incompleta ela mesma e frequentemente defeituosa, parece ter sido muito pouco conhecida.

3° D. Leonis papae hujus nominis primi, qui summo jure Magni cognomentum jam olim obtinet, opera, quae quidem extant, omnia, in-fol., Colônia, 1546. Epist., t. I, p. 215 sq. — Em uma carta de 20 de junho de 1546 a Frederico Nausea, bispo de Viena, Canisius fala do trabalho considerável que teve de fazer para restabelecer «o texto mutilado e defeituoso» dos escritos de São Leão. Ibid., p. 205. O sucesso foi sensível, uma vez que se contaram quatro reedições em Colônia, Viena e Lovaina, de 1547 a 1578, sob o título de Sermones et homiliae. O P. Quesnel, passando em revista as edições das obras de São Leão, disse do trabalho de Canisius: Laudanda viri adhuc tum junioris diligentia; non laudandus ubique successus. P. L., t. LIV, col. 54. A Vita sancti Leonis, posta pelo Bem-aventurado no início de sua edição de 1546, foi inserida pelos bolandistas nos Acta sanctorum, Antuérpia, 1675, aprilis t. II, p. 17. Mais tarde, Canisius reuniu ainda numerosos e importantes materiais para uma nova edição das obras de São Cipriano; mas abandonou seu projeto, quando soube que outros se ocupavam ativamente do mesmo trabalho. Epist., t. III, p. 110 sq., 781 sq.

4° Principia grammatices, petit in-8°, Ingolstadt, 1556, 1568; Dillingen, 1561. — Esta obra é apenas uma adaptação, para uso dos escolares alemães, da gramática latina elementar do P. Annibal Codret, da qual Canisius tinha se servido durante seu professorado em Messina. Foi em seguida a esta gramática que apareceu a edição princeps do pequeno catecismo. Epist., t. I, p. 592 sq.; t. II, p. 774 sq. Cf. Braunsberger, Entstehung, p. 100 sq.

5° Breviarium Augustanum. — Canisius trabalhou, em outubro de 1559, em uma revisão do breviário de Augsburgo; revisão que, verosimilmente, teve alguma relação com a nova edição deste livro que se fez em Roma em 1570. Epist., t. II, p. 522, 544, 897.

6° Epistolae B. Hieronymi... in libros tres distributae. Nunc primum opera D. Petri Canisii selecta, magnoque studio in ordinem redacta, petit in-8°, Dillingen, 1562. — Edição nova e prática das cartas de São Jerônimo, que o Pe. Canisius queria opor à de Erasmo. Epist., I, p. 119, 283 sq., 783 sq. A obra foi dedicada à universidade de Dillingen. Ibid., p. 274 sq., 288 sq. Teve muito sucesso; conta-se cerca de quarenta reimpressões em diversos países.

7° Martyrologium. Der Kirchen Kalender, pequeno in-4°, Dillingen, 1562, 1578, 1583; Viena, 1632. — Canisius não é o autor deste martirológio, composto primeiro em latim, depois traduzido para o alemão por Adam Walasser; mas a tradução alemã foi feita e publicada sob sua influência; ele contribuiu pessoalmente com um amplo estudo sobre o culto dos santos. Epist., t. 1, col. 394, 640, 791 sq.

8° De justificatione doctrina universa... authore R. P. et prestanti theologo Andrea Vega, in-fol., Colônia, 1572. — Obra reimpressa segundo os conselhos de Canisius; o prefácio, que tem dezesseis páginas, é dele.

9° Das Leben unsers erledigers Jesu Christi, in-8°, Dillingen, 1575. — Canisius teria dado uma nova edição desta vida de nosso Salvador Jesus Cristo, publicada em Nurembergue, em 1514, por Jean Stuchs. Archiv für österreichische Geschichte, Viena, 1873, t. L, p. 251.

10° D. Stanislai Hosii... opera omnia in duos divisa tomos, in-fol., Colônia, 1584. — Canisius foi o editor destes dois volumes das obras do cardeal Hosius e provavelmente o autor da dedicatória, assinada pelo impressor. Agricola, op. cit., t. 1, p. 228.

Anteriormente, em 1557 e em 1558, ele já havia colaborado na primeira publicação de diversas obras reimpressas nesta edição de 1584, e traduzido para o alemão vários escritos de Hosius. Ibid., p. 424, 888, 894.

11° Varia. — Lendo a correspondência de Canisius, encontram-se os títulos de alguns livros dos quais ele não é o autor, mas que parecem ter sido reeditados sob sua influência. Tais como o Enchiridion de João Eck, Ingolstadt, 1556; Ein edel Kleinot der Seelen, Dillingen, 1562; Der Seelen Garten, tradução alemã do Hortulus anime, Dillingen, entre 1560 e 1563. Epist., t. 1, p. 593; t. II, p. 773, 785.

IV. ESCRITOS AUTOBIOGRÁFICOS E OBRAS INÉDITAS.

1° Confessiones. — Memória íntima que o Bem-aventurado compôs, por volta de 1570, em Dillingen ou em Innsbruck, sobre o modelo das Confissões de Santo Agostinho. Não se possui mais que o 1° livro e alguns outros fragmentos, reproduzidos integralmente nas Epistulae et acta, t. 1, p. 5 sq. A Sociedade de Friburgo do B. Pedro Canisius publicou uma tradução francesa, obra do Pe. Alet.

2° Testamentum. — Testamento espiritual do Bem-aventurado, redigido em Friburgo, em 1596 ou 1597. Acta, ibid., p. 31 sq. Trad. fr., em apêndice, na Vie du B. Pierre Canisius, pelo Pe. Michel, p. 462 sq. O Testamento e as Confissões constituem dois documentos de grande importância para a história de Canisius; eles fixam em muitos pontos a trama de sua vida exterior, mas lançam sobretudo uma viva luz sobre sua vida íntima.

3° Epistulae. — Até estes últimos tempos, as cartas de Canisius não tinham sido reunidas; encontrava-se apenas um certo número delas nas biografias do Bem-aventurado e em diversas obras históricas. O projeto de publicar uma coleção completa, formado pelo Pe. Riess, foi realizado pelo Pe. Braunsberger nas Beati Petri Canisii epistulae et acta, das quais foi feito uso tão frequente ao longo deste artigo. Três volumes já apareceram, em 1896, 1898 e 1901; o 1° vai de 1541 a 1556, o 2° de 1556 a 1560, o 3° de 1561 a 1562. A obra compreende as cartas do Bem-aventurado e aquelas que lhe foram endereçadas, notas explicativas que acompanham o texto e, ao fim de cada volume, Monumenta, ou documentos históricos próprios para esclarecer a ação do Bem-aventurado nos diversos centros onde ela se exerceu. Trabalho enorme, que mereceu ser chamado, nos Analecta bollandiana, 1897, t. XVI, p. 363, «um esplêndido monumento de história eclesiástica, civil e literária.»

4° De corruptelis verbi Dei. — Dois fragmentos mss. referindo-se à continuação da grande obra contra os Centuriadores de Magdeburgo. Ambos levam o título de Liber tertius: um, De Jesu Christo mundi redemptore, 192 p.; o outro, De Petro apostolorum principe, 250 p. Estes manuscritos, como os dois que seguem, conservam-se nos arquivos da província da Alemanha.

5° Contiones. — Sermões para o advento, a quaresma, os domingos e festas, pregados sobretudo na catedral de Augsburgo. Ver a descrição dos manuscritos, e extratos desses sermões nas Epistulae, t. II, pref., p. LVI sq., 388 sq.; t. III, pref., p. LXI sq., 615 sq.

6° Liber argumentorum. Loci communes, in-4°, de 592 p., contendo provas e pensamentos em matéria de controvérsia religiosa.

7° Commentaria in Epistolam B. Pauli apostoli ad Romanos, in-4°, assinalado no catal. LXXX de Rosenthal, 1892, n. 629.

8° Varia. — Vários memoriais ou pareceres do Bem-aventurado, sobre os assuntos religiosos da Alemanha e os meios de propagar o catolicismo naquele país, ainda não foram publicados ou só o foram de uma forma incompleta. Sommervogel, op. cit., t. 1, col. 672, 687; t. VII, col. 1982; W. E. Schwartz, Zehn Gutachten über die Lage der katolischen Kirche in Deutschland, in-8°, Paderborn, 1891, p. 29 sq. A maioria, senão todos, encontrar-se-á nos volumes das Epistulae que ainda restam a publicar. Ver C. Sommervogel, Bibliothèque de la C. de Jésus, 2ª ed., Bruxelas e Paris, 1891, 1898, t. II, col. 617-687, e apênd., p. VII; t. VII, col. 1974-1983; O. Braunsberger, S. J., notes et documents des Epistulae et acta; Id., Streiflichter auf das schriftstellerische Wirken des seligen Petrus Canisius, in Zeitschrift für katholische Theologie, Innsbruck, 1890, t. XIV, p. 720 sq. Diversas publicações do Bem-aventurado ou relativas ao Bem-aventurado apareceram nos Annales du B. Pierre Canisius ou nos Canisius-Stimmen, órgão da Sociedade do B. Pedro Canisius, Canisius-Verein, em Friburgo.

Sobre os catecismos em particular: C. Sommervogel, op. cit., t. II, col. 619 sq., para as traduções, edições, comentários, críticas e apologias; O. Braunsberger, Entstehung und erste Entwicklung der Katechismen des seligen Petrus Canisius, in-8°, Friburgo na Brisgóvia, 1897, publicado primeiro nos Ergänzungshefte zu den «Stimmen aus Maria-Laach», n. LVII, monografia que esgota quase completamente a matéria, mas que o autor corrigiu em alguns pontos de detalhes nas suas notas bibliográficas das Epistulae et acta; J. B. Rieser, B. Petrus Canisius als Katechet in Wort und Schriften, 2ª ed., in-16, Mogúncia, 1882; C. Moufang, Katholische Katechismen des XVIe Jahrhunderts in deutscher Sprache, in-8°, Mogúncia, 1881; F. X. Thalhofer, Entwicklung des katholischen Katechismus in Deutschland von Canisius bis Deharbe, exposição crítico-histórica, in-8°, Friburgo na Brisgóvia, 1899; Rohrbacher, Histoire universelle de l'Eglise catholique, 2ª ed., Paris, 1852, t. XXIV, p. 264ss., plano de conjunto e extratos do catecismo de Canisius.

II. CARACTERÍSTICA E PAPEL DE CANISIUS. — A doutrina de Canisius não dá lugar a um estudo especial: é a doutrina tradicional da Igreja católica, exposta com clareza no catecismo, defendida com dignidade na grande obra contra os Centuriadores e proposta com unção à prática dos fiéis nos livros de edificação e de propaganda religiosa. Os pontos de doutrina que as circunstâncias levaram o Bem-aventurado a colocar mais particularmente em relevo ressaltam suficientemente das duas primeiras partes deste artigo.

Um único exige algumas palavras de explicação. No campo protestante, não se temeu avançar que o principal obstáculo à continuação da obra contra os Centuriadores foi uma certa desconfiança que teriam sentido os superiores de Canisius ao vê-lo tratar da primazia de São Pedro e dos pontífices romanos, por causa de suas tendências episcopalistas. Drews, op. cit., p. 133 ss. Suposição de pura fantasia, cuja falsidade é plenamente demonstrada pelas cartas que se trocaram, na ocasião, entre o Pe. Hoffée e os generais da ordem.

De resto, basta abrir a Summa doctrinae christianae, nos artigos que concernem aos preceitos da Igreja. Que se leia o art. 9: Age vero quid est Ecclesia Dei? e o art. 11: Per quos tandem nos docet Spiritus in Ecclesia veritatem? e convencer-se-á facilmente de que os superiores de Canisius não tinham por que desconfiar de sua doutrina sobre a sé romana, hanc Petri cathedram, hunc Ecclesix primatum, nem sobre a autoridade suprema dos pontífices romanos, penes quos de sacris definiendi suprema semper potestas fuit. Cf. Braunsberger, Entstehung, p. 87 ss.

Que se leia ainda o Testamento do Bem-aventurado, a Authoris confessio colocada ao fim do livro De Maria Virgine, sua correspondência onde a preocupação de salvaguardar a primazia do papa em toda a sua integridade retorna tão frequentemente, onde ele deseja ver formar-se uma ordem de verdadeiros cavaleiros de São Pedro, compostos de sábios, de nobres e de grandes, que se devotassem sem reserva à defesa do pontífice romano. Epist., t. II, p. 368.

Canisius marchou sempre de comum acordo com os bispos na obra da reforma religiosa, é verdade; mas que relação há entre essa conduta e o episcopalismo protestante? Roma não se enganou; ela disse do Bem-aventurado no breve de beatificação: «Seu apego e sua devoção ao soberano pontífice não conheciam limites. Ele havia consagrado aos sucessores de Pedro todos os seus talentos, seus esforços, suas penas, sua vida inteira.»

Se a característica de Canisius não está na doutrina, onde encontrá-la? Na ordem prática; ele foi, sobretudo, e a um grau eminente, um homem de ação. O esboço feito de sua vida o provou. As relações que suas primeiras funções lhe criaram com as duas principais universidades da Baviera e da Áustria; os recursos dos quais dispôs como fundador e primeiro provincial de sua ordem na Alemanha; a influência que adquiriu logo sobre os príncipes católicos, seculares ou eclesiásticos; a parte que tomou nas dietas do Império; sua presença, por curta que tenha sido, no concílio de Trento; os ministérios que exerceu nas maiores cidades, tudo convergiu para o mesmo fim prático: desenvolver entre os católicos um movimento de fé ativa e militante, e opor, assim, ao protestantismo uma resistência eficaz.

Seu apostolado literário, dogmático ou popular, traz o mesmo selo. Se fosse necessário, seguindo o antigo uso, dar a este doutor um título, nenhum lhe conviria melhor do que o de Doctor praticus, neste duplo sentido de que ele levava os outros à ação, e que ele mesmo não se detinha na pura especulação. Nada mais evidente para a série de seus escritos que tendem diretamente à instrução e à edificação espiritual de seus correligionários.

Entre as outras obras, aquela que, à primeira vista, pareceria antes entrar na linha da erudição crítica, tem, no pensamento do Bem-aventurado, um significado todo outro; por exemplo, a edição das obras de São Cirilo de Alexandria ou a das obras de São Leão Magno. Observou-se justamente que a escolha dessas personagens não foi coisa indiferente para o editor; suas prefácios mostram que no ensino desses dois ilustres doutores da Igreja, ele queria oferecer aos católicos argumentos irrefutáveis contra a heresia, mas que, ao mesmo tempo, ele os propunha eles mesmos aos bispos de seu tempo como modelos a imitar, quales si profecto haberemus episcopos. Epist., t. I, p. 378.

Seria inútil insistir sobre o lado prático dos escritos publicados por Canisius contra o protestantismo. Com que nitidez e que profundidade ele compreendeu a essência mesma e o alcance dessa heresia, pode-se julgar pelas notas autógrafas, ainda inéditas, de que fala o Pe. Riess, op. cit., p. 449 ss. Em face da falsa liberdade evangélica, que pregou Lutero, o primeiro jesuíta alemão fez-se o apóstolo da verdadeira, aquela que liberta realmente as almas do erro e do pecado; daí seu papel de reformador face aos seus, de contrarreformador face aos outros.

Porque combateu por Roma, censuraram-no por vezes de não ter sido verdadeiramente alemão. G. Kruger, op. cit., p. 4 ss. Certamente, ele não o foi à maneira daqueles que fazem da oposição à Igreja romana um artigo de sua carta patriótica; ele não quis sê-lo assim, tanto quanto não quis, em sua ordem, um nacionalismo estreito. Stat apostolica semper sententia: In Christo Jesu non est Judeus; neque Grecus, non est barbarus, neque Schytha, etc. Epist., t. 1, p. 326.

Ele foi alemão como o tinham sido seus ancestrais, amou a Alemanha católica como eles a tinham amado; é esta Alemanha dos ancestrais que ele sonhou ver reviver. Mas toda a sua correspondência, e particularmente as relações que enviava a Roma e das quais muitas passaram sob os olhos dos papas, mostram quanto ele amou a Alemanha de seu tempo, com que devoção e que constância ele se fez o advogado de sua nação junto à Santa Sé, com que indulgência ele julgava e desculpava os extraviados de seu povo, com que insistência ele suplicava que se tratassem os alemães suave e delicadamente: Memores nos esse oportet delicatiores esse Germanos. Epist., t. 11, p. 202; cf. Janssens, op. cit., t. 1v, p. 409 ss.

É com o mesmo espírito que, no concílio de Trento, ele aconselhou e persuadiu a fazer preceder de uma exposição da doutrina os cânones dogmáticos onde seriam condenados os erros relativos à comunhão sob as duas espécies e à comunhão das crianças. Epist., ibid., p. 735 ss. Essa mansuetude e essa delicadeza, ele as queria em tudo, mesmo na polêmica. Em 1557, escrevia ele a um amigo, Guillaume van der Lindt (Lindanus): «É a moderação aliada à gravidade da linguagem e à força dos argumentos, que todos amam e buscam... Abramos os olhos aos desviados, não os exasperemos de forma alguma.» Epist., t. 11, p. 75, 77.

Não era fraqueza; Canisius devia estigmatizar o erro e, quando necessário, os corifeus do erro e as suas obras de destruição. Ibid., p. 267, 670. Se se tratava de preservar a fé dos súditos católicos contra o veneno da heresia, ele não hesitava, como se viu, em sancionar nem mesmo em aconselhar a repressão dos apóstolos do erro. Nisso, contudo, seria necessário distinguir o que ele admitia em princípio com todos os teólogos do seu tempo, e o que os soberanos de então acreditavam ter o direito de fazer segundo a legislação vigente. Epist., t. 1, p. 462; Janssens, op. cit., t. v, p. 484. Se agora passamos da obra aos resultados, o juízo, ou melhor, a constatação é fácil.

Muitos autores fizeram o quadro desta contrarreforma religiosa ou renascimento católico do qual Canisius foi, não o único obreiro, a obra foi coletiva e de longa duração, mas o promotor e o apóstolo. É um fato que o catolicismo se manteve e refloresceu nos países onde se exerceu o seu apostolado; bispos e muitas outras personalidades qualificadas expressaram frequentemente a íntima convicção de que se devia em grande parte ser grato a Pedro Canisius por isso. Ver nos Actos da beatificação, Positio super virtutibus, in-fol., Roma, 1833, a série dos Elogia ou Encomia. Summarium, § 123 sq.

Sobre este ponto, aliás, católicos e protestantes estão de acordo. Após ter falado da ação do Bem-aventurado na Baviera, na Áustria e na Boêmia, o autor do artigo Canisius, na Realencyklopadie für protestantische Theologie und Kirche, conclui: «Não somente impôs à marcha em frente do protestantismo uma parada definitiva, mas em parte preparou, em parte completou o pleno triunfo do catolicismo nestas regiões.» Por seu lado, P. Drews não se contenta em proclamar «que jamais a Igreja Católica teve um campeão mais infatigável»; acrescenta mais adiante: «Deve-se reconhecer que, do ponto de vista romano, ele merece o nome de apóstolo da Alemanha.» Op. cit., p. 80, 103.

E tal é bem o glorioso título com que o reconhecimento dos católicos honrou o zelo apostólico de Canisius; título que domina entre tantos elogios, relatados nos Actos da sua beatificação, loc. cit. Título oficialmente consagrado pela Igreja nas lições da sua festa, e solenemente recordado por Leão XIII, na encíclica do terceiro centenário: hominem sanctissimum, alterum post Bonifacium Germanie apostolum.

O caráter e o papel de Pedro Canisius foram apreciados na maioria das biografias citadas anteriormente; bastará acrescentar alguns estudos de conjunto ou artigos de circunstância. A. Werler, Leben ausgezeichnete Katholiken, in-8°, Schaffhouse, 1852, t. 1; Il B. Pietro Canisio e i tempi moderni, na Civilta cattolica, 1864, 5ª série, t. xII, p. 385 sq.; card. J. Rauscher, Der selige Petrus Canisius, carta pastoral, Viena, 1865; V. Alet, S. J., Le B. Canisius et son œuvre, três artigos nos Études religieuses, 3ª série, Paris, 1865, t. v1, depois brochura já citada; O. Baumgartner, S. J., art. Canisius, no Kirchenlexikon, 2ª ed., Friburgo em Brisgóvia, 1883, t. 1, col. 1796 sq.; C. Germanus (H. Grisar, S. J.), Reformatorenbilder. Historische Vorträge, in-8°, Friburgo em Brisgóvia, 1883, p. 144 sq.; O. Braunsberger, S. J., Zum dritten Centenarium des sel. Petrus Canisius, nos Stimmen aus Maria-Laach, Friburgo em Brisgóvia, 1897, t. Lu, p. 1 sq.; Id., Der selige Petrus Canisius und die deutsche Welt- und Ordensgeistlichkeit seiner Zeit, na Theologisch-praktische Quartalschrift, Linz, 1897, p. 509 sq.; E. Portalié, Le troisième centenaire du B. Canisius, nos Études religieuses, Paris, 1897, t. LXXII, p. 759 sq.

Discursos, nos quais o apóstolo da Alemanha e de Friburgo é contemplado sob pontos de vista múltiplos, foram impressos no Canisius-bote, jornal das festas do terceiro centenário, publicado em Friburgo e contendo dez números, de 17 de agosto a 23 de setembro de 1897.

Autor original: X. Le Bachelet

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