CALIXTINOS (I)

CALIXTINOS (I)

CALIXTINS. Este nome, tomado da palavra latina calix, serve para designar, dentre os partidários de João Huss, aqueles que, no século XV, reduzindo o mínimo de suas pretensões a quatro artigos, reivindicaram mais particularmente o uso do cálice ou a comunhão sob as duas espécies em favor dos leigos. A communion sub utraque não era algo desconhecido na prática cristã, ver COMUNHÃO SOB AS DUAS ESPÉCIES, mas a Igreja a havia proibido há muito tempo por causa de seus inconvenientes. O próprio João Huss, pelo menos no início, não havia pensado em retomar esse uso sem o consentimento expresso da Igreja. Mas alguns de seus partidários, sob a inspiração de Jacobel, reivindicaram o direito de praticá-la.

Ora, o concílio de Constança, fiel às sábias prescrições do passado e suspeitando, aliás, não sem razão, que essa inovação mascarava algum erro dogmático sobre a presença real, condenou-a em sua XIIIª sessão geral, em 15 de junho de 1415, Mansi, t. xxvii, col. 726-728; Hardouin, t. viii, col. 380-382; Hefele, Histoire des conciles, trad. franc., Paris, 1876, t. x, p. 477-478. Mas nem o arcebispo de Praga nem o rei da Boêmia Venceslau puderam fazer observar o decreto do concílio. Jacobel compôs uma violenta diatribe contra os Padres de Constança, a quem chamava de "os doutores do uso". E Huss, mudando de atitude embora prisioneiro, apressou-se em escrever ao seu discípulo Haulick, que o havia substituído na cátedra de Belém, para que não se opusesse ao uso do cálice, para que não combatesse Jacobel, e ao seu amigo cristão que adjurasse a nobreza da Boêmia a defender um uso que o concílio acabara de proibir, contrariamente ao ensino do Evangelho e à tradição primitiva.

A execução de Huss, ocorrida em 6 de julho seguinte, levantou a indignação dos partidários do cálice e excitou uma revolta sangrenta na Boêmia. Apesar da intervenção do bispo de Leitomysl, que foi impotente para conjurar a tempestade, a nobreza enviou um protesto ao concílio, notificando sua recusa de obediência. O uso do cálice foi mantido e generalizado; tornou-se um sinal de reunião, o símbolo dos calixtinos. Desde 1418, o concílio intima o rei Venceslau a proteger a fé católica, a purgar a universidade de Praga e a levar perante a corte romana os principais fautores da heresia. Decide que os leigos que haviam comungado sob as duas espécies deviam abjurar seu erro e que os escritos de Jacobel deviam ser entregues e destruídos. O papa Martinho V, em sua bula Inter cunctas, do mês de fevereiro de 1418, ratifica essas decisões e exige que os heréticos sejam interrogados sobre a questão de saber se admitem a presença real sob cada espécie e se consentem em não mais comungar senão sob uma única. Hefele, op. cit., t. xi, p. 69-79.

Nem João Dominici, nem Beaufort, bispo de Winchester, nem Juliano Cesarini, enviados sucessivamente como cardeais legados para pacificar a Boêmia, tiveram sucesso; todos os seus esforços foram inúteis. Os hussitas obstinaram-se; além disso, aproveitando a fraqueza real, organizaram-se militarmente, não impuseram mais limites à sua audácia e preludiaram uma longa e sangrenta tragédia. Em 1419, recusaram-se a reconhecer como rei o imperador Sigismundo. O caolho João Ziska assumiu a liderança deste movimento revolucionário e herético; construiu uma fortaleza, a 25 léguas de Praga, no monte Hardistin, que chamou de Tabor. À sua morte, em 1424, divisões eclodiram, quatro partidos se formaram: o dos taboritas, minoria turbulenta e sem escrúpulos, com Procópio, o Grande; o dos orfanianos, orphanitas ou órfãos, muito mais numerosos, com Procópio, o Pequeno; o dos orebitas, sem matiz de doutrina, mas de exaltação igual; e, enfim, o dos moderados, gente de Praga ou calixtinos propriamente ditos, com o boêmio Rokytsana, cura de Praga, e o inglês wiclefista Pedro Peyne.

Juliano Cesarini, encarregado em 1431 por Martinho V de abrir e presidir o concílio de Basileia e confirmado nessas funções por Eugênio IV, apressou-se em entrar em relações com os tchecos moderados ou calixtinos, na esperança de trazê-los de volta. Recebeu deles um memorial e os convidou a comparecer. Tendo o caso sido assim iniciado, respondeu ao decreto de dissolução do concílio promulgado pelo papa que se deve terminá-lo, sob pena de ver um cisma eclodir em Basileia e de dar ensejo aos tchecos de pretenderem que se tem medo deles. Os calixtinos, dóceis ao apelo de Juliano, enviaram delegados, entre outros Rokytsana, Peyne, João de Krainic, que se encontraram em Egra com os enviados do concílio (8 de maio de 1432), pediram que se admitissem com eles representantes dos taboritas e dos outros partidos, entraram em acordo sobre sua recepção em Basileia e convieram que se discutiriam livremente seus quatro artigos, relativos à comunhão sob as duas espécies, à repressão dos pecados, à liberdade da pregação e aos bens eclesiásticos.

Conformemente a essa convenção, os tchecos chegaram a Basileia no início de 1433; todos os partidos hussitas estavam representados. Somente entre eles, os calixtinos celebravam a missa como os romanos, exceto pelo fato de darem aos leigos a comunhão sob as duas espécies. A discussão sobre os quatro artigos começou imediatamente. O calixtino Rokytsana pleiteou em favor da comunhão sob as duas espécies; o bispo taborita Biskupec de Pilgram, pelo direito e pela obrigação de punir os pecados; o sacerdote orfaniano Ulrich de Tznaim, pela liberdade da pregação; e Pedro Peyne, contra os bens temporais do clero. As conclusões foram depositadas por escrito. Antes de dar a palavra aos oradores designados pelo concílio para refutar os argumentos apresentados, Juliano Cesarini tentou, por meio de uma série de 28 perguntas, determinar bem a crença dos hussitas; pois, fora desses 4 artigos, professavam outras doutrinas estranhas à fé; e ele não pretendia proceder a uma reconciliação senão sobre bases sólidas e sem o menor equívoco; não obteve resposta. Os oradores do concílio tomaram então a palavra: o eslavo João de Ragusa contra Rokytsana; o francês Gilles Charlier ou Carlier, deão de Cambrai, contra Biskupec; o professor de Colônia Henrique Kalteisen contra Ulrich; e o espanhol João de Palomar, de Barcelona, contra Peyne. A discussão durou vários dias sem que se chegasse a um entendimento. Os tchecos, pressionados a retornar à sua pátria, obtiveram o envio de uma legação do concílio à Boêmia para tratar diretamente com o povo reunido.

Nicolau de Cusa perguntou-lhes se, no caso de se lhes conceder a faculdade de dar a comunhão sub utraque, mostrar-se-iam mais acomodados sobre os outros pontos; não responderam. O concílio resignou-se, portanto, a enviar delegados à Boêmia (abril de 1433). Estes, após dois meses passados em Praga, delegaram três dos seus para informar o concílio. Palomar pôde convencer-se de que a desunião mais completa reinava entre os hussitas, de que eles apenas concordavam quanto ao uso do cálice para a comunhão dos leigos, sem que todos estivessem de acordo para declarar se o julgavam necessário ou não para a salvação; foi o que ele notificou aos Padres de Basileia.

O concílio, após uma viva discussão, consentiu em conceder o uso da comunhão sub utraque, mas encarregou seus delegados:

1° de fazer observar que o costume de não comungar senão sob a espécie do pão tinha sido introduzido pela Igreja por motivos de ordem dogmática e de ordem prática, contra aqueles que poderiam crer que não se recebe Nosso Senhor por inteiro sob uma única espécie e contra os inconvenientes que oferece a comunhão sob a espécie do vinho;

2° de exigir que os padres calixtinos ou utraquistas advertissem previamente seus fiéis de que Jesus Cristo está por inteiro sob cada espécie.

Essa foi a base do acordo estipulado em Praga, em 30 de novembro de 1433, sob o nome de compactata. Restava fazê-lo subscrever pelo concílio. Mas já reclamações tinham se feito ouvir da parte dos hussitas exagerados, que tinham retomado sua campanha de depredações. O cardeal Juliano Cesarini declarou que o concílio não poderia ir além (fevereiro de 1434).

Os hussitas, longe de se entenderem, chegaram às vias de fato; de um lado os moderados ou calixtinos e a nobreza, do outro os taboritas e os democratas; travou-se batalha em Lipan; os calixtinos levaram a melhor. Rokytsana, seu chefe, quis ter precedência sobre os católicos e acentuou suas reivindicações. Sob sua inspiração, o landtag de outubro de 1434 decidiu, entre outras coisas, que todo católico da Boêmia deveria renunciar à comunhão sob uma única espécie para adotar o utraquismo e que se deveria dar mesmo às crianças a comunhão sub utraque.

O landtag de 1435 exigiu do imperador Sigismundo que, se quisesse ser reconhecido rei da Boêmia, deveria comprometer-se com a comunhão, ele e sua corte, sub utraque durante sua estadia na Boêmia, a não tomar conselheiros senão entre os calixtinos, a impor o utraquismo a todo o reino. Tendia-se assim a fazer de um uso religioso, não ainda ratificado pela autoridade competente e muito suspeito de heresia, uma lei do Estado e a marca distintiva da Igreja da Boêmia. O imperador foi chamado a se pronunciar em Brünn, mas esquivou-se da resposta.

Os delegados do concílio protestavam que os tchecos deveriam ater-se exclusivamente aos compactata, abstração feita das decisões do landtag de outubro de 1434, porque estas eram, em parte, contraditórias aos compactata. Sigismundo, fazendo questão de conciliar os tchecos, prometeu-lhes velar precisamente pela execução dessas decisões; e, por outro lado, pediu aos delegados do concílio que adicionassem aos compactata estas palavras: salvis libertatibus et privilegiis regni Bohemiae; estes recusaram. Assim, enquanto o landtag seguinte, realizado em Praga, tomou nota das promessas do imperador e designou Rokytsana para o arcebispado de Praga, o concílio de Basileia fez expressas reservas. Mansi, t. xxx, p. 412; Hardouin, t. viii, p. 1468.

Finalmente, após novas e laboriosas negociações, a dieta de Iglau proclamou os compactata lei do Estado, em 5 de julho de 1436. Sigismundo assinou, e os delegados de Basileia prometeram o assentimento do concílio. O concílio, efetivamente, embora desautorizado há muito tempo por Eugênio IV, terminou esse caso da Boêmia publicando, em 15 de janeiro de 1437, uma bula que ratificava os compactata e autorizava a comunhão sub utraque.

Doravante, ao que parece, a paz política e religiosa deveria ter reinado; era contar sem a hipocrisia e a ambição dos chefes calixtinos. Rokytsana conservava ainda as aparências da ortodoxia para obter o agrado do papa à sua nomeação ao arcebispado de Praga; mas ultrapassava o limite das concessões obtidas, zombava da autoridade do concílio e deixava transparecer o velho espírito hussita. Podiébrad, ao aspirar claramente à coroa da Boêmia, poupava sem dúvida os católicos, mas não sonhava no fundo senão em ajudar Rokytsana e em prestar ao erro o concurso da autoridade real.

Ambos foram exilados. Retornados ao fim de dez anos, retomaram suas intrigas. Tidos sob suspeita pelos católicos, encarados como traidores pelos taboritas, sustentaram a causa dos calixtinos, um por seus mandamentos, o outro por sua vitória de Hardistin sobre os taboritas (1453): nem mandamentos nem vitórias asseguraram seu triunfo definitivo. O reinado do jovem rei Ladislau parecia dever adiar indefinidamente suas esperanças; mas foi muito curto. À morte prematura desse príncipe, Podiébrad, ajudado por Rokytsana, conseguiu enganar os católicos, assegurou seu concurso e fez-se finalmente eleger rei da Boêmia (1458).

Tentou uma primeira vez ser reconhecido pelo papa e pediu à Santa Sé a confirmação oficial do privilégio do cálice. Pio II limitou-se a prometer que enviaria à Boêmia homens seguros para explicar o sentido e os limites da concessão acordada pelo concílio de Basileia. Podiébrad insiste; Pio II recebe sua embaixada, aceita o juramento de fidelidade que ela presta em seu nome, mas recusa ratificar o uso do cálice. Seu núncio Fantini dirige-se à Boêmia para notificar essa recusa categórica. Podiébrad lança então a máscara, encarcera o núncio, tenta por todos os meios atrair para sua deserção os nobres e o clero católicos.

Sem mais dúvidas: é o cisma que revela a heresia há tanto tempo latente. Paulo II teve de declarar, em 1471, o rei da Boêmia convicto de perjúrio, de blasfêmia e de heresia, e excomungou-o. Pouco depois, no mesmo ano, com quinze dias de intervalo, a morte levava Rokytsana e Podiébrad, o pseudo-arcebispo e o rei deposto, dois cúmplices. Os calixtinos não têm mais chefe; seu papel pode ser considerado como terminado. Alguns se convertem; os outros passam aos irmãos boêmios. Não há mais lugar, na Boêmia, senão para a ortodoxia pela submissão à Igreja romana ou para a revolta pela união com os partidos intransigentes. Doravante o utraquismo perde-se na história das lutas civis e religiosas do século XVI. Ver BOHÊMIOS (Irmãos), col. 930-94.

Lenfant, Histoire de la guerre des hussites et du concile de Basle, Amsterdã, 1731; de Bonnechose, Jean Huss et le concile de Constance, Paris, 1846; Höfler, Geschichtschreiber der hussitischen Bewegung in Böhmen, Viena, 1855-1866; Denis, Huss et la guerre des hussites, Paris, 1878; Hefele, Histoire des conciles, trad. franc., Paris, 1876.

Para o que diz respeito à negociação dos compactata, ver os Monumenta conciliorum generalium xv seculi, Viena, 1857-1873, t. I, onde se encontram o Tractatus de reductione Bohemorum de João Stoikowic ou João de Ragusa; o Liber diurnus de Pedro de Saaz; o Liber de legationibus de Gilles Charlier; o Diarium de Thomas Ebendorfer d’Haselbach; o Registrum de João de Tours.

Ver também Aeneas Sylvius Piccolomini (Pio II), Historia Bohemorum, Basileia, 1571; Comment. de rebus Basilee gestis, Basileia, 1577.

Para a continuação, ver a bibliografia do artigo BOÊMIOS (Irmãos), col. 940-941.

Autor original: G. Bareille

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