BOURDALOUE, Louis. — I. Biografia. II. Doutrina. III. Método oratório.
I. BIOGRAFIA. — Nascido em Bourges, batizado nesta cidade em 29 de agosto de 1632, Bourdaloue morreu em Paris, em 13 de maio de 1704. Após sólidos estudos no colégio de sua cidade natal, entrou no noviciado da Companhia de Jesus em Paris, em 1648. Sua vida não apresenta nada senão uniformidade, e pôde-se resumi-la nestas poucas palavras: «Ele pregou, ele confessou, ele consolou.»
Professor em Amiens, em Orléans e em Rouen, fez em Nancy seu terceiro ano de provação. Prefeito no colégio de Eu, ali pronunciou seus grandes votos, em 2 de fevereiro de 1666. Após alguns anos de ministério apostólico na província, em Amiens, em Rennes e em Rouen, chegou a Paris, em 1669, e estreou, como pregador, na igreja da casa professa dos jesuítas, na rua Saint-Antoine.
Seus sucessos oratórios foram, a partir de então, ininterruptos. Pregou diante da corte de Luís XIV cinco quaresmas e sete adventos, o que lhe valeu o sobrenome de «rei dos oradores e orador dos reis». Este ilustre jesuíta deu sempre o exemplo das virtudes religiosas e foi estimado, por seu caráter tanto quanto por seu talento, à altura dos grandes homens de seu tempo.
II. DOUTRINA. — Embora seja singular pedir a um poeta a apreciação de Bourdaloue teólogo, Ducis formulou em poucas palavras o juízo mais exato, quando em seu testamento recomendava a leitura frequente de «este admirável pregador, tesouro de toda a doutrina cristã, teologia inteira do simples cristão de todos os climas e de todos os séculos».
Dogmática. — O dogma, contudo, ocupa apenas o segundo lugar nos sermões de Bourdaloue; ele mesmo não fazia dificuldade de reconhecê-lo, segundo dom Thierry de Viaixnes, relatando uma de suas conversas; mas este segundo lugar não deixa de ser considerável. Ele não negligenciava, escreve seu primeiro editor, o P. Bretonneau, «explicar os mais altos mistérios e as mais difíceis questões da fé. Falava deles com habilidade e até com tanto mais autoridade quanto possuía perfeitamente esses gêneros de matérias.» (Advento, prefácio).
Não há, de fato, quase nenhuma verdade cristã que ele não tenha tratado, expondo-a sempre com um largo e luminoso bom senso, não se apegando exclusivamente a nenhuma escola, nem a nenhuma opinião particular, mas desenvolvendo em sua plenitude o ensino tradicional da Igreja. Algumas questões, todavia, questões tornadas em seu tempo mais atuais pela luta do catolicismo na França contra os protestantes, os jansenistas, os quietistas e os libertinos, ocuparam-no particularmente, como convinha à natureza de sua eloquência essencialmente prática e adaptada às necessidades presentes de seus ouvintes.
1. Em face dos protestantes. — É apenas de passagem que ele ataca Lutero ou Calvino. Contudo, ele combateu mais de uma vez o erro da justificação pela fé somente sem as obras. Ele demonstra de uma parte, com os Padres, que sem a fé todas as obras são mortas, e de outra parte que a fé não vivificada pelas obras não é senão uma fé quimérica e imaginária (A fé, 3º domingo após a Epifania).
Quanto à atitude a guardar vis-à-vis dos hereges, ele compartilhava a opinião de seus contemporâneos e felicitou Luís XIV pela revogação do Edito de Nantes: «É preciso, dizia ele, para chegar ao fim da heresia, um braço que a domine e uma cabeça que a refute.» (Elogio fúnebre de Henrique de Bourbon). Pessoalmente, ele se empenhara em contribuir pela persuasão à conversão dos reformados, indo pregar a Quaresma em Montpellier em 1686. Mas a controvérsia propriamente dita atraía-o pouco.
Os discursos que pertencem a esta categoria bastante restrita são o Ensaio na oitava do Santíssimo Sacramento e sermões ou partes de sermões sobre o culto de Maria e a oração pelos mortos. Encontram-se expostos, de uma maneira que sente menos a polêmica, seus princípios e suas ideias, seja sobre o protestantismo francês, seja sobre as heresias em geral, no Elogio fúnebre de Henrique de Bourbon, esse príncipe nascido huguenote e tornado um dos adversários mais ardentes dos reformados; nas suas exortações sobre a caridade para com os Novos católicos e em favor do Seminário dos Irlandeses, no sermão para a festa de São Pedro sobre a Obediência à Igreja, assim como no panegírico de São Francisco de Sales; enfim, nas reflexões sobre o Nascimento e o progresso das heresias.
2. Em face dos jansenistas. — Ele consagrou uma maior soma de esforços contra o jansenismo, que permaneceu uma das querelas religiosas mais vivas de sua época. Segundo o P. Rapin, Mémoires, t. II, p. 41, desde o primeiro ano em que subiu aos púlpitos da capital, ele teria dado ocasião a Boileau, que foi um de seus admiradores e de seus amigos, de dizer «que os jesuítas tinham derrotado os jansenistas em batalha campal, o P. Bourdaloue por sua pregação, etc.». Repetiu-se frequentemente de sua obra que ela foi a melhor resposta a Pascal e ao grande Arnauld, a verdadeira revanche das Provinciais.
Sobre a questão então tão agitada da graça, preocupado em permanecer dentro de justos limites, ele trazia novamente à luz, contra os pelagianos e os semipelagianos, a necessidade da graça preveniente; mas tinha o cuidado de manter os direitos do livre-arbítrio. A seus olhos, nós não somos livres para recusar ou para ter à vontade a graça, mas, após tê-la recebido, somos livres para bem ou mal usá-la. Além disso, ele não quer que no estado de pecado nossas boas ações se tornem más; mesmo então elas têm sua utilidade, porque podem nos ajudar a retornar à via da salvação.
Convém acrescentar que ele parece, por vezes, ao falar de Deus que retira sua graça ao pecador e o abandona a si mesmo, oferecer o flanco à acusação de rigorismo (Sermão sobre o retardamento da penitência). Na contestação então tão viva tocante à severidade da penitência, as teorias de Saint-Cyran sobre a necessidade da conversão interior previamente aos sacramentos e da Contrição perfeita com o amor de Deus antes da absolvição, princípios que tornavam a penitência tão difícil, encontraram em Bourdaloue, como todos os erros análogos, um adversário, mas um adversário moderado.
Sabiamente afastado das complacências demasiado fáceis e das severidades extremadas, ele estabeleceu esta regra como princípio, que, «quando se trata da reprovação de uma alma ou de sua justificação, não se deve ser nem demasiado cómodo, nem demasiado severo, mas sábio segundo as regras da fé.» A grande inquietação de Bourdaloue era, de fato, ver os libertinos se prevalecerem do fato de que doutores impiedosos lhes impunham obrigações exageradas, e se autorizarem a permanecer em sua impenitência. «Tudo ou nada, diz-se, mas bem entendido que se aterá sempre ao nada.»
Do mesmo modo, quanto à admissão à santa mesa, Bourdaloue não tomou o partido nem da comunhão frequente a qualquer preço, nem da comunhão indefinidamente adiada sob pretexto da pureza de vida exigida. Ele distingue entre as disposições necessárias e absolutamente suficientes e as disposições de conveniência ou de supererrogação. Se recomenda as segundas, não quer, contudo, que as proponham em um grau de perfeição inacessível. Sobretudo, defende que, para evitar as comunhões indignas, se chegue a nunca comungar. Apoiando-se na doutrina do Concílio de Trento, sustenta que o estado de graça basta, segundo o último rigor do preceito, para comungar. Refutou os erros jansenistas, além das alusões semeadas aqui e ali, em alguns de seus principais sermões, tais como a Sévérité de la pénitence, a Sévérité évangélique, a Communion, a Grace, l'Aveuglement spirituel, l'Etat du péché e l'état de la grace, a Sévérité chrétienne, a Médisance, o Désir e o dégout de la communion, e ainda nas Pensées.
3. Diante dos quietistas. — As ilusões do quietismo deviam igualmente fracassar contra este espírito firme. Tanto na segunda parte do sermão sobre a Priére (5º depois da Páscoa), quanto em sua carta a Mme. de Maintenon sobre o Moyen court de Mme. Guyon, ele combate o estado habitual de puro amor, o estado passivo, a pretensa necessidade da oração extraordinária para a perfeição, a indiferença à prática das virtudes e à salvação eterna; ao contrário, mantém que a oração é um dever essencial e que devemos pedir a Deus as graças da salvação. «A oração que a Escritura nos recomenda em mil lugares, escreve ele nesta carta, é meditar a lei de Deus, excitar-nos ao fervor em seu serviço, inspirar-nos um temor respeitoso de seus juízos, ocupar-nos da lembrança de suas misericórdias, adorá-lo, invocá-lo, agradecer-lhe, repassar diante dele os anos de nossa vida na amargura de nossas almas, examinar em sua presença nossas obrigações e nossos deveres.» Vê-se quanto o cristianismo positivo e preciso de Bourdaloue estava afastado do quimérico ideal de Fénelon e de todo falso misticismo.
4. Diante dos galicanos. — As doutrinas galicanas, ao contrário, encontraram nele, à diferença do bispo de Cambrai, menos repulsa talvez do que se escreveu durante muito tempo. Sobre a questão da infalibilidade pontifícia, preferiu guardar silêncio por prudência, e não proferiu, na época pelo menos das controvérsias mais vivas, um sermão que havia composto sobre esta matéria um tanto comprometedora. Mas insiste na infalibilidade da Igreja e proclama sua soberania espiritual sobre todas as potências da terra. Se algumas frases puderam ser interpretadas no sentido da independência dos reis no temporal, se escreve que «nos problemas do Estado, o bom partido é sempre o do rei e de seu conselho», ele declara que «nos problemas da Igreja, em matéria de crença e de doutrina, o bom partido é sempre o do vigário de Jesus Cristo, da sé apostólica e do corpo dos bispos».
5. Diante dos libertinos. — Aliás, mais do que se lançar a fundo nessas querelas entre católicos, preferia ocupar-se dos libertinos que ameaçavam levar ao ateísmo certos espíritos inclinados ao ceticismo. É contra eles que escreveu seus excelentes pensamentos sobre o Accord de la raison et de la foi. Em seu sistema, a razão e a fé vindo ambas de Deus, não pode haver contradição entre elas. À razão cabe verificar os diversos títulos da religião e demonstrar as provas; mas à fé cabe penetrar os mistérios da revelação. Reprocharam a Bourdaloue ter reduzido demais o papel atribuído à razão e não ter, com São Agostinho, São Tomás, Bossuet, encarregado a razão de mostrar que, para serem superiores a ela mesma, os mistérios não lhe são, contudo, opostos. Mas, com Fénelon, ele encara a religião natural como a base e o começo da religião sobrenatural e pede que o cristão comece por observar todos os deveres da vida civil, tais como a probidade. É levado assim a distinguir a verdadeira da falsa piedade, e, ao mesmo tempo que lembra na ocasião, a propósito de Molière e de Tartufe, que é perigoso ridicularizar esta, porque é expor-se a desacreditar aquela, ele censura essa devoção escrupulosa nos menores detalhes, que, por outro lado, negligencia os deveres essenciais. O conjunto de sua direção tende mais a pôr em guarda contra toda prática curiosa e singular, contra todo método novo e não experimentado: «Guardai, escreve ele, todas as vossas práticas de devoção; mas, antes de ser devoto, quero que sejais cristão...; a inversão é o abuso mais monstruoso; é a devoção sem o cristianismo.»
6. Em outras controvérsias. — Esta posição tão razoável, ele a manteve no conflito onde foi levado a entrar de passagem, sobre a devoção a Maria, a propósito do libelo intitulado: Avertissements salutaires de la bienheureuse Vierge a ses dévots indiscrets (Monita salutaria ad suos cultores indiscretos), pelo Sr. Widenfeldt, condenado donec corrigatur por decreto do Índice de 25 de janeiro de 1678. Sua tese foi a seguinte: Se há devotos indiscretos de Maria, há também «censores indiscretos» desta devoção, e os riscos não são menores diante de Deus ao condenar com temeridade um culto legítimo e santo, do que ao praticar um culto exagerado e supersticioso. Enfim, Bourdaloue não permaneceu alheio à controvérsia sobre a questão dos ritos chineses e fez publicar, em colaboração com o Pe. Daniel, uma Histoire apologétique de la conduite des jésuites a la Chine.
2º Moral. — O mérito principal de Bourdaloue consiste no seu talento de moralista. Nenhum orador sagrado o superou como potência de análise do coração humano; ninguém possuiu um conhecimento mais completo das enfermidades e das chagas da consciência.
Atacando de frente os vícios dos indivíduos e os dos corpos sociais, descrevendo os caracteres particulares e os costumes públicos em retratos imortais, denunciando os escândalos dos cortesãos, da magistratura, do clero, dos financistas, do próprio rei, soube fazer aceitar suas censuras pela sua franqueza proverbial e sua liberdade apostólica. Mas era pouco para ele desmascarar as paixões e condenar os hábitos culpáveis. Sua arte de moralista eleva-se mais alto. Ao lado do mal, ele excele em mostrar o remédio. Se descreve as causas dos arrastamentos, ensina os meios de lhes resistir; se descreve a tentação, indica a maneira de vencê-la. Ele fala para pintar os costumes; mas não os pinta senão para reformá-los.
III. MÉTODO ORATÓRIO. — Sua técnica oratória, que fez dele o principal sermonário do século XVII, consiste antes de tudo no vigor de sua lógica, na ordenação exata de seus discursos, na plenitude de suas divisões e de seus planos. Cada um de seus sermões recomenda-se pelo encadeamento das ideias e pela força do raciocínio; vários são modelos clássicos pela unidade da composição, pela escolha feliz e pela hábil disposição das provas; acrescentemos, ainda, a perfeita correção do estilo e a propriedade constante dos termos, mérito que não é indiferente em um orador. Em contrapartida, a imaginação e a sensibilidade permanecem em segundo plano. A Sagrada Escritura e os Padres não parecem tampouco, à parte São Paulo e talvez Santo Agostinho, tê-lo inspirado de maneira direta e profunda o suficiente.
I. EDIÇÕES. — O texto de seus sermões é autêntico, mas póstumo. As alterações feitas por seu primeiro editor, o Pe. Bretonneau, parecem ser de pura forma. As pesquisas recentes empreendidas nas notas recolhidas por seus ouvintes provam apenas que o pregador manejava no púlpito uma língua mais viva e mais popular do que aquela de seus discursos escritos. Parece igualmente demonstrado pelos testemunhos dos contemporâneos que ele não recitava de cor, falava com ardor e olhava para o seu auditório. Seu sucesso contínuo durante mais de trinta anos na corte e na cidade seria, aliás, de outra forma inexplicável. Existe uma dupla edição princeps dos Sermons devida a Bretonneau, a primeira em 14 in-8°, Paris, Rigaud (1707-1721), seguida das Pensées, 2 in-8°, Paris, Cailleau, 1734; a segunda em 15 in-12, Paris, Rigaud (1708-1721), seguida das Pensées, 3 in-12, Paris, Cailleau, 1735. Das inúmeras edições publicadas desde então, nenhuma é recomendável. As menos defeituosas são as de Versalhes, 16 in-8°, 1812, e de Bar-le-Duc, 4 in-4°, 1864. Uma edição histórica e crítica está atualmente em preparação.
II. TRABALHOS. — Anatole Feugère, Bourdaloue, sa prédication et son temps, in-8°, Paris, 1874; Adrien Lézat (abbé), Bourdaloue théologien et orateur, in-8°, Paris, 1874; Blampignon (abbé), Etude sur Bourdaloue, in-8°, Paris, 1886; Henri Chérot, Bourdaloue inconnu, in-8°, Paris, 1898; Id., Bourdaloue, sa correspondance et ses correspondants, in-8°, Paris, 1899; L. Pauthe (abbé), Bourdaloue (les Maîtres de la chaire au xvii siècle), in-8°, Paris, 1900; Eugène Griselle, Bourdaloue, histoire critique de sa prédication, 2 in-8°, Paris, 1901; Sermons inédits; Bibliographie, etc.; Ferdinand Castets, Bourdaloue, la vie et la prédication d’un religieux au xvii siècle; la Revue Bourdaloue, Paris, 1902-1904; la Revue internationale de théologie, Berne, 1894-1895 (Correspondance de Thierry de Viaixnes relative à Bourdaloue); Kirchenlexikon, 2e édit., Fribourg-en-Brisgau, 1883, t. II, art. Bourdaloue; Der Katholik, Mayence, 1902 (Bourdaloue-Literatur).
Autor original: H. Chérot
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