BOSSUET (JACQUES-BÉNIGNE)

BOSSUET (JACQUES-BÉNIGNE)

BOSSUET Jacques-Bénigne. — I. Até sua nomeação para o bispado de Meaux. II. O bispo de Meaux. III. O homem, o teólogo e o apologista.

I. ATÉ SUA NOMEAÇÃO PARA O BISPADO DE MEAUX. — I. INÍCIOS ATÉ A ELEVAÇÃO À SÉ DE CONDOM. — 1° Família e educação. — Jacques-Bénigne Bossuet nasceu em Dijon em 27 de setembro de 1627, filho de Bénigne Bossuet, que se tornou em 1688 conselheiro no parlamento de Metz, e de Marguerite Mochet. Saint-Simon, com o desdém do grande senhor e talvez também com as apreensões secretas do arrivista, disse do chanceler Daguesseau: "O pai de seu pai era mestre de contas; é bom não ir mais longe." Mémoires, ed. Chéruel.

Muito pelo contrário, para os Daguesseau, como para os d'Ormesson, para os Bourdaloue também e para os Bossuet, é bom ir mais longe, e saber como, na antiga França, fundavam-se as famílias. Até o século XVI, os ancestrais de Bossuet tinham sido mercadores de tecidos na pequena cidade borgonhesa de Seurre. Um deles, Etienne Bossuet, após ter cumprido cargos municipais, foi nobilitado (1517), e mudou a insígnia falante — um cepo de vinha rugoso com a divisa: Bois boussu est bon — para um brasão ostentando de azul com três rodas de ouro. Ver H. Chérot, Autour de Bossuet, p. 16.

No parlamento da Borgonha, onde haviam entrado, os Bossuet, assim como os Mochet, durante a Liga e durante a Fronda, deram prova de um realismo cuja herança o mais ilustre de seus descendentes deveria recolher. A família era profundamente cristã. Após a morte de sua piedosa esposa, Bénigne Bossuet entrou na Igreja e recebeu o diaconato; e no mesmo dia do nascimento de seu neto, o avô, Jacques Bossuet, tinha escrito em seu livro de razões este versículo do cântico de Moisés: Circumduxit eum et docuit; et custodivit quasi pupillam oculi sui. Deut., XXXII, 10.

Assim, como disse o Pe. de la Broise, "a memória da Bíblia se liga aos primeiros momentos da vida de Bossuet." Bossuet et la Bible, Paris, 1891, introdução, p. XII-XIV. Mais tarde, estudante de segunda ou de retórica, Jacques-Bénigne encontrou na biblioteca de seu pai, ou na de seu tio Claude Bossuet, uma Bíblia latina. "Ele encontrou ali, diz o abade Le Dieu, um gosto e uma sublimidade que as fizeram preferir (os Livros sagrados) a tudo o que tinha lido até então. Ele se lembrou e contou com prazer, em todos os tempos de sua vida, quanto tinha sido tocado, de início, por essa leitura. Esse momento lhe era sempre presente e tão vivo como a primeira vez, tanto sua alma tinha sido atingida como por essas coisas que deixam uma mais profunda impressão de alegria e de luz..." Mémoires, t. I, p. 12, 13.

Bossuet guardou toda a sua vida essa impressão; chegado ao declínio, ele dizia das Escrituras: In his consenescere, his immori, summa votorum est. Epist. ad clerum Meldensem, na abertura dos Salmos. Aluno dos jesuítas, no colégio dos Godrans, onde sua incansável aplicação o fizera ser apelidado de bos suetus aratro (o boi acostumado ao arado), Jacques-Bénigne deixou em 1642 seus mestres e a cidade natal, para ir estudar no colégio de Navarre a filosofia e a teologia.

Ele chegou a Paris no mesmo dia (17 de outubro) em que Richelieu entrava como triunfador para ali morrer. Os estudos de Bossuet em Navarre deveriam se prolongar até 1652. Ele fez ali primeiro dois anos de filosofia durante os quais teve por professor Charles Touraine, da diocese de Coutances. Revue Bossuet, abril de 1901, p. 96.

Quando fez sua teologia, as três cátedras estavam ocupadas, a primeira por Pierre Guischard, a quem ele elogiava, uns cinquenta anos mais tarde, em uma carta ao bispo de Avranches, Daniel Huet; a segunda por Jean Yon, substituído em 1647 por Jean Saussoy; e a terceira por Jacques Perreyret. O grande mestre de Navarre, Nicolas Cornet, deve ter exercido influência sobre o brilhante aluno de sua casa. Esse teólogo perspicaz que, o primeiro na França, assinalou os erros do Augustinus, teria querido ter o jovem Bossuet como sucessor na direção de seu colégio. Em 1663, o discípulo já célebre proferiu a oração fúnebre de seu mestre. Embora muito tempo depois, em 1698, lendo-a em uma edição holandesa, ele não se tenha reconhecido nela, segundo o abade Le Dieu, mais de um traço, contudo, ali revela a garra do leão. Ademais, nem então, nem mais tarde, quando o Journal des savants deu sua análise, Bossuet desautorizou essa obra. F. Strowsky, Les années d’enfance et de jeunesse de Bossuet, na Revue Bossuet, abril de 1901, p. 86-111.

2° Estudos. — Aos dezesseis anos, o jovem estudante, introduzido no salão da marquesa de Rambouillet, ali tinha pronunciado, certa noite, uma improvisação que fez Voiture dizer que ele nunca tinha ouvido pregar nem tão cedo nem tão tarde. Eram esses os divertimentos sérios de um espírito que reservava ao trabalho a mais larga parte de seu tempo. O pequeno escrito que ele compôs em 1669 ou 1670 para o jovem cardeal de Bouillon, Sur le style et la lecture des Pères de l’Eglise, nos ensina a quais estudos ele tinha se entregado. Quanto ao vasto plano de um tratado de teologia, copiado em março de 1685 por Le Dieu, que nos conservou, ele indica uma posse demasiado plena de toda a ciência para ser obra de um simples estudante. Temos ali, antes, o fruto da experiência de Bossuet. Ver Revue Bossuet, janeiro e julho de 1900: escrito de Bossuet sobre os estudos que devem seguir a licença, precedido de uma Introduction, por E. Levesque.

Bossuet estuda a Bíblia, ele a estudará sem cessar. "O fundamento de tudo, escrevia ele, é conhecer muito bem as Escrituras do Antigo e do Novo Testamento... O método que segui ao lê-las é notar primeiro os belos pontos que se entende..., depois se virá às dificuldades..." Maldonat, por quem mais tarde, em sua luta contra Richard Simon, ele terá certa severidade; Guillaume Estius, de quem certas tendências teológicas o aproximam, parecem-lhe ocupar o lugar de todos os comentadores; eles são para ele instar omnium.

O que falta a Bossuet é o conhecimento do hebraico. Não que ele não tenha querido estudar a língua santa; mas ele começou tarde demais esse estudo, na idade da qual o Pe. Gratry, analisando-se nesse outono que ainda não é um declínio, que a certos respeitos é mesmo um progresso, dizia: "Hoje, eu não saberia aprender uma língua." Connaissance de l’âme, l. VI, c. VI.

Em contrapartida, Bossuet conhece a tradição; ele a estudou cedo, ele a estudou com uma paixão obstinada, e, como foi dito, "o conhecimento do dogma lhe descobria, em sua fonte bíblica, todo o rio da teologia e do ensino católico." R. P. de La Broise, Bossuet et la Bible, introdução, p. XII.

Entusiasta de Tertuliano, a quem louvará efusivamente, a quem justificará o máximo possível em seu Sixième avertissement, e cujo gosto depurado suavizará as audácias; de São Cipriano, em quem «se aprende admiravelmente a divina arte de manejar as Escrituras», ele é sobretudo de Santo Agostinho, «tão mestre», como dirá um dia. Bossuet não ignora os Gregos, Clemente Alexandrino, São Gregório de Nissa, São Gregório de Nazianzo, os dois Cirilos, São João Crisóstomo. Pretendeu-se que ele não era helenista ao sair do colégio, que só o tornou muito mais tarde, durante sua residência em Saint-Germain (1670-1681); enfim, que ele toma «segundo todas as aparências suas citações de segunda mão, quando lhe acontece alegar os Padres gregos durante sua juventude». M. Gandar, Bossuet orateur, p. 99. O autor da Histoire critique de la prédication de Bossuet opõe a esta assertiva as coletâneas de notas, contemporâneas dos primeiros sermões, e ele faz esta observação, decisiva para mais de um leitor competente, «que se encontra o grego sempre cuidadosamente acentuado.» L’abbé Lebarq, op. cit., part. IVe, c. 1. Cf. Delmont, Bossuet et les saints Pères, Paris, 1896.

3° Graus. — Mestre em artes em 6 de agosto de 1644, Jacques-Bénigne sustentou, em 24 de janeiro de 1648, sua primeira tese de teologia, dita a tentativa; o grande Condé, protetor de sua família, assistiu a esta sustentação, e esteve prestes, diz-se, a argumentar contra seu futuro panegirista. Ordenado subdiácono em Langres, em 21 de setembro de 1648, pelo bispo Sébastien Zamet, e diácono em Metz, em 21 de setembro de 1649, por Pierre Bédacier, bispo titular de Augustópolis, Bossuet sustentou a tese sorbônica em 9 de novembro de 1650, a menor ordinária em 5 de julho de 1651, e a maior ordinária entre 1º de junho e 31 de dezembro desse mesmo ano. Em 6 de fevereiro de 1652, ele era recebido licenciado. Em 16 de março seguinte, o sacerdócio lhe foi conferido. «Já que quereis saber, escreverá ele quarenta anos mais tarde à Mme Cornuau, o dia em que fui ordenado sacerdote é o sábado da Paixão de 1652.» Em 9 de abril do mesmo ano, ele recebeu o capelo de doutor. Ele está inscrito em 16 de maio no registro dos doutores. Lamenta-se com razão a perda da maior parte das teses de Bossuet. «O gabinete das Estampas, tão rico todavia em teses dessa época, diz o Pe. de la Broise, Bossuet et la Bible, p. XVIII-XIX, não possui as de nosso autor; e já em seu tempo o abade Le Dieu se queixava de procurar inutilmente entre os antigos doutores de Navarra as teses de teologia e os discursos de Bossuet.» O R. P. Gazeau publicou nos Études religieuses, 15 de junho de 1869, Une thèse de Bossuet sur l'Église, na data de 1651. Encontra-se ali em germe as ideias sobre a hierarquia que Bossuet desenvolverá, em dezembro de 1662, na oração fúnebre do terceiro geral do Oratório, o Pe. Bourgoing. Para estabelecer o dogma da unidade da Igreja, Bossuet não procede, por exemplo, como fará Franzelin. Para ele, tudo não parte do papa; o papa é, com os outros bispos, o fundamento do edifício; ele não aparece só senão no cume. A atitude de Bossuet em 1682 explica-se por estes começos.

4° Primeiros escritos. — A meditação sobre a brevidade da vida data desta época; Bossuet a escreveu em Langres, aos vinte e dois anos, quando se preparava ao subdiaconato. Ela atesta a maturidade de um espírito que já tocou o vazio de todas as coisas, a fé intensa de uma alma que as julga do ponto de vista da eternidade. Bossuet «a copia ou a imita, tem-se dito, cada vez que quer falar da morte». F. Strowski, Bossuet et les extraits de ses œuvres diverses, t. I, c. 1. O sermão sobre a morte, a Oraison funèbre de Madame, reproduzirão certos traços de uma eloquência sempre atual e sempre contagiante.

5° Sacerdócio. — Bossuet teve em Paris a inapreciável felicidade de conhecer São Vicente de Paulo, e de frequentar as conferências semanais, as terças-feiras presididas pelo servo de Deus. Sob sua direção, ele se preparara para a ordenação sacerdotal. Quase cinquenta anos mais tarde, encontrando em sua memória o eco prolongado dos discursos do santo, e em seu coração a emoção benfazeja que haviam produzido, o bispo de Meaux escreverá ao papa Clemente XI: «Elevados ao sacerdócio, fomos admitidos nesta sociedade de piedosos eclesiásticos que se reuniam cada semana sob sua condução, para tratar juntos das coisas de Deus. Vicente era a alma. Escutando-o com ouvido ávido, sentíamos que se cumpria a palavra do Apóstolo: Si quelqu'un parle, que Dieu parle par sa bouche.» Bossuetus ad Clementem XI. De virtutibus venerabilis Vincentii a Paulo.

6° Bossuet em Metz. — Sacerdote, Bossuet partiu para Metz, da qual era cônego desde 1640 (ele fora tonsurado aos oito anos), e onde já havia feito algumas estadias. Sucessivamente, em 1652 arquidiácono de Sarrebourg, que dependia então do bispado de Metz, e arquidiácono de Metz em 1654, ele prossegue seus estudos; ele argumenta contra os judeus, numerosos em Metz onde tinham direito de cidadania; ele combate também os protestantes. A Réfutation du catéchisme de Paul Ferry (1655) inaugura esta longa e brilhante série de obras de controvérsia: Histoire des variations, os Avertissements, as Instructions pastorales sur les promesses de l'Église. «Todo Bossuet, tem-se dito, já está na Réfutation; primeiro seu estilo, que nunca foi mais eloquente, mais pleno, mais natural; depois sua composição. A disposição não é de modo algum regular e didática; a dialética vai, vem, não sem ordem, mas sem rigidez... Enfim... Bossuet já tem suas ideias mestras. Ele aplaina ali as dificuldades de doutrina, ele mostra que os católicos têm a mesma confiança em Jesus Cristo que os reformados, enfim ele opõe muito vigorosamente a unidade ao cisma.» F. Strowski, Bossuet, etc., p. 194, 195. Em Metz, Bossuet facilita aos colaboradores de São Vicente de Paulo a pregação de uma missão e associa-se ao seu frutífero ministério. Ele contribui para a ereção de um seminário, e para o estabelecimento de uma casa da Propagação da fé para as novas convertidas.

Ele intervém junto a Condé, então a serviço da Espanha, e cujas bandas devastavam os arredores de Metz, para aliviar os encargos que pesavam sobre a cidade. Enfim, ele prega, notado e apreciado cedo pelo marechal de Schomberg, governador dos Três-Bispados, e pela marechala, esta Marie de Hautefort que havia inspirado ao casto Luís XIII um sentimento vivo e constantemente reprimido.

Na pregação de Bossuet, distinguiram-se três maneiras. « A primeira, disse um bom juiz, é sobretudo teológica e didática; » e ele nomeia vários sermões de Metz (Sermão sobre a bondade e o rigor de Deus; Primeiro sermão para a sexta-feira santa; Panegírico de São Gorgônio; Panegírico dos santos anjos guardiães), « mais longos, mais embaraçados de dissertações, menos habilmente compostos, de um realismo por vezes excessivo, mas por isso mesmo mais colorido. » F. Brunetière, Manuel de l'histoire de la littérature française, c. 1, p. 191.

O panegírico de São Bernardo, pronunciado em Metz em 1655, parece anunciar uma nova maneira. Admira-se nele um célebre retrato do jovem. Nenhum psicólogo viu melhor, nenhum poeta pintou melhor. Em 1659, Bossuet fixa-se em Paris; ele retorna, contudo, mais de uma vez a Metz, e é provavelmente nesta cidade que ele pronunciou as orações fúnebres da Sra. Yolande de Monterby, abadessa das bernardinas, e de Messire Henri de Gornay. Foi a uma jovem de Metz que ele escreveu, em 1662, esta carta sobre Jesus Cristo e a Igreja, onde se aliam uma alta teologia e uma piedade ardente.

Bossuet pregador. — Os anos que vão até 1670 são, na história da pregação de Bossuet, os anos capitais, os anos triunfantes. Então, após M. Brunetière, loc. cit., inaugura-se a sua segunda maneira, « sobretudo filosófica e moral, embora não de todo por isso laica; e, aliás, contanto que não se tomem essas distinções ao pé da letra..., Bossuet esforça-se por demonstrar, como Pascal, que, independentemente de tantas outras razões que ordenam acreditar, a religião é ainda, de todas as filosofias, aquela que explica melhor o homem e a natureza. »

Ele prega em Paris três quaresmas e dois adventos, panegíricos de santos, sermões de caridade, sermões de profissão e de vestição, conferências em seminários; duas quaresmas e dois adventos na corte; orações fúnebres, dentre as quais a de Ana d'Áustria, muito apreciada então e hoje perdida. G. Lanson, Bossuet, c. 1.

É na corte que foram pronunciados os sermões sobre a ambição, sobre a morte, sobre os deveres dos reis (neste sermão aparecem de antemão tanto a doutrina da Politique tirée des propres paroles de l'Écriture sainte, quanto as grandes imagens do Discours sur l'histoire universelle); os sermões sobre a Paixão, sobre a vigilância, para a festa de todos os santos. Dentre essas obras-primas, isolemos dois sermões de um caráter eminentemente apologético: o sermão sobre a providência (1662), e o sermão sobre a divindade da religião (1665). O primeiro é a demonstração de um dogma fundamental da teodiceia puramente racional e da teologia católica, cujos contraditores, cautelosos ou audazes, concordavam em imputar à Natureza ou ao Destino a regularidade do governo do mundo. Do exórdio deste sermão, M. Brunetière pôde dizer que é « um dos mais belos que temos de Bossuet, onde se ouve soar como um ruído de guerra, e cujo gesto soberbo parece o de um Condé levando suas tropas ao assalto ». Études critiques, 5ª série, La philosophie de Bossuet.

O sermão sobre a divindade da religião resume e apresenta com uma força soberana todas as provas que acreditam o cristianismo católico perante a razão e a consciência, nomeadamente essas provas de ordem moral às quais os nossos contemporâneos são sobretudo acessíveis. Não esqueçamos o panegírico de Santo André (1668), onde se leem estas proféticas palavras que indicavam de antemão a Lamennais o assunto e o título da sua mais célebre obra: « Prevejo que os libertinos e os espíritos fortes poderão ser descritos, não por qualquer horror aos seus sentimentos, mas porque se terá tudo na indiferença, exceto os prazeres e os negócios. »

Bossuet sermonário, Bossuet orador, foi ele colocado pelos seus contemporâneos no lugar sem igual onde a nossa admiração o contempla? « Saibamos, responde M. Brunetière, que o século XVII julgou mal a eloquência de Bossuet. Isso não quer dizer que Luís XIV, ou sua corte, tenham recusado reconhecer em Bossuet um grande e muito grande orador... Isso quer dizer que seus ouvintes não suspeitaram que ouviam a maior palavra que já caíra da cátedra cristã. » Introduction aux sermons choisis de Bossuet, Paris, 1900.

Aliás, Bossuet cessou de pregar no momento em que Bourdaloue aparecia; e, como a muitos outros, aconteceu ao precursor ser esquecido. O incomparável orador disse-o ele mesmo em seu sermão para a profissão de Mlle de La Vallière (4 de junho de 1675). «... Rompo um silêncio de tantos anos, faço ouvir uma voz que as cátedras não conhecem mais; » e em 1681, em seu sermão para o dia de Páscoa, ele declara « retomar a palavra após tantos anos de um perpétuo silêncio ». Não, sem dúvida, a eloquência de Bossuet não foi desconhecida: « Se ele tivesse sido um orador medíocre, toda a sua teologia não lhe teria servido de nada » para chegar, « e os ilustres hereges que queriam esclarecer-se não lhe teriam proporcionado a honra das suas conversões. » G. Lanson, Bossuet, c. III. Contudo, o que o século XVII sobretudo admirou em Bossuet foi o controversista e o teólogo.

Controvérsia com os jansenistas. — O teólogo mostra-se no período que retraçamos. Em 1644, a pedido do arcebispo, Hardouin de Péréfixe, ele escreveu sua carta às religiosas de Port-Royal de Paris, para decidir a subscreverem pura e simplesmente o formulário de Alexandre VII, onde eram atribuídas ao Augustinus e condenadas as cinco proposições famosas que perturbaram o século XVII. Esta carta foi entregue às suas destinatárias, e Bossuet teve com elas uma conferência no convento? A coisa é muito duvidosa. Floquet, Études sur la vie de Bossuet, l. X, t. 1.

Ele tentou levar à assinatura do formulário uma irmã e uma sobrinha de Antoine Arnauld, Agnès de Saint-Paul e Angélique de Sainte-Thérèse, que tinham sido transferidas para a Visitação do faubourg Saint-Jacques. A tia resistiu, e a sobrinha só consentiu em subscrever para se retratar depois.

Admitamo-lo, tocante à natureza da obediência devida aos decretos da Igreja sobre os fatos dogmáticos, Bossuet é menos preciso do que o será mais tarde Fénelon: ele não distingue suficientemente entre os julgamentos sobre as pessoas e os julgamentos sobre os escritos; mas ele não exige menos das religiosas de Port-Royal uma submissão interior e sem reserva. « Certamente, se alguém pedisse o seu testemunho para instaurar o processo ao livro de Jansenius e para apoiar a sentença sobre a sua deposição, não há ninguém que não vos conceda que, então, estareis obrigadas a depor sobre este fato com conhecimento de causa. »

Mas o julgamento foi proferido, os papas o pronunciaram, todos os bispos o receberam sem contradição, e o testemunho que se espera de vós não diz respeito senão a vós mesmos e às vossas próprias disposições, isto é, a coisa do mundo que melhor conheceis. E se nos responderdes que é isso também o que vos detém, porque duvidando que o papa e os bispos tenham julgado bem no que toca ao fato, não podeis assegurá-lo, é aqui que vos encontrareis convencidas de faltar com deferência para com a Igreja. Pois se a sua autoridade fosse tal em vosso espírito como deve ser, não há ninguém que não veja que ela poderia facilmente dissipar uma dúvida, e ainda uma dúvida como a vossa... »

9° Controvérsia com os protestantes. — Mas, na data em que nos encontramos, a controvérsia jansenista é apenas um acidente; o que ocupa sobretudo Bossuet é a controvérsia protestante. O arquidiácono de Metz deseja o retorno à unidade de tantas almas que ignorâncias e uma tradição já secular delas afastaram; e a França o deseja como ele. Ele está em todas as conferências que perseguem a obra da reunião e, graças ao seu método, que preferia às controvérsias a exposição calma e sincera da doutrina católica, protestantes se convertem.

Em 1665, é o marquês de Vangeau quem abjura a reforma; em 1668, será o seu irmão, Louis de Courcillon. Nomeemos também desde agora os condes de Lorge e de Rozan, e sobretudo Turenne. Os panegiristas do herói puderam calar o nome de Bossuet (assim Mascaron, que falava em presença de Bossuet) e atribuir ao sobrinho do grande homem, o cardeal de Bouillon, a glória de tal conversão; mas a posteridade não se deixou enganar por esses elogios e por esse silêncio.

II. O BISPO DE CONDOM E O PRECEPTOR DO DAUFIN.

1° O bispo de Condom. — Em 8 de setembro de 1669, Bossuet soube em Meaux, onde fora pregar a vestição de Mlle de La Vieuville, a sua nomeação ao bispado de Condom; — o renome desfavorável do seu parente, François Bossuet, comprometido na desgraça de Fouquet, e os infortúnios imerecidos de Antoine, seu irmão, tinham podido retardar a sua elevação. O novo bispo foi sagrado em 21 de setembro do ano seguinte, em Pontoise, diante da assembleia geral do clero da França, por Charles-Maurice Le Tellier, arcebispo de Nazianze e coadjutor de Reims, a quem assistiam Armand de Monchy d'Hocquincourt, bispo de Verdun, e o bispo de Autun, Gabriel de Roquette.

Bossuet, que, no intervalo entre a sua nomeação e a sua sagração, fora escolhido por Luís XIV como preceptor do daufin, nunca tomou pessoalmente posse da sua pequena diocese (Condom não compreendia senão cento e quarenta paróquias); de longe, contudo, não negligenciou a sua administração. Temos como prova dessa vigilância as medidas disciplinares que o bispo decretou, e as lutas que teve de sustentar. Plieux, L’épiscopat de Bossuet à Condom, in-8°, Bordeaux, 1879.

2° Benefícios; orações fúnebres. — Tornando-se em 1670 preceptor do daufin, e julgando que não poderia conciliar essas funções novas com o dever da residência episcopal, Bossuet demitiu-se em 31 de outubro de 1671. O rei conferiu-lhe o priorado de Saint-Etienne du Plessis-Grimoult, na diocese de Bayeux, e, em 1° de agosto de 1672, a rica abadia de Saint-Lucien de Beauvais. O marechal de Bellefonds — o mais bem provido dos homens — alarmou-se pelo seu amigo com esse acúmulo de benefícios, e este, às admoestações severas que lhe foram feitas, respondeu com sinceridade, quase direi com candura.

Sem dúvida, um bispo mais compenetrado das delicadas exigências da pobreza evangélica — são Carlos Borromeu, são Francisco de Sales — não teria escrito: «Não me sinto ainda bastante hábil para encontrar todo o necessário, se não tivesse precisamente apenas o necessário; e perderia mais da metade do meu espírito, se estivesse apertado no meu doméstico.» Mas é bem um homem de alma profundamente cristã e sacerdotal que, após ter alegado como defesa que os benefícios «são destinados para aqueles que servem a Igreja», acrescenta: «A experiência me fará conhecer de que me posso passar: então tomarei as minhas resoluções, e tentarei não ir ao julgamento de Deus com uma questão problemática sobre a minha consciência.» Ao marechal de Bellefonds, Versalhes, 19 de setembro de 1672.

Em 16 de novembro de 1669, Bossuet tinha pronunciado na Visitação de Chaillot a oração fúnebre da rainha da Inglaterra; em 21 de agosto de 1670, pronunciou em Saint-Denis a da duquesa de Orléans. Tudo foi dito sobre essas duas obras-primas que, cerca de dez anos depois, o incomparável orador enviava ao seu amigo Rancé como «duas cabeças de morto bastante tocantes» (30 de outubro de 1682). Sabe-se também com que compassiva solicitude, que «encantou» mesmo o duro doutor Feuillet, o bispo de Condom socorreu e consolou a agonia de Madame.

3° Preceptor do daufin. — Bossuet dedica-se sem reserva a essas funções que, muito justamente, revestiam aos seus olhos o caráter do mais importante serviço público. Ele exige do seu aluno um trabalho cotidiano — era a vontade de Luís XIV, tão assíduo ele mesmo ao seu ofício de rei; exceto nos casos muito raros de doença em que é substituído pelo subpreceptor, Daniel Huet, ele dá por dia três aulas ao daufin. Ele não professa, ele conversa com a criança real, ele lhe dá verdadeiras lições de coisas.

«Bossuet procura falar aos olhos: ele pica a curiosidade, ele inventa mil artifícios engenhosos; ele coloca o jovem príncipe em confronto com outras crianças da sua idade, notáveis pela sua precocidade ou pelo seu mérito; ele chama homens de ciência que repetem diante do daufin as experiências mais recentes da física, que lhe mostram as últimas descobertas da anatomia. Ele o conduz ao Observatório, ele o leva à Biblioteca do rei, onde a Académie des sciences realizava as suas sessões, e que era ao mesmo tempo uma espécie de Conservatório das artes e ofícios.» F. Strowski, Bossuet, etc., t.

I, c. 1. Para tornar-se mais apto ao seu emprego, Bossuet tinha reatado um comércio mais frequente e mais íntimo com as duas antiguidades clássicas. Ele tinha estudado a história, particularmente a história da França, que o herdeiro da coroa tinha sobretudo interesse em conhecer. «Nós estivemos nas fontes, dirá ele na sua carta a Inocêncio XI, De institutione delphini, e nós tiramos dos autores mais aprovados o que podia servir mais para fazer compreender (ao príncipe) a sucessão dos negócios.»

Antes de tudo, de acordo com o rei, de acordo consigo mesmo, ele quer inspirar ao daufin uma religião profunda. A admirável carta, da qual citamos uma passagem, revela o objetivo visado e os métodos seguidos pelo preceptor. Bossuet logrou êxito, e, sendo rei, o daufin teria feito honra ao seu mestre? Este último, mais de uma vez, queixou-se da inapetência do seu aluno. Não esqueçamos que ele não tinha começado a obra desta educação; que ele substituía o presidente de Périgny, cujas minuciosas exigências tinham desencorajado e cansado de antemão o delfim; não esqueçamos também que as rudezas do governador, Montausier, não facilitaram de modo algum a sua tarefa.

Afinal, este príncipe que muitos testemunhos nos representam como corajoso, humano, sensato, e cuja morte foi honrada pelas lágrimas do povo, foi ele tão nulo quanto pretendeu o ódio repleto de fel do duque de Saint-Simon? «O seu reinado, disse-se, não se teria assemelhado em nada ao do seu pai. Sob um príncipe de temperamento pacífico, vivendo muito bem sem glória, a França teria repousado com mais dignidade do que sob este regente de quem Saint-Simon possuía toda a confiança; e quem ousaria dizer que, neste caso, a França teria perdido na troca?» R. P. Charles Daniel, S.J., *Bossuet à la cour de Louis XIV*, nos *Études religieuses*, março de 1866.

Seja como for, não foi apenas para o delfim que Bossuet trabalhou. Tinha-se querido «tornar comum a todos os franceses a educação do príncipe destinado a reinar um dia sobre eles». Juillard de Jarry, na *Oraison funèbre du duc de Montausier*. De fato, a *Connaissance de Dieu et de soi-même*, a *Logique*, a *Politique tirée des propres paroles de l’Écriture sainte*, o *Discours sur l’histoire universelle*, e até mesmo este *Abrégé de l’histoire de France* onde o mestre guia a mão do aluno, compostos para uma educação real, instruíram e continuarão a instruir a posteridade. O autor, contudo, mal pensava na posteridade; ele deixou várias destas obras na gaveta, assim como muitas outras, ao sabor de uma publicação póstuma que poderia ter falhado.

O *Discours sur l’histoire universelle* não correu tais riscos. Bossuet publicou em 1681, em 1682 e em 1700, com correções, esta obra-prima. Das *Époques*, manual incomparável, pôde escrever-se que «certas partes dizem mais, na sua forte brevidade, do que os quadros desenvolvidos de tal longa e erudita história». P. Jacquinet, *Discours sur l’histoire universelle*, prefácio.

Na segunda parte do *Discours*, a *Suite de la religion*, Bossuet tinha colocado todo o seu pensamento apologético, meditado e amadurecido desde a juventude. Negou-se, no entanto, a esta segunda parte o seu valor apologético. Sem dúvida, Bossuet que não previa as futuras descobertas da egiptologia e da assiriologia (e não foi por falta de iniciativa sua que essas descobertas não foram apressadas pela iniciativa de Luís XIV; ver *Les empires*, c. 11); Bossuet não estava constrangido a recuar mais do que se fazia no seu tempo as origens da humanidade e a alongar a cadeia das gerações supondo que, no relato bíblico, muitas gerações tinham sido omitidas. Que a sua demonstração da autenticidade e da soberana veracidade do Pentateuco precise ser retomada, que possa sofrer retoques e mudanças que deixem intactas as teses fundamentais, não se contesta. Mas toda a apologética do *Discours sur l’histoire universelle* não está nos três primeiros capítulos da segunda parte; ela está também naqueles admiráveis capítulos que vão do XIX ao XXVI; que estabelecem, por argumentos irrefutáveis, o caráter plenamente histórico dos livros do Novo Testamento; que nos propõem, como motivos de credibilidade, a incomparável santidade da pessoa de Jesus Cristo, a transcendência da sua doutrina, a perenidade da sua obra.

Quanto à terceira parte do *Discours*, se Bossuet nada disse sobre a Índia nem sobre a China, não é sem dúvida porque não conhecesse, no mínimo, a *Histoire de la Chine* do jesuíta Martini. Ele não fez passar diante dos nossos olhos senão o Egito, a Assíria, a Pérsia, a Grécia e Roma, porque o seu desígnio era escrever apenas a história dos impérios que tinham servido à execução dos conselhos de Deus sobre a nação judaica, e portanto ao advento e à difusão do cristianismo. Aliás, de um ponto de vista que não era o de Bossuet, não se sustentou nos nossos dias que a verdadeira história universal é a história dos povos que tiveram sobre as longas séries das gerações humanas uma ação durável e decisiva, é a história da Grécia, de Roma e, sobretudo, de Israel?

4º Bossuet na Académie française. — Pouco tempo antes de inaugurar as suas funções de preceptor, Bossuet entrou na Académie française. O seu discurso de recepção, mais curto do que os de hoje, exprime ideias sempre verdadeiras sobre a fixidez das línguas, necessária condição da duração das obras; ele termina com uma exortação sublime: «Trabalhai sem descanso para vos superardes todos os dias a vós mesmos, uma vez que tal é, ao mesmo tempo, a grandeza e a fraqueza do espírito humano, que não podemos igualar as nossas próprias ideias, tanto aquele que nos formou teve o cuidado de marcar a sua infinitude.»

5º Bossuet na corte. — Bossuet preceptor foi um bispo no meio da corte, como disse Massillon, *Oraison funèbre du dauphin*. Ele o foi entre todos os escândalos reais. Ele encoraja Louise de La Vallière no seu arrependimento, nos seus projetos de retiro; e quando todos os laços tiverem enfim sido quebrados, quando a penitente se prepara para fazer no Carmelo a sua solene profissão (4 de junho de 1675), Bossuet pronuncia este sermão do qual J. de Maistre disse que «jamais homem não assistido (pelo Espírito Santo) pôde elevar-se a estas ideias nem a este tom». *Observations critiques sur une édition des lettres de Madame de Sévigné*, nas *Lettres et opuscules inédits*, t. 1, p. 451.

Ele se esforça por separar Luís XIV da altiva rival que tinha suplantado Louise de La Vallière; ele dirige ao rei as cartas mais corajosas; e essas cartas, ele as tinha meditado no silêncio e na oração, temendo que preocupações terrestres lhe enfraquecessem o acento e lhe amortecessem a eficácia. «Seria preciso ser como um santo Ambrósio, escrevia ele ao marechal de Bellefonds, um verdadeiro homem de Deus, um homem da outra vida onde tudo falasse, onde as palavras fossem oráculos do Espírito Santo, cuja doutrina toda fosse celeste: rezai, rezai, rezai, eu vos conjuro.» Carta de 20 de junho de 1675.

Assim, é com toda a verdade que Saint-Simon disse de Bossuet, por vezes caluniado pela leviandade ou pela inveja: «Ele falou frequentemente ao monarca com uma liberdade digna dos primeiros séculos e dos primeiros bispos da Igreja; ele interrompeu, mais de uma vez, o curso da desordem; ele desferiu todos os golpes; enfim, ele o fez cessar.» Mémoires, edit. Chéruel, t. XII, p. 122.

Bossuet não era menos bispo no meio da corte, quando, nesta mesma data de 1675, lembrava a Luís XIV a angústia dos povos, e a obrigação em que estava o rei de aliviá-la (carta de 10 de julho de 1675); quando, pregando em Saint-Germain no domingo de Páscoa de 1681, ele convidava o soberano a seguir o exemplo do Salvador. « É preciso, portanto, descer com ele, por mais alto que se seja..., descer para compadecer-se, para ouvir de mais perto a voz da miséria que trespassa o coração, e trazer-lhe um alívio digno de tão grande poder.»

Citou-se frequentemente, para aprová-la ou para combatê-la, uma assertiva de J. de Maistre sobre o grande bispo: «As dores do povo, os erros do poder, os perigos do Estado, a publicidade das desordens nunca lhe arrancam um único grito.» De l'Eglise gallicane, l. II, c. XII.

Seria preciso relegar esta frase entre outros julgamentos precipitados e falhos que escaparam por vezes a J. de Maistre, se não fosse preferível adotar a engenhosa interpretação que propõe o abade Charles Urbain: «O ilustre publicista não acusa, como se disse, o bispo de Meaux de permanecer insensível às misérias dos pobres ou aos vícios de seu tempo; ele constata que nenhum homem foi jamais mais senhor de si mesmo, e não soube melhor dizer o que era preciso, como era preciso e quando era preciso.» Sermons choisis de Bossuet, introdução, p. X.

6º Diversas ocupações de Bossuet nesta época. — Na corte, Bossuet não interrompia o estudo da teologia e da Escritura; foi, inclusive, um poderoso e incansável promotor. Conferências semanais que se iniciaram no primeiro domingo do Advento de 1675, e que se sucederam em Saint-Germain e em Versalhes, agrupavam em torno dele eclesiásticos e leigos, desejosos de aprofundar o texto sagrado. Eram teólogos e eruditos como Daniel Huet, Fénelon, Gallois, Mabillon; orientalistas, rabinos, dizia-se: Eusébio Renaudot, Barthélemy d’Herbelot, os dois irmãos Veil, judeus de Metz convertidos por Bossuet; eram outros ainda, La Bruyère, Pellisson, Caton de Court, Nicolas Thoynard. Lia-se primeiramente uma passagem da Bíblia — foi pela profecia de Isaías que se começou em 1675 — cada assistente propunha dúvidas ou explicações; Bossuet resumia o debate, e o secretário da assembleia, do concílio, como a haviam chamado, Claude Fleury, segurava a pena sob o ditado do mestre. «Durante uma dezena de anos, ele cobriu com sua letra fina e regular as grandes margens da Bíblia de Vitré que Bossuet emprestava ao concílio, para ali recolher as anotações decididas em comum.» R. P. de La Broise, Bossuet et la Bible, introdução, p. XXIV.

7º Controvérsia protestante. — A controvérsia protestante ocupa um lugar capital nestes anos de preceptorado. Desta época são: Exposition de la doctrine catholique sur les matières de controverse; L’Avertissement pour la deuxième édition de cet ouvrage; a Conférence avec Claude; o Traité de la communion sous les deux espèces, e La tradition défendue sur la matière de la communion sous une espèce. Na Exposition publicada em 1671, cujo manuscrito circulou e teve sobre a conversão de Turenne uma influência decisiva, Bossuet empenha-se em dissipar ignorâncias e preconceitos. Deixando toda disputa, ele expõe com uma forte e luminosa simplicidade a doutrina católica sobre os pontos contestados, sobre aqueles que, no século precedente, haviam ocasionado a ruptura. Ele emprestava do concílio de Trento a expressão autêntica da fé da Igreja. «Esta exposição de nossa doutrina», dizia Bossuet, «produzirá dois bons efeitos. O primeiro, que muitas disputas se desvanecerão por completo, porque se reconhecerá que não estão fundadas senão em falsas explicações de nossa crença. O segundo, que as disputas que restarem não parecerão, segundo os princípios dos pretensos reformados, tão capitais quanto quiseram primeiramente fazer crer, e que, segundo estes mesmos princípios, elas não têm nada que fira os fundamentos da fé.» Op. cit., I, Dessein de ce traité.

E, de fato, Bossuet mostrava que, sobre muitos pontos, os preconceitos protestantes haviam desfigurado a doutrina católica — por exemplo, sobre o culto rendido aos santos; sobre a justificação, objeto no século XVI de longos e ardentes debates, que nosso século, penetrado, infelizmente, de pelagianismo e de naturalismo, compreenderia a duras penas. Sem dúvida, sobre todos os artigos contestados, um leal esclarecimento não suprimia a disputa. Tal é o artigo da presença real, do qual Bossuet dizia: «É... a mais importante e a mais difícil de nossas controvérsias, e aquela, de fato, onde estamos mais distantes» (XVI). E, contudo, sobre este ponto mesmo, o bispo quer mostrar aos dissidentes que uma aproximação lhes seria menos difícil do que pensam.

Os calvinistas, tão opostos ao dogma católico, não têm, sobre a presença que atribuem ao Salvador na Ceia, uma linguagem que só encontra em nossa doutrina sua verdadeira explicação e sua justificação completa? Aliás, eles olham como isenta de todo veneno a crença luterana que, contrária ao dogma da transubstanciação, admite, contudo, a presença real de Nosso Senhor na Eucaristia: este passo, que os avizinha dos luteranos, não os aproxima também de nós? Finalmente, já que os calvinistas, surdos às objeções que levantam os socinianos, defendem contra estes o incompreensível mistério da encarnação divina, estão autorizados a objetar aos católicos a incompreensibilidade do mistério eucarístico? E, para indicar a razão soberana destes dois mistérios, o controversista encontra acentos dos quais degustaremos, na Oraison funèbre de la Palatine, e nas Méditations sur l’Evangile, a doçura penetrante. «Basta ter aprendido pelas santas Escrituras que o Filho de Deus quis nos testemunhar seu amor por efeitos incompreensíveis. Este amor foi a causa desta união tão real pela qual ele se fez homem. Este amor o levou a imolar por nós este mesmo corpo tão realmente quanto ele o tomou. Todos estes desígnios são seguidos, e este amor se sustenta por toda parte com a mesma força... É por isso que não se deve mais se admirar se ele dá a cada um de nós a própria substância de sua carne e de seu sangue. Ele o faz para imprimir em nosso coração que é por nós que ele os tomou, e que ele os ofereceu em sacrifício. O que precede torna toda esta sucessão crível; a ordem de seus mistérios nos dispõe a crer tudo isso; e sua palavra expressa não nos permite duvidar» (XXI).

Chegado ao termo de sua Exposition, o autor estava no direito de escrever: «Espero que aqueles de sua comunhão (a comunhão protestante) que examinarem equitativamente todas as partes deste tratado, serão dispostos por esta leitura a melhor receber as provas sobre as quais a fé da Igreja está estabelecida; e reconhecerão, enquanto isso, que muitas de nossas controvérsias se podem terminar por uma sincera explicação de nossos sentimentos; que nossa doutrina é santa, e que segundo seus princípios mesmos nenhum de seus artigos revira os fundamentos da salvação» (XXII).

A Exposição espantou muitos protestantes; o catolicismo que ela lhes revelava não se assemelhava ao que, decepcionados por uma tradição errônea e por preconceitos tenazes, eles tinham acreditado conhecer até então. Jurieu, surpreso e cedendo a um charme ao qual não deveria submeter-se por muito tempo, declarava-a «o livro mais doce, mais sábio, mais moderado que se poderia imaginar». Para combater o efeito de tal obra no seio da Reforma, pretendeu-se que o autor tivesse dissimulado a verdadeira doutrina da Igreja; imaginou-se a fábula de uma primeira edição, muito diferente da segunda, e que em seguida teria sido suprimida. De fato, como diz Bossuet, as diferenças entre uma edição destinada unicamente aos seus amigos e a edição destinada ao público não tocavam no dogma, e diziam respeito apenas ao estilo.

A obra tinha sido aprovada por onze bispos franceses; mas, aos olhos dos protestantes, esta era uma medíocre garantia de ortodoxia; «é preciso, dizia um deles, que o oráculo de Roma fale sobre as matérias da fé... Ele falou, esse oráculo que toda a Igreja católica escutou com respeito desde a origem do cristianismo», responde Bossuet; dois breves de Inocêncio XI (4 de janeiro e 12 de julho de 1679) honraram com uma aprovação soberana um livro onde, na França e fora da França, ilustres e numerosos sufrágios tinham já reconhecido a verdadeira doutrina da Igreja. Nenhuma obra da época foi tão difundida. Foi tirada a várias centenas de milhares de exemplares. «Jamais, disse da Exposição M. A. Rébelliau, o protestantismo tinha sido atacado de uma forma mais sensível, e se, a partir de 1670, houve, sobretudo na sociedade cultivada, bastante numerosas conversões, a Exposição aí foi provavelmente por muito.» Bossuet, c. IV.

Uma das mais célebres conversões desta época (1678), a conversão de uma sobrinha de Turenne, a Srta. de Duras, só teve lugar após uma conferência entre o bispo de Condom e o ministro Claude que, desde a morte de Daillé e na velhice de Ferry, ocupava o primeiro lugar entre os protestantes franceses. M. Rébelliau, não sem razão, aproxima esta conferência da famosa conferência de Fontainebleau (1600) que tinha colocado frente a frente Duplessis-Mornay e Du Perron, e onde as últimas dúvidas que subsistiam talvez ainda na alma de Henrique IV tinham caído definitivamente. Entre dois adversários rompidos nas controvérsias, a discussão tinha sido urgente; em um certo momento, Bossuet tinha sentido o receio de não poder fazer a uma objeção de Claude uma resposta que parecesse decisiva. «Eu não falava senão tremendo, disse ele em sua Relation de la conférence, vendo que se tratava da salvação de uma alma; e eu pedia a Deus que me fazia ver tão claramente a verdade, que Ele me desse palavras para colocá-la em seu dia: pois eu tinha a tratar com um homem que escutava pacientemente, que falava com nitidez e com força, e que enfim levava as dificuldades às últimas precisões.»

Esta objeção dizia respeito a um ponto que desde então tem sido frequentemente tratado pelos apologistas e pelos teólogos católicos: a gênese do ato de fé no batizado, e os motivos que o justificam. Bossuet fornece sobre este ponto delicado amplas e decisivas explicações em sua resposta ao relato que Claude tinha feito da conferência. Sixième réflexion sur un écrit de M. Claude.

O ilustre controversista tinha resolvido apresentar em uma obra especial, destinada aos luteranos não menos que aos calvinistas, as provas da doutrina contida na Exposição. Da obra projetada, temos cinco fragmentos onde se atesta a poderosa maturidade do autor: Do culto que é devido a Deus; Do culto das imagens; Da satisfação de Jesus Cristo; Da Eucaristia; Da tradição ou da palavra não escrita. É a tradição sobre um ponto de disciplina que tinha tomado aos olhos dos protestantes uma importância capital que Bossuet defende em seu Traité de la communion sous les deux espèces. «Ao ouvir falar (nossos irmãos separados), escreve ele, diríeis que todo o cristianismo consiste em receber as duas espécies do Santo Sacramento.» La tradition défendue sur la matière de la communion sous une espèce. Avertissement.

Em seu tratado, o bispo, ajudando-se da história, atém-se a mostrar «que a prática da Igreja desde os primeiros tempos é que nela se comungava sob uma ou sob duas espécies, sem que se tenha jamais cogitado que faltasse alguma coisa à comunhão quando se tomava apenas uma». Traité de la communion sous les deux espèces, Iª parte.

A Igreja tinha, portanto, podido, segundo as ocorrências, permitir ou retirar aos seus filhos o uso do cálice. O tratado de Bossuet provocou duas respostas, uma de um ministro de Rouen, Mathieu de Larroque, a outra de um anônimo que era talvez o protestante Noël Aubert de Versé, «vigorosos atacantes», diz Bossuet, Tradition défendue, part. II, c. XIV, os quais (é ainda Bossuet que fala), desenterraram todas as antiguidades e esgotaram a matéria. A crítica deles foi-lhe útil.

Em uma obra que completa e por vezes retifica a primeira, e que só foi publicada em 1753: La tradition défendue sur la matière de la communion sous une seule espèce, Bossuet confessa que sobre um ponto ele seguiu muito cegamente o clássico historiador da Igreja, Barônio. «Que se este sábio cardeal, diz ele, em um trabalho tão grande como o dos Anais da Igreja, não pôde examinar todas as coisas com uma igual exatidão, e que por não ter tomado princípios suficientemente firmes nesta matéria, ele não esteja bem de acordo consigo mesmo; ou que em uma obra tão vasta, lhe aconteça algumas vezes esquecer em um lugar o que terá estabelecido em outro; cabe a nós não deferir aos seus sentimentos senão enquanto os encontrarmos sustentados por boas razões.» Tradition défendue, part. II, c. XXV.

Advertido desta sorte, «formado pela ginástica proveitosa que as chicanas dos seus adversários lhe impuseram», Bossuet remontará doravante aos originais; pouco contente com os textos impressos, faz-se enviar por seus amigos, Mabillon, Ruinart, documentos inéditos; «aprende enfim, e de bom grado, a manejar regularmente os procedimentos da exatidão rigorosa, literal, terra a terra, à beneditina, pois ele percebe a virtude disso.» A. Rébelliau, Bossuet historien du protestantisme, t. I, c. III.

E como o amor da verdade, não somente da verdade que ilumina, mas da verdade que salva, anima, aquece mesmo toda esta erudição! «Na discussão destas matérias, peço paciência ao meu leitor; e ouso prometer-lhe de antemão que, por pouco que se tenha gosto ou respeito pela antiguidade, ser-se-á pago de seus esforços. Será preciso frequentemente explicar os antigos ritos da Igreja, que são outros tantos monumentos da tradição. Nossos adversários nos falam frequentemente do antigo cristianismo. « É deste antigo cristianismo que lhes representaremos as santas virtudes, onde todos os filhos de Deus respiram, por assim dizer, um ar de piedade. » Tradition défendue, parte II, c. vi.

8° Desavenças com Richard Simon. — Em 1678 começam as desavenças entre Bossuet e Richard Simon; desavenças que, entre altos e baixos, duraram mais de vinte e cinco anos. Digamo-lo logo de imediato: o bispo e o oratoriano dificilmente foram feitos para se entender. Discípulo entusiasta desta tradição católica que ele expõe com uma eloquência sem igual, mas com a qual confunde, por vezes, opiniões de escola, Bossuet indigna-se com as asserções ousadas, com os subentendidos equívocos, com todas as irreverências de um crítico que acredita realçar por meio do sarcasmo a sua incontestável erudição. Daí, no bispo, severidades que apenas por vezes se abrandaram. Ele não desconhecia o mérito de Simon: « Não quero senão o bem a este autor, e tornar úteis à Igreja os belos talentos que ele próprio tornou suspeitos », escreverá ele ao abade Bertin (19 de maio de 1702); contudo, ele não apreciava este mérito na sua justa medida. Ele não sabia o suficiente, ele, o mestre, que estava na presença de um outro mestre, menos grande, sem dúvida, e menos seguro, mas que, « orientalista consumado... trouxe a atenção de volta para as línguas semíticas, e... deu o primeiro as regras para discernir os bons manuscritos. » Ch. Trochon, Richard Simon et la critique biblique, na Revue de Normandie, Rouen, maio de 1868.

No oratoriano que julgava de cima São Agostinho, punha voluntariamente em evidência as divergências dos Padres e frequentava os heterodoxos, Bossuet via um contemptor da antiguidade, quase diria um padre de fé duvidosa. A Histoire critique du Vieux Testament foi o primeiro das obras de Simon que deu o alerta ao bispo. Um amigo de Port-Royal, muito provavelmente Renaudot (entre Simon e os jansenistas havia guerra de morte), enviou a Bossuet as folhas do livro, então em curso de impressão. O bispo, alarmado, fez deter a publicação (abril de 1678); e todos os exemplares, no número de mil e trezentos, foram enviados para a destruição. A obra foi reimpressa na Holanda. As Histoires critiques du texte et des versions du Nouveau Testament apareceram em seguida, e, sem contestar a autoridade e a justiça dos decretos do Index que atingiram esses livros, pode-se reconhecer nelas, com Reithmayr e o P. de Valroger, « um espantoso desdobramento de erudição histórica e de penetração crítica. »

Novas desavenças com Richard Simon ocuparam Bossuet nos últimos anos da sua vida. Vamo-las narrar de imediato, para não termos de voltar a elas. A Histoire des commentateurs du Nouveau Testament, que fazia seguimento à do texto e à das versões, tinha aparecido em 1693; sem tardar, Bossuet pôs-se à obra, e, embora distraído sem cessar por outros trabalhos, refutou esta Histoire na sua Défense de la tradition et des saints Pères.

A versão do Novo Testamento, impressa em Trévoux após exame dos sorbonistas Bourret e Pocquelin, excitou uma vez mais contra Richard Simon o bispo mais que setuagenário cuja verve, ajudada por uma abundante erudição, não se esgotava. Ele escreveu as suas duas Instructions contra esta tradução suspeita (1702-1703). Na versão dita de Trévoux, Bossuet assinala uma crítica ousada, desdenhosa das interpretações tradicionais, e voltada a esvaziar a doutrina da Igreja, a diminuir-lhe, a obscurecer-lhe as provas. O que o irrita na Histoire des commentateurs du Nouveau Testament é o desígnio manifesto de rebaixar São Agostinho, e de opor à sua doutrina sobre a graça a de seus predecessores, sobretudo a dos Padres orientais.

« O ministro Basnage triunfa disso », escrevia Bossuet no Prefácio da sua segunda Instruction; « e demasiado fraco para desculpar as variações da sua pretensa Igreja, não encontra outros recursos senão reprochar à Igreja cristã o ter variado ela mesma desde a sua origem sobre a matéria da graça. » Bossuet vislumbra o inimigo: o protestantismo sempre à espreita, e, na extrema-esquerda do protestantismo que os desavêem em vão, Socino e os seus adeptos. Daí as suas cóleras contra toda opinião que lhe pareça favorecer o adversário.

É ele sempre vencedor na campanha que conduz contra Richard Simon? « Se se examina nos detalhes as críticas que ele endereça ao autor das Histoires critiques e do Novo Testamento », responde o R. P. de La Broise, « encontra-se que muito frequentemente, na maior parte do tempo talvez, ele tem razão e que ele apoia as suas queixas em boas provas, mas acontece-lhe também enganar-se; acontece-lhe mais frequentemente ainda, mesmo quando ele tem provavelmente razão, não levar o que avança até à demonstração, como tinha prometido; algumas frases oratórias bastam-lhe quando uma discussão desenvolvida e precisa seria necessária. » Bossuet et la Bible, c. XII, §2. Cf. H. Margival, Richard Simon et la critique historique au xviie siècle, na Revue d’histoire et de littérature religieuses, 1899, t. IV, p. 435-457; A. Bernus, Richard Simon et son histoire critique du Vieux Testament. La critique biblique au siècle de Louis XIV. Tese apresentada à faculdade de teologia da Igreja livre do cantão de Vaud, Lausanne, 1869; J. Denis, Critique et controverse ou Richard Simon et Bossuet, Caen, 1870.

III. O BISPO DE MEAUX. — Dos últimos anos de Bossuet, para onde nos tinha arrastado o desígnio de retraçar de uma só vez a controvérsia com Richard Simon, voltamos ao ano de 1678. A união do delfim com Maria Cristina da Baviera tinha sido decidida; relevado das suas funções de preceptor, Bossuet, às aproximações do matrimónio, foi escolhido como capelão da princesa, a quem foi receber em Fegherseim, a algumas léguas aquém de Estrasburgo, com toda a casa da nova delfina. A 2 de maio de 1681, era nomeado para o bispado de Meaux, vago pela morte de M. de Ligny. Foi preconizado a 17 de novembro do mesmo ano; a 17 de fevereiro de 1682, tomava posse da sua sé.

I. PAPEL QUE O BISPO DE MEAUX DESEMPENHA NOS ASSUNTOS GERAIS DA ÉPOCA. — Bossuet, em Meaux, cumpre com um zelo e uma perseverança infatigáveis as funções do seu cargo. Mas antes de retraçar esta vida episcopal tão plena e de nomear as obras imortais que ele escreveu então, é necessário recordar um acontecimento no qual o bispo de Meaux teve um papel importante: a declaração de 1682.

A declaração de 1682. — A questão da régale, debatida entre Inocêncio XI e Luís XIV, ao provocar a reunião da assembleia de 1681, tinha sido a ocasião da famosa declaração. Em virtude da régale, os reis da França, quando um bispado estava vago, percebiam os seus rendimentos e nomeavam para os benefícios que dele dependiam, até que o novo titular tivesse prestado juramento de fidelidade e feito registrar o seu juramento na Câmara de Contas; isso chamava-se encerrar a régale. «Era, disse-se, uma exceção ao direito comum e um encargo que se explicava, aliás, em certas dioceses, pela lembrança das fundações que os príncipes ali tinham feito, e pela proteção que tinham frequentemente concedido a igrejas privadas de seus chefes contra a violência e a cupidez dos nobres. O II concílio geral de Lyon (1274) tinha autorizado a régale nos bispados onde ela estava estabelecida por título de fundação, ou por um antigo costume, e proibido expressamente de introduzi-la naqueles onde ela ainda não era recebida. Um grande número de igrejas estavam, portanto, isentas na França, e notadamente as das províncias de Languedoc, de Guyenne, de Provence e de Dauphiné...» Ch. Gérin, Recherches historiques sur l’assemblée du clergé de France de 1682, c. I.

À diferença de Luís XII e de Henrique IV, que declaravam não querer exceder em matéria de régale, «as gentes do rei sustentavam que a régale era um direito da coroa, inalienável e imprescritível», Fleury, Introduction au droit ecclésiastique, part. I, c. XVII; e Luís XIV, entrando ele mesmo nas máximas de seus conselheiros, por declarações de 1673 e de 1675, estendeu a régale a todo o reino. Todos os arcebispos e bispos que ainda não tinham encerrado a régale fazendo registrar seu juramento de fidelidade, eram postos em mora de cumprir essa formalidade nos seis meses. Pavillon, bispo de Aleth, e Caulet, bispo de Pamiers, opuseram às pretensões reais uma resistência intrépida. Não retraçaremos as peripécias da perseguição e do cisma que grassaram na diocese de Pamiers. O papa tinha endereçado ao rei breves severos; sob a influência do arcebispo de Paris, Harlay, a assembleia do clero de 1680 tomou partido por Luís XIV contra Inocêncio XI; e uma segunda assembleia (a pequena assembleia de 1681) preparou aquela onde a questão da régale e outras questões ainda mais graves seriam decididas de uma maneira tão contrária às doutrinas da Santa Sé.

A nova assembleia — aquela que traz na história o nome de assembleia de 1682 — reuniu-se no convento dos Grands-Augustins, em 27 de outubro de 1681. Abriu-se no domingo, 9 de novembro, pela missa solene do Espírito Santo; e após o Evangelho, Bossuet, deputado da província eclesiástica de Paris, subiu ao púlpito e pronunciou, ou melhor, leu o sermão sobre a unidade da Igreja.

O que o bispo de Meaux pensava do direito de régale, nós o sabemos pelo seu próprio testemunho. «Eu não concordaria facilmente, escreve ele a Dirois (29 de dezembro de 1681), que os bens doados às igrejas possam estar de tal modo sujeitos à potência temporal, que ela os possa retomar sob pretexto de certos direitos que ela desejaria estabelecer, nem que a Igreja, neste caso, não tenha direito de defender sua autoridade.» Ele acrescenta, contudo: «Confesso que não estamos no caso de chegar a isso; é preciso sair por vias mais suaves de um assunto tão leve no fundo.» O assunto era menos leve do que avança Bossuet.

Aos bispos que, em 6 de fevereiro de 1682, tinham estendido a régale a todo o reino, e que tinham tentado justificar-se perante o papa, Inocêncio XI respondeu pelo breve de 11 de abril do mesmo ano: Illam vero partem litterarum vestrarum non sine animi horrore legere potuimus, in qua dicitis vos jure vestro decedentes illud in regem contulisse; quasi Ecclesiarum, quae curae vestrae commisse fuere, essetis arbitri, non custodes...

Pretendia-se não se limitar a decidir, no sentido de Luís XIV e de seus ministros, as questões da régale e do cisma de Pamiers — não diremos nada do assunto do mosteiro de Charonne; desde 24 de novembro de 1681, a assembleia tinha sido cientificada de um projeto de declaração tocando a potência eclesiástica. Sobre este projeto também, sabemos o que pensava Bossuet. Ele tinha uma medíocre confiança naqueles que se preparavam para legislar. «Sabeis, escrevia ele a Rancé em setembro de 1681, o que são as assembleias do clero, e que espírito domina ali ordinariamente. Vejo certas disposições que me fazem um pouco esperar desta aqui: mas não ouso me fixar em minhas esperanças, e em verdade elas não são sem muito temor.»

Ele teria querido descartar toda questão relativa aos direitos do soberano pontífice, mas tal não era a opinião dos líderes da assembleia, os quais, diz Fleury, nos Nouveaux opuscules publicados pelo Sr. Emery, «creram necessário tratar a questão da autoridade do papa. Não a julgaremos senão em tempo de divisão, diziam o arcebispo de Reims, Le Tellier, o chanceler seu pai, Colbert, e o arcebispo de Paris, Harlay.» Não podendo fazer obstáculo a esse projeto, Bossuet pedia que pelo menos, «em uma matéria tão grave..., a tradição da Igreja sobre este ponto fosse cuidadosamente pesquisada... Ele tinha a peito ganhar tempo...» Floquet, Bossuet précepteur du dauphin et évêque à la cour, c. XIV, p. 557.

Repelido ainda, ele se empenhou em tornar a declaração a mais moderada possível; um esquema do 4º artigo, descoberto pelo Sr. Gérin, que lhe atribui a redação, afasta-se menos da doutrina católica do que o projeto que foi adotado. Recherches historiques, etc., c. XI, p. 343. Bossuet defendeu fortemente, contra Choiseul-Praslin, bispo de Tournai, o dogma da indefectibilidade da Santa Sé. Ver o relato dessa disputa em Fénelon, De summis pontificis auctoritate, c. VII.

Ele mesmo nos dá a prova do cuidado que tinha trazido para não atenuar, ao gosto das paixões cismáticas, os direitos do papa em seu sermão de abertura. Nesse sermão, ele citava a palavra de Carlos Magno «que quando esta Igreja (a Igreja romana) impusesse um jugo mal suportável, seria preciso sofrê-lo antes que romper a comunhão com ela». Ora, um daqueles a quem o bispo de Meaux tinha primeiramente lido seu discurso julgou que, em vez de romper com ela, isto é, romper com a Igreja romana, bastava pôr romper com a Igreja. «Eu recusei este partido, escreve Bossuet, como introduzindo uma espécie de divisão entre a Igreja romana e a Igreja em geral.» Carta ao cardeal d'Estrées, 12 de dezembro de 1681.

Vê-se, na peroração deste discurso, o pavor que a simples ideia do cisma inspirava ao bispo de Meaux. «Orai pois todos juntos ainda uma vez que o que deve terminar, termine em breve. Tremei à sombra mesma da divisão...» Foi com toda a sinceridade de sua alma que, em 10 de novembro de 1681, Bossuet escrevia a Dirois: «Eu fiz ontem o sermão da assembleia, e teria pregado em Roma o que lá disse com tanta confiança quanto em Paris.» E doze anos mais tarde, ele dirá a Mme d'Albert: «Não se pensou apenas em tocar no meu sermão: grandes cardeais escreveram-me que o papa o tinha lido e aprovado», Germigny, 25 de setembro de 1693.

Não é que, nesse discurso, não se encontre por vezes um pouco de embaraço e obscuridade. Em Roma, por exemplo, poder-se-ia ter concedido ao orador «que, contra o costume de todos os seus predecessores, um ou dois soberanos pontífices, ou por violência, ou por surpresa», não «sustentaram suficientemente de forma constante ou explicaram suficientemente de forma plena a doutrina da fé»; mas não se teria dado a essa confissão o mesmo sentido, não se teriam extraído dela as mesmas consequências que Bossuet.

Pelo seu sermão sobre a unidade da Igreja, pelo seu papel de moderador na famosa assembleia, Bossuet (ele o dirá a Le Dieu) acreditava ter servido Roma muito utilmente. Ele pensava também, como os oportunistas do concílio do Vaticano, facilitar assim o retorno dos dissidentes. Notemos, contudo, uma diferença: os opositores de 1870 acreditavam, na sua maioria, na infalibilidade pontifícia cuja definição temiam; e Bossuet, apesar do que se tenha pretendido, jamais a admitiu.

Alegam-se por vezes, mas abreviando-a, uma frase da Gallia orthodoxa, previa diss., n. 10; ei-la por inteiro: Abeat ergo quo libuerit Declaratio ;non enim eam, quod sepe profiteri juvat, tutandanr hic suscipimus. Manet inconcussa, et censure omnis expers, priscailla Parisiensiunr doctrina,.. Seria, pois, um equívoco assinalar, numa frase incompletamente citada, o desmentido das doutrinas galicanas.

Digamo-lo, contudo, para glória do bispo de Meaux: tão apegado que ele estava a um erro do qual nada jamais pôde demovê-lo, Bossuet sabia expor e defender contra a heresia a noção verdadeira da infalibilidade pontifícia. «Pode-se dizer seriamente — perguntava ele no seu Avertissement aux protestants sur leur prétendu accomplissement des prophélies, LI — que acreditar ou esperar com alguns que Deus não permitirá que um papa decida em favor do erro, seja fazer dele um Deus, e não um homem assistido por Deus, a fim de que a verdade seja sempre pregada na Igreja por aquele que deve ser a sua boca?»

De outros trechos de Bossuet, poder-se-iam deduzir também as doutrinas romanas. Assim, nas suas Remarques sur l’histoire des conciles, Bossuet censura Ellies Du Pin por enfraquecer as fortes expressões pelas quais o concílio de Éfeso declarava obedecer às ordens do papa santo Celestino. Deixo o bispo envelhecido, mas sempre infatigável, apontar as inescusáveis omissões do crítico temerário. «Se há algo de essencial na história de um concílio, é sem dúvida a sentença. A do concílio de Éfeso foi concebida nestes termos: Nós, constrangidos pelos santos cânones e pela carta de nosso santo Padre e coministro Celestino, chegamos por necessidade a esta triste sentença, etc...

Vê-se de que importância eram essas palavras, para mostrar a autoridade da carta do papa, que o concílio faz passar para o mesmo escalão que os cânones; mas tudo isso é suprimido pelo nosso autor... Outra coisa é pronunciar uma sentença conforme à carta do papa, outra coisa é ser constrangido pela própria carta, assim como pelos cânones, a pronunciá-la.» C. 1, remarque 5°.

2° Orações fúnebres. — Joseph de Maistre, que disse do discurso sobre a unidade da Igreja: «Jamais talvez o talento tenha feito um tour de force igual ao desse famoso sermão», disse também: «Bossuet deveria ter morrido após o sermão sobre a unidade, como Cipião Africano após Zama.» O eloquente pensador esquecia tantas obras incomparáveis que o bispo de Meaux compôs após 1681.

Em 4 de setembro de 1683, ele proferiu na abadia de Saint-Denis a oração fúnebre da rainha Maria Teresa da Áustria; é aquela que, em certas horas, S. de Sacy acreditava preferir a todas as outras. A oração fúnebre da princesa palatina, Anne de Gonzague, foi proferida em 9 de agosto de 1685, na igreja do Val-de-Grâce: obra onde respiram uma forte doutrina e uma unção penetrante; obra apologética também.

De um lado a outro dessa oração fúnebre, atrás dos assistentes que prestam à princesa deveres supremos, o bispo de Meaux parece descobrir outros ouvintes, multidão invisível e anônima a quem pesa o jugo da fé, e que não espera senão o fim do reino para sacudir todos os freios. Bossuet proferiu, na igreja de Saint-Gervais, a oração fúnebre do chanceler Le Tellier, em 25 de janeiro de 1686.

Finalmente, a última em data das orações fúnebres, a mais esplêndida também — Chateaubriand nomeia a primeira parte um canto de Homero — a oração fúnebre do príncipe de Condé foi proferida em Notre-Dame de Paris, em 10 de março de 1687.

3° Escritos contra os protestantes. — Na oração fúnebre de Le Tellier, Bossuet, como a maioria dos seus contemporâneos, como Antoine Arnauld e Quesnel, eles próprios exilados e fugitivos, louva a revogação do edito de Nantes; ele faz do chanceler um título de honra tê-la assinado. Sabemos que, muito tempo antes de ter aplaudido essa deplorável medida, muito tempo antes mesmo de a ter previsto, Bossuet tinha trabalhado de uma maneira mais eficaz e mais doce para a reunião dos dissidentes. A Histoire des variations des Églises protestantes, os Avertissements e, nos últimos anos da sua velhice, as Instructions pastorales sur les promesses de l’Église, foram o fruto desse grande pensamento.

Ao julgamento de S. de Sacy, a Histoire des variations é o mais belo dos livros franceses. Bossuet parece ter começado a escrevê-la por volta de 1679 ou 1680; publicou-a em 1688; o momento era favorável. «No século XVII, a Reforma tinha bem esquecido» as suas «ousadias primitivas». Os protestantes tinham chegado a encarar, eles também, a religião «como um depósito objetivo de verdades... sorte de tesouro exterior ao homem, que Deus tinha, uma vez por todas, entregue ao mundo, e que o mundo só tinha de conservar na sua integridade... Eis por que, para os protestantes como para os católicos, é, no século XVII, uma máxima recebida esta: perpetuidade é marca de verdade, variação, marca de erro. Eis por que todos eles se reúnem, mais ou menos inteiramente, às fórmulas brilhantes onde Vicente de Lérins, comentando são Paulo, tinha outrora felizmente expresso a imutável identidade, através do tempo e do espaço, da santa doutrina». A. Rébelliau, Bossuet historien du protestantisme, t. I, c. 1.

Ora, na sua Histoire des variations, Bossuet demonstra aos protestantes que, desde o início, eles mudaram incessantemente de doutrina. Ele «extrai a sua Histoire des variations das fontes protestantes». « É essa sua tática ordinária e invencível... ». G. Lanson, Bossuet, c. 1. Contra aqueles que não querem ver em Bossuet, com Sainte-Beuve, senão um espírito de exposição lógica, oratória, lírica, mas estranho a toda investigação histórica, e, com a personagem de um diálogo de Schérer, « um homem que não tinha lido nada, que não sabia nada », M. A. Rébelliau estabeleceu « que, levado pelas circunstâncias a estudar a história do protestantismo, Bossuet fez um relato de uma exatidão quase irrepreensível, de uma clarividência sempre judiciosa, por vezes de uma originalidade ainda hoje meritória ». Bossuet historien du protestantisme, prefácio.

O sucesso foi retumbante, mas provocou críticas e respostas. Jurieu, entre outros, empreendeu refutar Bossuet. Primeiramente, ele tinha tomado o partido de declarar que a variação não é de modo algum ignominiosa à Igreja, e que o cristianismo, mesmo em seus primeiros dias e em seu período mais puro, não tinha estado isento dela. Isso era fazer aos socinianos e aos céticos concessões das quais Jurieu sentiu logo o perigo; não obstante, essas concessões, Jurieu as tinha feito; não obstante sua distinção dos artigos fundamentais e daqueles que não o são, ele tinha aberto caminho para o tolerantismo doutrinal e para o socinianismo; e Bossuet o combate neste terreno, em seus Avertissements.

Sem dúvida, os seis Avertissements não estão todos dirigidos contra essas tendências latitudinárias do fogoso controversista. O terceiro Avertissement, a propósito da escandalosa permissão concedida pelos chefes da Reforma ao landgrave Filipe de Hesse de ter duas mulheres ao mesmo tempo, defende contra Jurieu a verdadeira doutrina do matrimônio cristão; o quinto Avertissement, tão célebre, refuta a teoria de Jurieu sobre a soberania. Jurieu nos aparece como o precursor de Rousseau; Bossuet, tão eloquente e que desfere com mão segura tantos golpes vigorosos, não se recorda o suficiente da doutrina dos grandes escolásticos que contém em justos limites a soberania política, e previne ou reprime seus excessos. Este reproche, nós o endereçaremos também à Politique tirée des propres paroles de l’Ecriture sainte, onde tudo não é exclusivamente bíblico.

Mas o primeiro, o segundo, o terceiro, o sexto Avertissements provam a Jurieu que ele é constrangido pela lógica mesma do protestantismo a admitir em sua Igreja até os negadores da divindade de Jesus Cristo. Esta demonstração, Bossuet a faz com uma premente e profética eloquência, sobretudo no sexto Avertissement, de todos o mais longo e o mais considerável. « Pelo estudo rigoroso e cerrado do passado da Igreja protestante, ele visava a fazer sair dele o fruto de livre-pensamento racionalista que, a seu ver, ela trazia em si...

Mas ele teria querido que, em presença dessa demonstração sólida e dessa conclusão evidente, o protestantismo assustado... voltasse a se abrigar docilmente nesta Igreja onde somente o sobrenatural cristão poderia conservar-se intacto... O contrário é que aconteceu. Em vez de aportar às margens romanas, o protestantismo lançou-se ao largo do livre-pensamento. » A. Rébelliau, Bossuet historien du protestantisme, l. III, c. V.

Isso é verdade para a doutrina, que continuou a ir para onde a arrastava sua própria natureza; isso é verdade também para um grande número de protestantes, que se tornaram os deístas ingleses do século XVIII e, no século XIX, os discípulos de Schleiermacher, de Reuss, de Albert Réville, de Sabatier.

Mas não era nada colocar a nu assim, diante dos espíritos atentos e sinceros, o fundo racionalista de uma doutrina que tinha pretendido restaurar na cristandade a inteligência do verdadeiro Evangelho, e trazer de volta ao Cristo Salvador um mundo extraviado, dizia-se, por doutores suspeitos de pelagianismo e de legalismo judaico? E, afinal, quantas almas despertas, advertidas pela forte palavra de Bossuet, quiseram pôr seu cristianismo ao abrigo das alterações e das mudanças na inexpugnável fortaleza da ortodoxia católica!

Notemos, na primeira parte do sexto Avertissement, um exagero que, em nossos dias sobretudo, foi relevado. Ninguém fez ressaltar melhor que Bossuet o caráter imutável da verdade vinda de Deus; mas será que Bossuet teve do desenvolvimento da doutrina uma ideia bastante nítida e bastante precisa? Com uma inegável sinceridade, ele se empenhou em justificar de toda incerteza, de todo erro, a linguagem e a doutrina desses escritores antenicenos que lhe eram objetados por Jurieu. Sobre este ponto, Petau, que se explica em sua famosa prefácio, mas que, não obstante o que tenha dito Bossuet, não se retrata, Petau declara que os erros reprovados a alguns Padres e a alguns escritores anteriores ao concílio de Niceia não atingem a substância do dogma da Trindade (a saber, a distinção e a consubstancialidade das pessoas), mas certas consequências, e também certas tentativas de explicação das PROCESSÕES divinas. Theol. dogm., De Trinitate, praefat., c. VI, §4.

Aliás, como fez notar o abade (hoje Monsenhor) Duchesne, defendendo-se a si mesmo, entre esses escritores antenicenos cuja linguagem ou mesmo a doutrina são repreensíveis, « mais da metade... são pessoas condenadas ou repreendidas pelas autoridades eclesiásticas legítimas ». Les témoins anténicéens du dogme de la Trinité, Amiens, 1883, p. 32.

Em 1691, entre o quinto Avertissement e o sexto, Bossuet publicou, em resposta às críticas de Basnage, a Défense de l’Histoire des variations. « A Défense des variations não é... uma repetição pura e simples, em outro tom, da Histoire des variations: ela é a continuação desta sobre materiais mais numerosos. » A. Rébelliau, Bossuet historien du protestantisme, l. III, c. VI.

Estava-se então nos anos que seguiram a revogação do édito de Nantes. As Mémoires de Legendre, secretário do arcebispo Harlay, as cartas de dom Michel Germain e do cardeal d’Estrées nos ensinam com que frieza Inocêncio XI acolheu a notícia desse ato político, do qual ele receava o contragolpe na Inglaterra. Bossuet, nós o dissemos, o celebrou, mas graças a ele, não houve dragonadas em Meaux. Dirigindo-se aos novos convertidos de sua diocese, o bispo podia dizer-lhes, sem medo de um desmentido: « Longe de ter sofrido tormentos, vós não ouvistes nem sequer falar deles; nenhum de vós sofreu violência nem em seus bens nem em sua pessoa. » Instruction pastorale de 16 de maio de 1686.

Certas exigências lhe pareciam inoportunas e perigosas. L’intendant de Languedoc, Basville, que era de opinião de fazer assistir à força à missa os novos convertidos (e, frequentemente, o que significava tal palavra?): Bossuet escrevia (14 de julho de 1700): «Toda a minha dificuldade é a de receber nela aqueles que fazem profissão pública de não crer nela e que, sobre este fundamento, recusam obstinadamente comungar. Enquanto estiverem neste estado, creio-os incapazes de tirar proveito da missa... Admiti-los, muito longe de constrangê-los a isso de qualquer maneira que seja, é dar-lhes uma fraca ideia da santidade do mistério e inspirar-lhes indiferença pelas boas disposições que seria necessário ter, e mesmo por ir ou não ir lá...»

Se se deve privar de sepultura eclesiástica os reformados que tinham recusado os sacramentos, ao menos deve-se «deixar aos parentes e amigos enterrar os seus corpos onde quiserem» e poupar os seus despojos mortais. «O costume de arrastar sobre um gradeado causa mais horror contra os católicos do que faz bons efeitos para os reunidos.» J. Lemoine, Les évêques de France et les protestants.

A fim de esclarecer as dificuldades persistentes na alma desses reunidos, de fortalecê-los, de responder às objeções dos protestantes e de seus mais hábeis ministros, Bossuet escrevia a sua Explication des prières de la messe (1691); a sua Lettre sur l’adoration de la croix, que ele não mandou imprimir pessoalmente (1692); a sua Lettre pastorale sur la communion pascale (1686); as suas duas Instructions pastorales sur les promesses de l’Église (1700, 1701), onde, para reconduzir os dissidentes, ele tomava emprestada de Santo Agostinho a sua mais penetrante linguagem. A Explication de l’Apocalypse e o Avertissement que a acompanha (1689), o De excidio Babylonis, que ele deixou em carteira e que não foi impresso senão em 1772, eram dirigidos contra os fanáticos exegetas que pretendiam ver o Papa no Anticristo e a Roma pontifical na Babilônia do Apocalipse.

Controvérsia quietista. — Esta controvérsia e os debates sobre o jansenismo ocuparam um lugar considerável no último período da vida de Bossuet. Este nome de quietismo recorda três nomes bem diferentes, Molinos, Mme Guyon, Fénelon; três sistemas que seria iníquo confundir, ou mesmo colocar no mesmo patamar. Um padre aragonês, Miguel de Molinos, tinha espalhado no reino de Nápoles doutrinas que, subtraindo da alma todo esforço, todo ato, toda resistência às cobiças da sua parte inferior, toda esperança da beatitude prometida, toda reflexão sobre ela mesma, sobre a humanidade santa do Salvador, sobre os atributos de Deus, sobre o mistério da Trindade, mergulhavam-na inteiramente na contemplação da essência divina, onde ela era considerada encontrar uma plena quietude.

Sessenta e oito proposições de Molinos foram condenadas pela constituição Cœlestis pastor de Inocêncio XI (20 de novembro de 1687); mas, se as piores consequências daquilo que se chamava quietismo foram rejeitadas ou já não ousaram afirmar-se, o próprio quietismo, um quietismo suavizado sem dúvida e purificado, iria introduzir-se na França nas obras e pela influência de uma mulher. Jeanne-Marie Bouvier de la Motte, viúva aos vinte e oito anos de Guyon, ao qual se deve o belo empreendimento do canal de Briare, unia ao gosto e à prática das obras de caridade uma atração pela devoção terna, a qual, infelizmente, não foi dirigida. Ligada ao barnabita Lacombe, homem de uma imaginação exaltada, ela escreveu obras audazes pela doutrina, estranhas pelo estilo, pelas profecias que contêm, pelos elogios que a autora se confere: Les torrents; Le moyen court de faire oraison; L’explication du Cantique des cantiques. Lacombe foi detido por ordem do arcebispo de Paris, Harlay; Mme Guyon, suspeita ela também, foi encerrada num convento do faubourg Saint-Antoine e submetida a interrogatórios de onde saiu livre e justificada. «Ela introduz-se na casa de Saint-Cyr que acabava de fundar Mme de Maintenon; a própria Mme de Maintenon tem sempre no bolso Le moyen court. As senhoras de Chevreuse, de Beauvilliers, de Béthune, a reverenciavam como uma santa. Então apareceu Fénelon.» I. Strowski, Bossuet, t. II, c. 11.

Fénelon submeteu-se por sua vez ao charme sutil de uma doutrina que respondia a certas tendências do seu espírito e do seu coração. Em vez de um guia, Mme Guyon teve nele quase um discípulo, o que nem o bispo de Meaux, nem a posteridade puderam compreender. «Retirei-me admirado», disse mais tarde Bossuet, «de ver um tão belo espírito na admiração de uma mulher cujas luzes eram tão curtas, o mérito tão ligeiro, as ilusões tão palpáveis, e que se fazia de profetisa.» Relation sur le quiétisme, sect. 1.

A doutrina de Mme Guyon era que, mesmo nesta vida, a perfeição do homem consiste num ato contínuo de contemplação e de amor de Deus, o qual, uma vez produzido, subsiste sempre, a menos que se revogue expressamente. Seguia-se deste princípio que uma alma chegada à perfeição já não é obrigada aos atos explícitos, distintos da caridade. Nesse mesmo estado de perfeição, a alma deve ser indiferente a todas as coisas, aos bens espirituais e à salvação tanto quanto aos bens temporais. Nesse estado, a alma deve rejeitar toda ideia distinta, mesmo o pensamento dos atributos de Deus e dos mistérios de Jesus Cristo.

O que não era menos perigoso do que a doutrina, era o espírito que animava Mme Guyon: o espírito próprio, oposto ao espírito de tradição e de autoridade, ao espírito católico. Convencida de que Deus se comunica aos simples e não aos doutores, ela sente pela disciplina, pela hierarquia, um desprezo suave, inconsciente, eu bem o quero, mas invencível. Ela poderá retratar-se, inclusive várias vezes, ela não mudará em nada. Ela dirá de Bossuet: «Todas as dificuldades que ele me fazia não vinham, como creio, senão da pouca experiência que ele tinha das vias interiores.» Escreveu-se: «É aqui o acento que não engana. Visivelmente ela tem pena da ignorância de Bossuet... Daí esse terrível redobramento de confiança em si mesma, nas suas visões, nas suas experiências, na sua missão... Mas daí também o espanto, a indignação, posso dizer o pavor de Bossuet. Esse orgulho do senso individual é a ruína da tradição. Há razão para dizer que está em jogo toda a Igreja.» F. Brunetière, Le quiétisme au XVIIe siècle.

As ideias que prevaleciam em Saint-Cyr assustaram o bispo de Chartres, Godet des Marais, que por sua vez deu o alarme a Mme de Maintenon. Tronson, superior do seminário de Saint-Sulpice, e Bourdaloue foram consultados; e Fénelon, contando com um julgamento favorável do homem que ele olhava então como seu mestre, incitou Mme Guyon a submeter-se ao exame de Bossuet. Mme Guyon entregou ao bispo de Meaux a sua Vie écrite par elle-même, que ela nunca tinha comunicado a Fénelon. Bossuet cita fragmentos deles em sua Relation sur le quiétisme, com aquela ironia grave na qual ele se sobressai, mas também e sobretudo com discrição e reserva. Acreditou ter desenganado a Sra. Guyon, e esforçou-se por desenganar também Fénelon que, demasiadamente inclinado a confundir a doutrina do puro amor com erros que a comprometeriam se fosse possível, pretendia desculpar as inexatidões de linguagem de uma mulher, e dizia, lembrando a palavra do apóstolo, que era preciso provar os espíritos.

A Sra. Guyon pediu juízes e obteve-os: eram Bossuet, Noailles, ainda bispo de Châlons, e Tronson. Do mês de julho de 1694 a 10 de março de 1695, realizaram, na casa de campo do seminário de Saint-Sulpice, as célebres conferências de Issy, as quais tinham por objetivo marcar os limites da verdadeira e da falsa misticidade, Fénelon, que, engajando-se talvez um pouco mais do que convinha, escrevera a Bossuet: «Minha consciência está na vossa... Estou pronto a calar-me, a retratar-me, a acusar-me...», Relation sur le quiétisme, sect. III, fora nomeado, em 1695, ao arcebispado de Cambrai, e desde então associado às conferências.

Trinta artigos foram redigidos por Bossuet; Fénelon recusa dar a assinatura que prometera. «O que temos a dizer? pergunta não sem altivez, e com uma injusta severidade, o bispo de Meaux. Que ele dissimulava? ou bem que, sendo tudo o que podia ser, entrou em outros desígnios, e adotou outro tom?... A que servem os raciocínios quando os fatos falam? Estes fatos mostram uma regra e uma razão mais simples e mais natural para julgar as mudanças de conduta; é, em uma palavra, ser arcebispo ou não o ser; ter medidas a guardar antes de o ser, e não guardar mais quando o assunto está consumado.» Ibid., sect. V, § 21-22.

De fato, a situação de Fénelon estava mudada; o arcebispo de Cambrai era outro personagem que o abade de Fénelon. Aos trinta artigos, quatro outros foram adicionados; e Fénelon, após ter pedido algumas correções e adições, consentiu em subscrever. Nem Bossuet nem Noailles tinham nomeado a Sra. Guyon na condenação que portavam contra os erros quietistas; Bossuet, tranquilizado pela aparente submissão desta mulher que se retirara em sua diocese, até lhe concedera um certificado do qual ela abusou.

Não a seguiremos nas peripécias de sua vida, espalhando seus erros e retratando-os, aprisionada em Vincennes, na Bastilha, relegada a Blois onde se extinguiu obscuramente em 9 de junho de 1717, muito tempo após a conclusão do memorável debate do qual ela fora a ocasião. Mas nem sua lembrança, nem suas doutrinas, nem seu nome estarão ausentes da retumbante controvérsia que colocará em confronto Bossuet e Fénelon.

Ambos tinham subscrito os artigos de Issy, mas as duas obras que apareceram quase ao mesmo tempo, Instruction pastorale sur les états d’oraison, e as Maximes des saints sur la vie intérieure, provam bastante que Bossuet e Fénelon não entendiam da mesma maneira a adesão que tinham dado.

Da Instruction sur les états d’oraison, Bossuet só publicou o primeiro tratado, onde são combatidos os erros dos novos místicos. O segundo tratado, reencontrado e impresso pela primeira vez em 1897, pelos cuidados de um sulpiciano, o Sr. Levesque, «homem da França, tem-se dito, que conhece melhor Bossuet», dá os princípios sólidos da oração cristã. Bossuet propunha-se a explicar, nos três últimos tratados, os princípios das orações extraordinárias das quais Deus favorece alguns de seus servos; propunha-se enfim a explicar os sentimentos e as locuções dos santos doutores dos quais os falsos místicos abusaram, Préface de l’Instruction sur les états d’oraison, IX; mas estes tratados nunca foram escritos.

O tratado publicado em março de 1697 contém dez livros e se divide em duas partes. Encontra-se nele Bossuet por inteiro, com sua plenitude de doutrina e sua eloquência. Aqui como alhures, ele se sobressai ao expor a tradição; ele dispõe como mestre os textos, julgando com uma palavra frequentemente definitiva os autores aos quais os toma emprestados, e nunca é embaraçado por suas riquezas. Sem dúvida, ele não discerne com um olhar claro o motivo específico da caridade: a perfeição soberana, amada com um amor que não exclui a esperança, mas que dela faz abstração; e é sobre este ponto que Fénelon terá razão. «Para ele, disse o Sr. Levesque falando do segundo tratado (e esta observação se aplica também ao primeiro tratado), o amor de caridade não vai sem o amor da beatitude cujo motivo é essencial a todos os nossos atos.» Instruction sur les états d’oraison, segundo tratado, Introduction, IV.

As suposições impossíveis pelas quais certos santos, em um excesso de amor, renunciavam à salvação, atraem-no pouco, e tem-se certeza de que ele nunca as fará; todavia, o conhecimento e a estima que ele tem da tradição guardam-no de todo julgamento que seria facilmente irreverente e injusto. «Sem buscar razões para autorizar estes atos, escreve Bossuet, vê-se bastante que não os podemos olhar como produtos da devoção dos últimos séculos, nem acusá-los de fraqueza, já que se vê a prática e a teoria desde os primeiros dias da Igreja, e que os Padres mais célebres daquele tempo os admiraram como praticados por São Paulo.» Instruction, etc., primeiro tratado, L. IX, c. II.

Bossuet tinha comunicado seu manuscrito ao arcebispo de Cambrai; esperava do amigo outrora sagrado por ele (10 de junho de 1695) uma aprovação que teria posto em evidência o acordo dos conferencistas de Issy. A aprovação foi recusada: Fénelon reconhecia no quietismo visado por Bossuet as ideias da Sra. Guyon que lhe permaneciam caras; e na Instruction sur les états d’oraison, ele não reconhecia sua própria doutrina. Esta doutrina, ele a expôs na Explication des Maximes des saints sur la vie intérieure.

Por consequência da indiscreta precipitação do duque de Chevreuse, o livro apareceu desde fevereiro de 1697, quarenta dias antes daquele de Bossuet. A obra, segundo Fénelon, tinha sido revista e aprovada por Noailles, Tronson, Pirot. Sobre a aprovação dada por este último doutor, ver Ch. Urbain, Revue d’histoire littéraire de la France, 15 de abril, 15 de julho de 1896. Sabemos o que Fénelon pensava do arcebispo de Paris, «espírito curto e confuso» que não sabia «nem cavar, nem seguir, nem abraçar uma dificuldade».

Quanto a Tronson, sua carta a Fénelon, sob as formas do mais profundo como do mais sincero respeito, mostra bastante que o sábio sulpiciano, se não ousava censurar, guardava-se bem de aprovar. « Eu os li sozinho (os papéis que me confiastes); mas teria desejado poder lê-los com alguma pessoa mais esclarecida e mais experiente do que eu nestas sortes de matérias; pois encontrei pontos que me escapam e que estão acima do meu alcance. Como me testemunhastes que o Senhor Arcebispo de Paris os tinha visto, e que não encontrava nada a redarguir, creio que isso vos deve bastar, e que o meu parecer vos seria bastante inútil.»

De fato, o Arcebispo de Cambrai entrava sozinho no campo de batalha; pela admissão de um de seus amigos, M. de Brisacier, superior do seminário das Missões Estrangeiras, as Maximes tinham sido mal recebidas pelo público. A opinião, que mais tarde deveria se voltar a favor de Fénelon, não viu a princípio em seu livro senão sutilezas perigosas, expostas em um estilo seco e estrito. Bossuet calou-se durante quinze dias, dedicados inteiramente ao exame das Maximes. «O clamor público — escreveu ele — fez chegar aos ouvidos sagrados do rei o que havíamos tão cuidadosamente resguardado... Falamos os últimos; cada um sabe as reprovações que suportamos da boca de um tão bom mestre, por não lhe ter descoberto o que sabíamos...» Relation sur le quiétisme, seita VI, § 5.

Lá está toda a verdade. Deixemos as caricaturas que traçaram desse encontro de Bossuet com Luís XIV. Se o bispo de Meaux, a propósito de seu colega, pronunciou a palavra fanatismo — podemos crer, visto que Fénelon, que a recorda em sua Réponse à la Relation sur le quiétisme, não foi contradito —, lamentemo-lo, mas sem esquecer que essa palavra na língua do século XVII, na língua mesmo das admiráveis cartas de Fénelon sobre a religião, não tinha o sentido que lhe damos hoje em dia, e significava uma crença cega e entusiasta, desprovida de bases sólidas.

Na obra, na doutrina de Fénelon, tudo devia desagradar ao seu temível antagonista. Bossuet espantava-se, indignava-se ao saber que na Igreja, ao lado dessa tradição pública, permanente, universal, da qual ninguém falou mais fortemente nem mais magnificamente do que ele, pretendia-se introduzir outra, tradição oculta, eu diria aristocrática, para o uso apenas dos espirituais e dos perfeitos.

É preciso recordar as páginas onde, forte dos testemunhos da antiguidade, ele arruína uma tão estranha pretensão? Tradition des nouveaux mystiques, c. VI.

Quase ao fim da controvérsia, ele exclamará: «Não ensinamos mistérios para pretensos perfeitos, que o comum dos fiéis deva ignorar: falamos ao povo, para este povo de aquisição de que está escrito: Vous n’étiez pas le peuple, et vous êtes maintenant le peuple d’acquisition... Onde se trata de instrução..., todas as almas resgatadas são do mesmo preço em Jesus Cristo, e a medida de seu valor está no comum resgate de seu sangue.» Dernier éclaircissement à M. de Cambray, a. 2.

Bossuet resumiu os pontos que, na obra de Fénelon, pareciam-lhe exigir a censura. «Para não nos determos em discursos vagos — dirá ele —, reduzo toda a matéria do livro das Maximes des saints a quatro questões principais: a primeira, se é permitido entregar-se ao desespero e sacrificar absolutamente a sua salvação eterna; a segunda, se é permitido em geral, e se é possível, não somente ter um amor do qual se destaca o motivo da salvação e o desejo da beatitude, mas ainda olhar este amor como o único perfeito e puro; a terceira, se é permitido estabelecer um certo estado onde se seja quase sempre guiado por instinto, e afastando todos os atos que chamamos de pura indústria e de próprio esforço; a quarta, se se deve admitir um estado de contemplação do qual os atributos absolutos (de Deus), do qual as pessoas divinas, do qual Jesus Cristo mesmo, presente pela fé, são excluídos.» Avertissement sur les écrits de M. de Cambray, I.

Em 27 de abril de 1697, Fénelon submeteu seu livro ao julgamento do Papa; o rei, que tinha consentido nessa iniciativa, não permitiu ao Arcebispo ir defender-se ele mesmo em Roma. Desejoso de uma pronta decisão, Luís XIV pediu-a a Inocêncio XII em uma carta de 26 de julho de 1697, que Bossuet pôde ter inspirado, mas da qual declara ter ignorado o teor próprio. Lettre à l’abbé Bossuet, 23 de setembro de 1697.

Enquanto a causa se instruía em Roma, o debate na França não se apaziguava. Convidado a conferenciar no Arcebispado de Paris, com Noailles, Godet des Marais e Bossuet, Fénelon recusou-se a princípio a comparecer, e só acabou por consentir sob certas condições que não foram aceitas. Pouco depois (6 de agosto de 1697), os três prelados assinaram uma Déclaration de leurs sentiments sur le livre des Maximes, que foi entregue ao núncio Delfini.

Entre os dois adversários, tão diferente e tão maravilhosamente armados, a controvérsia durou dezoito meses: «uma das mais belas coisas que se possa ler, uma das mais tristes também.» F. Strowski, Bossuet, etc., I, III, c. I, § 3.

Se é verdade que, até a época da controvérsia, Bossuet teria ignorado os místicos — Fénelon reprovou-lho não sem surpresa e não também sem altivez —, o velho bispo penetrou rapidamente nessas regiões que tantos outros trabalhos tinham-no, sem dúvida, feito negligenciar. Para esclarecer e para tranquilizar os juízes romanos, Bossuet publicou: Summa doctrina libri cui titulus: Explication des Maximes des saints; Mystici in tuto; Schola in tuto; Quietismus redivivus. Os escritos franceses também se sucedem sob sua pena inesgotável.

A França, a Europa ocupavam-se do quietismo. Leibniz, por uma distinção engenhosa, tentava resolver, como dizia, «o enigma do amor desinteressado»; o beneditino Lami, em seu tratado De la connaissance de soi-même, e Malebranche, em seu Traité de l’amour de Dieu, discutiam a questão que tinha colocado frente a frente Bossuet e Fénelon; Rancé, em uma carta a Bossuet de março de 1697, julgava Fénelon com aquele tom severo e altivo do qual a penitência monástica não o tinha bastante despido.

Entre os jesuítas, geralmente amigos do Arcebispo de Cambrai, Bourdaloue pronunciava-se contra o quietismo; seu confrade La Rue, em um panegírico de São Bernardo, cujo texto autêntico foi publicado recentemente pelo P. Chérot, ia até designar, em transparentes alusões, Bossuet sob os traços do abade de Claraval, e Fénelon, sob aqueles de Abelardo.

Reprocharam a Bossuet a áspera veemência de sua polêmica. Fénelon, que, ele, tem por vezes impertinências de grande senhor, escrevia ao seu contraditor que «se estava espantado por não encontrar na sua obra (nas suas obras) contra um confrade submetido à Igreja, nenhum traço daquela moderação que se tinha louvado nos seus escritos contra os ministros protestantes».

Bossuet respondia que ele devia falar tanto mais alto quanto o perigo do quietismo era, ao mesmo tempo, mais temível e mais oculto; «que se tratava de dogmas novos que se via introduzirem-se na Igreja, sob pretexto de piedade, na boca de um arcebispo... Quanto à maneira de escrever contra os hereges declarados, acrescentava ele, alguém negará que seja preciso estar mais atento contra um erro que surge do que contra um erro já condenado; que não seja preciso ter muito mais cuidado em descobrir-lhe o veneno oculto; em fazer ver as suas consequências horrorosas?»

O bispo de Meaux dizia a verdade; mas, ao que ele diz, não se pode acrescentar que ele era tanto mais severo para com o erro quietista quanto menos o compreendia? A história lhe havia revelado as causas múltiplas e profundas do protestantismo; e veremos mais tarde que ele teve, não para o jansenismo, mas para os jansenistas, certas condescendências que tentaremos explicar: ele compreendia erros que reprovava. Mas o quietismo depurado de Fénelon era dificilmente inteligível, era facilmente odioso ao seu espírito, cuja solidez foi uma das qualidades mestras. «Vós quisestes refinar sobre a piedade, escrevia ele ao arcebispo de Cambrai; vós não encontrastes digno de vós senão Deus belo em si; a bondade pela qual Ele desce a nós e nos faz remontar a Ele pareceu-vos um objeto pouco conveniente aos perfeitos, e vós descrentes até a esperança, posto que, sob o nome de amor puro, vós estabelecestes o desespero como o mais perfeito de todos os sacrifícios; é pelo menos desse erro que vos acusam...»

A discussão não permaneceu na região das doutrinas; com a Relation sur le quiétisme, ela passou para o terreno dos fatos.

Por que Bossuet escreveu essa história, da qual os mais poderosos panfletos mal igualam a ironia sóbria e a eloquência fulminante? É porque em Fénelon ele reencontrava sempre o obstinado defensor de Mme Guyon, e que no quietismo desta mulher ele via o princípio de erros e excessos dos quais, nesta mesma data, a sua província natal era o teatro. Ver H. Chérot, Le quiétisme en Bourgogne et a Paris en 1698, Autour de Bossuet, Paris, 1901.

«É preciso prevenir os fiéis contra uma ilusão que subsiste ainda», escrevia o bispo de Meaux, Relation sur le quiétisme, sect. 11; e ele retirava a auréola da profetisa ao relatar os mais grotescos episódios do seu estranho apostolado. Fénelon não era mais poupado que Mme Guyon. O seu adversário vai ao encontro de queixas que se produziam então, que, em circunstâncias semelhantes, se produziram muitas vezes. «Se, contudo, os fracos se escandalizam; se os libertinos se levantam; se se diz, sem examinar a fonte do mal, que as querelas dos bispos são implacáveis, é verdade, se se sabe entender, que elas o são, com efeito, sobre o ponto da doutrina revelada. É a prova da verdade da nossa religião e da divina revelação que nos guia, que as questões sobre a fé são sempre inacomodáveis...» Relation sur le quiétisme, sect. 11, § 9.

Bossuet dizia a verdade, e estas fortes palavras teriam bastado. Infelizmente, algumas linhas acima, abusando de uma dessas reminiscências que lhe fornecia a sua ciência da história, a propósito de Fénelon e de Mme Guyon, ele havia recordado os nomes para sempre infamados de Priscila e de Montano. Para atenuar o odioso de tal comparação, ele escreveu mais tarde: «Priscila era uma falsa profetisa; Montano a apoiava. Nunca se suspeitou entre eles senão um comércio de ilusão do espírito.» Remarques sur la réponse de M. l'archevêque de Cambray a la Relation sur le quiétisme, a. 11, § 4. Fénelon não tinha menos o direito de se indignar, e o acento da sua eloquente protestação nos comove ainda.

E, contudo, no curso desta querela, todos os erros não foram do lado de Bossuet. Não parece que, às vezes, em matérias de importância capital, o ondoyante gênio de Fénelon não tenha sabido evitar as imprecisões de linguagem? Em uma carta a Mme de Maintenon (7 de março de 1696), que esta se acreditou obrigada a comunicar a Bossuet (Bausset a justifica, Histoire de Fénelon, l. IV, § 52), Fénelon havia escrito esta frase: «M. de Meaux vos redisse como impiedades coisas que ela (Mme Guyon) lhe havia confiado com um coração submisso e em segredo de confissão»; ele até pareceu acusar Bossuet de ter revelado uma confissão que lhe teria feito. Réponse a la Relation sur le quiétisme, avertissement.

O bispo de Meaux nunca havia confessado nem Mme Guyon, Relation sur le quiétisme, sect. 11, 2, nem Fénelon, De la Réponse a la Relation sur le quiétisme, conclusion, 5; Mme Guyon havia apenas relatado a Bossuet as extravagantes visões da sua imaginação aflita; e quanto a Fénelon, ele mesmo o reconheceu, por confissão ele não entendera senão um memorial sobre as suas disposições interiores, comunicado por ele a Bossuet, e também, a pedido de Bossuet, a Noailles e a Tronson. Bausset, Hist. de Fénelon, l. II, c. 14, o admite: «Bossuet estava fundado a se elevar com indignação contra o emprego singular e inusitado que Fénelon se permitia de uma expressão que podia fazer nascer suspeitas do gênero mais odioso.» Cf. Ch. Urbain, Bossuet et les secrets de Fénelon, na Quinzaine de 1 de agosto de 1903.

A causa se instruía em Roma com essa lentidão e essa maturidade que asseguram e garantem todos os direitos. O arcebispo de Cambrai, defendido junto a Inocêncio XII pelo cardeal de Bouillon, que arriscou e perdeu a esse preço o favor de Luís XIV, I. Reissyé, Le cardinal de Bouillon, Paris, 1899, tinha em Roma como mandatário o seu parente, o abade de Chanterac, alma cândida e devota que desconcertava, por vezes, a sublimidade e também a sutileza da doutrina feneloniana.

Os agentes de Bossuet — o seu indigno sobrinho «impudente e sem escrúpulos, fértil em mentiras e em torpes projetos», G. Lanson, Bossuet, cap. VIII, e Phélipeaux, «mais frio, menos barulhento e mais hábil», G. Lanson, doc. cit. — não traziam à luta a mesma retidão que Chanterac e azedavam contra o seu rival um velho a quem as réplicas e os prazos levavam da impaciência à cólera. «Evidentemente, Bossuet devia respirar em uma atmosfera de ódios, de calúnias e de violências; e isso falseou mais de uma vez a sua visão.» F. Strowski, loc. cit.

«Mesmo que se amolecesse em Roma, o que não parece ser possível», escrevia ele em 23 de junho de 1698, «não se agirá menos aqui fortemente: pois o rei vê bem de que consequência é para a religião e para o Estado sufocar uma cabala de fanáticos...» E, com receio de que Roma não viesse a esmorecer e de que, em vez de uma condenação direta de Fénelon e do seu livro, a Santa Sé não se ativesse a cânones que apenas tivessem afirmado a verdadeira doutrina, Luís XIV enviou a Inocêncio XII um memorial ameaçador, redigido por Bossuet, que o confessa em uma carta ao seu sobrinho (16 de março de 1699): «Seria doloroso demais para Sua Majestade ver nascer entre os seus súditos um novo cisma, no momento em que ela se aplica com todas as suas forças a extinguir o de Calvino. E, se ela vir prolongar-se, por contemporizações que não se compreendem, um assunto que parecia estar no seu fim, ela saberá o que terá a fazer e tomará as resoluções convenientes, esperando sempre, contudo, que Sua Santidade não queira reduzi-la a tão desagradáveis extremidades.»

Quando o memorial chegou a Roma, a sentença já tinha sido proferida. Por um breve de 13 de março de 1699, Inocêncio XII condenou vinte e três proposições extraídas das Maximes (a 13ª, concernente ao distúrbio involuntário atribuído a Jesus Cristo na cruz, tinha sido inserida no livro de Fénelon por um equívoco de Chevreuse e não constava na tradução latina). As notas de herético e de aproximando-se da heresia não foram infligidas a nenhuma dessas proposições, as quais foram rejeitadas como «temerárias, escandalosas, mal soantes, ofensivas aos ouvidos piedosos, perniciosas na prática e mesmo errôneas respectivamente».

Bossuet, no primeiro momento, acolheu com alegria o breve de condenação; as suas reflexões ulteriores diminuíram um pouco o seu contentamento. «Quaisquer que sejam os abrandamentos que se tenha tentado trazer à censura, ela não deixa de ser fulminante», escrevia ele ao seu sobrinho.

«O que pareceu aqui de mais desagradável é a falta de formalidade. Sem breve enviado ao rei (Bossuet ainda não conhecia o breve de 31 de março pelo qual Inocêncio XII tinha notificado Luís XIV da condenação das *Maximes*), sem nenhuma cláusula aos bispos para a execução; sem nada notificar ao próprio Sr. de Cambray, que pretenderá, por falta disso, causa de ignorância de tudo...» (6 de abril de 1699).

Fénelon não tinha pretendido causa de ignorância, e a sua pronta submissão tinha rejubilado, sem os espantar, todos os seus admiradores e os seus amigos; mas essa submissão não satisfez de modo algum Bossuet, ainda que escrevesse que se devia contentar com ela. «Todo o mundo notou de imediato que ele (Fénelon) não diz sequer que o livro (das *Maximes*) seja seu... Fica-se ainda mais espantado que, muito sensível à sua humilhação, ele não o pareça de modo algum quanto ao seu erro nem quanto à infelicidade que teve de o querer espalhar. Ele dirá, quando lhe aprouver, que não confessou erro algum... A cláusula do seu mandamento, onde ele quer que não se lembrem dele senão para reconhecer a sua docilidade superior à da mais ínfima ovelha do rebanho, não é menos extraordinária. Ele quer que se esqueça tudo, exceto o que lhe é vantajoso. Enfim, este mandamento é considerado muito seco... Depois de tudo isto, creio que Roma deve estar contente, porque, afinal, o essencial lá está *ric a ric*, e a obediência está bem exposta. É preciso, de início, tornar-se fácil, para o bem da paz, a receber as submissões e a encerrar os assuntos.» Bossuet ao seu sobrinho, 19 de abril de 1699. Ver também, na *Revue Bossuet*, janeiro de 1901, as sete cartas do bispo de Meaux a Valbelle, bispo de Saint-Omer.

Não dependeu de Bossuet que todas as explicações e defesas dadas por Fénelon não fossem envolvidas na condenação que atingia o livro das *Maximes*. Certamente, o tom é pesaroso; na alma de Bossuet, a amargura sobrevive à luta e não foi sequer temperada pela vitória. O que explica, em parte, a injusta dureza desta linguagem é que Bossuet duvida da sinceridade do seu contraditor. Fénelon era, contudo, sincero quando reprovava o sentido óbvio e natural do seu livro; mas ele afirmava que o seu pensamento tinha permanecido ortodoxo e tinha sido traído pela expressão. O arcebispo de Cambrai persistiu por muito tempo neste sistema de explicação e de defesa? O autor de uma obra muito documentada sobre a controvérsia quietista acreditou que o espetáculo dos arrebatamentos do jansenismo, o medo de parecer autorizar as cavilações jansenistas pelas suas próprias reservas — que, aliás, eram muito diferentes —, levaram mais tarde o autor das *Maximes* a rejeitar, sem nenhuma distinção, tudo o que na sua obra tinha sido censurado pela Santa Sé. A. Griveau, *Étude sur la condamnation du livre des Maximes des saints, etc.*, c. XVIII-XIX, t. II.

A doutrina do puro amor tinha permanecido intacta; Bossuet que, de ordinário, a tinha tão pouco compreendido, não terá, contudo, parecido algumas vezes admiti-la? Cita-se dele esta resposta a um dos numerosos pedidos de Mme. de la Maisonfort: «A caridade ou o amor puro não é tocado pelas promessas enquanto estas se voltam para a nossa vantagem, mas enquanto operam a glória de Deus e o cumprimento perfeito da sua vontade...» Carta a Mme. de la Maisonfort, 21 de março de 1696. M. Levesque acredita que, ao expor, no segundo tratado da sua *Instruction sur les états d’oraison*, os quatro graus de amor segundo São Bernardo, o bispo de Meaux pareceu admitir a possibilidade de um amor que faz abstração completa do desejo de ser feliz; mas ele só admite essa possibilidade, nota o erudito editor, que «raramente, de passagem, apenas por um momento rápido». *Instruction sur les états d’oraison*. Segundo tratado, introdução, p. XXXVI.

Entre os dois grandes bispos, a ruptura tinha sido profunda demais, agravada por excessos de linguagem demais, para que não fosse definitiva. «Não temos mais nada a tratar entre ele e mim», escrevia Fénelon sobre o seu antigo mestre. «Rezo a Deus por ele de muito bom grado, e desejo-lhe tudo o que se pode desejar àqueles que amamos segundo Deus.» Essa caridade não excluía, infelizmente, as desconfianças, as suspeitas, a mordaz ironia. «Se ele fizer mandamentos, será preciso que ele fale ou que o seu silêncio descubra o seu fundo», escreverá ele sobre Bossuet a propósito do *Cas de conscience*. Carta ao abade de Langeron, 4 de junho de 1703. E, no entanto, ele continua a ver nele um doutor; em um mandamento para a aceitação da bula *Unigenitus* (29 de junho de 1714), ele cita um longo fragmento do sermão sobre a unidade da Igreja. Ao cavaleiro de Ramsay, em busca da verdade religiosa, ele recomendava «o excelente discurso de M. de Meaux sobre a história universal». *Histoire de la vie et des ouvrages de M. de Fénelon*, Amsterdã, 1729, p. 168. Cf. E. Griselle, *Episodes de la campagne antiquiétiste, d’après la correspondance de Bossuet, de son frère et de son neveu*, in-8°, Mâcon, 1903.

5° Debates com os jansenistas. — O *Cas de conscience* evoca a lembrança da controvérsia jansenista. Pela carta às religiosas de Port-Royal, sabemos já o que Bossuet pensava das cinco proposições; vamo-lo também pela sua carta ao marechal de Bellefonds. «Creio, escrevia ele, que as proposições estão verdadeiramente em Jansênio, e que são a alma de seu livro. Tudo o que se disse ao contrário parece-me uma pura chicana, e algo inventado para eludir o juízo da Igreja.» Um ano antes de sua morte, ele relia de ponta a ponta o Augustinus, e, como quarenta anos antes, ali «reencontrava as cinco proposições muito nitidamente, e seus princípios espalhados por todo o livro». Le Dieu, Mémoires, p. 76; Journal, t. 1, p. 383. Na Gallia orthodoxa, LXXVIII, Bossuet coloca, quase em um tom de desafio, a seguinte questão: Quo enim loco, qua in parte orbis magis quam in Gallia, Innocentii X alieque constitutiones de janseniana re majori veneratione susceptae, aut potiori virtute in exsecutionem deductae sunt? Na assembleia do clero de 1700, onde sua influência foi considerável, ele fez condenar quatro proposições que representavam o jansenismo como um fantasma, e como vãs e funestas as constituições pontificais que haviam pretendido atingi-lo.

Quando, em 1702, surgiu o Cas de conscience que reabria a era das querelas jansenistas (satisfaz-se pelo silêncio respeitoso aos juízos da Igreja sobre o fato de Jansênio?) Bossuet incendiou-se. Le Dieu, Journal, 4 de janeiro de 1703.

Se não interveio publicamente, foi talvez por consideração ao arcebispo de Reims, que parecia favorável à afirmativa, e ao arcebispo de Paris, cujo juízo não queria antecipar; foi também e sobretudo na esperança de levar, por vias suaves, a uma retratação os quarenta doutores que haviam opinado pela afirmativa (e ele levou um dos mais comprometidos, Couet, vigário geral de Rouen); mas ele pressionou, ele «obrigou seu metropolita a redigir uma instrução pastoral contra o Cas de conscience». Albert Le Roy, La France et Rome de 1700 a 1715, c. ut.

Na mesma data, sob o peso da velhice e de cruéis enfermidades, Bossuet preparava sobre a autoridade dos juízos eclesiásticos uma obra que permaneceu inacabada. E, contudo, apesar de todos esses fatos inegáveis, os jansenistas frequentemente reclamaram-se de Bossuet; quiseram ver nele um aliado, um protetor exterior; no decorrer do século XIX, remanescentes tardios de Port-Royal pretenderam muitas vezes autorizar-se do grande nome de Bossuet.

Certos fatos, certas tendências do bispo de Meaux explicam, sem justificá-las, tais reivindicações. O bispo de Meaux, contemporâneo dos primórdios da controvérsia jansenista, em um momento em que certos teólogos distinguiam mal dos fatos puramente pessoais os fatos dogmáticos, reivindicava sim, para os juízos eclesiásticos que concernem a estes últimos, uma adesão interior, sincera, séria, mas não parece ter jamais apoiado, explicitamente pelo menos, essa adesão sobre um motivo de fé.

Fénelon, vindo mais tarde, aprofundou mais uma questão que interessava nele não apenas o teólogo, mas também o bispo colocado pela providência em uma fronteira que o jansenismo infectava. Ele apresentou a adesão aos juízos da autoridade soberana tocantes aos fatos dogmáticos como um ato de fé que se funda na infalibilidade prometida à Igreja. Ele alegou o exemplo dos concílios que condenaram não apenas as heresias de Ário e de Nestório, mas ainda os textos dos quais essas heresias foram extraídas.

Os jansenistas abusaram de certas indecisões da linguagem de Bossuet para atrair para si um mestre que havia sempre repudiado seu erro. Pretenderam também ver em Bossuet um apologista das Réflexions morales sur le Nouveau Testament. Bossuet foi, muito antes, por deferência a um metropolita e a um amigo, o apologista do cardeal de Noailles, acusado pelo autor do Problème ecclésiastique de ter se contradito ao aprovar em Châlons o livro de Quesnel, e em condenar depois em Paris a jansenista Exposition de la foi catholique sur la grâce et la prédestination, obra do sobrinho de Saint-Cyran, Barcos.

A ordenação de Noailles, que figura nas obras de Bossuet, atesta suficientemente a poderosa colaboração que havia sido prestada ao arcebispo de Paris. Era preciso colocar, tanto quanto possível, Noailles de acordo consigo mesmo. Bossuet trabalhou nisso e escreveu um Avertissement para a edição das Réflexions morales que deveria surgir em 1699. O Avertissement permaneceu nas gavetas do ilustre autor; e foi somente em 1710 — seis anos após a morte de Bossuet — que surgiu em Lille, sob os cuidados de Quesnel, sob o título de Justification des Réflexions sur le Nouveau Testament.

Quesnel, ao publicar uma obra anterior à condenação de seu livro, tirava insidiosamente sua revanche do breve de 1708, e suas precauções contra a bula que, em 1713, iria atingi-lo novamente. Ao ler sem partido tomado o Avertissement, descobre-se ali um esforço sincero para tirar Noailles do embaraço, explicando em um sentido puramente, mas estritamente agostiniano, as asserções frequentemente ambíguas de Quesnel. Bossuet «rema com todas as suas forças para se impedir de ser jogado contra o escolho», direi ao lhe emprestar uma viva imagem. Second avertissement aux protestants, n. 10.

Se ele se queixa, no § 19, de «esses espíritos melindrosos, que creem ver em toda parte um Baius, e que sempre se implicam com as virtudes morais dos pagãos e dos filósofos», ele se eleva mais adiante contra um erro capital do baianismo que não pode deixar de perceber na obra de Quesnel: «Admitir-se-á... com franqueza, que há algumas (reflexões) que se estranha que tenham escapado nas edições anteriores, por exemplo, aquela onde é sustentado que a graça de Adão era devida à natureza sã e íntegra» (§ 24).

E acrescenta, descobrindo o objetivo verdadeiro de seu trabalho: «Tendo o Sr. de Paris se explicado tão claramente alhures, que não se pode suspeitá-lo de ter favorecido esse excesso, esta observação permanecerá como prova das palavras que se subtraem aos olhos mais atentos.» Não esqueçamos, enfim, que Bossuet exigia que se colocassem na próxima edição vinte ou vinte e cinco correções.

O estudo sincero do Avertissement, outros atos da vida de Bossuet, nos explicarão afinidades secretas que, salva fide, aproximavam o bispo de Meaux dos homens de Port-Royal. Em dogmática e em moral — sobre a maioria dos pontos que se discutiam livremente na Igreja — ele está com eles. As provas abundam.

Em fevereiro de 1697, de comum acordo com Le Tellier, arcebispo de Reims, Noailles, arcebispo de Paris, Gui de Sève, bispo de Arras, e Henri Feydeau de Brou, bispo de Amiens, Bossuet denunciava ao papa Inocêncio XII a obra póstuma do cardeal Celestino Sfondrati: Nodus praedestinationis dissolutus. Entre as opiniões assinaladas, e assinaladas em vão, aos rigores pontificais, notemos aquela que promete às crianças mortas sem batismo uma felicidade natural (opinião que pode até um certo ponto se reclamar de santo Tomás, ver col. 369-370); e a opinião tão autorizada, sustentada por de Lugo e por Suarez, que não considera como necessária de necessidade de meio para a salvação a fé explícita nos dogmas da Trindade e da Encarnação.

O bispo de Meaux propôs à assembleia do clero de 1700 censurar o axioma familiar aos escolásticos: Facienti quod in se est Deus non denegat gratiam. Bossuet obteve êxito; e Fénelon, que de longe havia acompanhado os debates da assembleia, escrevia ao cardeal Gabrielli, o defensor de Sfondrate: Unum est quod acerbissime repudiant (antistites), scilicet facienti quod in se est, Deum gratiam Salvatoris omnium non denegare, liberalitate mere gratuita (22 de setembro de 1700).

Este axioma, porém, São Francisco de Sales o havia exposto com uma precisão irrepreensível e uma graça persuasiva em seu Tratado do Amor de Deus, l. I, c. xvi, xviii; mas Bossuet, nutrido sobretudo pela antiguidade, tinha mais o senso da perpetuidade da doutrina do que o de seus legítimos e necessários desenvolvimentos; daí, sem dúvida, perante São Francisco de Sales, a severidade de seu julgamento. Prefácio sobre a Instrução pastoral dada em Cambrai no dia 15 de setembro de 1697, sect. xi, n. 126.

Ainda em outros lugares, as mesmas tendências, as mesmas opiniões se acusam. Na Defesa da tradição e dos santos Padres, obra poderosa de uma velhice que não conheceu o declínio, Bossuet explica, como Vasquez, a morte das crianças no seio materno, não pelo jogo das causas naturais que a providência deixa agir, mas por uma vontade positiva de Deus que as excluía da salvação; e desafiando quase os partidários de uma opinião mais doce — estes partidários, eram eles, e é hoje o grande número dos doutores católicos — ele exclama com uma ironia bastante desagradável: «Eu o quero: aceito facilmente essas doces interpretações, que tendem a recomendar a bondade de Deus...» Defesa da tradição e dos santos Padres, part. II, l. IX, c. xxi.

Finalmente, em suas três cartas a Brisacier (agosto e setembro de 1701) contra o sorbonista Coulau, que estendia aos antigos povos o monoteísmo e o conhecimento do verdadeiro Deus em uma medida que não teriam sem dúvida admitido os Padres Le Comte e Le Gobien, esses ilustres missionários da China, Bossuet se mostra «um pouco zeloso demais para fechar a porta do céu assim que alguém fazia menção de a abrir um pouco larga demais; um pouco inclinado demais a se comprazer nas passagens assustadoras da Escritura, naquelas que fazem «adorar tremendo os secretos e impenetráveis julgamentos de Deus», e a negligenciar os lugares mais consoladores que descobrem nesses mesmos julgamentos abismos de misericórdia». De La Broise, Bossuet e a Bíblia, c. xi.

Na moral como na dogmática — sem ir até os excessos em que tantos jansenistas incidiram — Bossuet se pronunciava pelas opiniões que concediam menos à liberdade do que à lei. Nesta mesma assembleia de 1700 da qual já falamos, numerosas proposições de moral relaxada foram condenadas: a maioria dessas proposições já tinha sido censurada por Alexandre VII e Inocêncio XI. Ver na carta, já citada, de Fénelon a Gabrielli, uma crítica muito justa: o arcebispo de Cambrai exercia represálias.

Mas não são apenas as proposições nascidas de uma aplicação decepcionante do probabilismo, é o próprio probabilismo, sem nenhuma distinção, que foi reprovado nos comícios eclesiásticos de Saint-Germain. E esta tendência severa, nós a encontramos em muitas obras, por exemplo, na carta ao P. Caffaro e nas Máximas e reflexões sobre a comédia (1694). Bossuet escreveu páginas de observação mais penetrante? É aí que se lê esta frase imortal sobre o «inexorável tédio que constitui o fundo da vida humana desde que o homem perdeu o gosto de Deus». É aí também que Bossuet explica, por uma visão profunda, o atrativo que o drama (exceto sem dúvida a tragédia de Ésquilo ou de Sófocles) exerce sobre os espectadores. «Torna-se logo um ator secreto da tragédia; joga-se nela a própria paixão; e a ficção no exterior é fria e sem agrado, se não encontra no interior uma verdade que lhe responda.»

Mas no curso de sua dissertação, Bossuet encontra São Tomás, que classificou entre as virtudes a eutrapelia, isto é, a jovialidade (a jovialidade decente, isso dispensa dizer); e ele escreve: «Quanto à virtude de eutrapelia que São Tomás tomou de Aristóteles, é preciso confessar que eles (os Padres) dificilmente a conheceram.» Quando isso fosse, por que São Tomás não teria tido o direito de o fazer? E quando o bispo acrescenta que «São Tomás, que não era atento ao grego,» enganou-se sobre o verdadeiro sentido dado por São Paulo à palavra εὐτραπελία, não parece ele fornecer a Richard Simon uma arma que poderá, por vezes, se voltar contra ele?

Com tais tendências, com tais doutrinas, compreende-se que Bossuet tenha sentido atração pelos homens mais eminentes do jansenismo. Como Arnauld, Nicole, Du Guet (com o qual teve um encontro célebre sobre o retorno dos judeus), Tillemont, embora de outra maneira que eles, ele professava por Santo Agostinho um culto apaixonado; como eles, mas com mais moderação, ele se empenhava em promover uma moral severa que lhe parecia conforme ao espírito primitivo do cristianismo. Aliás, como se notou, suas relações com os jansenistas só começaram após o que se chamou a paz de Clemente IX. A. Ingold, Bossuet e o jansenismo, p. 92.

Ele via nesses homens úteis auxiliares contra os protestantes; enganava-se ele, e Nicole, para não nomear apenas a ele, não é um controvertista de alto valor? Bossuet enganou-se por vezes sobre o mérito desses homens e de suas obras. Gostaria-se que, na versão de Mons censurada por um breve de Alexandre VII, ele tivesse censurado outra coisa além de uma afetação de polidez, e a busca de «um agrado que o Espírito Santo desdenhou no original». Carta ao marechal de Bellefonds, 1º de dezembro de 1674.

Esses homens, contudo, ele os julgava. Admirador da ciência e do talento de Arnauld, que o século XVII, iludido, colocou no alto demais, Bossuet censurava-o «por ter voltado seus estudos, no fundo, para persuadir o mundo de que a doutrina de Jansénius não foi condenada». Diário de Le Dieu, fevereiro de 1703. Por sua vez, Arnauld, que elogiava com razão em Bossuet «um certo fundo de sinceridade que o fazia reconhecer a verdade» de qualquer parte que viesse, acrescentava: «Há, contudo, um veruntamen do qual receio que ele tenha um grande contas a prestar a Deus; é que ele não tem a coragem de representar nada ao rei.» Julgamento pesaroso, e injusto em sua generalidade.

6º Últimas discussões com os protestantes. — Bossuet, em seus inícios como controversista, havia encontrado Paul Ferry; combateu, em seguida, os representantes mais autorizados e também os mais temerários campeões da Reforma; no período supremo de sua carreira, encontramo-lo argumentando com Leibniz que, infelizmente, queria sobretudo negociar. A Alemanha parecia resignar-se com dificuldade a uma ruptura definitiva da unidade religiosa. Daí, as tentativas de conciliação que ocorreram ao longo do século XVII, e às quais Bossuet trouxe um concurso por demais ineficaz.

O franciscano Cristóvão de Rojas-Spinola, sucessivamente bispo de Tina, na Croácia, e de Neustadt, teve conferências com o abade luterano de Loccum, Van der Muelen (Molanus), teólogo ao mesmo tempo hábil e moderado. Spinola morreu em 1695; mas, desde 1691, a pedido da princesa palatina Luísa Hollandina, abadessa de Maubuisson, que tinha por secretária e confidente Mme de Brinon, exilada de Saint-Cyr, Bossuet interveio nesta importante controvérsia. Molanus enviou-lhe suas Cogitationes privatae de methodo reunionis Ecclesiae protestantium cum Ecclesia catholico-romana a theologo quodam Augustanae Confessioni sincere addicto.

Bossuet dava sobre as doutrinas proclamadas em Trento todas as explicações desejáveis; não exigia sequer uma retratação formal dos erros professados: «Será suficiente», dizia ele, «reconhecer a verdade por forma de declaração e de explicação.» Réflexions de M. l’évêque de Meaux sur l’écrit de Molanus, parte II, c. v. Deixava esperar para os luteranos convertidos concessões disciplinares muito amplas, ibid.; mas não consentia que se pretendesse deixar em suspenso a autoridade do Concílio de Trento; e repelia da comunhão da Igreja aqueles que se recusassem a submeter-se a ela. Réflexions, etc., parte II, c. VI.

Leibniz que, em 1692, estabelece relações epistolares com o bispo de Meaux, não trouxe o mesmo desinteresse e a mesma sinceridade que o abade de Loccum, a quem havia substituído. Toda a argumentação de Leibniz pode resumir-se assim: 1º o Concílio de Trento não foi verdadeiramente ecumênico, e não se pode exigir que a adesão a este concílio seja uma condição da reunião; 2º admitindo mesmo que ele tenha sido ecumênico, os luteranos estão de boa-fé ao rejeitá-lo e, em consequência desta boa-fé, não se pode considerá-los como heréticos. Cansado de objeções que voltavam sem cessar sob a pena sutil e inesgotável de Leibniz, Bossuet deixou cair a correspondência por volta de 1694; ela recomeçou em dezembro de 1699, por ocasião de uma obra do controversista Véron. Leibniz perguntava ao bispo de Meaux sobre quais princípios se funda a Igreja romana para discernir o que é de fé do que não o é. Foi então que se tratou, entre os dois ilustres controversistas, a questão do cânon das Escrituras, definitivamente resolvida em Trento. Não mais do que da primeira vez, não se pôde chegar a um acordo; e, a partir de agosto de 1701, toda a correspondência cessou.

Por que, no autor do Systema theologicum, a recusa de ir até onde Bossuet e talvez também sua consciência o chamava? É verdade, como teme o príncipe Albert de Broglie, que «a orgulhosa fraqueza ligada à realeza da ciência como a toda outra», fê-lo «temer trocar o papel de doutor acreditado de um partido pelo de penitente e de neófito em outro...; que, para salvar a transição, ele não tenha querido passar senão com armas, bagagens e todas as honras da guerra, fazendo condições em vez de subi-las, entrando na Igreja de cabeça erguida, seguido de um cortejo de nações, e tendo direito a tanto reconhecimento quanto ofereceria de submissão»? Leibniz et Bossuet, no Correspondant de 25 de novembro de 1860.

Às considerações de ordem pessoal somavam-se, sem dúvida, em Leibniz, considerações tiradas da política. Devotado à casa de Hanôver, que a exclusão dos Stuarts católicos levaria ao trono da Inglaterra, ele temeu comprometer os interesses de seus príncipes, trabalhando eficazmente para aproximar de Roma a Alemanha luterana. Leibniz rompt toute correspondance avec Bossuet, dans l’année même où la mort du dernier fils de la reine Anne fait de l’électeur protestant de Hanovre un héritier présomptif. Leibniz und Bossuet, em Hist. politische Blätter, Munique, 1903, t. CXXXII, p. 615-629.

Nesse mesmo ano de 1701, o Papa Clemente XI, para facilitar a reconciliação do duque de Saxe-Gotha, pediu a Bossuet comunicação dos atos mais importantes de sua correspondência com Leibniz. O bispo de Meaux, abreviando o memorial que havia redigido sobre as Cogitationes privatae de Molanus, escreveu o De professoribus Confessionis Augustanae ad repetendam unitatem catholicam disponendis. Digamo-lo ao deixar este assunto, os católicos de hoje, não menos desejosos que seus predecessores do retorno de todos os dissidentes, não esperam nada dos meios sobre os quais o século XVII havia contado. As almas foram destacadas em massa da unidade pelas heresias e pelos cismas; é uma a uma que elas retornarão, sem tentar com a Igreja negociações, sem pretender impor-lhe condições: Newman e Manning não o fizeram.

Outros trabalhos desta época. — No último período do século XVII, Bossuet escreveu seu Mémoire sur la Bibliothèque ecclésiastique de Ellies Du Pin, espírito fácil, semi-tingido de pelagianismo, que, no caso do Cas de conscience, por oposição à doutrina recebida e à autoridade, deveria votar com os jansenistas. As Remarques sur l’Histoire des conciles d’Éphèse et de Chalcédoine são uma decisiva apologia dessas grandes assembleias. Em 1696, Bossuet escreveu suas Remarques sur la Mystique Cité de Dieu de Maria de Ágreda.

II. BOSSUET EM MEAUX. — 1º Funções e honras propostas ou conferidas ao bispo de Meaux. — Resta-nos estudar Bossuet em sua diocese de Meaux. «Esta diocese, menos extensa do que é hoje, compreendia cerca de 230 paróquias e contava de 200 a 300 eclesiásticos. Lá, como nas outras dioceses da antiga França, o maior número dos benefícios curados estava à colação dos capítulos, dos mosteiros, de alguns personagens leigos; o bispo não conferia senão noventa. Havia, na diocese de Meaux, sete capítulos, cinco abadias de homens, quatro abadias de mulheres; dezoito conventos ou comunidades...» H. Druon, Bossuet à Meaux, c. I.

Tal sede não parecia importante senão porque era próxima de Versalhes; a opinião não a julgava digna do homem sem igual que ali havia sido chamado. Em 1688, o nome de Bossuet havia sido pronunciado para a sede de Estrasburgo, no caso de o bispo de Estrasburgo ter sido postulado para Colônia pelo capítulo daquela metrópole. Por ocasião da morte de Harlay (6 de agosto de 1695), mais de um — e o delfim em primeiro lugar — designou Bossuet para a arquidiocese de Paris.

A Mme d’Albert, que lhe havia expressado ao mesmo tempo a sua alegria e o seu receio, o bispo de Meaux respondia: «Há toda a aparência, e para melhor dizer toda a certeza, de que Deus, por misericórdia tanto quanto por justiça, me deixará no meu lugar. Quando deseja que me a ofereçam e que eu recuse, quer contentar a vaidade; é muito melhor contentar a humildade, e dizer com Davi sobre esta pequena humilhação, se é que o é: Bonum mihi quia humiliasti me.» Carta de 13 de agosto de 1695.

Bossuet alegra-se com a nomeação de Noailles. «Não há mais que duvidar, apesar de tantos vãos discursos dos homens, de que não serei enterrado aos pés dos meus santos predecessores», escrevia ele ainda a Mme d’Albert (22 de agosto de 1695). E, contudo, o velho bispo parecia expressar uma decepção que não admitia a si mesmo, quando, em 18 de maio de 1697, escrevia a M. de La Broue, bispo de Mirepoix: «M. de Metz (Georges d’Aubusson de la Feuillade) morreu: dão o seu bispado ao abade de Auvergne, o cordão a M. de Paris, o cargo de conselheiro de Estado a quem quiserdes; não pedirei nada. Retribuetur tibi in resurrectione justorum.»

O nome de Bossuet também tinha sido pronunciado para o chapéu cardinalício. «O núncio, escrevia ele ao seu sobrinho, disse-me muito fortemente que era preciso fazer-me cardeal» (carta de 1º de julho de 1697); mas não tardava a ver que tal desejo não se realizaria. «Nem M. de Reims, nem eu a levaremos sobre o arcebispo de Paris, cuja família... Não é a mim que convém dar-me movimento. A minha verdadeira grandeza é sustentar o meu caráter, edificar e servir a Igreja... Não devo ser nem agitado nem insensível.» Carta de 15 de julho de 1697. Esta última palavra termina, ao humanizá-lo, o orgulhoso retrato que, sem desconfiar, Bossuet traça de si mesmo.

Outras honrarias, menos elevadas que a púrpura, foram conferidas a Bossuet. Nomeado em 1695 conservador dos privilégios da Universidade de Paris, tornou-se conselheiro de Estado em junho de 1697 e, no mês de outubro do mesmo ano, primeiro esmoler da duquesa de Borgonha.

2º Administração da diocese. — Resoluto a permanecer até ao fim bispo de Meaux, Bossuet entrega-se inteiramente ao governo da sua diocese. Visita o seu seminário, dirigido pelos genovefanos, e exorta ele mesmo, durante os retiros preparatórios, os aspirantes às sagradas ordens. Empenha-se em vivificar as conferências eclesiásticas às quais, diz Le Dieu, ele assistia frequentemente. Cada ano, realizava no bispado um sínodo do qual saíam os estatutos diocesanos. «O pároco Raveneau deixou o relatório dos seis primeiros sínodos de 1682 a 1687... Para 1701 e 1702, encontramos, no Diário de Le Dieu, a análise dos discursos que pronunciou Bossuet.» H. Druon, Bossuet a Meaux, c. III.

Pode-se ler na Revue Bossuet, janeiro de 1900-abril de 1903, os relatórios das suas visitas pastorais. O bispo, pondo-se ao alcance de todos, catequizava as crianças; esforçava-se por desarraigar os abusos e por iniciar todos os seus ouvintes a um cristianismo sério. Bossuet, que, jovem sacerdote em Metz, tinha partilhado os trabalhos apostólicos dos discípulos de São Vicente de Paulo, fez pregar missões aos seus diocesanos. Em 1684, prescrevia uma em Meaux. Ver na obra de M. H. Druon, loc. cit., a enumeração das outras missões.

Em 1687, Bossuet publica um catecismo, o qual compreendia três catecismos distintos: o catecismo dos principiantes; um catecismo mais desenvolvido, ao qual era junta uma parte histórica; e o Catecismo das festas e outras solenidades e observâncias da Igreja. Em 1689, Bossuet juntava ao seu catecismo Orações eclesiásticas das quais dizia: «Nossa intenção, nesta coletânea, é ajudar os mais ignorantes que não são capazes de mais altas meditações, os mais pobres que não têm meio de comprar outros livros, e os mais ocupados que não têm o lazer de os ler.» Por ocasião do jubileu concedido por Clemente XI, publicou, em janeiro de 1702, as suas Meditações para o jubileu.

Tão atento a recordar aos seus sacerdotes o dever da pregação, Bossuet cumpria-o em toda a sua diocese, e sobretudo na sua catedral, com religiosa exatidão. «O compromisso que tinha tomado, no dia em que entrou na sua catedral, de lá pregar em todos os dias de festa, cumpriu-o religiosamente. Que se conte, além disso, sermões de vestição, panegíricos, exortações nas assembleias de caridade, conferências feitas para instruir e converter os protestantes: ver-se-á que era infatigável e sempre pronto, quando se tratava de falar para o serviço da religião.» H. Druon, Bossuet a Meaux, c. II. Cf. E. Griselle, De munere pastorali, quod concionando adimplevit tempore presertim Meldensis episcopatus J.-B. Bossuet, in-8°, Paris, 1901.

3º Luta com a abadessa de Jouarre. — A luta de Bossuet com a abadessa de Jouarre, Henriette de Lorraine, é célebre. Desordens tinham-se introduzido nesta abadia (admissão irregular de religiosas; má administração do temporal; ausências da abadessa sem permissão do ordinário). «Mesmo antes da vinda de Bossuet, em 1680, o poder secular tinha julgado que uma reforma era necessária; e Luís XIV tinha pedido ao papa comissários para a realizar.» H. Druon, Bossuet a Meaux, c. IX.

Após uma luta obstinada, o bispo venceu as resistências de Henriette de Lorraine, e também as de Anne-Marguerite de Rohan-Soubise, que tinha sucedido a Henriette de Lorraine; o infortúnio de Bossuet foi que, para chegar aos seus fins, demasiado imbuído dos preconceitos do seu tempo, não se tenha contentado com os meios fornecidos pelo direito canônico. «Não voltarão mais, escrevia há meio século o conde de Montalembert, esses dias em que a desconfiança contra Roma e o hábito de contestar as suas prerrogativas tinham invadido as almas mais puras e as maiores; em que Bossuet apelava como de abuso ao parlamento de Paris contra uma bula emitida há quinhentos anos.» Des intérêts catholiques au XIXe siècle, c. II.

Não obstante, o bispo de Meaux escrevia a uma das religiosas de Jouarre, Mme du Mans: «Se vier uma ordem de Roma em forma, obedecerei certamente com alegria, e ficarei radiante por ter de vos dar um exemplo de obediência» (27 de abril de 1694). Já foi dito: «dificilmente (Bossuet) consegue submeter às suas vontades a poderosa abadessa de Jouarre, e já empreende impor aos religiosos de Saint-Pierre de Rebais o sacrifício da imunidade para as cinco paróquias que estavam colocadas sob o seu governo imediato.» J.-B. Vanel, Bossuet et les bénédictins de Saint-Maur, na Revue Bossuet, outubro de 1902.

Aqui também, o bispo de Meaux teve a culpa de recorrer à jurisdição secular. « Esta bula (ato pontifício obtido por um dos monges de Rebais, dom Mereau) é uma coisa manifestamente surpreendida da qual o papa não sabe absolutamente nada», escrevia ele à Sra. d’Albert. «Prestei contas ao núncio, que não tem qualquer conhecimento dela, e não aprova que se comprometa assim o nome do papa» (31 de janeiro de 1696). Mas ele não tinha o direito de acrescentar: «Tudo se faz na ordem...»

4º Direção das religiosas. — Estas lutas, que o galicanismo episcopal do momento e do meio explica, não são senão um acidente muito lamentável na história das relações de Bossuet com as comunidades religiosas da diocese de Meaux. Por toda parte, junto às ursulinas, junto às visitandinas, em Faremoutiers, mosteiro célebre com o qual seu predecessor, o Sr. de Ligny, tivera desencontros, em Jouarre mesmo, sobretudo em Jouarre, ele exerceu, por uma direção quase incomparável — a direção de um pai e de um doutor — a influência mais benfazeja.

Conhecem-se as suas numerosas e admiráveis cartas às Sras. de Luynes e d’Albert, as irmãs desse duque de Chevreuse que fora o discípulo dileto de Port-Royal. Conhecem-se também outras cartas: às Sras. du Mans, de la Guillaumie, de Lusancy, de Beringhen. As mais célebres talvez sejam aquelas que endereçava a uma viúva obscura, a irmã Cornuau, a quem dirigiu durante vinte e quatro anos. Nada de menos jansenista, nada de menos quietista também do que esta direção que afasta todos os vãos temores e as sutis pesquisas, impele à comunhão frequente as almas que se preparam seriamente para ela, e lembra sem cessar a extensão sem limites do amor de Deus pelo homem. «Atirai tudo às cegas no seio imenso da divina bondade e no sangue do Salvador; nele podem afogar-se mais pecados do que aqueles que cometeis e pudestes cometer.» À irmã Saint-André, 14 de outubro de 1690.

E, por vezes, em suas cartas, bem como em seus comentários bíblicos, Bossuet está «cheio de fendas por onde o sublime escapa de todos os lados», como lhe dizia, em 1688, o abade de Langeron. «Deixai desvanecer o mundo com o seu brilho», escrevia ele, em maio de 1693, à Sra. Cornuau. «Deixai-vos escoar neste grande todo que é Deus... Vós estáveis nele antes de todos os tempos, na sua ideia e no seu decreto eterno: vós saístes dele por assim dizer pelo seu amor, que vos tirou do nada. Retornai a esta ideia, a este decreto, a este princípio e a este amor.» Cf. M. Cagnac, Bossuet. Lettres de direction, in-18, Paris, 1904; A. Bros, La vie chrétienne d’après Bossuet, in-18, Paris, 1904.

5º Últimos escritos. — As Elévations sur les mystères, as Méditations sur l’Evangile, são, em certo sentido, obras de direção. «Enviar-vos-ei em breve alimento», escrevia ele à Sra. d’Albert, «pois levei as Méditations sur les mystères até ao ponto que eu queria, que é o momento da encarnação.» E, oferecendo às visitandinas de Meaux as suas Méditations sur l’Evangile, Bossuet dizia-lhes: «É para algumas de vós que elas foram começadas; e vós recebestes com tanta alegria, que isso me foi um sinal de que elas eram feitas para todas vós.»

Das Elévations, S. de Sacy disse: «Não abro este livro sem uma espécie de estremecimento religioso. Bossuet nele expõe ou melhor ele nele canta os dogmas cristãos num estilo de uma incomparável magnificência.» E nas Méditations sur l’Evangile, que acento de penetrante severidade! Outras obras de piedade, o Discours sur la vie cachée en Dieu, o Discours sur l’acte d’abandon, as Retraites, entre as quais se distingue a retraite de préparation à la mort, pertencem à vida episcopal de Bossuet. Nomeemos também o Traité de la concupiscence, composto em 1694, a pedido de uma religiosa de Meaux. Bossuet nele passa em revista e nele condena com uma severidade impiedosa todas as vaidades humanas. Acreditou-se reconhecer no c. XI exageros jansenistas. De fato, como a maioria dos seus contemporâneos, não somente Pascal, mas mesmo Bourdaloue, Sermon sur la conception de la sainte Vierge, Bossuet vê na natureza decaída antes as ruínas feitas pelo pecado do que os recursos que ela ainda guarda.

Bossuet datava de Meaux o comentário dos Salmos que dedicava ao seu clero (junho de 1690), e esta dissertação preliminar, a qual resume tão bem tudo o que importa à inteligência desses cânticos sagrados, e celebra a sua beleza com um entusiasmo verdadeiramente lírico... Quo loco exclamaverim melius quam ille quondam : spirat adhuc amor ; vivunt Davidicae lyrae, ac sacris hymnis commissi calores sive amantis Dei, sive redamantis hominis. Diss. de Psalmis, c. 1, n. 20. Bossuet exercitava-se também em traduzir em versos o Cantique des cantiques, certos hinos da Igreja, alguns salmos; mas o instrumento lhe era rebelde, como o tem sido a mais de um grande prosador. «O que se percebe tanto mais, neste combate desigual de um operário inábil contra uma forma inusitada, é a força da emoção que quer jorrar, é a riqueza do entusiasmo íntimo, é a realidade deste abandono sem reserva ao Deus adorado...» A. Rébelliau, Bossuet, c. X. É em Meaux também, e nos seus últimos anos, que Bossuet escreveu os seus opúsculos: Doctrina concilii Tridentini circa dilectionem in sacramento poenitentiae requisitam; Dissertationculae quatuor adversus probabilitatem. O seu Traité de l’usure tinha sido composto mais cedo.

6º Amigos do bispo de Meaux. — Na sua cidade episcopal, na sua casa de campo de Germigny, Bossuet recebia numerosos e ilustres visitantes: o delfim, o seu antigo aluno que, em 1690, partia para a sua campanha da Alemanha; príncipes do sangue; Villars; Mabillon; Malebranche; o pintor Rigaud; Santeul e Fénelon que cantaram ambos as belezas de Germigny, mas os versos franceses do futuro arcebispo não valem os versos latinos do cônego de Saint-Victor. Encontramos aí a sua família, cuja mundana frivolidade não soube respeitar os últimos dias do ancião.

No entourage eclesiástico do prelado, notamos Le Dieu, o precioso analista que fora recomendado a Bossuet por Mabillon; o abade de Saint-André; e também, infelizmente! o teólogo Treuvé, que deveria morrer apelante; o abade Phélippeaux e o abade Bossuet. Nem Treuvé, nem Phélippeaux, nem o abade Bossuet igualavam os Langeron e os Beaumont de Cambrai; mas teria Bossuet, no mesmo grau que Fénelon, o dom de discernir os homens? Amigo de Rancé, o bispo de Meaux ia frequentemente retemperar-se junto ao austero reformador. Bossuet fez dez viagens à Trappe; cf. Revue Bossuet; o P.

Marie-Léon Serrant, L’abbé de Rancé et Bossuet, 1903; e, com um traço sóbrio, Le Dieu descreveu-nos o monge e o bispo entretendo-se das coisas de Deus, «no passeio do lago ou nos bosques.»

7º Luta com o chanceler de Pontchartrain. — Em novembro de 1702, Bossuet teve de sustentar contra este poder real, amado por ele com um amor que não passava sem alguma fraqueza, uma luta à qual ele jamais teria se esperado. O chanceler de Pontchartrain pretendia submeter à aprovação de um doutor da Sorbonne (Pirot) o manuscrito da *Instruction contre le Nouveau Testament* de Trévoux, e não permitir sua impressão senão a esse preço. O velho bispo ergueu-se. «É muito extraordinário, escrevia ele (17 de novembro de 1702), que, para exercer nossas funções, nos seja necessário tomar a autorização do Sr. chanceler, e acabar de colocar a Igreja sob o jugo. Quanto a mim, eu ali colocaria a cabeça. Não relaxarei nada desse lado, nem desonrarei o ministério em uma ocasião onde o interesse do episcopado se encontra envolvido.» Após dois requerimentos a Luís XIV, Bossuet obteve ganho de causa, e assegurou assim aos seus colegas o direito de publicar suas obras sem o visto do poder civil.

8° Última enfermidade e morte de Bossuet. — No auge da controvérsia quietista, o bispo de Meaux escrevia ao Sr. de La Broue: «Deus me dá muita coragem e saúde em um grande trabalho e em uma grande idade; não me sinto de modo algum por sua graça» (18 de maio de 1697). Ele acabou, contudo, por sentir-se. Os cuidados e sua forte constituição haviam triunfado, em 1699, de uma erisipela; mas no mês de abril de 1703, hábeis cirurgiões, Maréchal e Tournefort, reconheceram nele a existência da pedra da qual sofria há muito tempo. Não se ousou tentar a extração em um ancião de setenta e seis anos, que a revelação de seu mal e o simples pensamento da terrível operação haviam tomado de pavor, e recorreu-se a paliativos. Durante os meses que se passaram de abril de 1703 a 12 de abril de 1704, data de sua morte, Bossuet continuou sua vida de trabalho e de oração. De Paris onde a doença o encontrara, ele voltava para sua diocese olhares atentos. Ele escrevia suas três cartas sobre a profecia de Isaías ao Sr. de Valincour, o amigo de Boileau e de Racine; ele terminava sua paráfrase do salmo XXI que ele considerava como uma preparação para a morte. «Nós lhe lemos nos começos de sua doença quase todo o Novo Testamento, e mais de sessenta vezes o Evangelho de São João, entre outros os capítulos XIII e XVII deste Evangelho, e todas as passagens de São Paulo que excitam mais a confiança;» tal é o relato que o abade de Saint-André fazia a um padre da diocese de Meaux, o abade Hattingais, que se apressou em escrevê-lo. *Revue Bossuet*, julho de 1901, p. 181-186.

Essa confiança repousava sobre uma humildade profunda. «Alguém (o abade Le Dieu) tendo-lhe dito que vários homens de consideração tinham vindo para vê-lo e lhe testemunhar a parte que tomavam em suas dores e em sua situação sobre a qual a Igreja estava alarmada com justa razão, uma vez que ele sempre tinha sido seu defensor, ele lhe respondeu»: «Eh, não, meu Deus, Senhor, fale-me de meus pecados, peçamos a Deus que ele mos perdoe e que ele me faça a graça de cantar suas misericórdias; quanto às minhas dores, elas não saberiam ser grandes demais.» Relato do abade de Saint-André, na *Revue Bossuet*, *loc. cit.* Bossuet morreu no sábado, 12 de abril de 1704, com a idade de pouco mais de setenta e seis anos e meio. Sua oração fúnebre foi pronunciada na catedral de Meaux, no dia 23 de julho de 1704, pelo P. de La Rue, jesuíta; e em Roma, no colégio da Propaganda, por Alexandre Maffei. Sobre o panegírico romano, ver uma nota interessante do abade Le Dieu, na *Revue Bossuet*, outubro de 1901, p. 250-252.

III. JULGAMENTO SOBRE O HOMEM, O TEÓLOGO E O APOLOGISTA. — Resta-nos apreciar brevemente o homem, o teólogo, o apologista.

1° O homem. — Nós conhecemos o homem por toda a sua vida. Antoine Arnauld assinalava a sinceridade desta alma sempre pronta a seguir a verdade conhecida; e por outro lado, junto ao maior de nossos escritores, que ausência completa das mórbidas vaidades do homem de letras! «Se há uma fraqueza da qual seja injusto acusar este homem «tão verdadeiramente grande», é a vaidade literária. Na longa lista de suas obras, encontrar-se-ia uma única que ele tenha composto, uma única que ele tenha publicado para fazer ato de autor? Eu não creio. O interesse manifesto da fé, tem-se notado frequentemente e justamente, foi sempre sua única regra: digamos mais, o interesse contemporâneo da Igreja. Aqueles mesmos de seus trabalhos que, em seu tempo, puderam ter sido úteis, mas que, segundo ele, não o eram mais, não mereciam, a seus olhos, durar. Ele deixa acumular e dispersar os manuscritos de seus sermões, e é por surpresa que se lhe arranca a publicação das Orações fúnebres. Esse desinteresse tinha impressionado, em seu tempo já, seus próprios adversários. Eis um prelado, dizia Bayle, «que não é do número daqueles que escrevem para escrever.» A. Rébelliau, *Bossuet historien du protestantisme*, I, I, c. 1.

Este homem que pôde declarar-se «o mais simples de todos os homens..., o mais incapaz de toda dissimulação e de toda fineza», *Relation sur le quiétisme*, sect. VI, é também um homem bom. Ele ama sua família. Ver sua carta ao bispo de Mirepoix sobre a morte de seu irmão Antoine, 24 de fevereiro de 1699. Ele guarda até o fim todos os seus amigos, exceto, infelizmente! Fénelon, cuja nomeação como preceptor do duque de Borgonha lhe tinha inspirado uma carta do mais alegre e também do mais patético acento. Ele usa de sua influência para fazer o bem (testemunha todos esses protestantes condenados a diversas penas dos quais ele obteve a graça). Ver H. Druon, *Bossuet a Meaux*.

Sem dúvida, defeitos se misturam a essas virtudes. Bossuet é fraco para os seus. Ele abandona a um sobrinho e a uma sobrinha o governo de seu criado; para um outro sobrinho, para aquele que, se a coisa tivesse sido possível, o teria comprometido em Roma e perante a história, ele solicita uma coadjutoria que Luís XIV recusa. Largamente provido de benefícios, ele doa e gasta, pouco preocupado com seus negócios. Ele é sincero em sua paixão pela realeza, na entusiasta admiração que ele sente por Luís XIV, e que ele nunca se cansou de expressar; mas esta paixão pela instituição e pelo homem vai longe demais.

Ele exagera os direitos do poder: ele porta, se me atrevo a dizer, a superstição do sangue real, até honrá-lo naqueles que não o tinham recebido senão em desprezo da lei moral, e que, do ponto de vista da tradição monárquica, não eram nada. Ver a dedicatória de sua Mineure ordinaire ao indigno bispo comendatário de Metz, filho de Henrique IV e da marquesa de Verneuil: Inest plane nescio quid excelsium sanguini regio, etc. Mas ele não era o único a ter tal linguagem; Mascaron, embora bastante discretamente, lembra, na oração fúnebre do duque de Beaufort, que este príncipe era do «sangue do grande Henrique». Por esta superstição monárquica se explica a fraqueza de Bossuet no caso da régale. É seu galicanismo, sobretudo, que explica a parte tomada por ele na Declaração de 1682; galicanismo que atestam tanto esta longa e laboriosa Defensio, cuja autenticidade se gostaria de poder contestar, quanto o memorial contra Rocaberti (1696).

Enfim, este homem tão bom teve, na polêmica, não apenas rudezas, mas durezas. Sua velhice magoada suspeitava e acusava com excessiva facilidade. Tudo isto prova que Bossuet não se iguala aos santos que a Igreja elevou aos seus altares; mas, não obstante estes erros, estas fraquezas e as faltas que acarretaram, Bossuet, do começo ao fim de sua carreira, foi um homem de fé e de religião profundas. Sua vida forneceu provas irrecusáveis disso. Alguns traços, ainda, terminarão de pintá-lo. Interrogado por um incrédulo moribundo que lhe dizia: «Que pensais da religião?», ele responde com o inimitável acento da convicção: «Que ela é divina, e que jamais duvidei dela.» Sempre sincero consigo mesmo, como se tivesse temido sua fraqueza, a uma superiora de comunidade que um dia lhe havia perguntado: «Que graça implorarei para vós?», ele dizia: «Que eu não tenha complacência alguma pelo mundo.» Enfim, Bossuet moribundo indigna-se ao ouvirem pronunciar à sua cabeceira a palavra glória.

2º O teólogo. — Nós apreendemos, no curso deste estudo, o caráter e admiramos o alto valor da teologia de Bossuet. O bispo de Meaux é homem da tradição; ele poderia ter adotado a altiva divisa: Je maintiendrai. Vimo-lo estudar desde cedo a tradição nos Padres, em Santo Agostinho sobretudo. Assim, enamorado dessa teologia positiva à qual o século XVI francês elevou monumentos indestrutíveis, acompanhava com olhar atento, acolhia com alegria todas as descobertas que, em seu tempo, enriqueciam o tesouro da patrologia. E sua crítica, ajudada pelas luzes crescentes da erudição, empenhava-se em discernir as obras autênticas daquelas que um longo erro havia emprestado aos Padres. É assim que, em sua Défense de la tradition sur la communion sous une espèce, parte II, cap. XXXI, ele declara supostas as obras que haviam sido atribuídas a São Dionísio, o Areopagita. Ver também Tradition des nouveaux mystiques, c. XVI, sect. VI. Nós o notamos também, defensor da imutabilidade do dogma católico, Bossuet não teve suficientemente — e seus contemporâneos tiveram pouco — a noção deste desenvolvimento doutrinário que Franzelin e, sobretudo, Newman nos tornaram familiar.

3º O apologista. — Sabemos a posição imensa que a apologética ocupa na obra de Bossuet. Encontramo-la nos sermões, na oração fúnebre de Anne de Gonzague; ela domina, ela triunfa no Discours sur l’histoire universelle. Pretender-se-á que esta apologética é mal informada; que ignora os perigos do presente, que não prevê os do futuro? O catálogo e o inventário da biblioteca de Bossuet forneceriam contra esta assertiva um preconceito sólido. «Uma biblioteca é reveladora de uma natureza de espírito e de um método de trabalho. A de Bossuet mostra-no-lo atento a tudo o que podia interessar à apologética e à crítica, à exegese e à controvérsia.» F. Brunetière, Le testament de Bossuet et l’inventaire de sa bibliothèque, na Revue Bossuet, julho de 1901.

Bossuet conhece seus contemporâneos, serve-se deles, julga-os. Ele conhece Bacon, pois cita do filósofo inglês um pensamento que tem sido muito frequentemente repetido. Défense de la tradition et des SS. Pères, parte I, l. VI, c. XV. Ele toma a parte o ceticismo zombeteiro de Montaigne que sobrevivia no século XVII. De la connaissance de Dieu et de soi-même, c. V, n. 1. Ele faz refutar por Fénelon o Traité de la nature et de la grâce, e escreve esta carta famosa onde Malebranche é tão severamente julgado. A um discípulo do P. Malebranche, 21 de maio de 1687. Ele admira Descartes, e contudo não hesita em escrever nesta mesma carta: «Vejo... um grande combate se preparar contra a Igreja sob o nome da filosofia cartesiana. Vejo nascer de seu seio e de seus princípios, a meu ver mal entendidos, mais de uma heresia...» E os grandes adversários, os grandes negadores do cristianismo, Bossuet não os ignorou. É Socino, vimo-lo, que ele persegue no Sixième avertissement; é Espinosa, o Espinosa contemptor da revelação mosaica e cristã, que, sem nomeá-lo, ele refuta no Discours sur l’histoire universelle. Quase ao fim de sua longa carreira, ele assinalava ao bispo de Fréjus, Fleury, «o espírito de incredulidade que ganhava todos os dias.» Carta de 11 de dezembro de 1702. Este espírito, Bossuet nunca cessou de combatê-lo pelas armas mais oportunas e mais seguras.

Terminando, temos, portanto, o direito de nos apropriar deste julgamento que resume uma conferência de M. Brunetière sobre a Apologética de Bossuet: «Contra os libertinos, precursores do racionalismo filosófico, «o teólogo da providência» estabelece fortemente o dogma da onipresença, da ação permanente de Deus na criação. Sim, há o divino no governo do mundo; Deus intervém em nossa vida tão bem que, segundo a palavra do Apóstolo, vivemos, nos movemos e somos nele. De outra forma, nem a história valeria a pena ser estudada, nem a vida valeria a pena ser vivida.» E quanto aos Livros sagrados que atestam as intervenções de Deus neste mundo e nos guardam a revelação que Ele deu, «quaisquer que sejam as versões e as variantes do texto, a substância dos fatos e da doutrina permanece a mesma, isso basta. A apologética de Bossuet aparece assim em sua solidez: ela pode adaptar-se ao nosso tempo. Os erros e insuficiências acidentais, inerentes a toda obra humana e de uma época particular, não saberiam impedir de nela reconhecer o que ela tem em substância de fecundo, de duradouro, de universal...» Revue Bossuet, abril de 1901, p. 125, 126.

I. OBRAS DE BOSSUET. — Œuvres de Bossuet, 43 in-8°, Versalhes, 1815-1819; Œuvres complètes, edit. P.

Lachat, 34 in-8°, Paris, 1862-1866; Œuvres complètes, edit. do abade Guillaume, 40 in-4°, Bar-le-Duc, 1877; Œuvres oratoires de Bossuet, edição crítica completa pelo abade J. Lebarq, Lille e Paris, 7 in-8°, 1890-1897; E. Levesque, Instruction sur les états d’oraison, segundo tratado, precedido de uma Introdução, in-8°, Paris, 1897. Para as edições particulares das obras de Bossuet, consultar Bourseaud, Histoire et description des manuscrits et des éditions originales des ouvrages de Bossuet, 2ª edit., Paris, 1897; Ch. Urbain, Bossuet, na Bibliothèque de bibliographies critiques, Paris, 1900.

II. OBRAS SOBRE BOSSUET. — Fénelon, Obras completas, 40 vol. in-4°, Paris, 1851-1852; Le Dieu, Memórias e Diário sobre a vida e as obras de Bossuet, publicados por Guettée, 4 vol. in-8°, Paris, 1856-1857; Bausset, História de Fénelon, 3 vol. in-8°, Versalhes, 1803; Id., História de J.-B. Bossuet, 4 vol. in-4°, Paris, 1814; A. Floquet, Estudos sobre a vida de Bossuet de 1627 a 1670, 3 vol. in-8°, Paris, 1855; Bossuet preceptor do delfim, in-8°, Paris, 1864; Réaume, História de J.-B. Bossuet e de suas obras, 3 vol. in-8°, Paris, 1869; Delmont, Quid conferant latina Bossueti opera ad cognoscendam illius vitam, indolem doctrinamque, in-8°, Paris, 1896; H. Druon, Bossuet & Meaux, in-18, Paris, 1899; Ch. Gérin, Pesquisas sobre a Assembleia de 1682, in-8°, Paris, 1869; Lescœur, De Bossueti et Leibnitii epistolarum commercio circa pacem inter christianos conciliandam, in-18, Paris, 1852; A. de Broglie, Leibniz e Bossuet, no Correspondant, de 25 de novembro de 1860; A. Rébelliau, Bossuet historiador do protestantismo, 2ª ed., in-8°, Paris, 1892; Id., Bossuet, in-12, Paris, 1900; Phélippeaux, Relação da origem, do progresso e da condenação do quietismo espalhado na França, 1782; Gosselin, Análise da controvérsia do quietismo, nas Obras completas de Fénelon, t. 1; A. Griveau, Estudo sobre a condenação do livro das Máximas dos santos, 2 vol. in-18, Paris, 1878; Guerrier, Sra. Guyon, in-8°, Paris, 1880; L. Crouslé, Fénelon e Bossuet, 2 vol. in-8°, Paris, 1894-1895; Id., Bossuet e o protestantismo, in-8°, Paris, 1901; Ingold, Bossuet e o jansenismo, in-8°, Paris, 1897; 2ª ed., Paris, 1904; Ch. Urbain, Do jansenismo de Bossuet, Paris, 1899; Sainte-Beuve, Conversas de segunda-feira, t. x, XII; Novas segundas-feiras, t. IV, XI; Port-Royal (passim); F. Brunetière, Estudos críticos, 2ª e 5ª séries; Manual de história da literatura francesa, Paris, 1898; G. Lanson, Bossuet, in-18, Paris, 1890; R. de la Broise, Bossuet e a Bíblia, in-8°, Paris, 1891; Freppel, Bossuet e a eloquência sagrada no século XVII, 2 vol. in-8°, Paris, 1893; J. Lebarq, História crítica da pregação de Bossuet, 2ª ed., in-8°, Lille e Paris, 1891; Bellon, Bossuet diretor de consciência, in-8°, Paris, 1895; Delmont, Bossuet e os santos Padres, in-8°, Paris, 1896; Id., Ao redor de Bossuet, 2 vol. in-8°, Paris, 1901; F. Strowski, Bossuet e os extratos de suas obras diversas, in-12, Paris, 1904; Páginas escolhidas dos grandes escritores, Bossuet, com uma introdução por A. Gazier, in-16, Paris, 1903; E. Jovy, Estudos e pesquisas sobre Jacques-Bénigne Bossuet, bispo de Meaux, in-8°, Vitry-le-François, 1908; Revista Bossuet, 5 vol. in-8°, Paris, 1900-1904,

Autor original: A. Largent

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