4. BOAVENTURA (São), cardeal, bispo de Albano, oitavo ministro-geral dos Frades Menores, doutor da Igreja, chamado pela posteridade de doctor devotus e, a partir de Gerson, de doctor seraphicus.
I. Vida.
II. Escritos.
III. Doutrina.
I. Vida. — Boaventura nasceu em 1221 em Bagnoregio, cidade episcopal da Itália central, no distrito de Viterbo. Era filho de João de Fidanza e de Maria Ritelli. Recebeu provavelmente no batismo o nome de João, que lhe é atribuído em diversos manuscritos. Os gregos reunidos no II Concílio de Lyon chamaram-no de Eutychius. Algumas vezes deram-lhe o nome de Pedro, de Eustáquio ou de Tiago, mas, geralmente, foi chamado de Boaventura (Bonaventura, Bona Ventura, Bona Adventura, Bonafortuna, etc.).
Na sua infância, Boaventura adoeceu perigosamente. Sua mãe fez então por ele um voto a São Francisco de Assis, e, pela intercessão e os méritos desse santo, ele foi arrancado de uma morte iminente. O próprio Boaventura faz menção a essa cura na Legenda major S. Francisci, prolog., n. 3, na Legenda minor S. Francisci, de transitu mortis, lect. viii, e em seu terceiro sermão sobre São Francisco. Cf. S. Bonaventure Opera, Quaracchi, 1882-1902, t. viii, p. 505, 579; t. ix, p. 583. Vários escritores pensaram que essa cura ocorreu durante a vida de São Francisco, que, nesta ocasião, teria pronunciado estas palavras: O buona ventura! «Oh! feliz acontecimento!». Essa opinião, contudo, não se apoia em nenhum testemunho sério. Cf. Acta sanctorum, Vita S. Bonaventure, Comment. praevius, § 3, n. 22 sq., julii t. iii, p. 815.
Pode-se pensar que a gratidão por essa cura inclinou o espírito e o coração do jovem homem para a Ordem de São Francisco; mas foi sobretudo a admiração pela vida simples e maravilhosa do Serafim de Assis e de seus primeiros discípulos que persuadiu Boaventura de que a sua ordem não era uma invenção da prudência dos homens, mas sim uma obra de Deus, e que o impeliu a abraçar a vida dos Frades Menores. Cf. Epist. de tribus quaest., n. 13, S. Bonaventure Opera omnia, Quaracchi, t. viii, p. 336.
Quanto à data de seu ingresso na ordem, os historiadores não estão de acordo. Uns pensam que ele tomou o hábito em 1243-1244. Cf. Acta sanctorum, Vita S. Bonaventure, § 3, n. 26, julii t. iii, p. 816; Analecta bollandiana, t. xx, p. 361. Outros estimam que essa opinião é inadmissível e fazem-no entrar no noviciado em 1238. Cf. Prosper de Martigné, La scolastique et les traditions franciscaines, Paris, 1888, p. 79 sq.; S. Bonaventure Opera omnia, Quaracchi, t. x, p. 40 sq.
O convento onde ele fez o seu noviciado é desconhecido. O que é certo é que Boaventura veio logo a Paris, onde teve a vantagem de ser, por bastante tempo, discípulo de Alexandre de Hales, a quem chamava mais tarde de seu pai e mestre, pater et magister noster, In IV Sent., l. II, dist. XXIII, q. II. Distinguiu-se entre os numerosos discípulos de Alexandre, que reconheceu nele um santo e uma luz futura de sua ordem, e que disse um dia a seu respeito: «Parece que Adão não pecou nele». Chronicon xv ministrorum generalium, nos Analecta franciscana, Quaracchi, 1897, t. iii, p. 699. É ainda o doutor irrefragável, falecido em agosto de 1245, quem o fez admitir à licença, segundo o testemunho do bem-aventurado Francisco de Fabriano. Cf. Prodromus ad Opera omnia S. Bonaventure in typ. Bassanensi, 1767, p. 64. Contudo, segundo Salimbene, Chronica, Parma, 1857, p. 129, ele era bacharel em 1248, quando o bem-aventurado João de Parma, eleito ministro-geral em agosto de 1247, concedeu-lhe a faculdade de ensinar em Paris.
Desde então, Boaventura explicou o livro das Sentenças de Pedro Lombardo e a Escritura sagrada, e é aproximadamente nesta época que se deve situar a origem da maioria de suas obras teológicas e de seu comentário sobre o Evangelho de São Lucas. Na Universidade de Paris, Boaventura adquiriu rapidamente o sufrágio de todos os ouvintes, que ele atraía ao redor de sua cátedra por seus talentos extraordinários unidos às virtudes mais elevadas. Ao ensino da teologia e das Sagradas Escrituras, ele aliava o exercício do ministério apostólico. Durante toda a sua vida, não negligenciou nenhuma ocasião de anunciar a palavra divina. Pregava frequentemente, ora ao povo, ora ao clero ou a seus confrades. Pregou também na presença dos soberanos pontífices, Clemente IV, Urbano IV, Gregório X, dos cardeais, dos reis da França e dos mais ilustres doutores da universidade. Sabemos, pelos títulos de seus sermões, que ele falou em várias igrejas da Alemanha, da Espanha, da Itália e da França, mas foi em Paris, a cidade que foi sua residência ordinária mesmo após sua eleição ao cargo de ministro-geral, que suas pregações foram as mais frequentes. Quando anunciava a palavra divina, falava com simplicidade, clareza e unção, e a admiração de seus contemporâneos proclamava-o o primeiro pregador de seu século.
Enquanto Boaventura ensinava em Paris, a Ordem de São Domingos era representada na universidade por um doutor não menos ilustre, por São Tomás de Aquino. Esses dois grandes doutores, não obstante a diversidade de suas ideias, contraíram uma amizade estreita. Essas duas luzes da Igreja não tiveram apenas a honra de expor a doutrina teológica, tiveram ainda, um e outro, de defender valentemente as ordens religiosas. No momento mesmo em que os mestres das duas famílias de São Domingos e de São Francisco ilustravam a universidade, vários professores seculares queriam excluí-los do ensino. A oposição que eclodiu em 1252 foi, a princípio, dirigida diretamente contra os pregadores. Em 1254, o Evangelium aeternum de Gerardo de Borgo San Donnino, dos Frades Menores, provocou a luta contra os franciscanos e deu ocasião a Guilherme de Saint-Amour de atacar com violência as ordens mendicantes em seu panfleto De periculis novissimorum temporum. Foi então que Boaventura escreveu seu excelente tratado apologético De paupertate Christi, conservado em suas Quaestiones disputatae. Boaventura e Tomás triunfaram nessa luta, e Alexandre IV condenou o libelo de Guilherme de Saint-Amour e fez queimá-lo em 5 de outubro de 1256. Contudo, nem a refutação dos doutores mais ilustres, nem a condenação do soberano pontífice chegaram a pôr um termo a essas controvérsias, que deram ainda ocasião a São Boaventura de escrever outras obras apologéticas, por exemplo, sua Apologia pauperum, e impediram, por algum tempo ainda, São Tomás e São Boaventura de conquistarem o título de mestre em teologia.
A universidade, finalmente, teve de aquiescer às injunções reiteradas do papa e procedeu à instalação de Tomás e de Boaventura como doutores em 23 de outubro de 1257. Cf. S. Bonaventure Opera omnia, t. X, p. 45 sq.
Estas lutas funestas haviam causado a interrupção dos cursos da universidade em 1255. Não possuímos informações sobre a vida de São Boaventura nessa época. Podemos, contudo, conjeturar que ele prosseguiu com seu ensino no convento da ordem em Paris. Mas logo as grandes qualidades das quais era dotado o afastaram do ensino.
Em 2 de fevereiro de 1257, o bem-aventurado João de Parma, ministro-geral da ordem, renunciou ao seu cargo em um capítulo convocado em Roma, e Boaventura, não tendo ainda 36 anos, foi eleito para sucedê-lo. Ele se encontrava então em Paris, de onde escreveu sua primeira carta pastoral, em 23 de abril do mesmo ano. Assuntos graves o chamaram à Itália, onde chegou provavelmente no verão seguinte. Tratava-se da causa de seu predecessor, que era acusado de ter se deixado seduzir pelas doutrinas do abade Joaquim. Os historiadores não nos informam sobre os detalhes do processo; sabemos, contudo, que o bem-aventurado João de Parma foi reconhecido inocente. Wadding, Annales minorum, ad ann 1256.
Em suas funções de ministro-geral de uma ordem numerosa, Boaventura demonstrou tamanha atividade que pôde ser considerado, com razão, o segundo fundador da ordem. Fez diversas viagens, visitando ele mesmo as províncias da Itália, da França e de algumas partes da Alemanha; reuniu seis capítulos gerais nos quais reformou os abusos contrários à regra e, sobretudo, à pobreza; regulou algumas questões de liturgia e aperfeiçoou o governo e a organização da ordem através da revisão das constituições gerais e da delimitação das províncias. Conciliou para si o amor e a admiração por sua prudência, sua bondade e sua santidade.
Após ter obtido em Paris o título de mestre em teologia em 23 de outubro de 1257, assistiu em 1258 à fundação do hospício de Pisa. Retornou a Paris e dirigiu-se em 1259 ao monte Alverne, onde escreveu seu Itinerarium mentis in Deum. No ano seguinte, reuniu o capítulo geral de Narbona, no qual redigiu as novas constituições da ordem. Os Padres deste capítulo, para pacificar os irmãos e edificar o povo, suplicaram a Boaventura que escrevesse uma admirável vida de São Francisco. Por suas instâncias, ele se dirigiu à Itália e, a fim de obter informações mais certas, percorreu em 1260 os locais ilustrados pela presença do santo e interrogou os discípulos que lhe haviam sobrevivido. Cf. Legenda S. Francisci, prol., S. Bonaventure Opera omnia, Quaracchi, t. viii, p. 555, note 4.
Nesta ocasião, assistiu, no mês de agosto, à consagração da igreja de Nossa Senhora dos Anjos no monte Alverne e, em outubro, à translação de Santa Clara em Assis. Retornado a Paris, escreveu a Legenda de São Francisco, pai e modelo dos irmãos menores.
Em 1263, Boaventura foi a Roma, assistiu em abril à translação de Santo Antônio de Pádua e presidiu, em 20 de maio, o capítulo geral de Pisa. Neste capítulo, ocupou-se da divisão das províncias, das rubricas do breviário e ordenou que se exortassem os fiéis nos sermões, ut incompletorio, pulsante campana, beatam Mariam aliquibus vicibus salutarent. Chronica XXIV generalium, dans Analecta franciscana, t. ii, p. 329. Wadding, ad an. 1263, n. 16, acrescenta, o que não é certo, que entre outras festas ele instituiu a da Imaculada Conceição da Santa Virgem. Este capítulo aprovou a Legenda de São Francisco e suprimiu as outras.
Pouco tempo depois (1264, 1267, 1270; cf. S. Bonaventurae Opera omnia, Quaracchi, t. x, p. 5, 6), Boaventura instituiu em Roma a insignis societas Regularium recommendatorum B. Mariae Virginis (Arciconfraternita del Gonfalone). Em 24 de novembro de 1265, Clemente IV confiou-lhe a sede arquiepiscopal de York, mas a humildade do santo fez com que declinasse dessa honra. Deixou Paris, foi lançar-se aos pés do papa, que, tocado por suas preces, aceitou sua renúncia. Boaventura retornou à França, onde presidiu o capítulo geral de Paris, em 1266, na festa de Pentecostes. Foi neste capítulo que ele instituiu as discussões públicas para os estudantes da ordem. Wadding, Annales minorum, ad an. 1266, n. 4.
Em 1268, ele se encontrava em Assis, onde, no ano seguinte, celebrou o capítulo geral, no qual ordenou que se celebrasse todos os sábados uma missa solene em honra da Santíssima Virgem. Por sua admirável atividade, por sua prudência no governo e seu zelo em reformar os abusos contrários à regra, Boaventura atraiu sobre si os olhares dos soberanos pontífices. Alexandre IV e Urbano IV endereçaram-lhe várias bulas e concederam grandes favores à ordem. Clemente IV não teve menos estima e afeição por ele, e demonstrou-lho reservando-lhe, como já dissemos, a sede arquiepiscopal de York. Gregório X, sobretudo, teve nele uma confiança sem limites. Este papa, cuja eleição é atribuída à influência de São Boaventura sobre os cardeais reunidos em Viterbo, levou-o a Roma para assistir à sua coroação em 27 de dezembro de 1272. Pediu-lhe que designasse quatro irmãos menores, os quais enviou ao Oriente para negociar a união dos gregos. Boaventura escolheu para esta missão Jerônimo de Ascoli, Raimundo Berengário, Bonagratia de Sancto Joanne in Persiceto e Boaventura de Mugello.
Logo, porém, Boaventura deixou Roma para presidir o capítulo geral de Pisa em 1272, e retornou a Paris, onde pregou, em presença dos doutores da universidade, suas sublimes Collationes (sermões) de Hexaemeron, em 1273, após a festa da Páscoa. Estes sermões foram interrompidos em 3 de junho de 1273, quando Gregório X criou Boaventura cardeal e bispo de Albano. O papa, que tinha a intenção de se servir de seus talentos no Concílio de Lyon, prescreveu-lhe que aceitasse este cargo e exigiu uma submissão imediata e absoluta. Obedecendo a este preceito formal, Boaventura tomou o caminho da Itália, reuniu-se ao soberano pontífice e acompanhou-o a Lyon.
Nesta cidade, Boaventura reuniu um capítulo geral de sua ordem e renunciou ao cargo de ministro-geral, em 20 de maio de 1274, deixando como sucessor Jerônimo de Ascoli. A partir de então, a parte que tomou no concílio ocupou todo o seu tempo. O soberano pontífice, com efeito, confiou-lhe a direção das principais questões que concerniam à união dos gregos com a Igreja romana. Graças à ciência, à habilidade e à santidade de Boaventura, o concílio obteve alguns resultados sobre este ponto importante.
Na IV sessão, realizada em 6 de julho, os gregos abjuraram seu cisma e reconheceram a primazia do pontífice romano. No dia seguinte, Boaventura adoeceu e logo se aproximou de sua hora derradeira. Faleceu na noite de 14 para 15 de julho de 1274, com a idade de 53 anos. Foi sepultado na igreja dos irmãos menores em Lyon, e seus funerais foram honrados pela presença do papa e dos Padres do concílio.
Em 1434, o seu corpo foi transferido para a igreja consagrada a São Francisco, e nesta ocasião um braço foi transportado para Bagnoregio. O resto do seu corpo foi queimado pelos huguenotes no mês de maio de 1562, com exceção da cabeça, que foi preservada, mas que se perdeu na época da Revolução Francesa.
Em 14 de abril de 1482, Sisto IV inscreveu o nome de Boaventura no catálogo dos santos, e em 14 de março de 1587, Sisto V colocou-o no rol dos doutores da Igreja. A sua festa celebra-se em 14 de julho.
II. Escritos. — A atividade literária de São Boaventura, em meio às suas grandes ocupações para o governo da Ordem, é verdadeiramente admirável. As obras que lhe foram atribuídas são numerosíssimas, e como sempre foram tidas em grande estima, foram conservadas em diversos manuscritos e impressas bastante frequentemente. Seria impertinente enumerar as edições dos seus escritos publicados separadamente ou em grupos; contam-se por centenas.
Contentamo-nos em indicar as edições das obras completas. A primeira foi a que foi impressa em 1588-1599 na tipografia do Vaticano por ordem de Sisto V, 7 in-fol. Esta edição contém 94 obras e foi reproduzida em 1609 em Mogúncia e em 1678 em Lyon.
Uma outra edição foi publicada em Veneza, em 1751, 13 in-4°. Esta contém, no primeiro volume, uma Diatriba historico-chronologico-critica, na qual os editores narram a vida de São Boaventura e dão a sua opinião sobre a autenticidade das obras. No mais, esta edição não acrescenta às precedentes senão uma pequena carta. A ordem das obras, contudo, é alterada. A edição é dividida em três partes, contendo as obras autênticas, duvidosas e apócrifas segundo a opinião dos editores. Esta edição, a mais imperfeita de todas devido aos seus numerosos erros e lacunas, foi reproduzida em Paris em 1864.
Até esta última data, um trabalho fundamental de crítica ainda não tinha sido executado. Diversos escritos eram ainda inéditos e o texto mesmo deixava a desejar. Jean-Hyacinthe Sbaralea, dos Frades Menores Conventuais, morto em 1763, tinha, é verdade, publicado várias obras novas no seu Supplementum ad scriptores trium ordinum S. Francisci, impresso em Roma em 1806, e Bento Bonelli de Cavallesio, dos Frades Menores, tinha prestado serviços à crítica no seu Prodromus ad Opera omnia S. Bonaventura, Bassano, 1767 (no qual trata da vida, da doutrina e dos escritos de São Boaventura), como também no seu Supplementum Operum omnium S. Bonaventura, 3 in-fol., Trento, 1772-1774; mas estas obras eram incompletas e inexatas.
Foi por esta razão que o Rmo. Pe. Bernardino a Portu Romatino propôs-se, em 1871, publicar uma nova edição. Sob a sua ordem, o R. P. Fidéle de Fanna empreendeu diversas viagens, visitou quase todas as grandes bibliotecas da Europa, estudou os manuscritos e recolheu os materiais de um trabalho crítico. Este trabalho foi executado após a sua morte (2 de agosto de 1881) pelo R. P. Ignace Jeiler e outros colaboradores. O primeiro volume apareceu em Quaracchi em 1882, e o décimo primeiro e último em 1902.
Esta edição, «que as remissões, os scholia e diversas tabelas tornam das mais cômodas e das mais preciosas», A. Pelzer, Revue néo-scolastique, 1908, p. 98, mereceu o elogio de Leão XIII numa carta de 13 de dezembro de 1885 ao R. P. Geral dos Frades Menores. Mereceu também o dos sábios. «Todas as outras edições totais ou parciais do Doutor Seráfico, diz Pelzer, loc. cit., encontram-se suplantadas por uma obra que, ao juízo dos sábios mais competentes, tais como o Pe. Denifle e o Dt. Baumker, constitui um modelo do gênero e responde nomeadamente a todas as exigências da crítica.»
Para a lista dos escritos de São Boaventura, seguimos esta edição e remetemos aos volumes que os contêm. Omitimos 108 escritos que lhe foram atribuídos erroneamente. Sobre a sua autenticidade, ver t. x, p. 20-30.
I. OBRAS TEOLÓGICAS. — 1° Commentarii in quatuor libros Sententiarum Petri Lombardi, t. 1-iv. — Esta obra, cuja autenticidade não é de modo algum duvidosa, foi composta quando Boaventura lecionava em Paris, em 1248. Talvez, contudo, já a tivesse começado em 1245. Cf. t. 1, p. lxv; t. x, p. 41. A data na qual foi terminada é desconhecida. Contudo, não há dúvida de que o santo doutor a concluiu antes da sua elevação ao generalato, em 1257.
1. Divisão e objeto. — Boaventura seguiu a divisão de Pedro Lombardo. Ele reparte o 1º livro em quatro partes principais. A 1ª trata de frui et uti (dist. I, II); a 2ª, do conhecimento de Deus (dist. III-VII); a 3ª, das propriedades e das condições essenciais da Trindade e da unidade (dist. VIII-XXXIV); a 4ª, da ciência, da potência e da vontade de Deus.
No 2º livro, a propósito da criação e da queda dos anjos e dos homens, ele discute diversas questões da graça, da consciência e dos pecados.
No 3º, ocupa-se da união das naturezas em Jesus (dist. I-XI), da maneira segundo a qual Jesus se conformou às nossas enfermidades (dist. XII-XVIII), da maneira pela qual Ele nos salvou da morte (dist. XIX-XXII), e acrescenta uma quarta parte sobre as virtudes (dist. XXIII-XL), que sobretudo mereceu os elogios dos teólogos. Ao fim deste livro, discute longamente a questão da causalidade dos sacramentos que já tinha exposto no 4º livro. Hee positio in quarto libro diffusius est explicata, t. 11, p. 895.
Este fato autoriza-nos a supor que Boaventura não encontrou sobre esta questão uma solução que o satisfizesse em todos os pontos. Observamos aqui que seria um erro acreditar, com alguns autores, que Boaventura considera os sacramentos apenas como condições sine qua non da produção da graça e que não lhes concede nenhuma causalidade. Embora excluindo a causalidade física quoad factum, ele defende a causalidade moral. Cf. Dominique Facin de Bieno, Dissertatio de studio Bonaventuriano, Quaracchi, 1902, p. 36-57.
O 4º livro, provavelmente escrito antes do 3º e talvez mesmo o primeiro de todos, contém o tratado dos sacramentos, e a partir da dist. XLIII até a dist. L, o tratado dos fins últimos. Neste livro, o menos perfeito, Boaventura segue mais servilmente Alexandre de Hales do que nos outros.
Daí a imperfeição das suas opiniões sobre a instituição dos sacramentos e sobre a eficácia do sacramento da penitência. Cf. t. x, p. 54.
2. Método. — Boaventura propõe no seu comentário o texto do mestre (textus magistri). Depois, expõe a divisão do texto (divisio textus) e as questões a tratar (tractatio questionum). Após isso, divide a sua doutrina em artigos, subdivididos em questões. A última questão de cada distinção é sempre seguida por algumas dúvidas sobre o texto de Pedro Lombardo (dubia circa litteram magistri). Em cada questão, Boaventura indica as provas de sua doutrina (fundamenta) que precedem ou seguem os argumentos da opinião contrária (argumenta in oppositum); ele propõe sua conclusão e faz seguir a solução das dificuldades (solutio oppositorum).
3. Valor. — Dentre as obras escolásticas de Boaventura, o comentário sobre os livros das Sentenças ocupa o primeiro lugar. Tudo o que o santo escreveu mais tarde se relaciona, em grande parte, a este comentário como à sua fonte principal e ao seu sólido fundamento. É neste comentário que ele explicou as questões filosóficas e teológicas agitadas em seu tempo, com tanta abundância e profundidade que os escritores posteriores têm uma só voz para louvar e exaltar esta obra magistral. Muitos o afirmaram: este trabalho de um jovem de 27 anos mal empalidece diante da esplêndida e gigantesca Suma teológica de São Tomás, que é a obra de toda uma vida. É verdade, encontram-se neste comentário algumas opiniões que não têm mais curso hoje; mas essas opiniões não são singulares. Eram comuns naquela época. Boaventura, como ele mesmo professa, In IV Sent., l. II, praeloc., seguiu geralmente seu mestre Alexandre de Hales.
Contudo, ele não o reproduz com servilidade; sua doutrina é mais completa, mais clara, mais exata; ele supera seu mestre tanto pelo estilo quanto pela sublimidade das ideias. Pretendeu-se, por vezes, que Boaventura tivesse copiado algumas questões das obras de Alexandre de Hales. É verdade que se pode acusá-lo de plágio? Certamente não. A Summa de virtutibus, que se atribuiu outrora a Alexandre, pôde dar ocasião ao erro. Se esta obra fosse autêntica, Boaventura teria copiado quase todo o tratado das virtudes teológicas no II livro das Sentenças. Mas a Summa de virtutibus não é de Alexandre, é de um autor posterior que utilizou obras de São Boaventura. Cf. t. I, col. 774.
Contudo, na obra autêntica de Alexandre, isto é, na Suma teológica, encontram-se passagens que têm uma conformidade perfeita com as obras de Boaventura. Por exemplo, a questão sobre o conhecimento de Deus é reproduzida, à parte algumas variantes, na Suma de Alexandre, part. II, q. xci, m. II, a. 4, e no comentário de Boaventura, In IV Sent., l. II, dist. XXII, a. 2, q. iii. Mesmo para estas questões, não hesitamos em afirmar que elas foram interpoladas na Suma de Alexandre. É um fato constatado que esta Suma foi completada por Guilherme de Méliton e outros frades menores. Cf. t. I, col. 775.
Acreditamos, entretanto, que no artigo ALEXANDRE DE HALES, loc. cit., o Sr. Vacant é inexato, quando afirma que as últimas edições desta Suma, as de 1575 e 1622, «reproduzem o trabalho de Alexandre tal como saiu de suas mãos». Admitindo que não se tenha reimpresso integralmente nessas edições o complemento redigido por Guilherme de Méliton, podemos sustentar que algumas partes foram ali reproduzidas. Existe, com efeito, uma interpolação certa na Suma de Alexandre, edit. de 1575, part. IV, q. xxx, xxxi. Estas questões sobre a pobreza são copiadas literalmente de um escrito autêntico de Boaventura, De perfectione evangelica, q. II, a. 4, 2. Nessas passagens, Boaventura refuta as acusações do tratado De periculis novissimorum temporum de Guilherme de Saint-Amour, publicado em 1255. Esta refutação não pode, certamente, ser atribuída a Alexandre, falecido em 1245. Cf. S. Bonaventure Opera, t. V, p. xi.
Este exemplo de uma interpolação demonstrada nos autoriza a admitir outras. Lendo a questão sobre o conhecimento de Deus, nota-se facilmente que o estilo e, sobretudo, a conclusão mais longa são de Boaventura e não de Alexandre, que regularmente expõe as conclusões em poucas palavras. Esperamos que a nova edição crítica da Suma de Alexandre que os Padres do colégio de São Boaventura em Quaracchi preparam traga luzes novas sobre a autenticidade de seus escritos. Muitos autores explicaram os comentários de São Boaventura sobre as Sentenças. Encontra-se a nomenclatura deles em S. Bonaventure Opera omnia, t. I, p. LXIV-LXVIII. Para as 28 edições desta obra, ver também loc. cit., p. LXXIII sq.
2° Quaestiones disputatae, t. V, p. 1-198. — Esta obra contém sete questões De scientia Christi, t. V, p. 1-43; oito De mysterio Trinitatis, p. 44-115; e quatro De perfectione evangelica, a saber, sobre a humildade, a pobreza, a continência e a obediência, p. 117-198. Estas questões tinham sido deixadas no esquecimento há três séculos. Somente a questão sobre a pobreza tinha sido impressa separadamente, e ainda assim suas edições eram muito imperfeitas. Foi o P. Fidele de Fanna que as arrancou desse abandono bastante difícil de explicar. Este escrito, com efeito, não carece de importância; merece ser colocado entre as obras principais de São Boaventura.
Aliás, sua autenticidade não é duvidosa; os critérios intrínsecos seriam suficientes, por si sós, para prová-la. A doutrina, o método, o estilo, tudo testemunha manifestamente que estas questões saíram das mãos do doutor seráfico, o que, aliás, é confirmado por provas extrínsecas. A autenticidade das questões De scientia Christi e De mysterio Trinitatis prova-se suficientemente por um manuscrito da biblioteca Vaticana, n. 612, que data do XIII século, e pelo testemunho de Pedro João Olivi, † 1298, contemporâneo de São Boaventura. Cf. S. Bonaventure Opera, t. V, p. IV sq.
Os testemunhos em favor da autenticidade das questões De perfectione evangelica não são menos evidentes. Com efeito, a autenticidade da questão sobre a pobreza foi reconhecida por todos os críticos, loc. cit., p. VI, e já que ela faz parte de uma obra cujas questões são todas conexas, deve-se atribuí-la inteiramente a Boaventura, loc. cit., 1. Esta questão sobre a pobreza é a refutação do livro de Guilherme de Saint-Amour, De periculis novissimorum temporum. Pela Replicatio adversus objectiones postea factas, adicionada a esta questão, t. V, p.
149, sabemos que Boaventura refutou esta obra em seus cursos, e que Guilherme de Saint-Amour fez várias objeções contra sua doutrina, recolhidas de uma maneira insuficiente pelos escolares. Foi então que Boaventura redigiu o texto desta questão, adicionando a refutação das objeções. Cf. t. V, p. VI sq. Essas objeções outrora desconhecidas foram impressas, t. V, p. VII-X. Para sua refutação, cf. t. V, p. X sq., p. 149 sq. É provável que esta obra de Boaventura tenha sido consultada em Anagni, onde Alexandre IV mandou examinar o livro de Guilherme de Saint-Amour em 1256.
Citando Deaville, duas destas Questiones disputate, em razão do caráter original que apresentam, merecem uma menção especial. A primeira é a De mysterio Trinitatis. Ela é tratada seguindo um método particular. Com efeito, Boaventura demonstra nos dois primeiros artigos, Deum esse, esse verum indubitabile, e Deum esse trinum, esse verum credibile. Depois, em sete questões, ele prova outros tantos atributos de Deus e demonstra que esses atributos se conciliam com a Trindade, quod possunt stare cum Trinitate. A segunda é aquela na qual ele trata da obediência devida ao soberano pontífice, De perfectione evangelica, q. IV, a. 3. Ela é notável por causa da solidez dos argumentos pelos quais Boaventura prova, melhor do que o fizeram os outros escolásticos, as prerrogativas e, sobretudo, a infalibilidade do papa.
3° Breviloquium, t. V, p. 199-291. — Esta obra, após uma introdução que trata da Escritura sagrada e da maneira de explicá-la, compreende sete partes: De Trinitate Dei; De creatura mundi; De corruptela peccati; De incarnatione Verbi; De gratia Spiritus Sancti; De medicina sacramentali; De statu finalis judicii; não é mais do que uma suma condensada de seu comentário sobre o livro das Sentenças.
4° Itinerarium mentis in Deum, t. V, p. 293-313. — Esta obra, que foi escrita para promover a devoção e a contemplação (prolog., n. 4) e que parte das criaturas para elevar-se até o criador, pode ser considerada como uma obra mística. Contudo, na nova edição, ela foi classificada com razão entre os escritos escolásticos, porque os sujeitos a considerar são tomados da ciência filosófica e teológica, t. V, p. 314. É indispensável para estudar a filosofia de São Boaventura. Assim, o Sr. Amédée de Margerie, após ter provado por extratos do Itinerarium mentis in Deum que Boaventura se coloca no primeiro escalão dos filósofos por sua profunda e completa demonstração da existência de Deus (cf. Essai sur la philosophie de saint Bonaventure, Paris, 1855, p. 86-415), chama esta obra de "uma das mais belas consagrações que a filosofia fez a Deus de todas as faculdades humanas". Op. cit., p. 118. Este escritor reconhece, todavia, que este livro "contém, ao lado da parte filosófica consagrada a demonstrar racionalmente a existência de Deus, uma parte teológica, que tem por objeto o mistério da santa Trindade, e que aos três modos de conhecimento pelos quais se exerce a razão natural, nosso autor acrescenta três outros que podem ser considerados como as mesmas faculdades iluminadas pela fé". Op. cit., p. 95, nota 2. Boaventura divide a obra em sete capítulos: De gradibus ascensionis in Deum et de speculatione ipsius PER vestigia ejus in universo; De speculatione Dei IN vestigiis suis in hoc sensibili mundo; De speculatione Dei PER suam imaginem naturalibus potentiis insignitam; De speculatione Dei in sua imagine donis gratuitis reformata; De speculatione divinae unitatis per ejus nomen primarium, quod est esse; De speculatione beatissimae Trinitatis in ejus nomine quod est bonum; De excessu mentali et mystico in quo requies datur intellectui, affectu in Deum per excessum totaliter transeunte.
5° De reductione artium ad theologiam, t. V, p. 319-325. — O título desta obra não é antigo e não se aplica bem ao assunto tratado. Nos manuscritos encontram-se os títulos: Sermo fratris Bonaventure; Sermo fratris Bonaventure de opere superiori; Sermo bonus et utilis; Sermo Bonaventure de septem artibus mechanicis; Tractatus de divisione scientiarum; Liber... de ortu scientiarum. Sbaralea, Supplementum, p. 146, col. 2, faz esta observação: Posset vel debet appellari de illuminationibus, agit enim de sex illuminationibus hujus vite. Cf. S. Bonaventure Opera, t. V, p. XXXII. Com efeito, Boaventura, neste opúsculo, divide as ciências segundo as seis luzes desta vida, a saber: de lumine sacrae Scripture; de lumine cognitionis sensitive; de lumine artis mechanice; de lumine philosophie rationalis; de lumine philosophie naturalis; de lumine philosophie moralis, que são seguidas de illuminatione glorie, t. V, p. 321 sq.
6° Collationes in Hexaemeron sive illuminationes Ecclesiae, t. V, p. 327-449. — O título não é de São Boaventura. Assim, ele é diferente nos manuscritos e nas edições: Illuminationes Bonaventure de operibus sex dierum; Luminaria Ecclesiae sive illuminationes sive de quinque visionibus; Illuminationes Ecclesiae in Hexaemeron. Sisto de Siena, Bibliotheca sancta, Nápoles, 1742, t. I, p. 346, diz que a chamam De luminaribus Ecclesiae, sive de illuminationibus, sive de quinque visionibus, quia in eo potissimum exponuntur quinque ille visiones Dei comprehense in ea sententia Moysi: Vidit Deus quod esset bonum, etc., quinquies (?) in principio Geneseos repetita. A intenção de São Boaventura não era, contudo, explicar o primeiro capítulo do Gênesis. Por alusão a este capítulo, ele se propunha a explicar septem gradatim ascendentes illuminationes, que ele chama visiones; mas antes que ele tivesse terminado a quinta visão, o trabalho foi interrompido pela elevação do autor ao cardinalato. A obra se compõe de 23 sermões ou, melhor dizendo, conferências científico-religiosas, nas quais Boaventura ensina aos seus ouvintes as verdades mais sublimes da teologia especulativa e mística, com vistas a preveni-los contra os erros dos mestres em artes de Paris. Estes, com efeito, sustentavam várias teses condenadas repetidas vezes pelo bispo e pela universidade de Paris. Cf. Denifle, Chartularium univ. Paris., t. I, p. 170 sq., 486, 543, 556. A autenticidade das Collationes in Hexaemeron, afirmada por vários testemunhos, cf. t. V, p. XXXVII, foi posta em dúvida por Casimir Oudin, Sbaralea e os editores venezianos. Seus argumentos são inúteis. Todavia, o estilo e a forma desta obra, como as dos dois seguintes, são menos cuidados.
Estas imperfeições explicam-se pelo fato de que estes escritos não foram publicados pelo próprio Boaventura, mas por seus ouvintes. Loc. cit., p. XXXVI.
7° Collationes de septem donis Spiritus Sancti, t. V, p. 455-503. — A obra é distinta de outra que leva o mesmo título, e que foi publicada nas edições precedentes. Esta última deve ser atribuída a um frade menor, chamado Rodolfo de Bibraco (Biberach), que escreveu em meados do século XIV. Cf. t. V, p. XL. A obra autêntica de Boaventura, impressa integralmente pela primeira vez, já tinha sido publicada por Bonelli, Supplementum, t. III, p. 418 sq. Cf. t. V, p. XL. Ela contém nove conferências e é anterior à seguinte. Cf. t. V, p. XXXVI.
8° Collationes de decem preceptis, t. V, p. 505-532. — O escrito autêntico de São Boaventura compreende sete conferências, mas Benoit Bonelli, Supplementum, t. VIII, p. 344 sq., publicou sob a forma de um tratado, dividido em doze capítulos, que não passa de um extrato da obra completa. Cf. t. V, p. XLII.
9° Sermones selecti de rebus theologicis, t. V, p. 532-579. — Estes sermões, em número de quatro, seguidos de um tratado De plantatione paradisi, foram classificados entre as obras teológicas na nova edição, porque contêm uma abundante doutrina teológica, tanto quanto as Collationes, indicadas mais acima, ou porque estão em conexão com os escritos teológicos do autor. Cf. t. V, p. XLV.
II. ESCRITOS EXEGÉTICOS. — 1° Commentarius in librum Ecclesiastes, t. VI, p. 1-103.
2° Commentarius in librum Sapientiae, t. VI, p. 105-235. Sobre a autenticidade deste livro, que provavelmente não nos chegou em sua integridade, cf. t. VI, p. XVIII-XXI.
3° Commentarius in Evangelium Joannis, t. VI, p. 237-532. Este comentário foi atribuído bastante frequentemente a Nicolau Gorran, que era superior do convento dos pregadores em Paris antes de 1280. Este, contudo, não é o seu autor; ele apenas interpolou a obra de São Boaventura e deu, assim, ocasião à acusação feita contra este último de insistir demasiado no sentido místico. Cf. t. VI, p. XXVI.
4° Collationes in Evangelium Joannis, t. VI, p. 533-634. — Estas conferências devem ser distinguidas daquelas que foram impressas na edição Vaticana, cujo autor é João Gualensis, dos frades menores. A obra autêntica foi reencontrada pelo P. Fidele de Fanna, cf. t. VI, p. XXV: ela contém 79 conferências ou schemata sermonum sobre os textos escolhidos do quarto Evangelho. São Boaventura provavelmente a compôs para seu próprio uso. Embora não seja, a rigor, um escrito exegético, foi classificado nesta classe de obras em razão de sua conexão com o comentário sobre o Evangelho de São João.
5° Commentarius in Evangelium S. Lucae, t. VII, p. 1-604. — Este comentário difere dos três primeiros, que foram expostos perante estudantes e que contêm numerosas questões teológicas e exegéticas. Este, ao contrário, composto principalmente para a utilidade dos pregadores, trata menos das questões exegéticas, e jamais sob a forma escolástica. Segundo o testemunho de Salimbene, Chronica, Parma, 1857, p. 129, São Boaventura começou a explicação de São Lucas em 1248. Contudo, a superioridade da obra e o método segundo o qual ela é composta nos autorizam a supor que, naquela época, o autor não a compôs na forma atual e que a concluiu após seus outros escritos.
A observação feita a respeito deste último comentário, a saber, que foi redigido para a utilidade dos pregadores, aplica-se também, de alguma maneira, aos outros comentários de São Boaventura. Em todos, ele se propôs preparar seus ouvintes para a pregação. De resto, como todos os comentadores de sua época, ele quase não aborda questões novas. Ele reproduz as exposições dos Padres. As fontes utilizadas por ele são principalmente, com as glosas, as obras de Santo Ambrósio, de São João Crisóstomo, de São Jerônimo, de Santo Agostinho, de São Gregório, de Beda, de Hugo de São Vítor e de São Bernardo. Em seu comentário sobre São João, ele cita frequentemente um Vítor, que é provavelmente Vítor, bispo de Cápua. Cf. t. VI, p. 246, nota 7; p. 275, nota 11.
A exemplo dos outros escolásticos, ele multiplicou as divisões e subdivisões nos Livros santos. Por isso, na nova edição, juntou-se a cada livro uma tabela destinada a ajudar a memória e a facilitar a inteligência dos comentários. Vários autores reprovaram São Boaventura por deter-se demasiado longamente na pesquisa e na exposição dos sentidos místicos da Escritura. Se a reprovação é fundada, o santo doutor esqueceu, portanto, o princípio que havia enunciado no Breviloquium, prolog., § 6, quando diz: Qui litteram S. Scripture spernit ad spirituales ejus intelligentias nunquam assurget... Attendat autem expositor quod non ubique requirenda est allegoria, nec omnia sunt mystice exponenda, etc. Portanto, a reprovação não é merecida. Quem quer que leia os comentários autênticos do santo reconhecerá que Boaventura explica sobretudo a letra. A exposição mística ocupa apenas um lugar secundário em suas obras.
III. ESCRITOS ASCÉTICOS OU MÍSTICOS. — 1° De triplici via, t. VIII, p. 3-18. — Este livro, que se pode chamar uma verdadeira suma mística, foi intitulado: Parvum bonum; Itinerarium mentis in seipsum; Fons vitae; Regimen conscientiae; Incentivum amoris; Mystica theologia; Stimulus conscientiae; Stimulus amoris; Trinarius ou Ternarius de vita contemplativa. O título de Incendium amoris, dado pelas edições precedentes, foi introduzido por um prólogo apócrifo. Cf. t. VIII, p. IX. Uma vez que São Boaventura ensina nele como, pela tríplice via da meditação, da oração e da contemplação, a alma pode chegar à verdadeira sabedoria ou à união com Deus pelo amor, o título a preferir é o de De triplici via. O número de manuscritos conservados (299), cf. t. VIII, p. X-XXV, o das edições e as versões em várias línguas mostram suficientemente a estima singular na qual se teve este escrito. As edições precedentes continham interpolações impressas separadamente na nova edição, t. VIII, p. 18.
2° Soliloquium, chamado também Imago vitae, Libellus de quatuor exercitiis, ou Meditationes, t. VIII, p. 28-67. — São Boaventura imitou o Soliloquium de Hugo de São Vítor. A alma interroga e o homem interior responde citando os textos dos santos Padres. Os assuntos tratados são os efeitos do pecado, a instabilidade dos bens deste mundo, a necessidade inevitável da morte, a severidade do juízo, os tormentos do inferno e a felicidade das alegrias celestiais.
3° Lignum vitae, t. VIII, p. 68-86.
— Este escrito que, nos manuscritos, porta ainda os títulos: Arbor crucis; Tractatus de arbore crucis; Arbor vitae; Fasciculus myrrhae; Contemplatio de passione Domini, etc., contém 48 meditações sobre a vida e a morte de Jesus. Ele teve vários comentadores que o retrabalharam. Cf. t. VIII, p. XXXIX sq.
4° De quinque festivitatibus pueri Jesu, t. VIII, p. 88-95. — Por causa das interpolações que nele fizeram, este opúsculo foi julgado apócrifo por Oudin, Scharale e outros. Cf. t. VIII, p. XLIX. São Boaventura ensina nele como a alma pode conceber, dar à luz, chamar pelo nome de Jesus, procurar e adorar com os magos, e oferecer espiritualmente o Filho de Deus.
5° Tractatus de preparatione ad missam, t. VIII, p. 99-106.
6° De perfectione vitae ad sorores, ibid., p. 107-127.
7° De regimine animae, ibid., p. 128-130.
8° De sex alis seraphim, ibid., p. 131-151. Este último livro é destinado ao uso dos superiores, cujas virtudes principais: o zelo pela justiça, a piedade, a paciência, uma vida exemplar, uma discrição avisada e a devoção para com Deus, são representadas pelas asas dos serafins.
9° Officium de passione Domini, t. VIII, p. 152-158, intitulado também Officium de cruce ou Cursus de passione Domini.
10° Vitis mystica, t. VIII, p. 159-189, impresso várias vezes entre as obras de São Boaventura. Contém interpolações bastante longas publicadas separadamente, ibid., p. 189-229. São Boaventura aplica a Jesus as propriedades, o cultivo e os frutos da videira material.
IV. OBRAS QUE DIZEM RESPEITO À ORDEM DOS FRADES MENORES.
1° Apologia pauperum, t. VIII, p. 233-330. — A ocasião de escrever esta obra foi fornecida por um professor da universidade, provavelmente Gerardo de Abbeville, que sustentava os erros de Guilherme de Saint-Amour, já condenados pelo Papa. Cf. t. VIII, p. LVI.
2° Epistola de tribus questionibus ad innominatum magistrum, t. VIII, p. 331-336.
3° Determinationes questionum circa regulam fratrum minorum, t. VIII, p. 337-374. A segunda parte desta obra foi impressa separadamente nas outras edições sob o título de Liber apologeticus in eos qui ordini fratrum minorum adversantur. Contém talvez interpolações. Cf. t. VIII, p. LXX, 856.
4° Quare fratres minores praedicent et confessiones audiant, t. VIII, p. 375-381.
5° Epistola de sandaliis apostolorum, ibid., p. 386-390. É provavelmente um extrato da Apologia pauperum e da Expositio super regulam fratrum minorum. Cf. t. VIII, p. LXXI.
6° Expositio super regulam fratrum minorum, t. VIII, p. 391-437.
7° Sermo super regulam fratrum minorum, ibid., p. 438-448.
8° Constitutiones generales Narbonenses, ibid., p. 449-467. Encontra-se no fim, p. 467, um additamentum, que reproduz provavelmente as constituições do capítulo geral de Lyon.
9° Epistolae officiales, ibid., p. 468-474.
10° Regula novitiorum, ibid., p. 475-490.
11° Epistola continens viginti quinque memorialia, ibid., p. 491-498. Este livro contém provavelmente as resoluções que Boaventura tomou para seu próprio uso.
12° Epistola de imitatione Christi, ibid., p. 499-503.
14° Legenda S. Francisci, ibid., p. 504-564.
15° Legenda minor S. Francisci, ibid., p. 565-579.
V. SERMÕES.
1° Sermones de tempore, t. IX, p. 533-638.
2° Sermones de sanctis, ibid., p. 463-631.
3° Sermones de beata Maria Virgine, ibid., p. 633-721.
4° Sermones de diversis, ibid., p. 722-731. O número de sermões publicados no t. IX é de 475. A maioria era inédita. Alguns, contudo, tinham sido publicados separadamente por Uccelli, S. Thomae, S. Bonaventurae, Petri de Tarantasia et Hugonis a S. Victore sermones anecdoti, Módena, 1869, e 53 tinham sido impressos na edição Vaticana. Estes últimos ocupam o primeiro lugar a cada domingo entre os Sermones de tempore, e foram escritos pelo próprio São Boaventura. Os outros, pelo contrário, foram recolhidos por seus ouvintes. São menos perfeitos e contêm numerosas lacunas. Vários são apenas schemata. Em quatorze edições dos sermões de São Boaventura, vários tinham sido atribuídos a ele erroneamente. Cf. t. IX, p. XI-XV. Não obstante, o número de sermões autênticos é considerável. Com efeito, as Collationes in Hexaemeron, as Collationes de septem donis Spiritus Sancti, as Collationes de decem praeceptis, os Sermones de rebus theologicis e as Collationes in Evangelium Joannis, que, por razões especiais, classificamos entre as obras teológicas ou exegéticas, são frutos de seu talento oratório. Assim, São Boaventura foi visto por seus contemporâneos como um pregador de primeira ordem e mereceu seus elogios mais lisonjeiros. Cf. t. IX, p. 3. Não se vê o que se deve admirar mais: se o seu talento e as suas qualidades eminentes de orador, ou as múltiplas obras da sua eloquência e o zelo infatigável pela salvação das almas, de que deu prova apesar das suas ocupações como professor da universidade e, mais tarde, como ministro geral.
VI. ESCRITOS APÓCRIFOS OU DUVIDOSOS.
1° Escritos exegéticos.
1. Expositio Threnorum, t. VII, p. 610-652. O autor é provavelmente João Peckham, discípulo de São Boaventura. Cf. t. VII, p. XI sq.
2. Expositio orationis dominicae, t. VII, p. 652-655. A obra, que é tomada em grande parte de um livro do Papa Inocêncio III, De sacro altaris mysterio, c. XVI-XXX, e da Glossa ordinaria, Matth., VI, 8, mais provavelmente não é de São Boaventura. Cf. t. VII, p. XV sq.
2° Escritos místicos.
1. Speculum disciplinae, t. VIII, p. 583-622. Esta obra foi atribuída a vários autores. Foi provavelmente composta por Bernardo de Bessa por ordem de São Boaventura. Cf. t. VIII, p. XCV sq.; t. X, p. 19.
2. Speculum conscientiae, t. VII, p. 623-645. Este escrito, intitulado também: De arbore mala; De arbore vitiorum; Arbor cupiditatis ou iniquitatis; Speculum animae, não seria indigno de Boaventura. Contudo, faltam argumentos, sejam intrínsecos ou extrínsecos, em favor de sua autenticidade. Cf. t. VIII, p. XCVIII sq.
3. Summa de gradibus virtutum, t. VIII, p. 646-654. Oudin e os editores de Veneza consideram esta obra ridícula. Fundamentam-se em partes interpoladas. Contudo, mesmo sob a forma original, a autenticidade é muito duvidosa. Cf. t. VII, p. XCIX sq.
4. Collatio de contemptu seculi, t. VII, p. 655-657. É antes um fragmento de um autor desconhecido. Cf. t. VIII, p. CI; t. X, p. 19 sq.
5. Compendium de virtute humilitatis, t. VIII, p. 658-662. É provavelmente composto de extratos dos escritos de São Boaventura. Cf. t. VIII, p. CII.
6. Epistola ad quemdam novitium, t. VII, p. 663-666.
É provavelmente de Bernardo de Bessa. Cf. t. VII, p. CIII.
7. Rhythmica, t. VIII, p. 667-678. Sob este título encontram-se na nova edição cinco hinos (carmina), cuja autenticidade é difícil de estabelecer. Cf. t. VII, p. CIII sq. Estes hinos são: Laudismus de S. Cruce; Philomena; De septem verbis Domini in cruce; Planctus de passione Domini; Corona B. M. Virginis.
8. Ars praedicandi, t. IX, p. 1-21. A obra, cujas lacunas foram assinaladas na última edição, é atribuída a São Boaventura por Bonelli e Sbaralea. Contudo, os argumentos em favor da autenticidade não são convincentes. Cf. t. IX, p. 7.
III. DOUTRINA. — A doutrina de São Boaventura mereceu os maiores elogios não apenas dos sábios, mas também dos soberanos pontífices. O célebre Gerson não hesita em dar-lhe preferência sobre os outros. "Se me perguntam", diz ele, "a que doutor convém dar preferência, respondo: ao mestre Boaventura." » A razão que ele alega é «que em seu ensinamento ele é sólido, firme, piedoso, justo e devoto, e que evita toda curiosidade..., que se esforça por fazer servir a iluminação da inteligência à piedade e à devoção do coração», Gerson, De examinatione doctrinarum, em Opera omnia, Paris, 1606, t. I, p. 553.
O mesmo autor lamenta que a doutrina de Boaventura tenha sido abandonada «pelos escolásticos sem piedade, cujo número, infelizmente! é demasiado grande, embora para os teólogos nenhuma doutrina seja mais sublime, mais divina, mais salutar e mais suave». Loc. cit.
Pelo testemunho de Sisto IV, Boaventura escreveu coisas divinas, de tal modo que o Espírito Santo parece ter falado por sua boca. Ea namque de divinis rebus scripsit, ut in eo Spiritus Sanctus loquutus videatur. Bula Superna coelestis patria, § 3.
O julgamento de Sisto V é mais explícito: «Ele deixou à posteridade, diz este papa, monumentos do seu espírito verdadeiramente divino, e questões muito difíceis e envoltas em muita obscuridade são expostas com uma grande abundância de argumentos excelentes, com ordem e método, com clareza e lucidez; monumentos onde a verdade da fé católica brilha com fulgor, onde as perniciosas heresias e os profanos erros são derrotados, e os espíritos dos fiéis piedosos são maravilhosamente inflamados tanto pelo amor de Deus quanto pelo desejo da pátria celeste. Com efeito, o que há de notável e particular em São Boaventura é que não somente ele brilhava pela sutileza da discussão, a facilidade no ensino, a sagacidade nas definições, mas que ele sobressaía em tocar as almas com uma virtude toda divina. Em seus escritos ele junta a um imenso saber o ardor de uma piedade não menos grande e, assim, ao instruir o seu leitor, ele o comove, penetra nas dobras mais profundas da sua alma, transpassa o seu coração com aguilhões seráficos e o preenche de uma doçura maravilhosa de devoção.» Bula Triumphantis Ierusalem, § 3.
Após estes testemunhos, cremos ser supérfluo relatar os outros que são citados por Bonelli, Prodromus, Bassano, 1767, p. 83-111, e na nova edição das obras de São Boaventura, t. X, p. 34-37.
I. CARACTERES DE SUA DOUTRINA. — 1º O caráter fundamental da doutrina bonaventuriana é que ela é tradicional. «Minha intenção não é, diz ele, contradizer as opiniões novas, mas reproduzir as mais comuns e as mais autorizadas.» Non enim intendo novas opiniones adversare, sed communes et approbatas retexere. In IV Sent., l. II, preloc. Nem este respeito pela tradição e opinião comum, que ele expressa aliás em várias passagens, nem a autoridade especial que ele reconhece a Alexandre de Hales, impedem São Boaventura de seguir geralmente as teses de Santo Agostinho.
Com efeito, até a sua época, a autoridade do doutor de Hipona fora considerada suprema tanto para as questões filosóficas quanto para as questões teológicas. Uma nova tendência, porém, vinha a se manifestar. A influência da filosofia aristotélica fazia-se sentir cada vez mais. Já Alexandre de Hales havia adotado uma atitude diferente da de seus predecessores face às obras do Estagirita, invocando seus escritos com bastante frequência, ver ALEXANDRE DE HALES, t. I, col. 779; mas, enquanto Alexandre quase nunca os invoca senão de passagem e para confirmar doutrinas estabelecidas por outros meios, enquanto ele não os aplica às questões teológicas, Alberto Magno e Tomás de Aquino iam mais longe. É sobretudo nos escritos de São Tomás que se vê a aplicação da filosofia peripatética. As teorias novas não deixavam de provocar discussões. Cf. De Wulf, Histoire de philosophie médiévale, Louvain, 1900, p. 301 sq. Entre os adversários encontram-se João Peckham e vários discípulos de São Boaventura.
Quanto ao próprio Boaventura, chamado ao generalato da sua ordem em 1257, isto é, antes da época destas controvérsias, ele defendeu sempre as teses agostinianas das razões seminais, da pluralidade das formas substanciais e outras, sem que nenhum testemunho nos autorize a crer que ele tenha estado em oposição direta com São Tomás. Contudo, parece que ele se mostrava menos favorável à nova tendência. Com efeito, após haver chamado Aristóteles excellentiorem inter philosophos, In IV Sent., l. II, dist. 1, p. 1, a. 1, q. 11, ele lhe reprova vários erros em sua última obra, a saber, nas Collationes in Hexaemeron, coll. VI, VII.
Notemos que São Boaventura não dava a preferência às teses agostinianas pelo único motivo de que elas eram acreditadas nas escolas. Ele considerava Agostinho como o doutor mais excelente. «Entre os filósofos, diz ele, Platão recebeu a linguagem da sabedoria, Aristóteles a da ciência. O primeiro considerava principalmente as razões superiores, o segundo as inferiores. Mas a linguagem da sabedoria, assim como a da ciência, foram dadas pelo Espírito Santo a Santo Agostinho como ao principal comentador de toda a Escritura.» Sermo de Christo uno omnium magistro, Opera omnia, t. V, p. 572.
Boaventura sentia-se mais inclinado para a síntese de Agostinho do que para a análise de Aristóteles, pelo caráter próprio do seu espírito e uma espécie de parentesco intelectual com o doutor de Hipona. Reconhecem-se, de fato, em São Boaventura, os principais traços característicos de Agostinho. «Ele tem a prodigiosa facilidade, os soberbos voos, a poesia transbordante, a sublime e comunicativa eloquência. Como ele, ele gosta de habitar os altos cumes, como ele ele tenta olhar o sol divino de frente.» Évangéliste de Saint-Béat, Le séraphin de l’école, Paris, 1900, p. 39.
Embora Boaventura mostrasse o maior respeito pela autoridade dos teólogos anteriores, sobretudo pela de Alexandre de Hales, de Pedro Lombardo e de Agostinho, ele não seguia servilmente nenhum deles. Ele não queria prejudicar a verdade por amor a um homem. Ne amore hominis veritati fiat prejudicium. Opera omnia, t. II, p. 1016. É por esta razão que ele reprovou inicialmente oito teses do Mestre das Sentenças, loc. cit., p. 2, 1016, e, mais tarde, o número das teses rejeitadas elevou-se até quinze. Cf. Denifle, Chartular., Paris, 1889, t. I, p. 221, nota. Também ele adverte seus leitores para não admitirem como certa a tradição, se ela é duvidosa: non ita falsum dicit qui certum proponit ut dubium, sicut qui dubium asserit ut certum. In IV Sent., l. II, dist. XXX, q. I, ad 14m.
Boaventura, na realidade, sabia julgar por si mesmo. Ele examina as autoridades, ele pesa as razões de um sentimento e não o abraça se ele não estiver apoiado sobre um fundamento sólido. Também é por isso que a humildade, por si só, pôde autorizá-lo a chamar-se um simples e pobre compilador: fateor quod sum pauper et tenuis compilator. In IV Sent., l. II, preloc., n. 2. O motivo pelo qual ele se apegava à opinião comum era o de evitar o erro com maior segurança. Communi sententie pro viribus meis in omnibus precedentibus libris adhesi, tanquam vie securiori, et sicut scio et possum, mihi et aliis consimilibus, parum intelligentibus, persuadeo adherendum. In IV Sent., l. III, ao final, Opera, t. III, p. 896.
Ele procurava ensinar uma doutrina sólida, evitando toda questão inútil ou curiosa. Assim, ele não se pronuncia em questões duvidosas. "Nas questões duvidosas e difíceis", diz ele, "onde eu não podia descobrir qual era a via comum porque havia desacordo entre os sábios, sustentei uma como mais provável sem por isso reprovar a outra. Nas questões duvidosas, basta saber o que pensaram os mestres e não há qualquer utilidade em favorecer as disputas." Loc. cit.
Além disso, Boaventura não tinha espírito de contradição. Nos seus livros não se encontra qualquer traço de arrogância ou de pretensão. Ele procede sempre com calma, modéstia e moderação. A sua doutrina tem um caráter extremamente pacífico e conciliador. Com uma sabedoria e uma arte admiráveis, ele consegue frequentemente conciliar as teorias dos mestres, mesmo aquelas que, à primeira vista ou consideradas superficialmente, parecem absolutamente contrárias. Se não pode conciliar perfeitamente duas opiniões, mantendo um justo meio-termo, ele busca a parte de verdade que pode estar contida em uma e em outra e confere um sentido justo às expressões inexatas. Ele não pode crer, com efeito, que os grandes buscadores da verdade tenham emitido sem razões as suas mais célebres teorias. A seu ver, o que se apresenta com uma aparência de falsidade é frequentemente reconhecido como verdadeiro quando se remonta à intenção daquele que falou. Cf. Opera omnia, t. I, p. LXII. São Boaventura tinha, portanto, sempre o maior respeito pelos sentimentos alheios. Não se pode deixar de louvar essa condescendência de um gênio tão ilustre.
Assim, essas qualidades de modéstia, de moderação, de doçura e esse espírito de paz e de concórdia na busca da verdade fazem-nos conceber facilmente que o objetivo supremo das suas investigações não era outro senão Deus. Para ele, o fim de toda ciência é a união da alma com Deus, uma união que se efetua pelo amor, termo único de toda a Escritura sagrada. Cf. De reductione artium ad theologiam, n. 26. Ele considera a teologia como uma ciência principalmente afetiva, que tem por termo tornar-nos melhores e conduzir-nos ao amor. Cf. In IV Sent., l. I, proem., q. III, in corp. et ad 3um. É por isso que compreendemos facilmente que, de todas as faculdades da alma, ele desenvolve sobretudo o papel da vontade, a qual ele considera como a potência mais nobre, Voluntas est nobilissimum et supremum substantie rationalis, In IV Sent., l. III, dist. XVII, p. I, q. V, ad 3um, e que ele se apega de preferência às opiniões que favorecem mais a piedade, ou que lhe parecem dar uma mais alta ideia de Deus e das suas perfeições e que desvelam a vaidade e o nada das criaturas.
É assim, por exemplo, que ele ensina que a beatitude formal consiste não apenas no ato da inteligência, mas sobretudo no ato da vontade. Quando ele admite que o motivo principal da encarnação é a redenção do gênero humano, é com o intuito de favorecer a piedade. Cf. In IV Sent., l. III, dist. III, p. I, a. I, q. I. A seus olhos, Deus somente é imaterial, e ele não quer conceder esse privilégio aos anjos. Cf. In IV Sent., l. II, dist. III, p. I, a. 4, q. I; Coll. in Hexaem., collat. IV. Ele não admite a possibilidade de um mundo eterno para não conceder a uma criatura uma perfeição que não convém senão ao Criador, cf. In IV Sent., l. II, dist. I, p. I, a. I, q. I, ad 5um, e não se atreve a pronunciar-se a favor da Imaculada Conceição, embora fosse levado a isso por sua terna devoção para com a santa Virgem, por receio mal fundamentado de diminuir as excelências do Filho ao exagerar as da Mãe. In IV Sent., l. III, dist. III, p. I, a. I, q. I.
Os caracteres especiais de São Boaventura e da sua doutrina, embora não tornem os seus escritos infalíveis, bastam contudo, em geral, para assegurar-lhes uma grande solidez e segurança. Por outro lado, eles manifestam a sua santidade e as suas virtudes; eles demonstram que o santo doutor estava penetrado do espírito verdadeiramente franciscano e que em tudo não teve outro guia senão o seu pai seráfico. Sem indicar em detalhe tudo o que ele retém de São Francisco, digamos, contudo, que ele deve aos seus conselhos e ao seu exemplo a concisão do estilo, a humilde submissão à autoridade, a veneração dos teólogos, o respeito pelas opiniões alheias e o seu temperamento pacífico. Cf. Evangéliste de Saint-Béat, Le séraphin de l’école, p. 95-106.
Todavia, ele imitou São Francisco sobretudo pela contemplação da beleza suprema e pelo seu amor a Deus. Como ele, ele perseguia o seu bem-amado por toda parte onde encontrava impressa uma marca da sua presença, e cada criatura servia-lhe como um grau novo para chegar à posse do bem infinito e soberanamente desejável. Ninguém melhor do que ele expressou a exclamação ordinária de Francisco de Assis: Deus meus et omnia! "Meu Deus e meu tudo!" Ninguém a repetiu com mais amor. Ninguém também mereceu mais do que ele o sobrenome de seráfico.
II. OBJETO.
— O objeto da doutrina de São Boaventura abrange a escolástica em toda a sua extensão. Ele não compreende apenas a teologia especulativa, a mística e a exegese, compreende também a filosofia. Os principais pontos de doutrina que ele ensinou sobre as diversas questões destas ciências serão indicados. Acreditamos ser inútil falar da sua teologia especulativa e da sua exegese, após o que dissemos das suas obras e dos caracteres gerais da sua doutrina. Limitar-nos-emos, portanto, a algumas considerações sobre a sua filosofia e a sua mística.
1° Filosofia. — O nome de Boaventura, um dos mais ilustres dentre os filósofos cristãos da Idade Média, caiu no esquecimento durante os séculos seguintes. Considerou-se o santo doutor mais como um místico que desdenhava a ciência. Com efeito, ao tomar ao pé da letra algumas das suas expressões, tais como esta: Descendere ad philosophiam est maximum periculum, Collat., XIX, in Hexaem., n. 12, poder-se-ia crer que ele é o adversário da filosofia. Contudo, seria um erro pensá-lo. São Boaventura censurava, é verdade, o uso imoderado que alguns doutores do seu tempo faziam da filosofia; ele não permitia exagerar o papel desta ciência.
Para ele, a filosofia por si mesma basta para conduzir ao conhecimento de algumas verdades, *quedam sunt que non prius creduntur quam intelligantur, sicut sunt antecedentia ad fidem, et ea que sunt de dictamine juris naturalis sicut Deum esse, etc.*, In II Sent., l. III, dist. XXV, dub. III, mas ela não pode conhecer todas as verdades sem uma iluminação mais alta. Assim, ela não pode, por suas próprias luzes, conhecer perfeitamente o Criador. *Cernere ipsum divinum esse et ipsam Dei unitatem et qualiter illa unitas non excludat personarum pluralitatem, non potest, nisi per justitiam fidei mundetur.* In IV Sent., l. III, dist. XXVI, a. 2, q. III.
A filosofia deve ser subordinada à teologia, *theologia substernens sibi philosophicam cognitionem*. Breviloquium, prolog., § 3. A filosofia independente conduz necessariamente ao erro. *Necesse est philosophantem in aliquem errorem labi, nisi adjuvetur per radium fidei*. In IV Sent., l. I, dist. XVIII, a. 2, q. I, ad 6m. Mas, postas de lado estas restrições, São Boaventura fala em termos elogiosos desta ciência. Cf. Itinerarium mentis in Deum, c. III. Ele a defende mesmo contra os seus adversários, porque ela é um precioso auxiliare da fé. Basta, para disso se convencer, ler a Epistola de tribus questionibus, n. 12, Opera omnia, t. VIII, p. 335, onde ele diz, por exemplo: *Si verba philosophorum aliquando plus valent ad confutationem errorum, non deviat a puritate aliquando in his studere*.
Também nos seus escritos Boaventura mostra-se versado em todas as questões filosóficas. Ele não escreveu, é verdade, nenhuma obra diretamente filosófica, mas, nas suas obras teológicas, ele confere uma parte muito vasta ao estudo dos problemas da filosofia. As tabelas das sentenças filosóficas acrescentadas, na nova edição, àquela dos quatro livros das Sentenças, Indices in libros Sent., p. 405-502, são prova evidente disso. Os livros que melhor fazem conhecer a filosofia de São Boaventura são o Itinerarium mentis in Deum e o comentário sobre as Sentenças que «contém uma das mais excelentes teodiceias que produziu até aqui a aliança da fé e da razão», A. de Margerie, Essai sur la philosophie de saint Bonaventure, Paris, 1855, p. 118, e que mesmo «pode fornecer por si só um curso de filosofia dos mais consideráveis». Évangéliste de Saint-Béat, Le séraphin de l’école, Paris, 1900, p. 57.
Em conformidade com os seus princípios, São Boaventura, nas questões filosóficas, atém-se de preferência às opiniões geralmente admitidas. O seu sistema filosófico, como aquele que no seu tempo era acreditado nas escolas, pode ser chamado com razão de um peripatetismo matizado de agostinismo. É em vão que se quis fazer de São Boaventura um discípulo de Platão. Não podemos, é verdade, negar todo ponto de contato entre ele e este filósofo. «Como Platão, ele distingue-se pela elevação, a variedade, a engenhosidade das vistas, o entusiasmo e o livre voo da alma», Évangéliste de Saint-Béat, Le séraphin de l’école, p. 35; mas quando se trata da doutrina, observa-se que a oposição é flagrante.
Sem dúvida, Boaventura dá o título de sábio a Platão mais do que a Aristóteles, a quem ele censura por ter se detido demais na ordem sensível, cf. Sermo de Christo uno omnium magistro, em Opera omnia, t. V, p. 572, mas ele não deixa de censurar o primeiro por ter caído no excesso contrário. «Platão, diz ele, remeteu toda a certeza ao mundo inteligível ou ideal, e é por isso que ele foi justamente repreendido por Aristóteles.» *Unde quia Plato totam cognitionem certitudinalem convertit ad mundum intelligibilem sive idealem, ideo merito reprehensus fuit ab Aristotele*. Loc. cit.
No que diz respeito aos universais, enquanto Platão ensina que eles existem fora de toda matéria, São Boaventura sustenta que eles não podem ser conhecidos por nós senão pela via dos sentidos. *Indubitanter verum est, quod dicit philosophus, cognitionem generari in nobis via sensus, memoriæ et experientiae, ex quibus colligitur universale in nobis*. Loc. cit. Também São Boaventura reprova a teoria da reminiscência das ideias, *quam reprobat tam philosophus quam Augustinus*. In IV Sent., l. II, dist. XXXIX, q. II, concl.
Estes poucos pontos bastam para demonstrar a oposição essencial dos sistemas. Assim, os modernos renunciam a fazer do Doutor Seráfico um discípulo de Platão. É por isso que M. de Wulf não hesita em afirmar que, «apesar de simpatias agostinianas não dissimuladas, São Boaventura, ele também, é peripatético no sentido escolástico da palavra». Histoire de la philosophie médiévale, p. 291. Sem dúvida, não se pode colocá-lo entre os peripatéticos sem restrição. Embora Aristóteles seja o filósofo de quem ele faz o uso mais frequente nos seus escritos, assim como transparece das tabelas dos autores citados, Opera omnia, t. X, p. 266, embora ele lhe tenha tomado emprestado o método lógico, as classificações, que põem ordem nas ideias, e as fórmulas, que exprimem com profundidade e concisão os princípios cuja aplicação é frequente, no fundo, contudo, ele se afasta às vezes dele, e prefere as doutrinas de Platão, que não lhe são menos familiares. Cf.
de Margerie, *Essai sur la philosophie de S. Bonaventure*, p. 40 sq. Ele empresta de todos os sistemas, ele os completa um pelo outro, e, longe de se deixar dominar por eles, ele os torna todos tributários da filosofia cristã. Acima de toda a filosofia humana, ele reconhece a autoridade infalível da revelação. «Somente a ciência das Escrituras pode oferecer uma satisfação real.» *In hac sola scientia est delectatio non in aliis*. *Coll.*, XVIII, *in Hexaemeron*, *Opera omnia*, t. V, p. 410.
O sistema filosófico de São Boaventura foi em alguns pontos falsamente interpretado. Frequentemente invocaram-no em favor do ontologismo e das ideias inatas, baseando-se nos textos do *Itinerarium mentis in Deum*. Estas objeções, contudo, foram suficientemente refutadas. Uma questão inédita: *Utrum quidquid certitudinaliter cognoscitur cognoscatur in rationibus æternis*, *Opera omnia*, t. V, p. 17 sq., contribuiu muito para demonstrar o erro. Cf. a este respeito, *De humanæ cognitionis ratione anecdota quædam S. Bonaventuræ et nonnullorum ipsius discipulorum*, Quaracchi, 1883, p. 1-47, e *S. Bonaventuræ, Opera omnia*, t. V, p. 313-316.
Misticismo. — O estudo da vida espiritual é a parte na qual São Boaventura, na opinião de todos, mais se destacou. «Depois de ter tocado o cume da especulação, diz Leão XIII, ele escreveu sobre a teologia mística com tal perfeição que os mais capazes julgaram-no o príncipe dos místicos.» « [...] Js postquanr maxime arduas speculationis summitates conscendit, de mystica theologia tanta perfectione disseruit, ut nea comnuni hominum peritissimorum suffragiis habeatur facile princeps. » Allocução pronunciada perante os professores do colégio de Santo Antônio, em 20 de novembro de 1890, em *Acta ordinis fratrum minorwm*, 1890, p. 177.
Ao mesmo tempo em que reconhecem seu caráter de místico, diversos escritores buscaram diminuir ou mesmo desconheceram seu valor como escolástico. Consideraram-no como alguém que se ocupou exclusivamente do misticismo, desdenhando a ciência; ou, no mínimo, pensaram que seu misticismo prejudicou sua doutrina especulativa. O que se deve pensar dessas acusações? Após o que dissemos sobre seus escritos e sua doutrina, é claro que é um grave erro considerá-lo exclusivamente como um místico. Uma prova evidente é que, na nova edição, cinco volumes inteiros foram necessários para conter suas obras teológicas, enquanto suas obras místicas ocupam apenas a metade do oitavo volume. A distinção de suas obras em teológicas, ascéticas e concernentes à ordem dos menores, não é, é verdade, absolutamente exclusiva. Poder-se-ia classificar entre as obras puramente ascéticas a *Epistola continens memorialia* e a *Epistola de invitatione Christi*; poder-se-ia também dizer do *Itinerarium mentis in Deum* que ele trata *ex professo* de ascetismo; todavia, essas constatações não retiram a força do argumento precedente.
Entretanto, embora São Boaventura tenha se ocupado ordinariamente de filosofia e de teologia, podemos conceder, e o fazemos muito voluntariamente, que sob um duplo ponto de vista, o místico prevalece nele sobre o escolástico, seja quando se vislumbram as condições que ele requer naqueles que se dedicam ao estudo das ciências, cf. *Collationes in Hexaemeron*; *Collationes de seplenr donis Spiritus Sancti*, seja quando se considera o objetivo que ele se propõe ao escrever. Mas pode-se fazer-lhe uma censura por essa predominância do misticismo em suas obras? Nós a negamos absolutamente; afirmamos, ao contrário, que ela constitui seu maior título de glória. Negamos, portanto, que seu misticismo tenha prejudicado sua doutrina especulativa.
Sem dúvida, o procedimento místico e o procedimento escolástico são distintos. Com efeito, enquanto o escolástico tende a unir-se a Deus pela reflexão e pelo raciocínio, o místico, compreendendo que o conhecimento intelectual é, por sua natureza, uma operação abstrata e fria, busca unir-se a Deus por todas as faculdades de sua alma ao mesmo tempo. Ele compreende que essa união se efetua sobretudo pelo amor, que deve dirigir todas as suas ações. É por isso que ele busca os vestígios da ação de Deus por toda parte no universo; ele toma por divisa a bela fórmula de Boaventura: *Vita contemplationis est per ardentem amorem crucifixi*. *Itinerarium mentis in Deum*, prolog.
Não obstante, os dois procedimentos não são de forma alguma opostos; o amor e o pensamento podem se sustentar mutuamente e concorrer para um mesmo fim. O místico, para tratar e resolver todas as questões filosóficas, pode servir-se da experiência, da razão, de todos os meios pelos quais um espírito calmo e senhor de si esforça-se por chegar à ciência; ele pode dar, para os deveres da vida ativa, as regras mais sãs e as mais distantes de um quietismo fanático. Por outro lado, a ciência escolástica pode tornar-se mais amorosa, mais completa e mais profunda graças ao sopro místico que sai da alma. E, de fato, a história constata essa feliz união em algumas almas de elite; ela nos oferece, como prova A. de Margerie, *Essai sur la philosophie de saint Bonaventure*, um dos mais belos exemplos dessa união no doutor seráfico, que, empregando os dois procedimentos, não tem, a bem dizer, senão um único sistema (uma única filosofia), cujo sobrenome indica admiravelmente o caráter.
O misticismo de São Boaventura não tem nada de visionário. Emprestado aos Padres, ao pseudo-Dionísio e a São Bernardo, é sobretudo o desenvolvimento da doutrina dos Vitorinos; não é, pois, senão uma expressão viva da ciência dos Padres e da antiga tradição da Igreja sobre a vida contemplativa, e tem por garantia toda a antiguidade. « Seu misticismo é a encarnação mais perfeita do misticismo no século XIII. » De Wulf, *Histoire de la philosophie médiévale*, p. 291.
III. LUGAR QUE OCUPA SÃO BOAVENTURA NA ESCOLÁSTICA. — O nome de Boaventura, colega e amigo de Tomás de Aquino na Universidade de Paris, é muito frequentemente unido ao nome do patrono das escolas católicas. Sisto V, que os chama de « as duas oliveiras e os dois brilhantes castiçais da casa de Deus », explica-nos a razão dessa constante união dos dois doutores. « Existe entre eles, diz ele, uma união perfeita, uma maravilhosa similitude de virtude, de santidade e de méritos. » *Cunr multa inter eos, virtutis, sanclitatis, doctrine, merilorunr conjunctio et similitudo intercedat*. *Bulle Triumphantis Hierusalem*, n. 13.
Assim, não podemos indicar melhor o lugar que Boaventura ocupa na escolástica do que comparando sua doutrina com a de São Tomás, pois « a teologia escolástica foi ilustrada principalmente por esses dois gloriosos doutores ». Theologia scholastica, quam duo potissimunr gloriost. doctores, angelicus S. Thomas et seraphicus S. Bonaventura... excellenti ingenio, assiduo studio, magnis laboribus et vigiliis excoluerunt. Loc. cit., n. 40.
Essas palavras, citadas por Leão XIII na encíclica Aeterni Patris, nos autorizam a afirmar que esses dois ilustres gênios são os príncipes da teologia escolástica. Contudo, eles não o são sob o mesmo título; não se distinguiram da mesma forma em todas as partes da escolástica, nem sob todos os pontos de vista. Assim, embora estejam de acordo em seus princípios e na maioria de suas conclusões, embora dirijam seus estudos para o bem supremo, como seu objetivo único, eles têm, contudo, seu caráter próprio, assinalado por Dante: L’un fu tutto serafico in ardore L’altro per sapienza in terra fue Di cherubica luce un splendore. Parad., cant. 14.
Daí resultam diversas divergências. Assim, por exemplo, a doutrina especulativa de São Boaventura, embora extremamente estendida, não é tão desenvolvida, em algumas de suas partes pelo menos, nem tão completamente organizada quanto a de São Tomás. É sobretudo em filosofia que São Tomás é mais abundante. Ele trata as questões filosóficas ex professo, enquanto o doutor seráfico as aborda incidentalmente e somente no grau necessário para resolver clara e sabiamente os problemas teológicos. Além disso, São Tomás, tendo consagrado toda a sua vida aos estudos, pôde organizar completamente seu sistema, o que Boaventura, chamado ao governo de sua ordem, não pôde fazer.
Podemos, portanto, de uma maneira geral, reconhecer a superioridade, sob o ponto de vista especulativo, das obras de São Tomás, ainda que, contudo, a autoridade de São Boaventura seja maior em várias questões particulares. Além disso, São Boaventura é antes platônico e São Tomás antes aristotélico. São Tomás prima na análise, São Boaventura na síntese. Os escritos de São Tomás são redigidos seguindo o método e a forma escolásticos; em sua maneira de dizer, São Boaventura imita mais o gênero de Santo Agostinho. Em suma, pode-se dizer que o Doutor Seráfico supera o Doutor Angélico pela síntese teológica e pelas visões de conjunto, e também por seus escritos místicos.
Compreende-se assim qual deve ser a utilidade de juntar o estudo de São Tomás, que ilumina sobretudo a inteligência, ao de São Boaventura, que inflama sobretudo o coração. Estudando esses dois doutores, conhece-se tudo o que a Idade Média nos deixou de belo e de sublime. Não há, portanto, motivo para se espantar que Leão XIII tenha escrito em sua carta de 13 de dezembro de 1885 ao Ministro Geral dos Frades Menores: Nullo modo dubitandum est quin catholici presertim juvenes im spem Ecclesiz succrescentes qui ad philosophica ac theologica studia, secundum Aquinatis doctrinam sectanda se conferunt, perlegendis sancti Bonaventure operibus plurimam utilitatent sint hausuri atque ex eorum scriptis quasi ex precipuis armentariis gladios ac tela sumant quibus in teterrimo bello adversus Ecclesiam ipsamque humanan societatenr commoto hostes superare strenue queant. Cf. S. Bonaventure Opera omnia, t. III, p. 2.
IV. INFLUÊNCIA. — A doutrina de São Boaventura foi frequentemente invocada pelos concílios ecumênicos. Dissemos acima a influência pessoal que o santo exerceu no Concílio de Lyon (1274). Nos concílios seguintes de Viena (1314), de Constança (1414-1417), de Basileia (1431), de Florença (1438), de Latrão (1512), e mesmo no de Trento, que tanto honrou São Tomás, a doutrina de São Boaventura serviu para resolver questões difíceis, para confundir o erro e para fazer triunfar a verdade. Cf. Bonelli, Prodromus, p. 92-96.
O Concílio do Vaticano, em suas constituições dogmáticas, não promulgou nada que não estivesse contido nos escritos de nosso santo ou que não decorresse deles necessariamente. Cf. Louis de Castroplanio, Seraphicus doctor S. Bonaventura in ecumenicis catholice Ecclesie conciliis cum Patribus dogmata definiens, Roma, 1874, p. 49-368.
A doutrina de Boaventura teve a honra de ser ensinada nas universidades mais célebres da Idade Média. Em várias, ensinava-se com a dos outros mestres, São Tomás, Alberto Magno, Alexandre de Hales; em outras, ele era considerado como o doutor principal, e um curso especial era consagrado à explicação de seus escritos. No número destas últimas, Bonelli enumera as universidades de Ingolstadt, de Salzburgo, de Valência e de Osuna. Cf. Bonelli, Prodromus, p. 110.
Na escola franciscana, é preciso confessar, a doutrina de São Boaventura, cumulada de elogios por parte dos teólogos estranhos à ordem, foi quase negligenciada até o fim do século XVI. Assim, os escritos de seus discípulos imediatos, de João Peckham, arcebispo de Cantuária, de Mateus de Acquasparta, eleito Geral da Ordem em 1287 e criado Cardeal da Igreja em 1288, de Guilherme de Falgar, bispo de Viviers (Abbas Helvetiorum), de Alexandre de Alexandria, Ministro Geral, embora não faltem importância, permaneceram inéditos. A escola do Doutor Seráfico foi suplantada pela de Scot, o Doutor Sutil. Contudo, ela não desapareceu completamente na ordem. Teve sempre discípulos. Cf. Bonelli, Prodromus, p. 109; Evangelista de Saint-Béat, S. Bonaventure schole franciscane magister precellens, p. 39-50.
No fim do século XVI, um movimento de retorno à doutrina do Doutor Seráfico se produz na Ordem dos Menores graças a Sisto V, que colocou Boaventura nas fileiras dos primeiros e principais doutores da Igreja, ordenou a impressão de suas obras e fundou uma cátedra de doutrina seráfica no colégio dos Doze Apóstolos dos Frades Menores Conventuais em Roma. Todavia, Boaventura nunca foi o mestre único dos franciscanos. Os Frades Menores Capuchinhos, é verdade, se apegaram a ele de preferência durante dois séculos pelo menos, Prosper de Martigné, La scolastique et les traditions franciscaines, p. 25-40, mas os Frades Menores e os Conventuais deram sempre um lugar privilegiado a Scot, sem excluir, entretanto, completamente de seu ensino os mestres da antiga escola franciscana, a saber, Alexandre de Hales, Boaventura e Ricardo de Middletown. Cf. op. cit., p. 14-24.
Por ocasião do sexto centenário da morte de nosso santo, celebrado em 1874 com a maior solenidade em toda a ordem, um novo movimento se produziu.
Um grande número de escritos foram consagrados à sua memória, uma nova edição crítica de suas obras foi preparada e o capítulo geral dos Frades Menores Capuchinhos, reunido em Roma em 1884, portou este estatuto: «No ensino da filosofia e da teologia, expor-se-á, seguindo o desejo de Leão XIII, a doutrina muito elevada e muito segura do seráfico doutor São Boaventura, e do doutor angélico São Tomás.» Ordinat. 14; cf. Prosper de Martigné, op. cit., p. 474.
Do mesmo modo, as novas constituições dos Frades Menores recordam a antiga escola franciscana: In doctrinis philosophicis et theologicis antique schole franciscane imherere studeant, quin tamen ceteros scholasticos negligant. Constitutiones generales ord. fr. min., n. 245.
I. BIOGRAFIA. — Não possuímos nenhuma biografia contemporânea do ilustre Doutor Seráfico. É verdade que João Gil de Zamora, O. M., espanhol, escreveu a vida de Boaventura em seu livro De viris illustribus, ou Historia canonica et civilis; mas esta obra está perdida. Cf. S. Bonaventure Opera omnia, t. X, p. 39.
Pode-se, contudo, reconstituir os fatos principais da vida do santo, seja por seus próprios escritos, seja pelos atos oficiais, seja pelos dados dos autores que escreveram no fim do século XIII ou no começo do século XIV. Alguns dados são fornecidos por Salimbene, Chronica, Parma, 1857, escrito em 1284; Ubertino de Casale, Arbor vitæ crucifixæ, Veneza, 1485 (escrito por volta de 1305); Francisco de Fabriano, morto em 1322, do qual possuímos alguns fragmentos (cf. Sbaralea, Supplementum et castigatio ad scriptores trium ordinum S. Francisci, Roma, 1806, p. 142 sq.; Bonelli, Prodromus ad Opera omnia S. Bonav. in typographia Bassanensi, 1767, p. 64); pelo autor do Catalogus Gonzalvinus ou Chronicon xv vel xvi ministrorum generalium, publicado nos Analecta franciscana, Quaracchi, 1897, t. III, p. 693-712; pelo autor das Chronica xxiv generalium ministrorum, ibid., t. II, p. 1-574; por Thomas de Eccleston, Liber de adventu fratrum minorum, etc., publicado nos Analecta franciscana, Quaracchi, 1885, t. 1, p. 215-275; por Ange de Clarenus, Historia de septem tribulationibus ordinis minorum; cf. Archiv für Literatur und Kirchengeschichte, t. 1; pelo autor do Catalogus sanctorum fratrum minorum, publicado por Léonard Lemmens, Roma, 1903; e mais tarde por Barthélemy de Pise, Liber conformitatum vite beati ac seraphici Patris Francisci ad vitam Jesu Christi, Bolonha, 1490; Milão, 1510, 1513.
Nos séculos seguintes, os autores que escreveram a vida de Boaventura são numerosíssimos. Indicamos os principais: Wadding, Annales ordinis fratrum minorum, t. 1, 1; Sharalea, Supplementum et castigatio ad scriptores trium ordinum S. Francisci, Roma, 1806, v. Bonaventura; Acta sanctorum, t. 1 julii, nos quais os bolandistas reproduzem duas biografias do século XVI: Octaviania Martinis Sinuessani de vita et miraculis S. Bonaventure oratio; Vita S. Bonaventure, auctore Petro Galesino, protonotario apostolico; Bonelli de Cavalesio, Prodromus ad Opera omnia S. Bonaventure in typographia Bassanensi, 1767, c. 1, De gestis S. Bonav.; Gaspard de Monte Santo, Gesta et dottrina del serafico dottore S. Bonaventura, Macerata, 1793; Florença, 1874; Histoire abrégée de la vie de S. Bonaventure écrite par un religieux cordelier, Lyon, 1747, 2ª ed., em: Le cardinal S. Bonaventure, sa vie, sa mort, son culte, Lyon, 1874; Louis Berthaumier, Histoire de S. Bonaventure, 1858; Ambroise Mariani, San Bonaventura, Florença, 1874; Antoine-Marie de Vicenze, Vita di S. Bonaventura, Roma, 1874; trad. alemã, Paderborn, 1874; Louis Marangoni, Vita di S. Bonaventura, Pádua, 1874; Pamphile de Magliano, Storia compendiosa di S. Francesco e dei francescani, Roma, 1874, t. 1, p. 614-650; Isidore de Buscomari, S. Bonaventura ordinis fratrum minorum minister generalis, Roma, 1874; Prosper de Martigné, La scolastique et les traditions franciscaines, Paris, 1888, p. 79-116; Léopold de Chérancé, Saint Bonaventure, Paris, 1899; S. Bonaventure Opera omnia, Quaracchi, 1902, t. X, p. 39-73.
Às obras impressas acrescentamos os manuscritos que contêm a biografia de São Boaventura: Em Florença, a biblioteca do Sr. Conde Paul Galleti possui um manuscrito que começa assim: Incomincia la vita di sancto Bonaventura cardinale Albanense et doctore del ordine de minori. Na biblioteca nacional de Florença, cod. E. 5. 9. 84, in-8°, fol. 100: Incomincia la vita di S. Bonaventura cardinale Albanensi et doctore del ordine de minori; o fim é fol. 109. Em Ligny (na Silésia), na biblioteca da igreja dos Santos Pedro e Paulo, cod. 41, in-fol. do fim do século XV, fol. 29 v.: Incipit vita beati Bonaventure. Esta vida tem 25 capítulos e termina no fol. 35 v. Em Louvain, cod. 45/a, do século XV, Liber canonicorum regularium in Bethleem juxta Lovanium, fol. 4r.: Beati Johannis Bonaventure viri seraphici ac doctoris devotissimi ordinis fratrum minorum, primum generalis ministri, deinde Albanensis episcopi et sancte romane Ecclesie cardinalis vita, etc., fol. 10 v. Finit vita cum canonizatione beati Bonaventure sub brevi compendio a. 1489, XII augusti. Em Lyon, na biblioteca da cidade, cod. 880, in-fol., fol. 1 r.: La vie de saint Bonaventure cardinal évêque d’Albano, surnommé le docteur séraphique, patron de la ville de Lyon, par frère Jean Bonaventure Fahy, 10 julho 1746. Em Milão, na biblioteca Ambrosiana, cod, n. 130 pian. superior., manuscrito do século XVII contendo: Compendium vite divi Bonaventure doctoris seraphici S. R. E. cardinalis. Cf. S. Bonaventure Opera omnia, Quaracchi, t. X, p. 73.
II. DOUTRINA. — Aqui também não podemos dar uma bibliografia completa. Para mais informações, ver Bonelli, Prodromus, p. 109; Évangéliste de Saint-Béat, Sanctus Bonaventura schole franciscane magister precellens, Tournai, 1888, p. 389 sq.; Prosper de Martigné, La scolastique et les traditions franciscaines, Paris, 1888, e sobretudo os prolegomena da edição de Quaracchi, onde, por exemplo, t. I, p. LIV-LXXIII, há uma lista das obras relativas aos comentários sobre as Sentenças. Mencionemos especialmente um artigo do Pe. Ehrle sobre a antiga escola franciscana em Zeitschrift für katholische Theologie, 1883, t. I, p. 40 sq.
Indicaremos apenas as obras impressas que tratam ex professo da doutrina de Boaventura: G. Vorilongus (Vurrilonis, Vorlion, + em 1464), Commentarius in quatuor libros Sententiarum juxta doctrinam S.
Bonaventure et Scoti, Lyon, 1484; Paris, 1503; Veneza, 1496, 1519; Brulifer (Brulever, + em 1499), Reportata in quatuor libros Sententiarum S. Bonaventure, Basileia, 1501, 1507; Veneza, 1504; Paris, 1521, 1570; Nicolas de Nüsse (+ em 1509), Resolutio theologorum, Rouen, 1568; Veneza, 1574; Pelbart de Temesvar (+ em 1490), Rosarium juxta quatuor libros Sententiarum, Haguenau, 1503, 1504, 1507, 1508; Veneza, 1586, 1589; Brixen, 1594 (estes dois últimos autores, embora fazendo uso frequente dos escritos de Boaventura, seguem mais a doutrina de Scot); Jean de Combes (+ em 1570), Annotationes et declarationes in terminos theologales S. Bonaventure, Lyon, 1560, 1611; Veneza, 1575; P. Trigosus, Sancti Bonaventure... Summa theologica, Roma, 1593; Lyon, 1616 (apenas o primeiro tomo contendo o tratado De Deo uno está impresso, tendo a obra sido interrompida pela morte do autor); F. L. Coriolano, Sancti Bonaventure... Summa theologica, Roma, 1622 (o tomo primeiro desta Suma, contendo o tratado De Deo uno et trino, apenas foi publicado); Th. Forestius, Paraphrases, commentaria et disputationes de alma et sanctissima Trinitate juxta mentem divi Bonaventure, Roma, 1633; Jean-Marie Zamorra, Disputationes theologice de Deo uno et trino, in quibus preter accuratam sacrorum dogmatum elucidationem... omnes controversie inter D. Bonaventuram, D. Thomam et Scotum... occurrentes apposite et candide componuntur, Veneza, 1626; P. Capuleus Cortonensis, Commentaria in primum et secundum Sententiarum divi Bonaventure, Veneza, 1622; Félix Gabrielli, Theologice disputationes de praedestinatione sanctorum et impiorum reprobatione ad mentem divi Bonaventure et Scoti, Roma, 1653; Id., Theologice disputationes de fide, spe et charitate ad mentem divi Bonaventure et Scoti, Roma, 1656; Bonaventure de Langres, Bonaventure Bonaventura et Thomas seu unica geminuque theologiz summa ex omnibus fere sanctorum Thome et Bonaventure placitis... concinnata, inter que si aliquando videatur esse dissidium, aut benigna explicatione componitur, aut problematica disputatione eventilatur, Lyon, 1655; Matthieu Ferchius, De angelis ad mentem sancti Bonaventure, Pádua, 1658; Matthias Hauzeur, Collatio totius theologiz inter majores nostros f. Alexandrum Halensem..., S. Bonaventuram..., et Joannem Duns Scotum... ad mentem S. Augustini, Liége e Namur, 1646-1652; Mare de Baudunio, Paradisus theologicus unius et trium doctorum angelici, seraphici et subtilis horumque conciliatoris, Lyon, 1661-1665 (o autor não é feliz em seu ensaio de conciliação); Id., Compendium theologie tam speculative quam practice, Lyon, 1673; Marcel Regiensis, Summa seraphica, in qua S. Bonaventure seraphica theologia... dilucide est enodata, etc., Marseille, 1669 (ele apenas reproduz palavra por palavra a doutrina de São Boaventura); Bonagratia Habsensis, Elucidatio quarumdam questionum et locorum theologicorum de sacramentis in quibus S. Bonaventura a quibusdam doctoribus graviori censura perstringitur, Colônia, 1669; Gaudence Bontemps, Palladium theologicum seu tota theologia scholastica in septem tomos distributa, ad intimam mentem divi Bonaventure, Lyon, 1676; Barthélemy de Barberiis, Tabula seu index generalis in Opera omnia S. Bonaventure, Lyon, 1681 (esta tabela está impressa na edição das obras de Boaventura, Paris, t. xv); Id., Cursus theologicus super IV libros Sententiarum ad mentem seraphici doctoris S. Bonaventure, Lyon, 1687; François-Marie de Bruxelles, Theologia capuccinoseraphica, scholastica et moralis, Gand, 1715; Bernard van Loo, Specimen doctrine speculative de justa et sapienti permissione mali sive peccati ad mentem S. Bonaventure, Louvain, 1856; Fidèle de Fanna, Seraphici doctoris S. Bonaventure doctrina de romani pontificis primatu et infallibilitate, Turim, 1870; Piat, De sententia S. Bonaventure circa essentiam sacramenti penitentiae, Tournai, 1874; Antoine-Marie de Vicenze e Jean de Rovigno, Lexicon Bonaventurianum philosophico-theologicum, Veneza, 1880; Basile de Neirone, Speculum theologie dogmatice ex operibus seraphici doctoris S. Bonaventure desumptum, Gênes, 1885; Ignace Jeiler, S. Bonaventure principia de concursu Dei generali ad actiones causarum secundarum collecta et S. Thome doctrina confirmata, Quaracchi, 1897; Thomas Villanova, Sanct Bonaventura und das Papstthum, Bregenz, 1902.
Um autor moderno que cita frequentemente São Boaventura é Parthenius Minges, Compendium theologie dogmatice, Munique, 1901-1902.
Em particular sobre a filosofia do doutor seráfico, pode-se consultar: Marc-Antoine Galitius de Carpenedulo, Summa totius philosophie ad mentem S. Bonaventure, etc., Roma, 1634-1636; Mare de Baudunio, Paradisus philosophicus unius ac trium doctorum, angelici, seraphici et subtilis, horumque conciliatoris, Marseille, 1654; Barthélemy de Barberiis a Castrovetro Martinensio, Flores et fructus philosophici ex seraphico paradiso excerpti, seu cursus philosophici ad mentem sancti Bonaventure, Lyon, 1677; Hyacinthe Olpensis, Cursus philosophicus ad mentem seraphici doctoris, Barcelona, 1694; Amédée de Margerie, Essai sur la philosophie de saint Bonaventure, Paris, 1855; Marcelin de Civezza, Della vera filosofia e delle dottrine filosofiche del serafico dottore san Bonaventura, Gênes, 1874; Jean-Baptiste Ortoleva de Mistretta, L’ontologismo e la questione giù inedita del serafico dottore S. Bonaventura, Arcireale, 1876; Ch. Werner, Die Psychologie und Erkentnisslehre des Joannes Bonaventura, Viena, 1876; Basile de Neirone, Breviloquium philosophie christianae... ex operibus divi Bonaventure desumptum, Gênes, 1881; De humanae cognitionis ratione anecdota quedam seraphici doctoris S. Bonaventure et nonnullorum ipsius discipulorum, Quaracchi, 1883; Alexandre Baroni, La scuola franciscana guidata dal suo serafico dottore san Bonaventura in conformità dei principi del dottore angelico san Tommaso nelle due questioni scolastiche sulla composizione dei corpi e sull’unione dell’anima intellettiva col corpo umano, Florença, 1886; Évangéliste de Saint-Béat, De necessaria temporaneitate creature ad mentem seraphici sancti Bonaventure, Tournai, 1888; Joseph Krause, Die Lehre des hl. Bonaventura über die Natur der körperlichen und geistigen Wesen und ihr Verhältniss zum Thomismus, Paderborn, 1888; Id., Commentatio philosophica. Quomodo S. Bonaventura mundum non esse eternum sed tempore ortum demonstraverit, Brunsberg, 1890; Emmanuel Zorzoli, La questione di S.
Bonaventura « De cognitionis humane suprema ratione » commentata e difesa contro le rosminiane interpretazioni di S. Casara, Turim, 1890; Gabriel Casanuova, Cursus philosophicus ad mentem D. Bonaventure et Scoti, Madri, 1894; Marius Couailhac, Doctrina de ideis divi Thome divique Bonaventure conciliatria, Paris, 1897. A melhor fonte sobre a doutrina do doutor seráfico encontra-se sem contestação nos Scholia da edição de Quaracchi; uma tabela daqueles que concernem aos quatro livros das Sentenças foi preparada, t. x, p. 6-9.
(SAINT) — BONET Para a exegese; Jean Mahusius (van Mahieu), S. Bonaventure in Lucam enarratio, Antuérpia, 1539; Barthélemy de Barberiis, Glossa seu summa ex omnibus S. Bonaventure expositionibus exacte collecta, Lyon, 1681-1685 (obra útil aos pregadores).
— Para a mística: C. L. Tempesti, Mistica teologia secondo lo spirito e le sentenze di S. Bonaventura, Veneza, 1748; Id., Esercizi spirituali, Veneza, 1756; François Pothron (século XVI), Praxis discipline et perfectionis ex opusculis D. Bonaventure, editado com tradução francesa por Victor-Bernardin de Rouen, Roma, Paris, Tournai, 1901 (esta obra é composta em grande parte de opusculos apócrifos, sobretudo daqueles de David d’Ausbourg).
Para o conjunto das questões tratadas neste artigo, pode-se consultar ainda: Contestin, S. Bonaventure et ses faux admirateurs (extrato da Revue des sciences ecclésiastiques), Arras, 1870; Évangéliste de Saint-Béat, Le séraphin de l’école, études sur S. Bonaventure (extrato da Revue des études franciscaines), Paris, 1900 (panorama geral sobre a doutrina); J. Schwane, Dogmengeschichte der mittleren Zeit, Friburgo em Brisgóvia, 1882 (indica as principais opiniões teológicas); W. A. Hollenberg, Studien zu Bonaventura, Berlim, 1862; Alexandre Baroni (Meditazioni del Padre), Amore e scienza, ossia la mente serafica del glorioso dottore san Bonaventura, Florença, 1874; Fidèle de Fanna, Ratio nove collectionis operum omnium S. Bonaventure, Turim, 1874; Jean-Baptiste Ortoleva de Mistretta, S. Bonaventura e il secondo concilio di Lione, Roma, 1874; Louis de Castroplanio, Seraphicus doctor Bonaventura in oecumenicis catholice Ecclesiae conciliis cum patribus dogmata definiens. Disquisitio historico-theologica, Roma, 1874; Prosper de Martigné, La scolastique et les traditions franciscaines, Paris, 1888, p. 116 sq., 489 sq.; tradução italiana por Louis de Piedelama, Assis, 1889; Frediano Giannini, Studii sulla scuola francescana, Siena, 1895; François-Marie de Salerne, Della poesia nel serafico dottore S. Bonaventura, Gênes, 1874; Dominique Facin de Bieno, Dissertatio de studio Bonaventuriano, Quaracchi, 1902; E. di Bisogno, S. Bonaventura e Dante, Milão, 1899; N. Rosati, L’eloquenza cristiana in S. Bonaventura, Florença, 1903.
Autor original: E. SMEETS
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