BLAMPIN Thomas, beneditino da congregação de Saint-Maur, nascido em Noyon em 1641, falecido na abadia de Saint-Benoit-sur-Loire em 13 de fevereiro de 1710. Fez suas humanidades em Compiègne sob a direção dos padres jesuítas, depois ingressou na congregação de Saint-Maur, onde fez profissão na abadia de Saint-Remi de Reims em 19 de dezembro de 1658. Religioso modesto, exato em todos os seus deveres, teve de ensinar filosofia e teologia aos seus confrades. Dom Vincent Marsolles, superior geral da sua congregação, designou-o para dirigir a nova edição das obras de santo Agostinho iniciada por dom Delfau. Nesse grande trabalho, foi ativamente secundado por seus confrades, entre os quais é preciso nomear dom Coustant e dom Guesnié.
A obra apareceu sob o título: S. Aurelii Augustini Hipponensis episcopi opera post Lovanensium theologorum recensionem castigata denuo ad manuscriptos codices Gallicanos, Vaticanos, Anglicanos, Belgicos, etc., necnon ad editiones antiquiores et castigatiores, Opera et studio monachorum ordinis S. Benedicti e congregatione S. Mauri, 11 tom. em 8 in-fol., Paris, 1681-1700. Os dois primeiros volumes foram reimpressos em 1689 sem a autorização de dom Blampin. As falhas são muito numerosas nesta reimpressão e o primeiro desses dois volumes traz até a data de 1679 em vez de 1689. A edição beneditina foi reproduzida várias vezes, entre outras em Antuérpia, 12 tom. em 9 in-fol., 1700-1701; em Veneza, 11 tom. em 8 in-fol., 1729-1735. Gaume publicou-a novamente em Paris, 11 tom. em 13 in-4°, 1836-1839, e Migne inseriu-a, P. L., t. XXXII-XLVII.
Em 1693, dom Blampin, para fugir das querelas suscitadas pela publicação dos primeiros volumes das obras de santo Agostinho, pediu para ser enviado a outro mosteiro: foi, em 1693, nomeado prior de Saint-Nicaise de Reims, onde permaneceu seis anos. Foi depois prior de Saint-Remi na mesma cidade, de Saint-Ouen de Rouen, e em 1708 foi designado como visitador da província da Borgonha. Deixou uma obra que permaneceu manuscrita: *Lettre d'un théologien a l'un de ses amis sur les paroles de la consécration du corps et du sang de Jésus-Christ au saint sacrifice de la messe*.
A edição das obras de santo Agostinho suscitou violentas discussões e os ataques começaram desde os primeiros dias da impressão. Conta-se até que um jesuíta, o R. P. Garnier, bibliotecário do colégio de Clermont, esforçou-se para intimidar o impressor. Os beneditinos eram considerados como favorecendo o jansenismo. Dois capuchinhos, os PP. Joseph de Troyes e Esprit d'Aubonne, foram dos primeiros a engajar a luta. Este último, desde 1681, confundia propositalmente beneditinos e jansenistas e acusava os primeiros de querer mudar tanto a religião quanto santo Agostinho.
A polêmica tornou-se mais viva em 1690, por ocasião do aparecimento do 10º volume, que contém as obras de santo Agostinho sobre a graça. A pedido de alguns de seus amigos, dom Blampin cometeu o erro de consentir que, no mesmo formato, com os mesmos caracteres, embora separadamente, fosse impressa a análise do tratado do doutor Antoine Arnauld *De correptione et gratia*, publicado em 1644. Sem estar autorizado para tal, o impressor colocou esta análise em alguns exemplares do 10º volume. Assim que foi avisado, o arcebispo de Paris, Monsenhor de Harlay, queixou-se ao R. P. dom Boistard, superior geral, que, não tendo tido conhecimento deste fato, prometeu mandar retirar e suprimir a análise.
Mabillon, que em 1679 redigira a epístola dedicatória de toda a edição a Luís XIV, foi encarregado de compor o prefácio geral. Um primeiro trabalho, resultado de várias redações sucessivas, foi primeiramente submetido à aprovação dos bispos, que exigiram tais correções que uma segunda redação foi necessária. As correções de Bossuet foram integralmente reproduzidas pelo Sr. Ingold, primeiro na *Revue Bossuet*, julho de 1900, depois na 2ª edição de seu estudo: *Bossuet et le jansénisme*, Paris, 1904, p. 153-217. A redação definitiva, bem diferente do primeiro projeto, apareceu em 1700 à frente do 11º e último volume e não contentou nenhum dos dois partidos.
Mas já havia algum tempo que se sucediam os escritos a favor ou contra a edição. Um dos principais foi: *Lettre de l'abbé ** aux RR. Peres bénédictins de la congrégation de Saint-Maur sur le dernier tome de leur édition de saint Augustin*, in-4° de 36 p.; in-12 de 72 p.; in-12 de 144 p. (Colônia), 1699. Dizia-se nele que os beneditinos tinham feito "com artifício tudo o que podiam para favorecer os erros do jansenismo sem se declarar abertamente por Jansênio". O autor apresentava-se como um abade da Alemanha, mas muitos atribuíam este escrito aos jesuítas. Dom de Montfaucon fazia dele obra do P. Daniel; na realidade era do P. Jean-Baptiste Langlois, jesuíta.
Quase ao mesmo tempo apareceram: *Lettre d'un abbé commendataire aux RR. Pères bénédictins de la congrégation de Saint-Maur*, in-12 de 27 p., 1699; *Lettre d'un bénédictin non réformé aux RR. Pères bénédictins de la congrégation de Saint-Maur*, in-12 de 66 p., 1699. Esses três libelos contra a edição de santo Agostinho foram deferidos ao Santo Ofício. Contudo, os beneditinos julgaram dever responder. Dom François Lamy publicou: *Lettre d'un théologien a un de ses amis sur un libelle qui a pour titre : Lettre d'un abbé ** aux RR. Peres bénédictins de la congrégation de Saint-Maur sur le dernier tome de leur édition de saint Augustin*, in-12, 1699. Dom Denys de Sainte-Marthe fez aparecer: *Réflexions sur la lettre d'un abbé allemand aux R.R. Peres bénédictins de la congrégation de Saint-Maur sur le dernier tome de leur édition de saint Augustin*, in-12 de 69 p., 1699. Dom Thomas Blampin compôs igualmente vários escritos para defender a edição de santo Agostinho, mas eles não foram publicados.
Em Roma, dom Bernard de Montfaucon fazia aparecer com a permissão do Mestre do Sagrado Palácio: *Vindiciae editionis S. Augustini a benedictinis adornatae adversus epistolam abbatis germani, authore D. B. de Riviere*, in-12 de 67 p., 1699. Uma outra edição do mesmo escrito apareceu em Antuérpia, in-8° de 92 p., 1700, ao mesmo tempo que uma tradução francesa: *Défense de l'édition des oeuvres de saint Augustin faite par les RR. Peres bénédictins pour servir de réponse a la lettre d'un abbé allemand*, in-8° de 92 p., Antuérpia, 1700. Cf. Sainjore (R. Simon), *Bibliothèque critique*, in-12, Amsterdã, 1708, t. II, p. 116-148.
Outros libelos impressos ou manuscritos circulavam além disso em Roma e em Paris. Entre as peças manuscritas, menciona-se:
1° Sainte-Marthe, mau teólogo e bom jansenista; 2° Antimoine pour servir de préservatif contre les calomnies du Pere de Sainte-Marthe; 3° Vindiciae Petavii. Neste último escrito, o autor, segundo todas as probabilidades, o P. Langlois, notava algumas assertivas inexatas atribuídas ao P. Petau.
Ao Mémoire d’un docteur en théologie adressé a Messeigneurs les prélats de France sur la réponse d’un théologien des Pères bénédictins a la lettre de l’abbé allemand, in-12 de 128 p., 1699, e que tinha por autor o Pe. Langlois, dom de Sainte-Marthe, diz-se, respondeu com: Lettre a un docteur de Sorbonne touchant le Mémoire d’un docteur en théologie adressé a Messeigneurs les prélats de France contre les bénédictins, in-12 de 61 p., 1699. Deve-se ainda ao Pe. Langlois: La conduite qu’ont tenue les Peres bénédictins depuis qu’on a attaqué leur édition de saint Augustin, in-12 de 79 et de 144 p., 1699.
Dom Massuet, professor de teologia em Jumièges, publicou: Lettre d’un ecclésiastique au R. P. E. L. J. sur celle qu’il a écrite aux RR. Peres bénédictins de la congrégation de Saint-Maur touchant le dernier tome de leur édition de saint Augustin, in-12 de 180 p., Osnabruck (Rouen, 1699); uma outra edição aumentada e corrigida apareceu em Liege, in-12 de 219 p., 1700. Dom Massuet enganava-se ao crer responder ao Pe. Emeric Langlois, que passou sua vida quase inteiramente nas missões, e por isso este apressou-se em protestar contra a atribuição que lhe faziam destes libelos: a resposta deveria ter sido endereçada ao R. P. J.-B. L. J. O padre Jean-Baptiste Langlois professou a filosofia e a moral e morreu em Paris, na casa do noviciado, em 12 de outubro de 1706.
Por ordem do capítulo geral da congregação de Saint-Maur, dom Lamy publicou: Plainte de l’apologiste des bénédictins a Messeigneurs les prélats de France sur les libelles diffamatoires qu’on répand sur ces religieux et leur édition de saint Augustin, in-12 de 188 p., 1699. A luta continuava assim, sem qualquer proveito, entre os beneditinos e os jesuítas. Uma ordem de Luís XIV, transmitida a uns e a outros por Monsenhor de Harlay, arcebispo de Paris, veio impor o silêncio, ordem solicitada pelos jesuítas, afirmavam os beneditinos, por estes últimos, diziam com não menos força seus adversários.
Em uma carta impressa, in-4° de 2 p., sob a data de 17 de novembro de 1699, dom Claude Boistard, superior geral da congregação de Saint-Maur, notificou a todos os seus religiosos «a ordem do rei proibindo que se falasse ou escrevesse ainda sobre esta contestação e ordenando suprimir de boa-fé todos os escritos que foram feitos de parte a parte nesta ocasião». Dom Mabillon e dom B. de Montfaucon destruíram imediatamente os escritos que tinham prontos para a impressão.
Em 19 de abril de 1700, Clemente XI dirigia a dom Boistard um breve elogioso pelas edições dos Padres executadas pelos beneditinos. Um decreto do Santo Ofício de 2 de junho de 1700 condenou a Lettre de l’abbé, a Lettre d’un bénédictin non réformé, a Lettre d’un abbé commendataire e o Mémoire d’un docteur en théologie. A querela pareceu estar prestes a renascer neste ano de 1700 por ocasião do aparecimento do 11º e último volume das obras de santo Agostinho. Ele foi sobretudo atacado por Godet des Marais, bispo de Chartres; mas as ordens de Luís XIV foram observadas.
Eis a indicação de algumas outras obras publicadas mais tarde e que se reportam a estas discussões: na Bibliothèque critique de Sainjore (R. Simon), in-12, Amsterdã, 1708, nota-se os dois escritos seguintes: Réflexions sur la nouvelle édition des ouvrages de saint Augustin publiée par les bénédictins de la congrégation de Saint-Maur, por M. du Hamel, t. I, p. 101-116; Avis donné aux moines bénédictins lorsqu’ils se mirent en tête de publier leur nouvelle édition des ouvrages de saint Augustin, t. IV, p. 40-42.
Em 1712, o padre Jean-Chrysostome Scarfo, religioso da ordem de São Basílio, publicou sob o nome de Chrysofano Cardeleti uma carta apologética onde relatava oito proposições que pretendia terem sido falsificadas para favorecer o jansenismo. Por ordem de seu superior geral, teve de se retratar, e fê-lo de maneira bastante desagradável. Os redatores do Journal de Trévoux tinham feito os maiores elogios da carta apologética; eles tiveram, também, de inserir uma retratação.
Sob Bento XIII, a luta pareceu retomar, mas o soberano pontífice a deteve imediatamente ao tomar a defesa da edição beneditina das obras de santo Agostinho. Dom Vincent Thuillier (+ 1786) escreveu Histoire de la nouvelle édition de saint Augustin donnée par les bénédictins de la congrégation de Saint-Maur. A primeira redação deste trabalho foi feita enquanto seu autor era um ardente jansenista e apelante da bula Unigenitus. Retornado de seus erros e inteiramente submisso às decisões da Igreja, dom Thuillier reviu seu manuscrito e enviou-o a dom Bernard Pez, que o inseriu na Bibliothèque germanique, 1735, t. XXX, p. 18 sq.; 1736, t. XXXIV, p. 43 sq.; t. XXXV, p. 67 sq. A obra, à qual se pode censurar algumas inexatidões, só apareceu após a morte de seu autor.
Infelizmente, dom Thuillier tinha deixado tirar cópia de sua primeira redação pelo abade Goujet, ardente jansenista, que se apressou em publicá-la, em 1736, quando conheceu o começo da publicação feita na Bibliothèque germanique. Eis o que nos diz este autor em seus Mémoires historiques et littéraires, Haia, 1767, p. 211: «Dom Thuillier tinha composto esta história no tempo em que ele ainda estava ligado à verdade... A ambição e o amor da independência tendo-lhe feito mudar de conduta, ele acomodou seu escrito às suas novas visões e enviou-o a dom Bernard Pez, beneditino alemão. Este último publicou a primeira parte no jornal intitulado Bibliothèque germanique, sem nomear o autor. Eu li esta primeira parte, fiquei indignado com este procedimento de dom Thuillier; apressei-me em mandar imprimir seu escrito tal como ele o tinha comunicado a mim e pintei no prefácio o autor tal como ele merecia ser conhecido.»
Dom Philippe le Cerf de la Vieville, Bibliothèque historique et critique des auteurs de la congrégation de Saint-Maur, in-12, Haia, 1726, p. 23-40; Supplément au Nécrologe de Port-Royal, 1ª parte, in-4°, s.l., 1735, p. 408; dom Tassin, Histoire littéraire de la congrégation de Saint-Maur, in-4°, Bruxelas, 1770, p.
287; [dom François,] Bibliothèque générale des écrivains de l’ordre de Saint-Benoît, in-4°, Bouillon, 1778, t. IV, p. 470; Aug. et Al. de Backer, Bibliothèque des écrivains de la Compagnie de Jésus, 3ª série, in-8°, Liège, 1856, p. 437; Sommervogel, Bibliothèque de la C. de Jésus. Bibliographie, grand in-4°, Bruxelas, 1893, t. IV, p. 1484; H. Didio, L’édition bénédictine de saint Augustin, na Revue des sciences ecclésiastiques, fevereiro de 1898, p. 115; este último trabalho foi reproduzido e completado pelo Sr. abade Ingold, Histoire de l’édition bénédictine de saint Augustin, avec le Journal inédit de dom Ruinart, in-8°, Paris, 1902 (ver ali uma bibliografia mais completa, prefácio, p. VII-XII).
Ver também t. I, col. 2315-2316.
Autor original: B. HEURTEBIZE
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