4. BERENGER Pierre, intitula-se ele mesmo escolástico no início de suas obras. Ignora-se o lugar onde exerceu suas funções. Não se sabe mais onde nasceu. Dom Bréal, *Recueil des historiens des Gaules*, t. XIV, p. 294, conjectura que ele era de Gévaudan. O ms. 2923 da Biblioteca Nacional de Paris, pelo contrário, faz dele um poitevino: *Pictaviensis*. Designa-se comumente sob o nome de Bérenger de Poitiers. Foi um dos mais brilhantes discípulos de Abelardo. Seus escritos revelam uma cultura literária muito desenvolvida.
Temos dele: 1º uma *Apologia de Abelardo*; 2º uma *Invectiva contra os cartuxos*; 3º uma carta de retratação dirigida ao bispo de Mende. Duchesne atribui-lhe um *Tratado sobre a Encarnação* que os autores da *Histoire littéraire de la France* lamentam não conhecer. Enfim, o próprio Bérenger nos informa que escreveu contra um monge de Marselha uma carta hoje perdida.
Seu *Apologeticus contra beatum Bernardum Claravallensem, abbatem et alios qui condemnaverunt Petrum Abelardum* é um violento panfleto sem valor histórico. Mal se pode encontrar ali alguma vaga informação sobre os trabalhos preparatórios do concílio de Sens (1140), onde Abelardo foi condenado. Os juízes são tratados de "porcos" e de "bêbados". Ao ouvir Bérenger, no momento de proferir sua sentença, eles não tinham mais forças para pronunciar as palavras; diziam: *Namus*, por *Damnamus*. "É que, com efeito, eles nadavam no vinho."
São Bernardo, presidindo uma orgia! Que grosseira pilhéria! O abade de Claraval é atacado mais particularmente. Bérenger o reprova por ter composto na juventude versos lascivos; faz dele um crime ter empreendido comentar, depois de tantos outros mestres, depois de Orígenes, santo Ambrósio, Retius de Autun e o Venerável Beda, o *Cântico dos Cânticos*, e ter introduzido em um canto nupcial lamentações sobre a morte de seu irmão. Coisa mais grave, a propósito de um texto de são Paulo, Bernardo faria descer do céu as almas humanas e ressuscitaria assim a heresia de Orígenes. Sua comichão de escrever e de inovar não o teria levado a dizer, em seu tratado *De diligendo Deo*, que "a medida de amar a Deus é amá-lo sem medida", fórmula sutil e ridícula à qual é fácil opor a de Nosso Senhor ele mesmo: "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de todo o teu espírito e de todas as tuas forças."
Todas essas críticas só servem para provar uma coisa: é que todo mundo se engana, e que aquele que se enganou não tem o direito de julgar severamente demais os outros. "Se Abelardo tinha cometido uma falta ao falar, deveria sentir da parte de seu juiz as doces mãos da misericórdia em vez das tenazes ardentes da cólera." Bérenger prometia justificar a doutrina de Abelardo em uma segunda parte que não apareceu.
Sua carta aos cartuxos contém, com um elogio ao seu instituto, uma violenta acusação contra sua conduta, mas, em suma (e é a isso que se reduzem suas acusações), todo o seu crime é violar a regra do silêncio e emprestar um ouvido demasiado complacente às fofocas de fora. No prólogo de seu *Tratado sobre a Encarnação*, Bérenger ataca os monges em geral com este traço satírico: *Apud religiosos patella psalmus est, et pinguis refectio Alleluia*; "entre os religiosos, o salmo é um pequeno prato, e o *Alleluia* um menu suculento." Ao monge de Marselha, reprova por ensinar que o Deus soberano é distinto do criador do universo.
Em suma, a obra literária e teológica de Bérenger é mais polêmica e satírica do que didática e positiva. Suscitou-lhe inimigos. Por medo da tempestade que desencadeara contra si, tomou a decisão de expatriar-se. Depois de ter errado aqui e ali, sem saber onde se fixar, acabou por enterrar-se nas Cévennes. Foi de lá que escreveu ao bispo de Mende, Guilherme (1109-1150), uma carta que contém uma retratação bastante equívoca de suas anteriores sátiras. Rende homenagem à santidade do abade de Claraval: "Em minha opinião, diz ele, ele é o Martinho de nossa época." Contudo, não é ainda canonizado; é um homem sujeito como os outros às fraquezas da natureza; "ele brilha como o fogo; mas não é ainda o sol, não está ainda fixado no firmamento; é tudo o mais uma lua... Quanto à sua doutrina, se eu a interpretei mal, que me refutem." *Legant eruditi Apologeticum quem edidi; et si domnum abbatem juste non argui, licenter me redarguant.*
Todavia, um pouco mais adiante, ele declara que não se deve levar a sério, mas como uma simples pilhéria, tudo o que escreveu em desabono ao homem de Deus. Ele vai mais longe; como o reprovavam por não ter cumprido sua promessa ao justificar a doutrina de Abelardo, ele responde que se tornou mais sábio com o tempo e que está inteiramente de acordo com o abade de Claraval. "Não quis fazer-me o advogado das teses intentadas contra Abelardo, pois, se a doutrina é boa, ela é também mal-soante."
Vindo, então, às invectivas lançadas contra os cartuxos, admite que esses bons anacoretas acumulavam grandes riquezas espirituais. "Mas vendo, diz ele, que as punham em um saco furado, pela liberdade que se davam de abrir a boca a todo propósito, quis fechar o buraco do saco impondo-lhes silêncio, a fim de conservar a pura farinha da religião. Quanto ao monge de Marselha, merecia uma reprimenda, como atesta a carta que ele me escreveu. O traço contra os religiosos que amam os menus suculentos é apenas uma boutade que, lançada contra todo mundo, não atinge ninguém." Bérenger termina por pedir perdão àqueles que feriu, querendo bem confessar-se culpado, mas por maneira de falar: *Veniam rogo innocens, et si magis placet, veniam postulo reus.*
Esta retratação é manifestamente insuficiente, sobretudo no que diz respeito aos ataques dirigidos contra o abade de Claraval. Mostramos, *Revue des questions historiques*, janeiro de 1891, p. 223, que Bernardo jamais compôs as poesias licenciosas que lhe atribuem. No máximo pode tratar-se de *juvenilia* sobre um
Autor original: E. Vacandard
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