BEGHARDS, BEGUINAS HETERODOXAS. — I. História. II. Doutrinas.
I. História. — As origens e a história inteira dos béghards são bastante confusas. No início do século XIII, e já por volta do fim do XII, primeiramente nos Países Baixos, depois um pouco por toda parte, na França, na Alemanha, na Itália, formaram-se associações de mulheres semilaicas, semirreligiosas. Elas faziam voto de castidade, perpétuo ou temporário. Livres para deixar a comunidade, prometiam obediência durante a duração da vida comum, sem que essa promessa tivesse necessariamente o caráter de um voto.
Questionou-se em que limites elas professavam a pobreza, e vivas controvérsias surgiram sobre a seguinte questão: a mendicância esteve em uso entre elas? O resultado da discussão parece ser que há lugar para distinguir três espécies de casas: 1ª aquelas que abrigavam mulheres ricas; a mendicância não era admitida nelas, e mesmo essas mulheres conservavam geralmente «a propriedade e a administração de seus bens, dos quais podiam dispor com toda liberdade, durante sua vida e por sua morte», J.-H. Albanès, La vie de sainte Douceline, fondatrice des béguines de Marseille, Marselha, 1879, p. LX; 2ª aquelas que tinham sido dotadas por seus fundadores e onde se refugiavam mulheres pobres; a mendicância era proibida; 3ª aquelas que acolhiam mulheres pobres e sem dotação particular; a mendicância e o trabalho asseguravam-lhes a existência.
A afiliação, no século XIV, da maioria dessas comunidades às ordens mendicantes «impôs-lhes o voto de pobreza voluntária e o princípio de mendicância». H. Delacroix, Essai sur le mysticisme spéculatif en Allemagne au XIVe siècle, Paris, 1899, p. 82, nota. Os membros dessas associações distinguiam-se, além disso, por um traje especial: a vida era simples, a oração frequente, e dedicavam-se voluntariamente ao dever da hospitalidade e ao cuidado dos enfermos. Os homens não tardaram a imitar esse exemplo; mas as comunidades de homens tinham algo de mais livre nas atitudes, de menos rigoroso na disciplina.
Àqueles e àquelas que adotaram esse gênero de vida — como, aliás, àqueles que votaram a castidade permanecendo no mundo — a Igreja romana «deu oficialmente o título de Continentes... Os continentes e continentes receberam diferentes nomes vulgares, especialmente os de béguinos e béguinas». P. Mandonnet, Les origines de l’ordo de penitentia, no Compte rendu du congrès scientifique international des catholiques tenu à Fribourg (Suisse). Sciences historiques, Fribourg, 1898, p. 199.
Não se deve deter na lenda, aceita por certos escritores, por exemplo por Z. van Hotsum, Declaratio veridica quod beghine nomen, institutum et originem habeant a sancta Begha, Brabantie ducissa, Antuérpia, 1628, e por J.-G. Ryckel van Oorbeeck, Vita sancte Begge, ducisse Brabantiæ, andennensium, begginarum et beggardorum fundatricis, Lovaina, 1631, segundo a qual os béguinos e as béguinas teriam procedido espiritualmente de Santa Begga, filha de Pepino de Landen, abadessa de um convento de beneditinas em Andenne (província de Namur), e teriam dela tomado o nome. A forma de vida das béguinas passa por ter sido inaugurada, por volta de 1180, por um padre de Liège, Lambert le Bègue. Cf. P. Fredericq, Note complémentaire sur les documents de Glasgow concernant Lambert le Bègue, Bruxelas, 1895.
A etimologia das palavras béguin e béguine explicar-se-ia pelo sobrenome de Lambert? Ou dever-se-ia vê-la no velho vocábulo alemão beggen, que significava «mendigar» ou «orar»? Ou ainda devemos dizer que ela é, até este momento, inexplicada? Essas opiniões diversas foram defendidas. Quanto aos béghards, ou begghards, bégards, béguards, beckards, seu nome, que tem a mesma etimologia, não aparece senão por volta de meados do século XIII; primitivamente eles não se diferenciavam dos béguinos. As béguinas são algumas vezes chamadas begutte (donde bigotas), sem dúvida de by Gott, em Deus, e Svestrones, Zvestriones, de Schwester, irmã.
Pouco a pouco, béguinas, béguinos e béghards deixaram-se levar a teorias que lhes atraíram as condenações da Igreja. Os nomes sob os quais os designavam perderam mais ou menos a acepção que tinham desde o princípio. Em particular, a denominação de béguinos, «usual nos atos da Inquisição como nos documentos históricos, foi aplicada a diversas seitas ou sociedades religiosas, muito diferentes umas das outras, que foram frequentemente confundidas pelos antigos autores mais versados na classificação das heresias e pela própria Igreja.» L. Tanon, Histoire des tribunaux de l’Inquisition en France, Paris, 1893, p. 79.
Importa, portanto, dissipar os equívocos e delimitar bem o objeto deste artigo. Houve béguinas, béguinos e béghards ortodoxos; destes não temos de nos ocupar. Digamos apenas que os últimos béghards ortodoxos, ditos Zepperenses, porque sua casa-mãe era em Zepper, nos Países Baixos, foram reunidos por Inocêncio X, em 1650, aos terciários franciscanos da Lombardia; as béguinas sobreviveram na França até o reinado de Luís XI, cf. Legrand, Les béguines de Paris, Paris, 1894, e na Bélgica até os nossos dias. De uma forma geral, as béguinas desviaram-se menos que os béguinos e os béghards da fé católica. Ver, em particular, sobre a ortodoxia do beguinado de Hyères, transferido depois para Marselha, três bulas de João XXII publicadas por Albanès, La vie de sainte Douceline, p. 276-280, 299-300.
Os béguinos heterodoxos podem classificar-se em dois grupos principais. Os primeiros confundem-se com os franciscanos espirituais ou fraticelas, e ainda com os membros da terceira ordem que abraçaram a causa dos espirituais; deve-se juntar a eles personagens mais ou menos vagabundos e de doutrinas turvas que se ligavam abusivamente à terceira ordem de São Francisco. A denominação de béguinos para designá-los prevaleceu sobretudo no sul da França; é deles, por exemplo, que fala Bernardo Gui quando nomeia os béguinos em sua Practica inquisitionis heretice pravitatis, edit. Douais, Paris, 1886, p. 2, 84, 93, 141-150, 264-287, 298-299. Não temos de tratar agora desse primeiro grupo. Ver FRATICELAS.
Os outros têm pontos de contato com a seita dos irmãos do livre espírito, e até dependem dela em larga medida: são eles que mais comumente são chamados béghards, e dos quais nos resta estudar a história e as doutrinas. Eles invadiram principalmente as Flandres, a França do Norte, a Alemanha. As béguinas heterodoxas seguiram-lhes os passos, sem ir ordinariamente tão longe quanto eles.
Desde cedo, os begardos tornaram-se suspeitos; muitos não viviam em comunidade, mas isoladamente, levando uma existência errante, pregando sem controle. Foram objeto de uma série de medidas coercitivas. Em 1290, begardos e beguinas foram presos em Basileia e em Colmar como hereges. O concílio de Aschaffenburg (Baviera), em 1292, vituperou os begardos e as beguinas. Em 1306, o arcebispo de Colônia, Henrique de Virnebourg, em um concílio provincial, taxou os begardos de heresia e censurou-lhes ataques contra os franciscanos e os dominicanos. O apaziguamento não ocorreu; em 1308, Duns Scotus chegava a Colônia para defender as ordens mendicantes, mas morreu no mesmo ano, sem ter tido tempo de combater a fundo os begardos. Cf. Wadding, em Joannis Duns Scotti opera omnia, Lyon, 1639, t. 1, p. 12-18.
Em 1310, a beguina Margarida Porete, originária de Hainaut, foi queimada em Paris, cf. Ch.-V. Langlois, Revue historique, Paris, 1894, t. LIV, p. 295-299, e dois concílios, um em Mainz, o outro em Tréveris, proferiram contra os begardos novas condenações. Em 1311, o concílio ecumênico de Vienne, a pedido dos bispos da Alemanha, condenou solenemente os begardos hereges, cujos erros principais catalogou, e decretou a supressão dos beguinados onde se difundiam erros contrários à fé; ao mesmo tempo, recomendava não maltratar as beguinas fiéis que, tendo ou não professado a continência, vivessem honestamente em seus hospícios, fazendo penitência e servindo ao Senhor em espírito de humildade. A coletânea das constituições do papa Clemente V, conhecida sob o nome de Clementinas, e que encerra as decisões do concílio de Vienne, não foi publicada oficialmente senão por João XXII, em 25 de outubro de 1317. Cf. F. Ehrle, Archiv für Litteratur und Kirchengeschichte des Mittelalters, Berlin, 1885, t. 1, p. 541-542.
Um pouco antes desta data, João de Dürbheim, bispo de Estrasburgo, inaugurou contra os begardos de sua diocese, e seus aderentes bastante numerosos — padres, monges, pessoas casadas —, um conjunto de medidas que «podem ser consideradas como o primeiro ato da Inquisição episcopal organizada em solo alemão». H. C. Lea, Histoire de l’Inquisition au moyen âge, trad. Sal. Reinach, Paris, 1901, t. II, p. 443; cf. Rosenkranzer, Johann I von Strassburg gennant von Dürbheim, Tréveris, 1881. Após a publicação das Clementinas, os beguinados foram submetidos a uma repressão excessiva e geralmente mal justificada, begardos que eram inocentes foram molestados: João XXII teve de intervir em favor dos begardos e das beguinas cuja vida era piedosa e pacífica. A dificuldade foi sempre grande em distinguir os begardos ortodoxos dos hereges e, conforme se acreditava estar na presença de uns ou de outros, produziram-se alternativas de rigor ou de tolerância.
Citemos apenas os principais episódios. Em 1325, descobriram-se e castigaram-se begardos hereges em Colônia, um dos redutos do begardismo. Mestre Eckhart pregava então em Colônia; é possível que suas ideias, mais ou menos eivadas de panteísmo e que, a este título, não deixam de oferecer semelhanças com algumas das especulações dos begardos, tenham encorajado secretamente estes em seu sistema, ou mesmo que eles se tenham reclamado da autoridade do ilustre dominicano, e que isso não tenha sido alheio aos problemas de Eckhart com a Inquisição. Cf. W. Preger, Meister Eckart und die Inquisition, Munique, 1869. Das províncias renanas, onde eram perseguidos, os begardos refugiaram-se na Turíngia, em Hesse, na Saxônia Inferior. Em Metz, em 1339, begardos foram entregues à fogueira por suas teorias sobre o valor da pobreza voluntária.
Houve uma recrudescência da heresia no início do pontificado de Inocêncio VI; o papa aproveitou para tentar introduzir na Alemanha a Inquisição pontifícia (1353). Em 1356, o begardo Bertoldo de Rohrback, anteriormente preso em Würzburg e libertado após uma retratação, é capturado em Espira, onde propaga suas doutrinas, e condenado ao suplício do fogo. Guilherme de Gennep, arcebispo de Colônia, constata os progressos dos begardos, no sínodo de 1357, e ocupa-se em entravar-lhes o caminho. Em 1367, em Erfurt, ocorre o interrogatório do begardo João Hartmann; o documento que nos transmitiu este, como aquele que nos conservou a confissão anterior do begardo João de Brünn, é dos mais instrutivos.
Em 1369, após diversas tentativas parcialmente infrutíferas, a Inquisição papal «encontrou-se pela primeira vez organizada e dotada de uma existência real na Alemanha, na hora mesma em que ela caía em desuso nos países que a viram nascer». Lea, Histoire de l’Inquisition, trad. Reinach, t. III, p. 464. Nos dias 9 e 10 de junho, o imperador Carlos IV lançou dois editos que asseguravam um pleno concurso aos inquisidores e colocavam sob o banimento do império os sectários begardos e beguinas. Tornou-se a vida difícil aos begardos; queimaram-se seus livros escritos em língua vulgar e perseguiam-se as pessoas.
Perto do fim do século XIV, os begardos tornam-se raros. Execuções são assinaladas, pelos cronistas, em Erfurt, em 1392, em Colônia, em 1393. Em Basileia, em 1411, as associações dos begardos são dissolvidas. O concílio de Constança proíbe aos senhores temporais tomar sob sua proteção as comunidades de begardos e de beguinas, cuja conduta seja suspeita, e impedir aos prelados de visitá-las. Em contrapartida, o dominicano Mateus Grabon, que ataca vivamente os Irmãos da Vida Comum instituídos por Gerardo Groote, os begardos e as beguinas e, de uma forma geral, todas as associações distintas das antigas ordens religiosas e nas quais não se fazem os três votos monásticos, é condenado em 26 de maio de 1419.
O papa Eugênio IV, por sua vez, em 1431, intervém em favor dos begardos e das beguinas ortodoxos, injustamente perseguidos; isto lhe vale a indignação do panfletário Félix Hemmerlin, de Zurique, o qual, entre outras coisas, explica a maneira de agir do pontífice romano afirmando que ele mesmo outrora foi um begardo em Pádua. Na Suíça, no Wurtemberg, na Suábia, aqui e ali, begardos hereges foram ainda executados. O begardismo, diminuído, mas tenaz, sobreviveu a todos os maus-tratos e foi perder-se no protestantismo.
II. Doutrinas. — Os begardos e as beguinas hereges filiam-se aos Irmãos do Livre Espírito, dos quais é permitido crer, «sem que se possa estabelecê-lo de uma maneira irrefutável», que as doutrinas teóricas «procedem diretamente das ideias de Amaury de Bène e de seus discípulos e, por intermédio destes, do panteísmo de Scotus Eriugena».
Delacroix, Essai sur le mysticisme spéculatif en Allemagne au XIVe siècle, p. 132. Os irmãos do novo espírito, como foram chamados desde o início, isto é, no século XIII, ou do livre espírito, como foram denominados no século XIV, admiram a identidade da criatura e de Deus. Deles extraíram esta conclusão: que Deus age no homem, que em todas as obras do homem que chegou à consciência de sua unidade com Deus, o espírito traz a vida e a santidade, e que, assim, o homem é livre, desvinculado de qualquer lei, impecável, faça o que fizer. Até onde os irmãos do livre espírito levaram as consequências imorais dessas teorias, é o que não temos de pesquisar por ora. Ver FRERES DU LIBRE ESPRIT.
A seita do livre espírito encontrou, para se expandir, um maravilhoso veículo nas associações dos begardos e das beguinas. «Gente inculta em sua maioria, mendigos e vagabundos, eram facilmente ganhos por doutrinas que seduziam sua imaginação, e isso tanto mais quanto menos as compreendiam; o que os atraía ainda mais que a metafísica eram os princípios e as promessas comunistas.» Ch. Schmidt, Précis de l’histoire de l’Eglise d’Occident pendant le moyen âge, Paris, 1885, p. 282.
Nas queixas formuladas contra os begardos, em 1306, por Henrique de Virnebourg, arcebispo de Colônia, aparece já o fundamento do sistema: eles diziam agir pelo espírito de Deus e não estar submetidos à lei, acrescentando que não se podia salvar senão entre eles, e que a simples fornicação não é um pecado. Cf. J.-L. Mosheim, De beghardis et beguinabus commentarius, Leipzig, 1790, p. 211-219.
Semelhantemente, Margarida Porete ensinou que a alma, absorvida no amor divino, pode e deve, sem pecado e sem remorso, conceder à natureza tudo o que ela deseja. Cf. os continuadores de Guilherme de Nangis, na edição da Chronique de Guillaume de Nangis publicada por H. Géraud, Paris, 1843, t. I, p. 379.
No concílio de Vienne, as doutrinas dos begardos e das beguinas apareceram sob uma forma mais completa. Duas das Clementinas lhes são consagradas. A primeira, l. III, tit. XI, De religiosis domibus ut episcopo sint subjectae, c. 1, limita-se a dizer das beguinas que são condenadas, que elas se entregam a discussões sobre a Trindade e a essência divina, e que, sobre os artigos da fé e os sacramentos da Igreja, introduzem opiniões contrárias à fé católica. A segunda, l. V, tit. II, De hereticis, c. II, enumera os erros professados pelos begardos e pelas beguinas; eles são em número de oito. Cf. Denzinger-Stahl, Enchiridion symbolorum et definitionum, 9ª ed., Wurzbourg, 1900, n. 399-406.
1. Quod homo, in vita presenti, tantum et talem perfectionis gradum potest acquirere quod reddetur penitus impeccabilis et amplius in gratia proficere non valebit, nam, ut dicunt, si quis semper posset proficere, posset aliquis Christo perfectior inveniri.
2. Quod jejunare non oportet hominem nec orare, postquam gradum perfectionis hujusmodi fuerit assecutus, quia tunc sensualitas est ita perfecte spiritui et rationi subjecta quod homo potest libere corpori concedere quidquid placet.
3. Quod illi, qui sunt in praedicto gradu perfectionis et spiritu libertatis, non sunt humanae subjecti obedientiae, nec ad aliqua praecepta Ecclesiae obligantur quia, ut asserunt, ubi spiritus Domini ibi libertas.
4. Quod homo potest ita finalem beatitudinem, secundum omnem gradum perfectionis, in praesenti, assequi sicut eam in vita obtinebit beata.
5. Quod quaelibet intellectualis natura in seipsa naturaliter est beata, quodque anima non indiget lumine gloriae ipsam elevante ad Deum videndum et eo beate fruendum.
6. Quod se in actibus exercere virtutum est hominis imperfecti, et perfecta anima licentiat a se virtutes.
7. Quod mulieris osculum, cum ad hoc natura non inclinet, est mortale peccatum; actus autem carnalis, cum ad haec natura inclinet, peccatum non est, maxime cum tentatur exercens.
8. Quod, in elevatione corporis Jesu Christi non debent assurgere, nec eidem reverentiam exhibere, asserentes quod esset imperfectionis eisdem si a puritate et altitudine suae contemplationis tantum descenderent quod circa ministerium seu sacramentum eucharistiae, aut circa passionem humanitatis Christi, aliquid cogitarent.
«Esses princípios não se assemelham pouco ao quietismo dos nossos dias», observou J. Lenfant, Histoire de la guerre des hussites et du concile de Basle, Utrecht, 1731, t. I, p. 31. Cf., sobre este ponto, Noël Alexandre, Hist. eccles., Veneza, 1778, t. VIII, p. 526-556.
Se o quietismo retomou, salvo por atenuá-los, os oito artigos que resumem a doutrina dos begardos, estes oito artigos, por sua vez, dependem do ensino dos irmãos do livre espírito, e podem ser considerados como uma espécie de redução das noventa e sete proposições da seita do espírito relatadas no anônimo de Passau e que tinham sido redigidas por Alberto Magno. Sobre a origem dessas proposições, cf. os belos estudos de W. Preger, Geschichte der deutschen Mystik im Mittelalter, Leipzig, 1874, t. I; as 97 proposições encontram-se também em I. von Döllinger, Beiträge zur Sektengeschichte des Mittelalters, Munique, 1890, t. II, p. 395-402.
Nenhuma das fórmulas condenadas em Vienne contém a afirmação direta da identidade entre Deus e o homem, que se encontra na maioria dos documentos relativos ao begardismo; mas, do começo ao fim, ela está subentendida. A ideia fundamental é, em conformidade com o que se lê no interrogatório de Jean Hartmann, em Döllinger, Beiträge zur Sektengeschichte des Mittelalters, t. II, p. 384, que o homem pode chegar a um estado ubi unus est cum Deo et Deus cum eo unus absque omni distinctione.
Resulta disso, do ponto de vista especulativo, que o homem pode elevar-se a uma perfeição tal que um progresso ulterior lhe é impossível (a. 1), pois Deus não progride; que o homem, desde já, pode desfrutar da beatitude final (a. 4), pois ele não pode, na outra vida, ter algo melhor que a identidade com Deus; que o homem não precisa da luz da glória para ver Deus e desfrutar dele beatificamente, uma vez que naturalmente a criatura intelectual é bem-aventurada em si mesma (a. 5), pelo fato de que ela é Deus. Não se pode tornar mais perfeito que Cristo (a. 1); nem todos os begardos serão dessa opinião e, por exemplo, Jean Hartmann negará que Cristo tenha tido a liberdade do espírito, em Döllinger, ibid., p. 387.
Mas, se Cristo foi perfeito, o homem livre sê-lo-á tanto quanto ele, e seria decair abandonar as alturas da contemplação para deter o seu pensamento na paixão de Cristo ou na eucaristia; não se deve testemunhar respeito à hóstia consagrada no momento da elevação (a. 8). Segundo a justa observação de Delacroix, Essai sur le mysticisme spéculatif en Allemagne au XIVe siècle, p. 94-95, «nem o ascetismo nem o seu contrário decorrem necessariamente dos princípios panteístas que a seita tinha admitido; a liberdade em Deus pode ser concebida tanto como o afastamento de todo desejo quanto como o direito de deixar afluir ao coração todo desejo.»
Os begardos heterodoxos abraçaram este último partido, e concluíram do seu panteísmo o direito e o dever de agir segundo o instinto e a paixão. O homem perfeito é absolutamente impecável (a. 1); como não o seria, desde que Deus faz nele todas as suas obras? Ele não deve nem rezar, nem jejuar, nem observar os mandamentos da Igreja; ele está desligado de toda obediência humana, pois ubi est spiritus Dei ibi est libertas; a sensualidade está de tal modo subjugada ao espírito e à razão que ele pode conceder ao seu corpo tudo o que lhe apraz (a. 2, 3). Não há, portanto, pecado em cometer um ato carnal quando a natureza a isso inclina, quando a tentação a isso impele; pelo contrário, o mulieris osculum, menos grave em si mesmo que o ato carnal, seria um pecado grave se a natureza não a isso inclinasse (a. 7). É o fato de um homem imperfeito entregar-se à prática das virtudes (a. 6).
Pretendeu-se que os begardos tinham outros erros, que «parecem imaginados para justificar seus princípios contra as dificuldades que lhes opunham: tal é a proposição que diz que a alma não é essencialmente a forma do corpo; esta proposição parece ter sido avançada para explicar a impecabilidade, ou essa espécie de impassibilidade à qual os begardos tendiam; de explicá-la, digo, supondo que a alma podia separar-se do corpo». Pluquet. Tudo isso é inexato; a Clementina sobre a união da alma e do corpo, Clementinarum, l. III, tit. I, De summa Trinitate et fide catholica, c. 1, foi dirigida contra Pedro-João Olivi e motivada pelas explicações que ele dava ao sustentar que Cristo não estava morto quando recebeu o golpe de lança.
Longe de desaparecer após o concílio de Vienne, as heresias dos begardos foram se acentuando. O edito de João de Dürbheim, bispo de Estrasburgo (1317), enumera um número considerável de erros. A primeira, da qual todas as outras procedem, constata o bispo, é um panteísmo, do qual eis a fórmula: Dicunt se esse vel aliquos ex istis perfectos et sic unitos Deo quod sint realiter et veraciter ipse Deus, quia dicunt se esse illud idem et unum Esse quod est ipse Deus absque omni distinctione. Ex hoc articulo sequuntur multi alii articuli. Cf. Döllinger, Beiträge zur Sektengeschichte des Mittelalters, t. I, p. 389-390. Os blasfêmios contra Cristo e a eucaristia abundam, a existência do inferno e do purgatório é negada, a rédea é solta ao instinto e à paixão, etc.
Meio século mais tarde, Berthold de Rohrback ensinava que o homem livre não precisa de jejuns e de orações; que ele merece mais crédito que o Evangelho, que Cristo, na sua paixão, duvidou da sua salvação, amaldiçoou a santa Virgem e a terra que foi regada pelo seu sangue, etc. Cf. Raynaldi, Annal. eccl., an. 1353, n. 27. Mas o que importa ler sobretudo, para conhecer as aberrações intelectuais e morais dos begardos, são os interrogatórios de Jean de Brünn e de Jean Hartmann, publicados por W. Wattenbach, em Sitzungsberichte der K. preussischen Akademie der Wissenschaften zu Berlin, 1887, e (o segundo) por Döllinger, Beiträge zur Sektengeschichte des Mittelalters, t. II, p. 384-389; é impossível ter ideias mais baixas e agir de modo mais vil.
Será que isso quer dizer que todos os begardos heterodoxos tiraram das premissas que eles admitiam todas essas consequências teóricas e práticas? De modo algum. Houve certamente alguns que foram melhores que seus princípios. Mas, se não é permitido acolher indistintamente todos os maus boatos que circularam a seu respeito, se as acusações populares das quais eram objeto foram por vezes cegas e injustas, «testemunhos abundantes e formais nos obrigam a crer que, em certos casos, pelo menos, os sectários se deixavam levar à mais grosseira luxúria.», Lea, Histoire de l'Inquisition, trad. Reinach, t. I, p. 428.
O limite extremo dos transbordamentos parece ter sido atingido pela seita dos turlupins, na qual o papa Gregório XI vê uma variedade de begardos. Cf. Raynaldi, Annal. eccl., an. 1373, n. 19; aproximar de Gerson, Sermo de sancto Ludovico, em Opera, Paris, 1606, t. II, col. 763, e Wasmod de Hombourg, no seu tratado contra os begardos, composto por volta de 1400 e publicado por H. Haupt, em Zeitschrift für Kirchengeschichte, Gotha, 1885, t. VII, p. 574. Ver TURLUPINS.
De resto, à medida que se afastam das suas origens, os begardos perdem uma parte dos traços que os diferenciavam nitidamente dos outros heréticos. Suas doutrinas se confundem, mais ou menos, não somente com as dos sectários oriundos, como os begardos, dos irmãos do livre espírito, tais como os lolardos, os luciferianos, os turlupins, os homens da inteligência, mas ainda, a um grau variável, com as outras seitas contemporâneas: valdenses, apostólicos, fraticelos, flagelantes, etc. Em particular, eles compartilham o ódio implacável da heterodoxia do século XIV contra a Igreja de Roma.
I. FONTES ANTIGAS. — O documento capital, do ponto de vista teológico, é, nas Clementinas, o c. 1 do l. V, tit. 117, De hereticis; veja-se ainda, nas Clementinas, o c. 1 do l. II, tit. xi, De religiosis domibus ut episcopo sint subjecte. Um grande número de documentos foi publicado por J. L. Mosheim, De beghardis et beguinabus commentarius, veja-se sobretudo a reedição de G. H. Martini, com um duplo apêndice, Leipzig, 1790; a bula publicada p. 284, e que João XXII teria lançado contra os begardos, em 1330, com Vincipit Im agro dominico, é imaginária; cf. H. Denifle, Archiv für Litteratur und Kirchengeschichte des Mittelalters, Berlim, 1886, t. I, p. 640. Há algumas bulas em Raynaldi, Annal. eccl., nomeadamente an. 1353, n. 26, an. 1365, n. 17, an. 1373, n. 19; cf. an. 1372, n. 34. Talvez haja uma alusão aos begardos no De imitatione Christi, l. I, c. 1, n. 3; l. II, c. 1, n. 4; cf. A.
Loth, na Revue des questions historiques, Paris, 1874, t. XV, p. 140-141, e aproximar disto P.-E. Puyol, La doctrine du livre De imitatione Christi, Paris, 1898, p. 59-60, e L’auteur du livre De imitatione Christi, Paris, 1899, p. 377-387.
Entre os autores que falaram dos begardos seus contemporâneos, citemos o franciscano Álvares Pelágio, De planctu Ecclesix (escrito por volta de 1330), Veneza, 1560, l. II (fragmentos são reproduzidos em Raynaldi, Annal. eccl., an. 1382, n. 47-48, an. 1384, n. 57-61); Gerson, em Opera, Paris, 1606, t. I, col. 342, 463, 523, 574, 588, 638; t. II, col. 763, 774, 786; t. III, col. 59, 258, etc.; Félix Hemmerlin, cf. G. Brunet, Manuel du libraire et de l’amateur de livres, 5ª ed., Paris, 1862, t. II, p. 93-94.
Textos de grande importância foram recentemente publicados por H. Haupt, Beiträge zur Geschichte der Sekte vom freiem Geiste und des Beghardentums, em Zeitschrift für Kirchengeschichte, Gotha, 1885, t. VII, p. 503-576, e Zwei Traktate gegen Beguinen und Begharden, ibid., 1890, t. XII, p. 85-90; por W. Wattenbach, Ueber die Sekte der Brüder vom freiem Geiste, em Sitzungsberichte der K. preussischen Akademie der Wissenschaften zu Berlin, 1887, p. 517-544; por I. von Döllinger, Beiträge zur Sektengeschichte des Mittelalters, Munique, 1890, t. II, p. 378-417, 702-705.
Documentos sobre a beguina Margarida Porete foram publicados por H. C. Lea, A history of the Inquisition of the middle ages, Nova York, 1888, t. III, p. 575-578 (não reproduzidos na tradução francesa de Sal. Reinach), e por Ch.-V. Langlois, Revue historique, Paris, 1894, t. LIV, p. 296-297, 297-299.
II. TRABALHOS MODERNOS. — W. Preger, Geschichte der deutschen Mystik im Mittelalter, Leipzig, 1874, t. I; A. Jundt, Histoire du panthéisme populaire au moyen âge et au xviie siècle, Paris, 1875; H. C. Lea, A history of the Inquisition of the middle ages, Nova York, 1888, t. II, p. 349-444; trad. fr. por Sal. Reinach, Paris, 1904, p. 383-496; H. Delacroix, Essai sur le mysticisme en Allemagne au xive siècle, Paris, 1899, p. 77-134.
Veja-se, além disso, os trabalhos citados no curso deste artigo, sobretudo o livro de Mosheim e os artigos de Haupt e de Wattenbach, e aqueles que estão indicados em Ulysse Chevalier, Répertoire des sources historiques. Topo-bibliographie, col. 347.
Autor original: F. Vernet
A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor