BAYLE (PIERRE)

BAYLE (PIERRE)

BAYLE Pierre, nascido em 18 de novembro de 1647, no burgo de Carlat, no condado de Foix; seu pai, Jean Bayle, exercia neste local as funções de ministro da religião reformada. Pierre Bayle recebeu no lar paterno as primeiras lições de latim e grego; enviado em 1666 à academia de Puylaurens, dedicou-se ao estudo com um ardor extremo, lendo tudo o que lhe caía nas mãos, sem excetuar os livros de controvérsia teológica.

Veio à universidade de Toulouse em fevereiro de 1669 e seguiu os cursos de filosofia que se ministravam no colégio dos jesuítas. As dúvidas que a leitura dos controversistas católicos lhe havia inspirado sobre a legitimidade da Reforma avolumaram-se, então, nos diálogos que manteve com um padre católico; resolveu abjurar o calvinismo e fê-lo em 19 de março seguinte. Esta conversão foi demasiado rápida para ser duradoura: contudo, valeu ao jovem estudante a proteção de Bertier, bispo de Rieux, que se encarregou das despesas do seu sustento.

Em 1670, Bayle defendeu com brilho as suas teses dedicadas Virgini Deiparx. Mas, após uma tentativa, aliás infrutífera, para conduzir ao catolicismo o mais velho dos seus irmãos, começou a duvidar da sua nova religião. O culto excessivo que via prestar às criaturas tendo-lhe parecido muito suspeito e a filosofia tendo-lhe permitido compreender melhor a impossibilidade da transubstanciação, concluiu que havia sofisma nas objeções às quais sucumbira e que devia retornar ao protestantismo. Deixou, pois, Toulouse em 19 de agosto de 1670, abjurou dois dias depois e partiu imediatamente para Genebra.

Lá, seguiu as lições do filósofo cartesiano Chouet, cujas ideias adotou. Foi em Genebra que encontrou Basnage e, graças à amizade obsequiosa deste, entrou como preceptor na casa do conde de Dhona, depois na de um rico comerciante de Ruão. Foi ainda por intermédio de Basnage que Bayle pôde obter uma cátedra de filosofia na academia protestante de Sedan.

Após o decreto que suprimiu a academia (1681), Bayle foi chamado a Roterdão para ensinar filosofia e história na Escola ilustre, que acabava de se abrir em favor dos refugiados franceses; ali reencontraria um dos seus colegas de Sedan, Jurieu, a quem fora confiada a cátedra de teologia. Doravante, a história da sua vida confunde-se com a dos seus livros.

As primeiras obras de Bayle são puramente filosóficas: uma dissertação metafísica De tempore, que lhe valeu a cátedra vacante na academia de Sedan; o seu Systeme de philosophie, compreendendo as lições ditadas aos seus alunos; uma Dissertatio in qua vindicantur @ peripateticorunr exceptionibus rationes quibus ali- qui cartesiani probarunt essentiamr corporis silanr esse in extensione; nela sustenta, contra um jesuíta, o Pe. Valois, a teoria cartesiana sobre a essência dos corpos e declara-a incompatível com a transubstanciação definida pelo concílio de Trento; enfim, observações críticas sobre as Cogitationes rationales de Poiret; encontram-se no t. IV das Œuvres diverses, Haia, 1727.

Publica em 1682 as suas Pensées diverses, escritas a um doutor da Sorbonne por ocasião de um cometa que apareceu no mês de dezembro de 1680. A obra apareceu primeiramente sob o véu do anonimato e sob o título de Lettre ad M. L. A. D. C., docteur de Serbonne, ow il est prowé par plusieurs rai- sons lirées de la philosophie et de la théologie que les cométes ne sont le présage d’aucun malheur, in-12, Colónia, 1682; uma segunda edição apareceu em Roterdão em 1683, 2 in-12. O objetivo deste livro é mostrar a absurdidade do preconceito popular e a inanidade das razões pelas quais se pretenderia justificá-lo.

Uma objeção bizarra que Bayle expõe e refuta longamente leva-o a expor opiniões muito singulares sobre o ateísmo. Se se pretendesse que Deus forma os cometas para revelar aos pagãos a existência da sua providência e para impedi-los de cair num ateísmo destruidor de toda a sociedade humana, seria preciso responder, segundo Bayle, que uma intervenção deste género é inadmissível, pois só a idolatria beneficiaria com ela e Deus não pode querê-lo; além disso, o ateísmo, bem vistas as coisas, valeria mais do que a idolatria; o ateísmo, com efeito, não conduz necessariamente à corrupção dos costumes, tal como o cristianismo não conduz necessariamente à santidade; uma sociedade de ateus poderia muito bem conceber-se, organizar-se e viver conformando-se aos princípios de urbanidade, de honra e de justiça naturais ao homem; estes princípios, fortemente sancionados pela lei civil, são mais eficazes do que a fé nos dogmas de uma religião revelada; há ateus irrepreensíveis apesar do seu ateísmo e muitos cristãos são viciosos apesar das suas crenças.

Esta apologia velada do ateísmo valeu ao seu autor uma multidão de críticas; Jurieu, entre outros, na sua Courte revue des macinees de morale et des principes de religion de Vau- teur des Pensées diverses sur les cométes, denuncia-o como um ateu mal dissimulado, como um inimigo de todas as religiões e assinala-o ao consistório de Roterdão. Bayle defendeu-se numa Addition aux Pensées diverses sur la coméete, 1691; mais tarde, voltando ainda sobre este mesmo assunto, publica uma Continuation des Pensées diverses... ou réponse a plusieurs dif- ficultés que Monsieur **“ a proposées a Vauteur, Roterdão, 1704.

No mês de junho de 1682, apareceu a Critique générale de V'Histowe du caluinisme du P. Mainrbourg. A obra - publicada em Villefranche, isto é, em Amesterdão, primeiramente sem nome de autor, compreendia trinta cartas supostamente endereçadas a um gentil-homem da região do Maine e publicadas por este à revelia daquele que as escrevera. Bayle nomeou-se na 2.ª edição, em novembro de 1682; 3.ª edição em maio de 1684. Bayle não pretende refazer toda a história do calvinismo, mas apenas retificar em certos pontos os relatos do Pe. Maimbourg e sobretudo arruinar os argumentos que este extraía dos factos contra a legitimidade da Reforma. A violência à qual os protestantes recorreram demasiado frequentemente, a imoralidade notória dos primeiros chefes do protestantismo, infiéis aos seus votos de castidade, a revolta contra a autoridade do príncipe e da Igreja constituíam, contra a legitimidade da Reforma, uma séria objeção. Bayle esforça-se por eludir o seu rigor por uma série de argumentos ad hominem.

Essas violências e essas desordens que se censuram aos reformados, encontram-se outras semelhantes e piores entre os católicos (lettre VII, IX); se os calvinistas franceses se revoltaram, foi porque os reis da França foram os primeiros a desconhecer em seus súditos a liberdade de consciência (lettre XVI); se eles erraram ao se apegarem a doutrinas que a Igreja romana condena como heréticas, por que as pretensões dos soberanos pontífices à infalibilidade repousam sobre textos equívocos, sobre provas incertas, diversamente interpretadas pelos teólogos mais ortodoxos?

Aproveitando habilmente as restrições trazidas pelos galicanos à autoridade do papa, de suas discussões sobre o sujeito e as condições da infalibilidade, das contradições flagrantes que existem entre seus princípios e sua conduta, ele os acusa de desconhecer em direito e em fato essa autoridade soberana que eles censuram os protestantes de desdenhar. Essa argumentação é picante na boca de um reformado; teria sido difícil aos teólogos galicanos responderem-na de uma maneira plenamente satisfatória.

Ademais, Bayle não se detém aí: ele nega completamente a infalibilidade da Igreja. Na França, observa ele, sustenta-se livremente que a Igreja está sujeita ao erro nas questões de fato; mas então sua infalibilidade pretendida não é mais que uma palavra vã, pois toda definição dogmática se resolve a uma questão de fato: definir um artigo de fé não é, antes de tudo, declarar que uma doutrina está de fato contida na revelação? Se, portanto, se pode negar à Igreja a infalibilidade nas questões de fato, não resta mais nada do privilégio que se lhe atribui (lettre XXIX).

A Critique de l’Histoire générale du calvinisme não poderia deixar de agradar aos protestantes; três edições foram rapidamente esgotadas; na França, a obra foi queimada publicamente pela mão do carrasco. O P. Maimbourg não respondeu ao seu contraditor, mas este encontrou outros críticos.

Nas Nouvelles lettres sur l’Histoire du calvinisme, Villefranche (Amsterdam), 1685, Bayle assinala as mais importantes das censuras que lhe endereçam: censurou-se seu ceticismo histórico, sua tolerância levada até a inteira indiferença; fizeram ver as consequências funestas que decorrem de suas teorias sobre os direitos da Igreja e dos soberanos.

Bayle não se dá ao trabalho de responder a tudo: ele explica seu ceticismo recordando as dificuldades que encontra o historiador, quando se trata de deslindar a verdade na multidão dos documentos contraditórios (lettre I sq.); os direitos da consciência errante iguais em tudo, quando a boa-fé acompanha o erro, aos direitos da consciência verdadeira, explicam e justificam a tolerância absoluta que ele reclama (lettre IX); depois, retomando mais uma vez a questão do casamento dos primeiros reformadores, ele os desculpa sustentando que suas intenções eram puras e que lhes teria sido fácil, permanecendo na Igreja romana, abandonarem-se impunemente às suas más paixões.

A revogação do Édito de Nantes irritou profundamente os protestantes na França e no estrangeiro. Bayle queixa-se disso com amargura no opúsculo intitulado: Ce que c’est que la France toute catholique sous le règne de Louis le Grand. Este escrito é uma réplica a uma obra de mesmo título publicada em 1685, em Lyon, por um novo convertido do nome de Gautereau. Das três peças que o compõem, a primeira é uma carta supostamente endereçada da Inglaterra a um padre francês por um huguenote refugiado; ela contém uma crítica muito viva da política de Luís XIV, da conduta do clero e dos católicos da França; a segunda é uma curta carta desse padre, transmitindo a um outro protestante o documento que ele recebeu; a terceira é a resposta deste último.

O autor desta carta anuncia, ao terminá-la, que um sábio presbiteriano inglês, bom filósofo, fez um Commentaire philosophique sur les paroles de J.-C. « Contrain-les d’entrer », comentário ainda inédito, do qual se prepara uma tradução francesa. Este comentário não era de um presbiteriano inglês, mas de Bayle mesmo; ele apareceu em 1686, 2 in-12, em Cantorbéry (Amsterdam), como traduzido do inglês do senhor Fox de Bruggs pelo Sr. J. F.; ed. alemã, 2 in-2, Hamburgo, 1688. Bayle aí sustenta « que não há nada de mais abominável que fazer conversões pela coação e combate todos os sofismas dos convertidores à coação e em particular a apologia que saint Augustin fez das perseguições ».

Nas palavras: Compelle intrare, Luc., XIV, 23, muitos viam um argumento em favor das medidas rigorosas adotadas pelo rei da França. Bayle esforça-se para mostrar que essas palavras não podem nem devem ser tomadas no sentido literal. Assim compreendidas, elas são desarrazoadas, pois é absurdo exigir pela violência um assentimento que deve ser livre; contrárias ao Evangelho, que prega a doçura e não a coação; cheias de consequências desastrosas para a Igreja católica ela mesma, cujo passado inteiro protesta contra os perseguidores e cujo apostolado se tornaria impossível nas regiões infiéis, se nelas se conhecesse seu espírito de intolerância.

De todas as razões que se alegam para justificar essa interpretação, nenhuma se sustenta. A violência, diz-se, pode levar à reflexão dos espíritos obstinados, rebeldes a toda outra influência; Deus pelo menos pode servir-se deste meio para tocar os corações; a lei mosaica autorizava o emprego deste processo e os príncipes protestantes não hesitaram em servir-se dele.

A violência, responde Bayle, não é o verdadeiro meio de esclarecer as inteligências desviadas; sua pouca eficácia mostra que Deus se refusa a utilizá-la; tolerada sob a antiga lei, mas raramente aplicada, ela servia apenas contra aqueles que abalavam até os fundamentos da lei mosaica; o que os príncipes protestantes perseguem no catolicismo, não é sua falsidade, mas sua intolerância. Se essa política permite às seitas mais bizarras nascerem e se multiplicarem ao infinito, melhor vale incorrer « nessa enorme bigarrura das seitas, desfigurando a religião, que nos massacres, nos gibões, nas dragonadas e em todas as cruéis execuções por meio das quais a Igreja romana tentou conservar a unidade sem poder conseguir » (IIe part., ch. VI).

Que se deixe cada um à sua consciência, mesmo se ele se engana; a consciência errônea que se crê na verdade tem os mesmos direitos que a consciência ortodoxa. A IIIª parte da obra é consagrada inteiramente ao exame da carta de santo Agostinho ao bispo donatista de Cartago Vincentius (Epist., XC, P. B. t. XXXIII, coll. 321).

O santo doutor aí expõe suas visões sobre a repressão da heresia e os motivos que explicam e justificam a intervenção do poder imperial nessas matérias. Santo Agostinho, que conhece bem os direitos da verdade, não suspeita dos direitos da consciência errante e raciocina em consequência. Bayle segue passo a passo a sua argumentação, critica-a de acordo com os seus princípios e descobre que o bispo de Hipona raciocina de uma maneira lamentável.

Ora, neste mesmo momento, Jurieu raciocinava como santo Agostinho e, no seu Traité des droits des deux souverains en matière de religion, Roterdão, 1687, afirmava que os príncipes devem sustentar a verdade e combater o erro e as seitas, que querer negá-lo é um extremo tão vicioso que chega a ser loucura; que a teoria dos pretensos direitos da consciência errante é um encaminhamento para o deísmo. Um curto prefácio ao Supplément du commentaire philosophique, in-12, Hamburgo, 1683, contém a resposta de Bayle: ele não fez mais do que tirar as consequências necessárias de um princípio incontestável; os protestantes não podem negá-lo sem se condenarem a si mesmos e o próprio Jurieu formulou-o expressamente no seu Vrai système de l’Eglise. O Supplément du commentaire philosophique deve fornecer uma demonstração mais rigorosa deste princípio e «acabar de arruinar a única escapatória que restava aos adversários ao demonstrar o direito igual dos heréticos para perseguir ao dos ortodoxos».

Deve-se atribuir a Bayle o famoso Avis important aux réfugiés sur leur prochain retour en France, dado como presente de ano-bom a um deles em 1690, por Monsieur C. L. A. A. P. D. P., in-12, Roterdão, 1690? O misterioso autor deste aviso repreende vivamente os refugiados franceses pelos seus libelos satíricos que não respeitam nada e pelos seus escritos sediciosos, onde se exalta a soberania do povo em desprezo dos direitos do príncipe; ele adverte-os de que, antes de pensar em regressar a França, deverão sujeitar-se a uma quarentena moral e purificar o seu espírito dos erros que o infetam.

Jurieu acreditou reconhecer neste libelo a obra de Bayle e acusou-o abertamente de ser o seu autor; sustentou mesmo que Bayle traía a causa protestante e conspirava contra os reformados com alguns outros cúmplices ao soldo do rei de França. Bayle declarou-se caluniado e publicou para sua defesa numerosos opúsculos, dos quais os mais importantes são: La cabale chimérique ou la Réfutation de l’histoire fabuleuse et des calomnies que M. Jurieu vient de publier, etc., in-12, Roterdão, 1691, e la Chimère de la cabale de Rotterdam démontrée par les prétendues convictions que le Sr. Jurieu a publiées contre M. Bayle, Amesterdão, 1691. De Bayle ou de Jurieu, a quem se deve acreditar? A questão, outrora discutida, permanece ainda duvidosa. Cf. Realencyklopädie für protestantische Theologie und Kirche, art. Bayle.

Jurieu não cessava de repreender Bayle pela sua indiferença e pelo seu ateísmo; cansado, sem dúvida, de se defender, este último tomou a ofensiva e publicou, sob o título de Janua coelorum reserata cunctis religionibus a celebri admodum viro D. P. Jurieu, in-4°, Roterdão, 1692, observações sobre a famosa obra do seu adversário, o Vrai système de l’Eglise. Demonstra, com uma lógica rigorosa, que os princípios do seu irreconciliável inimigo conduzem necessariamente a um indiferentismo absoluto. Se é verdade, diz ele, que a verdadeira Igreja é universalmente espalhada e que ela se compõe de todas as sociedades que não erraram in fundamentalibus, como as sociedades protestantes não podem pretender ao monopólio da ortodoxia, uma vez que não possuem, por si sós, a extensão que convém à verdadeira Igreja, devem necessariamente aceitar como ortodoxas outras sociedades cristãs.

Mas quais? As Igrejas cismáticas orientais, sem dúvida. Mas reconhecer os gregos como membros da verdadeira Igreja é obrigar-se a reconhecer também como tais os católicos romanos, cuja fé é quase a mesma. Repreende-se-lhes como uma idolatria o culto que prestam à eucaristia e aos santos; mas a boa-fé pode desculpá-los perante Deus. Se se aceita como ortodoxa a Igreja romana, será preciso, pelas mesmas razões, aceitar não apenas todas as seitas cristãs, mas ainda as seitas judaicas, muçulmanas, e todas as outras, ainda que fossem politeístas. À primeira vista, esta afirmação parece não passar de um paradoxo, pois não há nada de comum entre o cristianismo e o paganismo. Mas entre estes dois extremos, existe uma série de seitas intermediárias tão próximas que parecem confundir-se, tão multiplicadas que, acumulando-se as divergências entre as primeiras e as últimas, existe um abismo intransponível. E, visto que é impossível dizer quais religiões são substancialmente falsas, é preciso admitir que todas conduzem ao céu e colocar acima das portas da celeste cidade esta convidativa inscrição: Porta patens esto, nulli claudatur honesto.

Jurieu ficou extremamente mortificado com as críticas de Bayle, mas não lhes deu nenhuma resposta direta e afetou ignorá-las. Continuando a luta em outro terreno, denunciou o seu adversário ao consistório flamengo, recordou as teorias ímpias emitidas no livro sobre o cometa e, finalmente, conseguiu que lhe retirassem o seu cargo de professor, a sua pensão e até o direito de ensinar.

Bayle aceitou filosoficamente esta desgraça que lhe criava tempos livres e, continuando contra Jurieu a sua polémica ora ofensiva, ora defensiva, dedicou-se inteiramente à composição da mais importante das suas obras: o Dictionnaire historique et critique. O primeiro volume apareceu em 1695, o segundo em 1697, em Roterdão, in-fol.; 2ª ed., Roterdão, 1792. Bayle toca em todo o tipo de questões nesta vasta enciclopédia: questões de história sagrada ou profana, antiga ou moderna, questões de crítica literária ou filosófica, de teologia e de mitologia, sugeridas pelo nome dos escritores de que trata. Mas a espantosa erudição com que ele trata assuntos tão diversos não pode fazer esquecer a extrema liberdade da sua linguagem e das suas ideias.

Desde o seu aparecimento, a obra causou escândalo. Os comissários do consistório da Igreja valã, encarregados de a examinar, repreendem-lhe «reflexões sujas, expressões e questões pouco honestas e quantidades de expressões obscenas». Repreendem-lhe ainda as suas simpatias pelas doutrinas maniqueístas (art. Manichéens, Marcionites, Pauliciens), tendências céticas (art. Pyrrhon), os elogios exagerados que faz aos ateus e aos epicuristas (art.

Épicure), as dificuldades que opõe ao dogma da providência, que exagera até ao ponto de as fazer passar por insolúveis. Bayle defendeu-se pretendendo que lhe imputavam a responsabilidade de doutrinas e objeções que expunha sem as aceitar e prometeu corrigir o que lhe provassem digno de correção. Algumas modificações foram, de facto, introduzidas na segunda edição, mas apenas quanto à forma.

Entretanto, a discussão continuava sobre a questão do maniqueísmo. Em 1699, um protestante de Genebra, Jean Le Clerc, sob o pseudônimo de Théodore Parrhase, publicava Parrhasiana ou Pensées diverses sur les matières de critique, d’histoire, de morale et de politique, 2 vol. in-12, Amsterdã, 1701, que contêm um capítulo sobre Bayle. Ele sustentava que a doutrina de Orígenes bastava por si só para levantar todas as dificuldades relativas à origem do mal, e concluía que, se uma doutrina tão incompleta é capaz de oferecer tal solução, a fortiori a doutrina verdadeira e completa sê-lo-á.

Um cartuxo, Gaudin, fez aparecer em 1704 um tratado: De la distinction et de la nature du bien et du mal... onde combate os erros dos maniqueístas, os sentimentos de Montaigne e de Charron e os do Sr. Bayle, in-12, Paris; ele prova aí que o sistema dos dois princípios é falso, absurdo e visivelmente contrário às ideias do Ser infinitamente razoável.

Bayle responde ao primeiro, na segunda edição do seu Dicionário; ele concede que, ao negar a eternidade das penas, retira-se da doutrina dualista uma de suas melhores objeções, mas observa que nenhum ortodoxo quererá aproveitar essa vantagem, uma vez que a eternidade do inferno é um dogma de fé; consequentemente, a tese de J. Le Clerc é insustentável. Ao segundo, ele concede que o dualismo é evidentemente absurdo: mas essa absurdidade, por mais palpável que seja, não retira nada da força das objeções que se pode fazer à tese ortodoxa.

Bayle tinha acumulado uma quantidade de notas e traços que não puderam encontrar lugar ali; ele fez disso uma obra à parte, que publicou sob o título de: Réponse aux questions d'un provincial; o primeiro volume apareceu em 1703 e o quinto, após a morte de Bayle. Estas notas são relativas sobretudo a diversas questões curiosas da história antiga ou moderna; todavia, a discussão teológica ocupa ali um largo espaço. Encontra-se, na 2ª parte, uma crítica do livro do bispo anglicano de Londonderry, King, sobre a Origem do mal; a 3ª parte contém observações sobre a prova da existência de Deus, extraída do unânime acordo dos povos; este argumento, descartado por Bayle em sua Continuation des pensées sur la comète, tinha sido retomado e defendido pelo protestante Bernard, nas suas Nouvelles de la république des lettres de 1703; encontra-se ali também uma resposta a um outro adversário de Bayle, Jacquelot, capelão do rei da Prússia, que acabava de publicar um tratado de La conformité de la foi avec la raison, ou la défense de la religion, contre les principales difficultés des sceptiques.

Bayle combate ainda a hipótese das naturezas plásticas, imaginada por Cudworth e retomada por Le Clerc; admitir a existência desses seres plásticos, imateriais, que inconscientemente organizam os seres vivos, é, segundo Bayle, enfraquecer a objeção mais embaraçosa que se possa fazer aos ateus: se não é necessário admitir a existência de uma causa inteligente para explicar a formação do animal, por que essa causa inteligente que chamamos Deus seria indispensável para explicar a formação do universo?

Na Réponse pour M. Bayle a M. Le Clerc, publicada por volta da mesma época, e nos Entretiens de Maxime et de Thémide, in-12, Roterdã, 1707, ele continua essas mesmas controvérsias e reprova aos seus dois adversários, Le Clerc e Jacquelot, a insuficiência de suas explicações sobre a origem do mal, a fraqueza de sua argumentação contra o pirronismo e a inutilidade de sua polêmica contra sua doutrina, incontestavelmente ortodoxa. Esta obra estava no prelo quando Bayle morreu, em 28 de dezembro de 1706.

Duvidar sem negar abertamente, discutir sem esperança e sem desejo de chegar à verdade, procurar as dificuldades e multiplicar as objeções, embaraçar o adversário por argumentos sutis ou sofisticados que ele nem sempre ousa tomar para si, eis a obra e o procedimento de Bayle. "Toda a sua filosofia", diz o Sr. Bouillier, Histoire de la philosophie cartésienne, t. II, c. xx, "parece não ser mais que disputa e controvérsia. Que filósofo célebre de seu tempo ele não provocou à discussão e que verdade da fé do gênero humano ele consentiu em deixar em repouso?" "Eu não sou", escrevia ele mesmo ao Pe. Tournemine, "senão Júpiter ajuntador de nuvens; meu talento é formar dúvidas, mas não são senão dúvidas."

No meio dessas nuvens que ele se compraz em formar, a liberdade do homem e a imortalidade da alma desaparecem. "O livre-arbítrio", diz ele na sua Réponse aux questions d'un provincial, carta cxlvii, "é uma matéria tão embaraçada e tão fecunda em equívocos, que, quando se a trata a fundo, contradiz-se mil vezes e, na metade do tempo, mantém-se a mesma linguagem que os seus antagonistas, e forjam-se armas contra a sua própria causa por proposições que provam demais, que podem ser retorquidas, que se ajustam mal com outras coisas que se disseram." Há a favor e contra a espiritualidade da alma, a favor e contra sua imortalidade, argumentos que se equivalem; sua natureza e seus destinos são um mistério. O homem é, portanto, "um caos mais emaranhado que o dos poetas".

Mas em Deus, quantas contradições! Quem conseguirá conciliar sua imutabilidade com sua liberdade, sua imaterialidade com sua imensidade e, sobretudo, sua providência com o mal físico ou moral cuja existência é tão evidente quanto a origem é obscura? É sobre este último ponto que Bayle insiste com mais vivacidade e que discute mais frequentemente. Suas controvérsias com Le Clerc, Jacquelot e King giram sobre este assunto; ele retorna a isso nos artigos do Dictionnaire consagrados quer aos filósofos e às seitas dualistas, quer aos seus adversários (art. Maniqueístas, Marcionitas, Paulicianos, Orígenes, etc.). Ele expõe ali todos os argumentos que foram feitos valer e que poderiam ser apresentados em favor das doutrinas dualistas.

Sem tomá-los abertamente para si, ele observa que "o falso dogma do duplo princípio, insustentável desde que se admita a Escritura, seria bastante difícil de refutar, sustentado por filósofos aguerridos à disputa; foi uma felicidade que Santo Agostinho, que sabia tão bem todos os ardis da controvérsia, abandonasse o maniqueísmo; pois ele teria sido capaz de afastar os erros mais grosseiros e de fabricar, do resto, um sistema que, entre suas mãos, teria embaraçado os ortodoxos" (art. Maniqueístas).

Na presença de tais obscuridades, a razão deve confessar-se impotente; "ela não pode esclarecê-las: ela não é própria senão para formar dúvidas e para virar-se à direita e à esquerda para eternizar uma disputa" (art. Maniqueístas, nota P). Bayle acrescenta que ela "não é própria senão para fazer conhecer ao homem as suas trevas e a sua impotência, e a necessidade de uma outra revelação" (ibid.).

Sua atitude em relação a essa revelação que ele declara necessária varia segundo as circunstâncias. Aliás, apresenta-a como a hipótese mais difícil de sustentar (art. Simonide, notas). Ora ele a proclama infinitamente acima da razão, ora a acusa de estar em contradição flagrante com ela (art. Simonide, notas, Pyrrhon, etc.), ora a subordina inteiramente à razão e não quer interpretá-la senão por suas únicas luzes. Commentaire philosophique sur le Compelle intrare.

Encontra-se a mesma atitude equívoca e pérfida com relação à Escritura, aos fatos que ela relata, aos milagres e às profecias que ela contém. Vigouroux, Les Livres saints et la critique rationaliste, l. III, c. 1, t. II, p. 204.

Perfeitamente lógico em seu ceticismo, ele não recua diante de nenhuma consequência de seu sistema. Se a verdade é inacessível, que ninguém imagine ter o seu monopólio e, sobretudo, que ninguém pretenda impô-la aos outros. A consciência errante tem os mesmos direitos que a consciência verdadeira. Poder-se-ia, a rigor, passar sem qualquer crença, ignorar a Deus, e as coisas iriam exatamente da mesma forma. Por seus ataques, diretos ou velados, contra os dogmas cristãos, Bayle antecipa e prepara Voltaire; por seu ceticismo e sua independência com relação a qualquer ortodoxia, ele abre as vias ao protestantismo liberal.

I. BIBLIOGRAFIA. — La Vie de Bayle, por Des Maizeaux, reproduzida na edição completa de 1740; a nota colocada na dita; a edição de Prosper Marchand, 4 in-fol., Roterdã, 1720, e as duas edições de Des Maizeaux, 4 in-fol., Amsterdã, 1730 e 1740, são as mais procuradas. A edição de Trévoux, em 5 in-fol., 1734, contém as observações críticas feitas pelo abade L.-J. Leclerc, padre de Saint-Sulpice, sobre diversos artigos. Beuchot deu em 1824 outra edição em 16 in-8°, com as notas de diferentes autores; uma tradução inglesa foi publicada por Birch e Lochman, 10 in-fol., de 1734 a 1741; as Œuvres diverses de Bayle foram reunidas e editadas em 1727 e em 1737, por Des Maizeaux, 4 in-fol., Haia. As obras de Bayle foram colocadas no Index por diferentes decretos: 18 de novembro de 1698; 31 de março de 1699; 23 de novembro de 1699; 29 de agosto de 1701; 3 de abril de 1731; 17 de julho de 1734 e 10 de maio de 1757. sophiques, art. Bayle, Paris, 1875; Bouillier, Histoire de la philosophie cartésienne, Paris, 1854, t. I, p. 461-487; Lichtenberger, Encyclopédie des sciences religieuses, Paris, 1877; Hauck, Realencyclopädie, Leipzig, 1897; Vigouroux, Les Livres saints et la critique rationaliste, Paris, 1886, t. I, p. 198-209; Damiron, Mémoire sur Bayle et ses doctrines, Paris, 1850; Grande Encyclopédie, art. Bayle, por M. Picavet; Lenient, Étude sur Bayle, 1855; Pillon, em L'Année philosophique, 1896 sq.

Autor original: V. Oblet

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