BARUC

BARUC

BARUCH (hebraico: Baruk, que significa "abençoado"; Septuaginta: Βαρούχ; Vulgata: Baruch), autor de um dos livros do Antigo Testamento.

I. O profeta. II. Divisão e análise do livro. III. Autenticidade e canonicidade. IV. Texto e versões.

I. O PROFETA. — Baruch, filho de Nérias, Bar., 1, 4, era o discípulo e o secretário do profeta Jeremias. Jer., XXXII, 12; XXXVI, 4, 10, 32. Ele pertencia a uma ilustre família da tribo de Judá. Jer., LI, 59; Josefo, Ant. jud., X, IX, 1. Seu irmão Saraia fazia parte da corte do rei Sedecias e ele ocupava um posto importante.

Baruch foi constantemente ligado à pessoa e ao destino de Jeremias. No quinto ano do reinado de Joaquim, filho de Josias, ele leu ao povo reunido e a Gamarias as profecias de Jeremias que ele havia escrito sob sua ditada. Jer., XXXVI, 8-10. Ele as leu também aos grandes da corte. Jer., XXXVI, 14, 15. O rei Joaquim, advertido do que havia acontecido, mandou que lhas lessem por Judi e ordenou que lançassem o volume ao fogo, Jer., XXXVI, 20-23; ele quis até mesmo apoderar-se de Baruch e de Jeremias, mas Deus os escondeu, v. 26. Obedecendo a uma ordem divina, v. 27, Jeremias fez escrever novamente suas profecias por Baruch, v. 32.

Baruch já havia sido acusado de ser partidário dos babilônios e de inspirar a Jeremias seus sentimentos. As provações às quais ele foi exposto lançaram-no no desencorajamento. Jer., XLV, 3. Deus o tranquilizou e ele retomou a coragem, v. 5. Sob o rei Sedecias, ele foi lançado na prisão com Jeremias, e nela permaneceu até a tomada de Jerusalém. Após a tomada de Jerusalém, ele retirou-se a Masphath com seu mestre. Ele foi então forçado a seguir os judeus ao Egito. Jer., XLIII, 6, 7. Ele dirigiu-se mais tarde a Babilônia, onde terminou seus dias. Sobre as lendas, a Bíblia, t. I, col. 1745, e APOCALYPSES APOCRYPHES, t. I.

II. DIVISÃO E ANÁLISE DO LIVRO. — A profecia de Baruch divide-se em duas partes principais: 1º I-III, 8; 2º III, 9-V. A carta de Jeremias, VI, é um apêndice.

A primeira parte contém: 1º uma introdução composta de um prólogo histórico, I, 1-9, e da carta dos judeus exilados em Babilônia aos seus irmãos de Jerusalém, I, 10-14; 2º um longo discurso do povo onde dominam duas ideias principais: 1. O povo reconhece sinceramente que seus pecados são a causa de suas desgraças, I, 15-II, 1. 2. Ele invoca a misericórdia de Deus, e o suplica que ponha um termo aos seus males, II, 1-8.

A segunda parte é um discurso do profeta: 1º Ele exorta seus irmãos a procurar a verdadeira sabedoria e a converter-se a Deus, III, 9-IV, 8. 2º Ele consola o povo em suas infortúnios, e assegura-lhe ao mesmo tempo que Deus o libertará, IV, 9-29. 3º Ele se dirige diretamente a Jerusalém e lhe prediz um futuro feliz; seus inimigos serão castigados e seus filhos voltarão do cativeiro, IV, 30-V.

A carta de Jeremias forma na Vulgata o capítulo VI do livro de Baruch; no texto grego, ΕΠΙΣΤΟΛΗ ΙΕΡΕΜΙΟΥ, ela constitui um trecho à parte. Esta carta é endereçada aos judeus cativos em Babilônia: πρὸς τοὺς ἀποσταλησομένους αἰχμαλώτους εἰς Βαβυλῶνα etc. É uma calorosa exortação que o profeta endereça a seus irmãos para desviá-los do culto aos ídolos, ao qual estavam expostos na terra de exílio. É por ordem de Deus que ele lhes escreve: ἀναγγεῖλαι αὐτοῖς καθὼς ἐπετάγη αὐτῷ ὑπὸ τοῦ Θεοῦ, v. 4.

III. AUTENTICIDADE E CANONICIDADE. — 1º A autenticidade do livro de Baruch é negada pela maior parte dos autores protestantes. Cf. Vigouroux, Les Livres saints et la critique rationaliste, 4ª edit., t. V, p. 155-161. Todas as objeções da crítica protestante contra a autenticidade de Baruch foram agrupadas por Fritzsche, Kurzegefasstes ereg. Handbuch zu den Apokryphen, Leipzig, 1851.

A autenticidade do livro de Baruch é demonstrada: 1. pelo próprio título do livro, Bar., I, 1; 2. pela tradição que nunca hesitou sobre este ponto; 3. pela linguagem, as ideias e a forma literária, que denotam um discípulo de Jeremias. Para a solução das numerosas objeções contra a autenticidade, ver Knabenbauer, In Dan., Paris, 1891, p. 438-443; Trochon, Jérémie, Paris, 1878, p. 390-393, 394.

Quanto à autenticidade da carta de Jeremias, prova-se: 1. pelo título, Bar., VI, 1; 2. pelo segundo livro dos Macabeus, II, 1, 2; 3. pelas descrições e as informações que ela contém, nomeadamente Bar., VI, 3, 14, que concordam muito bem com os textos e os monumentos assírios. Cf. Knabenbauer, op. cit., p. 447, 448; Brunengo, L’impero di Babilone e di Ninive, t. I, p. 71; t. II, p. 330; Vigouroux, La Bible et les découvertes modernes, 5ª edit., t. IV, p. 339-353; G. Rawlinson, The five great Monarchies, 2ª edit., t. I, p. 180; t. II, p. 28; Tiele, Babylonisch-assyrische Geschichte, Gotha, 1886, p. 531, 542, 544.

2º O cânon judaico não contém o livro de Baruch; muitos autores cristãos, e dos mais antigos, nunca o citam. Todavia, a canonicidade do livro está acima de toda contestação. 1. A tradição lhe é favorável; os Padres o citam como livro inspirado: S. Irineu, Cont. her., V, 35, 1, P. G., t. VII, col. 1219; Clemente de Alexandria, Pedag., I, 10, P. G., t. VIII, col. 357-360 (sob o nome de Jeremias); II, 3, col. 433, 436; S. Hipólito, Cont. Noet., 1, P. G., t. X, col. 805; V, col. 809; Orígenes, In Jer., XXXI, 16, P. G., t. XIII, col. 381; Tertuliano, Scorp., VIII, P. L., t. II, col. 137; S. Cipriano, De orat. dom., V, P. L., t. IV, col. 522; S. Hilário, In Ps., XLVIII, 19, P. L., t. IX, col. 285; S. Cirilo de Alexandria, De ador. in spir. et ver., VIII, P. G., t. LXVIII, col. 573; Glaph., II, col. 127; V, 39, col. 156; S. Ambrósio, Hexaem., III, 14, 59, P. L., t. XIV, col. 181; De Cain et Abel, I, 5, 19, col. 327; Eusébio, Dem. evang., VI, 19, P. G., t. XXII, col. 468; De eccles. theol., II, 19, P. G., t. XXIV, col. 948; S. Atanásio, De decret. nic. syn., 12, P. G., t. XXV, col. 444; Epist., XXXIX, P. G., t. XXVI, col. 1437; S. Basílio, Adv. Eunom., IV, P. G., t. XXIX, col. 705; S. Cirilo de Jerusalém, Catech., IV, 35, P. G., t. XXXIII, col. 500; S. Gregório de Nazianzo, Orat., XVI, 12, P. G., t. XXXV, col. 949; Orat., XXX, 13, P. G., t. XXXVI, col. 113; S. Epifânio, Her., LXIX, 31; 53, P. G., t. XLII, col. 252, 285; Teodoreto de Cirro, In Ps. CXVI, 7, P. G., t. LXXX, col. 1373.

2. O concílio de Laodicéia, can. 59, 60, e o concílio de Trento, sess. IV, decidiram a questão colocando Baruch, com a Carta de Jeremias, no número dos livros canônicos. Cf. Vieusse, La Bible mutilée par les protestants, 2ª edit., p. 86-106.

IV. TEXTO E VERSÕES.

— Não possuímos mais hoje senão o texto grego do livro de Baruch e as versões que dele derivam: itálica, copta, etc. Não se conhece o autor da tradução grega, pois é quase certo que o texto original era hebraico. O texto hebraico perdeu-se. Certos críticos, adversários da autenticidade, pretendem que o livro de Baruc tinha sido primitivamente escrito em grego; essa é mesmo uma das principais razões pelas quais negam a autenticidade do livro, pois Baruc não poderia escrever em grego.

— As razões que provam que o texto original era hebraico são as seguintes: 1° Baruc, 1, 14, recomenda ler o livro no Templo, nos dias de solenidade; ora, nenhuma língua estrangeira era admitida no serviço do Templo. 2° A tradição conduz à mesma conclusão. As Constituições apostólicas, v, 10, P. G., t. 1, col. 896, nos ensinam que se lia Baruc nas sinagogas da Palestina, no dia da expiação; ora, nessas sinagogas não se empregava senão a língua hebraica; santo Epifânio, Her., vii, 6, P. G., t. xxi, col. 213, enumerando os livros que os judeus tinham desde o retorno do cativeiro, menciona as cartas de Jeremias e de Baruc; Orígenes colacionou em suas Hexaplas o livro de Baruc, e a versão siro-hexaplar nota por vezes que o texto não tem tal ou qual lição; Teodócio traduziu para o grego o livro de Baruc. 3° Constata-se igualmente pelos numerosos hebraísmos que contém o texto grego atual. Cf. F. H. Reusch, Erkld- rung des Buches Baruch, Fribourg-en-Brisgau, 1853, p. 73; Kneucker, Das Buch Baruch, Leipzig, 1879, p. 25; Ceriani, Monumenta sacra et profana, Milan, 1861, t. I a, p. 15, 188; Cornely, Introductio specialis, Paris, 1887, t. ii b, p. 421; Knabenbauer, In Dan., p. 438; Kaulen, Einleitung, 3ª édit., Fribourg-en-Brisgau, 1892, p. 373, 374; G. Hoberg, Die alteste lateinische Uberset- zung des Buches Baruch, 2ª édit., Fribourg-en-Brisgau, 1902; Amelli, De libri Baruch vetustissima latina ver- sione usque adhuc inedita in celeberrimo codice Ca- vensi, Mont-Cassin, 1902. V. Doutrina.

— Pode-se agrupar sob dois pontos os principais ensinamentos do livro de Baruc.

— I. DOUTRINA SOBRE A SABEDORIA, III, 9-35. — O autor fala em termos admiráveis da sabedoria; essa doutrina não é de importação estrangeira, como sustentam os racionalistas; ela é própria ao Antigo Testamento. Notemos apenas algumas ideias, pois seria muito longo comentar todo este fragmento: Deus é a fonte da sabedoria, e o povo judeu, ao desviar-se de Deus, abandonou a fonte da sabedoria, thy myny tHc coplac, v. 12; cf. Jer., 2, 13 (Deus, fonte da água da vida, myny voatoc woc); Eccli., 1, 1 (paca copia mapx Kuptov); não se pode encontrar o lugar da sabedoria (tov tomov atnc), nem adquirir seus tesouros (todc Onoupoic avt7c), fora de Deus; cf. Job, xxviii, 20; xxxvi, 36; Matth., xiii, 52; Col., 1, 3; Jac., 1, 5; a sabedoria deve ser preferida a tudo, v. 30; cf. Job, xxviii, 13, 15; Prov., iii, 14; Sap., vii, 9; Deus só conhece a sabedoria e seus caminhos, v. 31, 32.

II. CRISTOLOGIA OU PROFECIAS MESSIÂNICAS. — Há no livro de Baruc três passagens que se consideram comumente como profecias messiânicas:

1° Bar., ii, 34-35. De uma maneira geral, esta passagem descreve o retorno de Israel à sua pátria e sua prosperidade futura. O v. 34 é paralelo a Jer., xxix, 6, 14; xxx, 19. O v. 35 contém a promessa de uma nova aliança. Alguns autores não viram nesta passagem senão a aliança de Deus com o povo judeu. Na realidade, trata-se da aliança do Messias com os homens, pois: 1. Esta aliança é a mesma daquela que é questão em Jer., xxxi, 31-33; xxxii, 40; Ezech., xxxvii, 26; Ose., ii, 18; ora, em todas essas passagens trata-se da aliança messiânica. 2. A aliança, que Deus promete, será eterna; ora, somente a união de Jesus Cristo com sua Igreja é eterna. 3. A maioria dos exegetas entendeu assim esta passagem. Cf. Trochon, Jérémie, Paris, 1878, p. 440; Knabenbauer, In Dan., p. 478.

— 2° Bar., iii, 36-38. A ideia central encontra-se no v. 38. No texto grego, do ponto de vista literal, essas palavras são suscetíveis de serem aplicadas à sabedoria, emoth7y, do v. 38; além disso, se se vislumbra o contexto, iii, 9-35, e sobretudo iv, 1, que nos fala da sabedoria como uma lei eterna, o vopos o undpywv etc tov atava, parece que é preciso entendê-las da sabedoria. Cf. Knabenbauer, In Dan., p. 488. Todavia, essa sabedoria não é outra senão a sabedoria eterna, aquela da qual é questão em Prov., viii, 12; Sap., vi, 22; Eccli., xxiv, 1 sq., isto é, o Verbo encarnado, Nosso Senhor Jesus Cristo. Consequentemente, esta passagem é rigorosamente messiânica, e a Vulgata pôde justamente traduzir pelo masculino: Post haec in terris VISUS EST et cum hominibus CONVERSATUS EST: «Depois disso, ELE foi visto sobre a terra, e ELE conversou com os homens.» Embora não se possa excluir a manifestação de Deus no monte Sinai, é sobretudo a manifestação de Nosso Senhor que o profeta tem em vista. Cf. Joa., 1, 14. É assim que a maioria dos Padres entendeu esta passagem. Cf. entre os Padres gregos: Orígenes, In Joa., tom. vi, n. 15, P. G., t. xiv, col. 253; S. Atanásio, De inca. et cont. arian., ii, 22, P. G., t. xxvi, col. 1024; S. Cirilo de Jerusalém, Catech., xi, n. 15, P. G., t. xxxiii, col. 709; S. Gregório de Nazianzo, Orat., xxx, n. 13, P. G., t. xxxvi, col. 121; Anfilóquio de Icônio, Orat., i, n. 2, P. G., t. xxxix, col. 37; Dídimo, De Trinit., i, 27, P. G., t. xxxix, col. 397; S. Epifânio, Hzr., lxix, n. 31; lxxi, n. 3, P. G., t. xlii, col. 252, 377; S. João Crisóstomo, De incomp. Dei nat., v, n. 2; Cont. Jud. et Gent., n. 2, P. G., t. xlvii, col. 739, 815; In Ps. cviii, 05; cxix, etc., P. G., t. lv, col. 216, 246; Proclo, Epist., ii, n. 7; iii, n. 2, P. G., t. lxv, col. 864, 875; S. Cirilo de Alexandria, Glaph. in Exod., ii, P. G., t. lxix, col. 468; De Trinit., vii, P. G., t. lxxv, col. 1156; Cont. Jul., viii, P. G., t. lxxvi, col. 933, 1016; entre os latinos, S. Cipriano, Testim. adv. Jud., ii, 6, P. L., t. iv, col. 701; Lactâncio, Div. instit., iv, 13; Epit. div. instit., xiv, P. L., t. vi, col. 483, 1051; S. Hilário, In Ps. lxviii, 19; De Trinit., v, 39, P. L., t. ix, col. 482; t. x, col. 156; Zenão de Verona, Tract., i, ii, tr. vi, n. 3, P. L., t. xi, col. 410, 411; Fausto, De Trinit., iii, n. 2, P. L., t. xiii, col. 64; S. Ambrósio, De fide, i, 3, n. 28, 29; i, 9, n. 80, P. L., t. xvi, col. 534, 577; S. Fébade de Agen, De Filii divin. et consubst., 7, P. L., t. xx, col. 44; Rufino, In symbol., n. 5, P. L., t. xxi, col. 344, 345; S. Agostinho, Cont. Faustum, xii, 43; Cont.

Maxim., iii, 24, n. 13, P. L., t. xlii, col. 277, 813; Cassiano, De incarnat., iv, 9, P. L., t. l, col. 86; S. Pedro Crisólogo, Serm., lxxxviii, P. L., t. lii, col. 449; Máximo de Turim, Tract., v, P. L., t. lv, col. 796; Fausto de Riez, Epist., iii, P. L., t. lviii, col. 889; S. Avito de Vienne, Epist., xxv, P. L., t. lx, col. 245; Vigílio de Tapso, De Trinit., iii, P. L., t. lxii, col. 255.

3° Bar., iv, 37-v, 9. Literalmente, esta passagem aplica-se ao retorno do cativeiro e, 9, à restauração dos judeus na sua pátria; mas os termos pelos quais o profeta celebra esta restauração futura são tão entusiásticos que os comentadores veem neles, com razão, uma imagem do estabelecimento da Igreja, que será a verdadeira restauração do género humano; as palavras: «Deus mostrará a tua esplendor perante tudo o que está debaixo do céu», v. 3, convêm muito bem à Igreja em razão da sua catolicidade; v. 9 pode entender-se da alegria que experimentam os judeus e os gentios quando entram no seio da Igreja.

Esta descrição pode, portanto, ser considerada, no sentido figurativo, como uma profecia messiânica, e muitos exegetas interpretaram-na desta maneira. Cf. Reinke, Beiltrdge zur Erkldrung des Alten Testament, Munster, 1855, t. IV, p. XII; Trochon, Jérémie, p. 422-424; Knabenbauer, In Dan., p. 496-501.

Os principais comentadores antigos são: Théodoret, In Baruch, P. G., t. LXXXI, col. 760-780; Olympiodore, In Baruch, P. G., t. XC, col. 761-780; os modernos: Maldonat, Cornelius a Lapide, Ghisler, além daqueles que citámos ao longo do artigo. Cf. E. Schiirer, Geschichte des jiidischen Volkes im Zeitalter Jesu Christi, 3.ª ed., Leipzig, 1898, t. II, p. 338-345.

Autor original: V. Ermoni

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