BALMES (JAIME)

BALMES (JAIME)

BALMES Jacques, um dos nomes mais célebres da apologética contemporânea, na primeira metade do século XIX, foi, na Espanha, a alma do movimento de defesa católica contra os erros modernos. Nasceu em Vich, na Catalunha, em 28 de agosto de 1810, em condições familiares que entravam, em várias ocasiões, o ímpeto de uma inteligência chamada desde cedo a realizar grandes coisas para o futuro de sua pátria e de sua religião.

À força de perseverante energia, conseguiu começar seus estudos eclesiásticos no seminário de sua cidade natal e obter uma vaga na universidade de Cervera. Lá, o jovem estudante concentrou, durante quatro anos, seu poder de aplicação sobre a Suma de Santo Tomás e sobre os Comentários de Caetano. Quando conquistou os graus de licenciatura e de doutorado em teologia, voltou a Vich, estudou línguas estrangeiras e completou sua formação, até então exclusivamente escolástica, pela leitura assídua dos filósofos contemporâneos. Excelente meio de atualizar seu acervo intelectual e de elevá-lo ao nível de seu século!

Nessa época tão importante de sua atividade científica, Balmes não colheu senão insucessos em sua pequena pátria. Em 1837, teve de aceitar, por falta de emprego, uma cátedra de matemática e publicou até um compêndio de trigonometria. O que revelou seu maravilhoso talento a toda a Espanha foi a excelente brochura que compôs, em plena revolução, a respeito do pilhagem dos bens da Igreja: Observaciones sociales, politicas y economicas, sobre los bienes del clero, Barcelona, 1840; 2ª ed., 1850. Este primeiro sucesso inspirou-lhe a ideia de apresentar-se em um palco maior para trabalhar mais eficazmente pelo soerguimento e pela prosperidade de seu país. Veio a Barcelona, no decorrer do ano de 1841, e estreou com uma segunda brochura dirigida contra Espartero: Consideraciones sobre la situacion de Espana. Era preciso coragem para desafiar abertamente uma ditadura todo-poderosa.

Por volta da mesma época, Balmes travou conhecimento com dois valentes defensores da fé, o Sr. Roca y Cornet, publicista de renome, e o Sr. Ferrer y Sobirana, jovem advogado, seu compatriota e seu antigo rival de classe em Vich. Os três amigos fundaram uma nova revista, La civilizacion, que obteve, além dos Pirenéus, uma voga e uma influência bastante análoga à que teve entre nós o jornal L'Avenir.

É a esse período, o mais fecundo de sua curta carreira, que Balmes empreendeu suas duas obras mais importantes: 1º Filosofia fundamental, 4 in-8º, Barcelona, 1846, traduzida para o francês por Edouard Manec, Paris, 1852; 2º El protestantismo comparado con el catolicismo en sus relaciones con la civilizacion europea, 3 in-8º, Barcelona, 1842, 1844; Madri, 1848; tradução francesa por A. de Blanche-Raffin, Paris, 1852.

A ideia que as ditou resume a tática do autor: opor-se às invasões do protestantismo e da filosofia moderna na Espanha. Com o favor dos distúrbios da guerra civil, a Inglaterra buscava naturalizar sua influência na península propagando as doutrinas da Reforma. «O temor de ver minha pátria invadida pelo cisma religioso, o espetáculo dos esforços tentados para nos inocular os erros protestantes, certos escritos (o do Sr. Guizot em particular) onde se estabelece que a falsa reforma foi favorável ao progresso das nações, eis o que me inspirou a ideia de aplicar-me a esta obra.» Tal é a declaração explícita do autor no último capítulo de sua obra.

Eis agora o método que empregou: «Tive em vista — diz ele — demonstrar que nem o indivíduo, nem a sociedade devem nada ao protestantismo, nem sob o aspecto social, político ou literário, nem sob o aspecto religioso. Examinei o que nos diz a história sobre este ponto, o que nos ensina a filosofia.» El protestantismo comparado con el catolicismo, trad. fr., t. III, p. 381. O resultado de seu inquérito foi em todos os pontos conforme às suas previsões. «Antes do protestantismo, a civilização europeia tinha recebido todo o desenvolvimento então possível; o protestantismo falseou o curso da civilização e trouxe males imensos às sociedades modernas; os progressos realizados desde o protestantismo não foram obtidos por ele, mas apesar dele.» Op. cit., p. 383.

Chegada a esta altura, a tese não era mais apenas uma questão nacional e de pura ocasião; ela se dirigia a todas as nações cristãs do passado e do futuro; tomava seu lugar ao lado dos trabalhos de Bossuet e de Möhler. A História das variações tinha confrontado os ensinamentos sucessivos do protestantismo com a imutabilidade dos dogmas católicos, imutabilidade que é o sinal infalível da verdade. A Simbólica de Möhler tinha sondado a Reforma em outro sentido, o da pureza de doutrina, e a tinha convencido de dela ter se afastado nos pontos mais essenciais. Restava o lado social a examinar: era também o mais interessante em uma hora em que os resultados práticos primam sobre as teorias. Aliás, era necessária uma resposta à História da Civilização na Europa.

Balmes retomou pela base o edifício erguido pelo Sr. Guizot, estudou a sociedade europeia sob todas as suas faces, em todos os seus elementos essenciais, no desenvolvimento de todas as forças que a constituem, e terminou nesta conclusão: é a Igreja que, ora por meios diretos, ora por influências visíveis, destruiu a escravidão, retificou no homem o sentimento da dignidade, enobreceu a mulher, fundou a beneficência pública, deu nascimento à liberdade civil e política. O protestantismo nada adicionou a estas grandes linhas que formam os alicerces da verdadeira civilização. Pelo contrário, alterou-as e ameaça apagá-las. A salvação das sociedades, como seu progresso, permanece, portanto, exclusivamente obra da religião católica. A Espanha ecoou a voz de seu filho: fechou suas portas à heresia.

Não era ainda o bastante. Era preciso premunir a fé contra as infiltrações da filosofia moderna. Balmes abordou esta outra parte de seu programa na Filosofia fundamental. O livro não é uma filosofia no sentido ordinário da palavra. «Não me vanglorio — diz o autor no prefácio — de criar em filosofia; quis apenas examinar as questões fundamentais da filosofia; muito feliz se eu contribuir, mesmo que em pequena parte, para alargar o círculo dos sãos estudos, para prevenir um perigo grave, a introdução em nossas escolas de uma ciência carregada de erros e as consequências desastrosas desses erros.» Não temos que criticar aqui o fundo das teorias que lhe são pessoais. Ver Mons.

Mercier, *Critériologie générale*, Paris, 1899, p. 97. Mas a teologia deve ao filósofo Balmes o retorno das escolas católicas à doutrina de São Tomás. A Filosofia fundamental, embora dela se afaste em certos pontos, contribuiu muito para colocá-la novamente em honra. Vallet, Histoire de la philosophie, Paris, 1881, p. 620.

O que mais impressiona no belo talento do filósofo espanhol é, acima de tudo, um senso prático maravilhoso que nunca perde de vista os aspectos úteis das verdades e que se mantém sem cessar em um justo equilíbrio. Com isso, muita clareza na exposição, finura nas análises, clarividência no alcance e no futuro dos sistemas, o de Kant, por exemplo; enfim, uma profundidade e uma originalidade que deixa longe para trás a banalidade rotineira e impessoal de tantas obras do mesmo gênero. O gênio católico, no século XIX, produziu poucos trabalhos tão novos e tão sólidos.

Se Balmes tivesse vivido mais, teria sem dúvida retocado e ampliado seus primeiros estudos. A excelência de seu método, tão bem descrita em seu El criterio, L'Art d'arriver au vrai, trad. franc., Paris, 1852, tê-lo-ia feito tirar um partido extraordinário das riquezas da ciência moderna. Mas uma morte, apressada pelos excessos de atividade de uma natureza generosa, deveria arruinar esse brilhante futuro.

Após ter colaborado algum tempo com La civilizacion, separou-se, não se sabe bem por qual motivo, de seus antigos amigos e fundou sozinho uma outra revista, La sociedad, onde refutou as objeções mais difundidas contra a religião. Reuniram-se vários desses artigos em Cartas a un esceptico ou Lettres a un sceptique. A mencionar também instruções religiosas adaptadas às crianças: La religion demonstrada al alcance de los ninos.

Com a queda de Espartero, Balmes foi chamado a Madri onde, para servir aos interesses de seu patriotismo e de sua fé, criou um novo órgão, El pensamiento de la nacion, e desempenhou um papel especial no projeto de casamento da jovem rainha Isabel com o filho mais velho de don Carlos, projeto que deveria pôr fim aos males da guerra civil.

Infelizmente este plano fracassou e o grande patriota, retirando-se da política, retornou a Barcelona, depois a Vich, sua terra natal, onde esperava tomar um pouco de repouso. Mas trazia consigo o germe da morte e uma tísica cruel o arrebatava da vida e das honras que lhe preparava a Academia real de Madri, 9 de julho de 1848. A Espanha inteira vestiu o luto pelo jovem padre catalão que, à idade de 38 anos, deixava-lhe uma glória tão pura, tão luminosa e mesmo tão completa como político, filósofo e teólogo.

Kirchenlexikon, 2ª ed., 1882, t. 1, col. 1898-1899; Blanche-Raffin, Balmés, sa vie et ses ouvrages, Paris, 1849; Glaire, Dictionnaire des sciences ecclésiastiques, Paris, 1868, t. 1, p. 208; Hurter, Nomenclator, 1895, t. III, col. 1008-1010; A. Leclére, De facultate verum assequendi secundum Balmesium., Paris, 1900.

Autor original: C. TOUSSAINT

A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor