AVERROÍSMO. O averroísmo, como o aristotelismo heterodoxo, provém do nome de Averróis, Idade Média.
I. Representa Seu pai II o aristotelismo. III. Fatos que assinalam sua história. IV. Ideias que o caracterizam. V. Homens que o defenderam. VI. Iconografia cristã dos triunfos da verdadeira filosofia sobre o erro averroísta.
1. O pai do averroísmo. — 1° Ibn Roschd, nascido em Córdova no ano 522 da hégira, morto em Marrocos no ano 595 (1198), é o maior dos filósofos árabes. Filho e neto de altos magistrados, foi destinado igualmente à magistratura suprema. Após ter estudado a teologia, a jurisprudência, depois a filosofia, a medicina e as matemáticas, ocupou um posto muito elevado no mundo administrativo assim como no mundo sábio de seu país. Consagrava a comentar Aristóteles ou a produzir obras originais os lazeres que lhe deixavam as funções de juiz, seja em Sevilha, seja em Córdova, e aqueles que mais tarde lhe causou a desgraça passageira do califa Almançour, junto ao qual fora prejudicado pela inveja de seus rivais ou pela heterodoxia de sua doutrina.
2° Averróis é antes de tudo, ou melhor, exclusivamente, o discípulo de Aristóteles. Ele não o traduz porque traduções já existem e porque, aliás, não sabe nem grego, nem siríaco; mas comenta com uma ciência consumada os livros do Estagirita, de onde provém seu nome de «comentarista». Aristóteles é para ele um «ser divino» e «o princípio de toda filosofia». Não se pode diferir senão na interpretação de suas palavras e as consequências a serem tiradas delas, porque «nenhum daqueles que o seguiram pôde adicionar nada aos seus escritos, nem encontrar neles um erro de qualquer importância». Renan, Averroès et l'averroïsme, Paris, 3ª ed., 1867, p. 55. É um atestado de ciência completa e infalível que o discípulo confere ao seu mestre. Mas ele admite ele mesmo que se pode diferir nas consequências a serem tiradas delas, e é sobre este ponto que se singulariza a doutrina de Averróis. Ele leva os princípios que encontra ou que crê encontrar em Aristóteles a conclusões muito remotas e extremas, das quais a maioria servirá de teses características do averroísmo latino.
3° Os erros próprios a Averróis são assinalados por Egídio Romano, De erroribus philosophorum Aristotelis, Averrois, Avicennae, Algazelis, Alkindi, Rabbi Moysis, em Mandonnet, Siger de Brabant et l'averroïsme latin au XIIIe siècle, Friburgo (Suíça), 1899, p. 9-11. O comentarista afirma que nenhuma lei é verdadeira, ainda que possa ser útil, quod nulla lex est vera, licet possit esse utilis, ele ataca por aí a religião cristã, a religião judaica e até a religião muçulmana, que admitiam a possibilidade e a realidade da criação. Frequentemente, contudo, Averróis professa seu respeito pelo Alcorão, mas quando encontra Maomé em contradição com Aristóteles, é aquele que deve ceder a este. Averróis pretende ainda que o anjo não pode mover nada, senão imediatamente, um corpo celeste, quod angelus nichil potest movere, nisi celeste corpus immediate; que o anjo é uma ação pura, quod angelus est actio pura; que em nenhuma produção toda a razão do produto pode ser a potência do produtor, quod in nulla factione tota ratio facti est potentia facientis, ataque direto da criação onde a coisa criada tem toda a sua razão de ser na potência criadora; que de nenhum agente podem sair simultânea e imediatamente efeitos diversos, quod a nullo agente possint simul progredi immediate diversa; que Deus não exerce nenhuma providência sobre os seres particulares, quod Deus non habet providentiam aliquorum particularium, é a ruína da providência divina; que não há trindade em Deus, quod non est trinitas in Deo; que Deus não conhece os singulares, quod Deus non cognoscit singularia; que certas coisas acontecem pela necessidade das leis da matéria independentemente de toda providência divina, quod aliqua proveniunt a necessitate materie, absque ordine divine providentie, é Deus exilado do mundo que ele não criou e que ele não pode governar; que a alma intelectiva não é multiplicada com os corpos humanos, mas é única, quod anima intellectiva non multiplicatur multiplication corporum, sed est una numero; que o homem pertence à sua espécie pela alma sensitiva, quod homo pertinet ad speciem per animam sensitivam; que a união da alma intelectiva e do corpo não dá uma nova unidade ao homem, quod non sit plus unum ex anima intellectiva et corpore. Estas três últimas proposições pertencem à famosa teoria do intelecto separado do homem, e único para a raça humana inteira. M. de Wulf, Histoire de la philosophie médiévale, Lovaina, 1900, p. 232, reduz aos pontos seguintes as principais teorias de Averróis: 1° a inteligência das esferas e a emanação das inteligências do primeiro motor seguindo um processo de decadências sucessivas; 2° a potencialidade e a eternidade da matéria; 3° o monopsiquismo humano e a negação da imortalidade pessoal; 4° a interpretação alegórica do Alcorão.
4° Era útil relatar estas teorias que são mais que o averroísmo latino em germe, que são a sua substância e que vamos reencontrar professadas por mestres da universidade de Paris e estigmatizadas pela autoridade eclesiástica. É importante também notar que estas teses são próprias a Averróis e não pertencem, ao menos explicitamente, a Aristóteles. Podia-se, portanto, ser peripatético sem professá-las. Era o caso da escola albertino-tomista que atacava o averroísmo, isto é, os excessos doutrinais de Averróis, ao mesmo tempo que testemunhava o maior culto e uma prudente adesão em relação à filosofia do Liceu. Mas nem todos estavam convencidos disso; na escola agostiniana, em particular, atribuíam a Aristóteles todos os erros de todos os seus discípulos ou comentaristas e atacavam o peripatetismo em bloco. Assim, São Tomás e Alberto Magno eram envolvidos na reprovação total da filosofia peripatética e receberam, por este motivo, alguns respingos em certas condenações do fim do século XIII.
A luta contra o averroísmo foi, portanto, dupla: por um lado, procedia de todos os sábios ortodoxos que a preocupação de salvar a fé armava contra os erros novos; nesta luta, os agostinianos aliavam-se aos albertino-tomistas ou peripatéticos modernos contra os aristotélicos exagerados; por outro lado, a guerra vinha dos teólogos que a preocupação de conservar as estruturas antigas, os métodos tradicionais, colocava em guarda contra toda inovação; então os agostinianos encontravam-se sozinhos em um campo, em face dos peripatéticos moderados, como São Tomás, apoiados pelos peripatéticos excessivos, como Siger de Brabant.
II. As causas do averroísmo. Dissemos que o averroísmo representa o aristotelismo heterodoxo do século XIII. Originalmente e de direito, era a filosofia integral de Aristóteles, compreendida e ensinada por filósofos latinos à luz dos comentários de Averróis. Em breve, e de fato, destacaram-se desse conjunto teses opostas à doutrina teológica, e é a sucessão delas que compôs finalmente o averroísmo latino. As causas do averroísmo devem ser buscadas no estado da ciência cristã no século XIII, no da ciência aristotélica, nas condições da natureza humana.
Nas sociedades em formação ou em revolução, isto é, naquelas cujos quadros ainda não foram inteiramente construídos ou foram quebrados, a influência das velhas civilizações, de quadros prontos, é extrema. Há uma tendência a aceitar por inteiro essas civilizações e a impor sua organização, seus métodos de viver, de pensar e de administrar às sociedades em formação. Assim, a Revolução Francesa, após ter abolido o passado, quis lançar a nação no molde das instituições romanas. Tal era, no começo do século XIII, o estado do espírito humano diante do pensamento aristotélico. Uma pressão se fazia, contínua e potente, para o desenvolvimento das ciências racionais; as doutrinas pouco numerosas e muito breves do passado pareciam insuficientes. Os árabes ofereciam um organismo filosófico completo com numerosos dados científicos perfeitamente sintetizados. Certos espíritos, querendo trazer ao seu tempo uma bela eflorescência científica, adotaram toda a síntese aristotélica, tal como era apresentada pelos árabes. Tomaram o bloco sem se preocupar em saber se ele continha o verdadeiro ou o falso. E isso respondia a uma segunda tendência da natureza humana: entusiasmar-se pelos grandes mestres e aceitar integral e confiantemente todos os seus ensinamentos.
Acrescentaremos outro motivo, menos nobre e menos potente, certamente? Os ataques exagerados dos agostinianos contra o aristotelismo impulsionaram a apologia deste; donde o desejo bondoso de defender a filosofia de Aristóteles fez com que se adotasse, sem discrição e sem contenção, tudo o que Aristóteles e seu comentador haviam dito. Ao mesmo tempo que procede de um amor imoderado por Aristóteles, de uma confiança absoluta em seu comentador e de uma preocupação extrema de impor ao espírito humano fórmulas prontas de pensamento e de saber, o averroísmo esforça-se por afirmar-se, ao menos exteriormente, fiel à religião e à fé cristã. Seu grande mestre, Siger de Brabant, escreve que é preciso aderir à fé que supera toda razão humana, et in tali dubio fidei adherendum est que omnem racionem humanam superat. Quæstiones de anima intellectiva, VII, em Mandonnet, op. cit., p. 112, lig. 28.
Culto a Aristóteles, respeito pela fé, qual dos dois sentimentos prevalece? É o segundo. Hoc dicimus sentire philosophum de unione anime intellective ad corpus, sententiam tamen sancte fidei catholice, si contraria huic sit sentencie philosophi, preferre volentes sicut et in aliis quibuscumque. Ibid., III, em Mandonnet, op. cit., p. 99, lig. 18. Contudo, o respeito pela fé não prevalece a tal ponto que faça renunciar inteiramente a Aristóteles nos pontos de conflito. Siger distingue sem cessar a via philosophie e a veritas. A primeira representa a razão humana, e a segunda a fé. Quando há oposição, ele não se proíbe por isso de desenvolver o que chama de argumentos da razão; ele os apresenta até exclusivamente, sob pretexto de falar como filósofo e não como teólogo. Utrum anima intellectiva multiplicetur multiplicatione corporum humanorum diligenter considerandum est, quantum pertinet ad philosophum, et ut racione humana et experiencia comprehendi patent, querendo intencionem philosophorum in hoc magis quam veritatem, cum philosophice procedamus. Ibid., VI, Mandonnet, op. cit., p. 107, lig. 20.
Há, portanto, disposição para distinguir duas verdades e dois homens: a verdade racional que o filósofo admite, a fé que o crente aceita; este deve calar-se em filosofia, onde apenas aquele tem a palavra, e aquele, por sua vez, deve inclinar-se quando este trata de questões de crença. São as duas gavetas criadas na inteligência humana; é o germe da independência filosófica e da tese da possibilidade e da legitimidade de afirmações contraditórias na ciência e na religião. São Tomás queixa-se disso em um sermão proferido em Paris: «Há aqueles», diz ele, «que estudam a filosofia e afirmam coisas que não são conformes à lei. Quando se lhes recorda que é contrário à lei, respondem que não fazem mais que repetir a opinião do filósofo. É ser falso profeta e falso doutor», acrescenta ele, «porque é suscitar dúvidas sem resolvê-las.» P. A. Uccelli, S. Thomæ Aquinatis et s. Bonaventuræ Balneoregiensis sermones anecdoti, Modena, 1869, p. 71; S. 77, opera, ed. Fretté, t. XXXII, p. 670, cf. Mandonnet, op. cit., p. CCXVI.
— III. OS FATOS.
1º Em 16 de março de 1256, um regulamento da faculdade de artes de Paris prescrevia o ensino dos livros de Aristóteles. Denifle-Chatelain, Chartularium universitatis Parisiensis, Paris, 1889, t. I, p. 277. Este documento indica a época em que Aristóteles é aceito definitiva e oficialmente pela universidade de Paris. Deve ser também a época em que nasce o averroísmo. O comentador subiu com o filósofo às cátedras da capital; deve ter feito ali adeptos imediatamente. Seja como for, houve logo inimigos. Alberto Magno, em 1256, escreve seu tratado De unitate intellectus contra Averroem. Ele declara, ao começar, que, entre muitos daqueles que professam a filosofia, surgiram dúvidas concernentes à separação com o corpo. Quia apud nonnullos eorum qui philosophiam profitentur dubium est... materia corpore, c. I. Opera, t. IX, p. 21*.
2º A teoria de Averróis começava, portanto, ao menos a abalar os espíritos.
Ela lê logo na Suma Teológica e o restante mais que o erro combatido por ele: vários são os defensores. E cf. Sum. theol., part. II, q. LXXVII, [in] membr. III, t. XVIII, p. 379.
É provavelmente o perigo que o averroísmo nascente fazia correr à fé que empurrou a Igreja a mostrar-se ainda mais vigilante a respeito do estudo de Aristóteles, e não é temerário pensar com o P. Mandonnet, p. LXXIV, que os progressos desta escola não foram alheios nem ao envio das cartas de Urbano IV, de 19 de janeiro de 1263, renovando os decretos de Gregório IX, incluindo a proibição de ensinar Aristóteles, nem à estadia de São Tomás de Aquino e de Guilherme de Moerbeke na corte pontifícia, onde estavam então expostas traduções novas de Aristóteles e os novos comentários críticos, 1261-1269, nem, em 1269, ao retorno de São Tomás de Aquino à universidade de Paris, para onde o chamava sem dúvida a necessidade de opor um mestre incontestável às audácias cada vez mais empreendedoras do erro.
O ano de 1270 colocou frente a frente o Anjo da Escola com o chefe do averroísmo latino, Siger de Brabante. O erro havia crescido, seus partidários haviam se multiplicado. São Tomás nos ensina isso ele mesmo, nesse ano, em seu De unitate intellectus contra averroistas, c. I: error inolevit, multos siquidem ex dictis jamdudum Averrois sunt circa intellectum unum.
3° A luta é então muito viva, as discussões doutrinais seguem seu curso, os discípulos de São Tomás atacam os averroístas, os agostinianos atacam uns e outros. Pouco a pouco as posições se precisaram, as disputas se confinaram a um número determinado de proposições; encontramos a enumeração delas em uma carta que um clérigo chamado Gilles, provavelmente Gilles de Lessines, escreve a Alberto Magno, para pedir-lhe que se digne pronunciar sobre quinze proposições contidas na carta de Gilles, das quais treze são claramente ortodoxas, embora logo condenadas, a décima quarta e a décima quinta são ortodoxas, mas peripatéticas, sustentadas por São Tomás. Elas foram misturadas às outras pelos agostinianos, que querem envolver na mesma reprovação o averroísmo e a escola alberto-tomista. A décima quarta, a propósito de Cristo, sustenta a unidade de forma no homem; a décima quinta trata da simplicidade e da imaterialidade. Gilles e as quinze proposições são publicadas pelo Pe. Mandonnet, op. cit., p. 15, 10.
É aparentemente no meio dessas discussões que se deve situar a polêmica entre Siger de Brabante e Tomás de Aquino. Ela versa sobretudo sobre a unidade numérica da inteligência humana. Siger defende esta unidade em um tratado De anima intellectiva; São Tomás, sem nomear seu adversário, refuta-o vitoriosamente em seu De unitate intellectus contra averroistas, usando as mais sólidas armas contra os discípulos do comentador árabe. A autoridade intervém, e os erros são excomungados, assim como todos aqueles que os ensinavam conscientemente ou os sustentavam, por Etienne, bispo de Paris, «no ano do Senhor de 1270, na quarta-feira após a festa do bem-aventurado Nicolau de inverno». Era o dia 10 de dezembro. Denifle-Chatelain, op. cit., t. I, p. 486.
Eis o texto das proposições condenadas. 1. Não há numericamente senão uma única inteligência para todos os homens. 2. É falso ou impróprio dizer que é o homem que compreende. 3. A vontade do homem quer ou escolhe sob o império da necessidade. 4. Tudo o que se passa no mundo está submetido necessariamente à influência dos corpos celestes. 5. O mundo é eterno. 6. Não houve um primeiro homem. 7. A alma, que é a forma do homem como tal, corrompe-se com a morte. 8. A alma separada após a morte não pode sofrer de um fogo corporal. 9. O livre-arbítrio é uma potência passiva e não ativa, movida necessariamente por seu desejo. 10. Deus não conhece os singulares. 11. Deus não conhece nada fora de si mesmo. 12. As ações humanas não estão submetidas à providência divina. 13. Deus não pode dar a imortalidade ou a incorruptibilidade a uma coisa corruptível e mortal. Cf. Mandonnet, op. cit., p. cxxix.
5° A condenação de 1270 talvez tenha feito silenciar os ensinamentos que proibia, mas não acalmou os espíritos. Temos um primeiro vestígio disso em uma disputa quodlibética sustentada por São Tomás de Aquino pouco tempo após o ato de Etienne Tempier, o bispo de Paris. Estas disputas versavam habitualmente sobre questões de atualidade. Ora, esta resolve, entre outros problemas, quando as pessoas competentes perguntam: «Deve-se evitar as opiniões diversas sobre sua excomunhão?» É difícil não adivinhar aí uma alusão à situação de certos averroístas que não se tinham, sem dúvida, completamente submetido e que alguns queriam, por conseguinte, evitar como excomungados.
A efervescência continuava; ela lançou logo divisões profundas na faculdade de artes. A propósito de uma eleição para o reitorado, os averroístas se dividiram, nomearam um reitor diferente daquele escolhido pela maioria. Durante três anos, houve duas faculdades de artes, tendo cada uma seus chefes próprios e sua vida independente. Os dissidentes chamavam-se o partido de Siger, que provavelmente se tornara seu reitor. Deve-se ter chegado a grandes temeridades nessa facção, se julgarmos por um regulamento promulgado em 1º de abril de 1272 pelo partido da maioria, chamado o partido de Albéric, seu reitor. Denifle-Chatelain, op. cit., t. I, p. 499.
Entre outras coisas, diz-se neste regulamento: «Se alguém concluir, em Paris, contra a fé por ocasião de uma questão que toca a teologia e a filosofia, aquele será reputado herege a perpetuidade e cortado da sociedade dos mestres, a menos que se retrate humildemente. Finalmente, quando um mestre ou um bacharel da faculdade tiver que ler ou discutir textos ou questões difíceis que pareçam atentar contra a fé, usará de prudência. Refutará as razões ou o texto, ou mesmo os declarará simplesmente falsos e errôneos. Guardar-se-á também de ler ou de discutir as dificuldades tiradas do texto ou de outros autores, mas as omitirá inteiramente como sendo estranhas à verdade.» Trad. Mandonnet, op. cit., p. CCXIII. Era, como se vê, a maneira mesma de Siger que assinalamos acima e que era abertamente proibida.
6° Todas essas divisões, e outras ainda, colocavam a universidade de Paris em um estado lamentável, e pouco faltou para que a crise do averroísmo fosse o golpe mortal na maior instituição de estudos da Idade Média.
Felizmente, de parte a parte, os mestres viram o perigo e, de comum acordo, recorreram à arbitragem do legado, Simon de Brion. A sentença arbitral é de 7 de maio de 1275. Ela restabeleceu a unidade no governo da faculdade de artes. Não pronuncia nenhuma condenação de doutrinas, mas prepara-a, ameaçando de repressão os autores da divisão. Denifle-Chatelain, op. cit., t. I, p. 529.
A paz não se fez nos espíritos. Os mestres averroístas perderam, sem dúvida, algum prestígio e adeptos. Eles guardaram, ao menos clandestinamente, suas posições filosóficas, e um decreto de 2 de setembro de 1276, emitido pela universidade, teve de proibir os conventículos secretos. Denifle-Chatelain, t. i, p. 539.
7° Instruído sobre todos estes fatos, o soberano pontífice, João XXI, em uma carta dirigida a Etienne Tempier, em 18 de janeiro de 1277, queixa-se de que certos erros opostos à fé estejam surgindo novamente; prescreve ao bispo de Paris um inquérito sobre esses erros e seus partidários e solicita um relatório detalhado. Denifle-Chatelain, t. i, p. 541.
Etienne Tempier realizou o inquérito prescrito pelo papa. Mas, em vez de esperar, ou mesmo de provocar a sentença pontifícia que deveria ser a conclusão natural, pronunciou-se ele mesmo e promulgou, em 7 de março, um decreto condenando 219 proposições extraídas do ensino de alguns mestres em artes, ou averroístas, ou simplesmente peripatéticos, de certos livros de necromancia ou outras superstições. Os autores ou ouvintes das referidas proposições deveriam, no prazo de sete dias, sob pena de excomunhão, revelar o que sabiam ao bispo ou ao seu chanceler. Em seguida, o bispo procederia juridicamente contra os culpados, seguindo a gravidade de sua falta. Este ato emanava de um homem demasiado apaixonado, misturava temas em demasia, obedecia a preocupações demasiado humanas e a visões de escola demasiado estreitas para gozar de grande autoridade. Era, na verdade, mais uma condenação do peripatetismo em geral, incluindo o averroísmo, do que uma proibição exclusiva deste último.
8° Seja como for, colocava os chefes averroístas em uma situação deveras perigosa. Após o inquérito que precedera e as denúncias que dele foram consequência, Siger de Brabant e os outros mestres do erro foram alvo de perseguições, deixaram Paris e, com o seu desaparecimento, eclipsou-se também por um tempo a escola averroísta. Ela não desapareceu totalmente e, por muito tempo ainda, foi a adversária mais formidável da escolástica. Sua falsa filosofia reencontra-se, nos séculos seguintes, em Paris, na Itália, onde conquista adeptos convictos na universidade de Pádua; infiltra-se surdamente e conduz a escolástica à decadência e à ruína.
IV. AS IDEIAS. Não há parte da ciência cristã que o averroísmo não tenha tentado perverter em suas teses principais. Para comprová-lo, recorreremos, além das proposições condenadas em 1270 e 1277, ao Hexaemeron de santo Boaventura, collât, vi, Opera omnia, Quaracchi, t. v, p. 60-61; ao catálogo dos erros de Averróis dado por Egídio de Roma, em Mandonnet, op. cit., p. 5 sq., e às diversas obras de Siger de Brabant editadas por Bäumker e pelo P. Mandonnet.
1° Em teologia, os averroístas atacam todo o sistema católico das relações das criaturas com o criador. Com eles, Deus deixa de criar, de governar a sua criatura, de conservá-la, de concorrer para os seus atos. A escala dos seres tem Deus no seu cume, em baixo as naturezas materiais, esferas incorruptíveis e inteligentes, ou espécies terrestres corruptíveis e passageiras, no centro as inteligências separadas. Estas são necessárias e não podem não ser; elas produzem as esferas incorruptíveis que, por sua vez, chamam ao ser as naturezas corruptíveis deste mundo terrestre. Deus só tem conhecimento daquilo que é necessário, universal, imaterial e causado por ele. Portanto, ele não conhece este mundo inferior e não se importa com ele a ponto de exercer uma providência ou um concurso qualquer.
2° Em cosmologia, o mundo é eterno: em virtude do que se afirma que nada começou, que a matéria é eterna, que o mundo é de toda a eternidade, que ele tem o princípio da sua existência em si mesmo. Sustenta-se que não apenas os céus incorruptíveis, mas a alma imortal, não possuem um começo. E as espécies transitórias, como a espécie humana, não tiveram um primeiro indivíduo e sucedem-se desde sempre; não houve um primeiro homem. São Tomás admite a possibilidade da criação ab ovo, mas, de fato, com a Igreja, acredita que o mundo começou no tempo. A tese averroísta vai diretamente contra este dogma da criação e do começo do mundo.
3° É em psicologia que o erro mais temível foi emitido pelos averroístas e que a mais terrível batalha se travou entre eles e os escolásticos. O averroísmo professa a unidade do intelecto humano, do intelecto possível, do qual faz uma substância separada, dominando toda a raça humana, única para todos os homens. Este intelecto entra em contato com as duas faculdades da sensibilidade interna, chamadas por Aristóteles de imaginação e estimativa; porque este contato determina o intelecto a exercer o seu ato para compreender, ele é assim o mesmo para todos, e difere pelas luzes intelectuais próprias de cada um, trazendo para cada um também uma iluminação espiritual especial. O grande argumento dos averroístas era que a inteligência deveria ser, ao mesmo tempo, unida e separada: unida em relação ao homem que compreende e raciocina; e separada, porque, sendo o homem mortal, a inteligência seria mortal igualmente se não estivesse separada do composto humano corruptível. Os adversários aceitavam também que a inteligência humana deve ser unida e separada; mas era na definição da união e da separação que já não se entendiam. Os averroístas pretendiam que a alma intelectiva estava tão separada que não era e não poderia ser a forma substancial do corpo; ela constituía uma substância distinta e independente. A união, portanto, não era senão acidental; era uma união de contato, pela qual o intelecto, voltando-se para o homem, servia-se de suas imagens e memórias para exercer seus atos intelectuais e conduzia o composto como o piloto conduz o navio. Os escolásticos, pelo contrário, afirmavam que a alma estava unida substancialmente ao corpo, que ela não formava com ele senão uma única substância, que havia tantas almas intelectivas e inteligências distintas quantos indivíduos humanos, e que isso não impedia de estabelecer uma separação suficiente.
A alma, de fato, segundo eles, possui várias potências ou faculdades: umas estão unidas a um órgão e só agem no composto; outras, a inteligência e a vontade, não estão unidas a órgãos e agem espiritualmente. Basta, para compreender isso, acrescentavam eles, distinguir entre a essência da alma e as suas faculdades: umas estão unidas ao composto, as outras não o estão; as faculdades são distintas, sem serem, contudo, desprendidas da substância da alma.
Desta divergência de procedimento na explicação da tese fundamental da união e da separação da alma e do corpo, resultavam divisões radicais sobre uma multidão de pontos nos quais a fé falou. Para os averroístas, no homem, tudo é corruptível, tomado pelo interior, junto com o corpo; não há, pois, mais imortalidade individual, a personalidade está fortemente comprometida, a responsabilidade moral já não existe, suprimida. O homem é tomado pelo exterior, a diferença essencial está entre o intelecto humano e a besta, é o monopsiquismo humano, uma espécie de razão impessoal que brilha no cume da humanidade e que apenas ela possui a imortalidade.
Tal doutrina abre o terreno mais favorável aos desenvolvimentos do panteísmo idealista, as almas humanas não se fundem no intelecto e o destino humano é comprometido. Assim, nada de espantoso que, reduzindo tal filosofia à prática, um homem, em Paris, não quisesse evitar as faltas, pois, dizia ele, « se a alma do bem-aventurado é salva, nós teremos o mesmo destino » (P. Mandonnet, op. cit.).
Em moral, o averroísmo nega a liberdade e professa o mais puro determinismo psicológico. O homem é regido pela necessidade, ele quer ou escolhe sob o império da necessidade, pois a vontade é uma faculdade passiva, cujo papel todo é obedecer fatalmente à razão determinada pelos agentes exteriores e ao desejo. De resto, todo o mundo é movido necessariamente. É a ruína do livre-arbítrio, a supressão da responsabilidade moral, a ilegitimidade de todo castigo.
5º Em lógica, a teoria das duas verdades é admitida, tal como já assinalamos. Os averroístas tiram de seus princípios as mais audaciosas conclusões e as impõem em nome da filosofia. Eles professam ao mesmo tempo um profundo respeito pela Igreja, pelos dogmas e pela fé, e quando a fé e a filosofia estão em desacordo, agem como se duas verdades contrárias pudessem existir sobre um mesmo ponto. A condenação de 1277 censura-os abertamente na exposição dos motivos: Dicunt enim ea secundum philosophiam esse vera secundum rationem, non autem secundum fidem catholicam, quasi sint due contrarie veritates, et quasi contra veritatem sacre scripture sit veritas in dictis gentilium damnatorum (Denifle-Chatelain, t. I, p. 543).
V. Os homens. — Durante muito tempo o averroísmo não foi conhecido senão pelas refutações, e como as refutações não se ocupavam senão das ideias sem nomear os adversários que atacavam, até estes últimos tempos não se sabia o nome de nenhum averroísta. « Pôde-se notar, escrevia Renan, op. cit., p. 318, que no século XIII não é sem alguma dificuldade que reconhecemos os averroístas. As refutações de Raimundo Lúlio, da escola dominicana, nos revelaram, sozinhas, as suas fúrias. » Seria impossível designar nominalmente um só dos mestres que confessavam essas doutrinas.
Hoje, graças a hábeis exploradores das regiões filosóficas da Idade Média, já não estamos nesse ponto; podemos citar nomes. O grande chefe do averroísmo, no século XIII, é incontestavelmente Siger de Brabante, que o Pe. Mandonnet acaba de tão bem pôr em luz. Dante, Paraíso, x, 133-138, diz dele: Questi, onde a me ritorna il tuo pensieri, E la luce eterna di Sigeri, Che leggendo nel vico degli strami, Sillogizzò invidiosi veri. Este, de quem o teu olhar retorna a mim, é a luz de um espírito a quem, nos seus graves pensamentos, a morte pareceu lenta a vir. É a luz eterna de Siger, que, ensinando na rua do Fouarre, silogizou importunas verdades.
Siger não merece toda a honra que lhe faz o grande poeta italiano. Dante ignorava, sem dúvida, os seus erros filosóficos, e coloca-o no paraíso pela necessidade em que se encontra de colocar lá um representante exclusivamente filósofo do peripateticismo; não relataremos a sua vida. Ver SIGER DE BRABANTE. Que nos baste dizer que, temperamento audacioso e turbulento, ele foi a alma da facção averroísta na universidade de Paris; professou o mais puro averroísmo na cátedra da rua do Fouarre, assim como nas suas obras.
As obras de Siger são os Impossibilia, publicados por Bâumker em Münster, em 1898; as Quœstiones logicales, uma Quœstio utrum hœc sit vera: Homo est animal nullo homine existante; as Quœstiones naturales, um tratado De æternitate mundi, as Quœstiones de anima intellectiva, editadas pelo Pe. Mandonnet, Friburgo (Suíça), 1899. Na sequência da condenação de 1277, Siger fugiu de Paris. Citado ao tribunal do inquisidor de França, Simon Duval, a 23 de outubro de 1277, ele provavelmente não respondeu à citação, pois vemo-lo pouco depois comparecer na corte de Roma, onde havia verosimilmente interposto recurso da jurisdição de Simon Duval. Teve então de responder pela acusação de heresia movida contra ele. Aprisionado, morreu pouco tempo depois, atravessado pelo seu clérigo, que estava como louco. Cf. Revue de philosophie, 1900, p. 231.
O seu companheiro de desvario, e de condenação, Boécio de Dácia. Ele é, com efeito, designado por um manuscrito da Biblioteca Nacional de Paris, por um catálogo das obras de Raimundo Lúlio e por um catálogo das proposições de 1277, como diretamente visado pela condenação. Escreveu um tratado De modis significandi, questões sobre os Primeiros e segundos analíticos, sobre os Tópicos, os Sofismas, o livro De anima, a Metafísica e os Sophismata. Cf. Hauréau, Boethius, mestre em artes em Paris, na Histoire littéraire de la France, t. XXX, p. 270-279. Perseguido como Siger na corte de Roma, morreu também na prisão. Ver BOÉCIO de Dácia.
A estes dois chefes do averroísmo, deve-se juntar Bernier de Nivelles, cônego de Saint-Martin de Liège, citado ao mesmo tempo que Siger por Simon Duval. Compareceu verosimilmente na corte de Roma como Siger de Brabante; todavia, foi absolvido das finalidades da perseguição, já que o encontramos mais tarde fazendo um legado de vinte e cinco volumes ao colégio da Sorbonne e designado como testamenteiro de um cônego de Tongres em 1283. Mandonnet, p. CCXXIX. Hauréau, Histoire de la philosophie scolastique, IIe part., t. II, p. 90, Renan, Averroès et l'averroïsme, p.
259, pretendem fazer da escola franciscana com a universidade de Paris os dois focos do averroísmo no século XIII. Mandonnet, p. CCLV sq., mostra muito bem que, a propósito dos franciscanos, essas afirmações são sem fundamento histórico e ninguém deu a demonstração delas. O único pretexto para uma asserção deste género é uma teoria mal compreendida e agostiniana de Roger Bacon sobre a unidade do intelecto agente.
Dissemos que o averroísmo vivia ainda nos séculos XIV e XV. Os seus principais defensores são então João de Jandun, que diz de si mesmo que é o macaco de Aristóteles e de Averróis. Comment. in metaphi., Veneza, 1525, fol. 84. Encontram-se nele as teses averroístas, e ele atesta que outros o sustentam com ele. M. de Wulf, op. cit., p. 372 sq.
A universidade de Pádua defende ela também o averroísmo pelo órgão do médico Pedro de Abano, 1316, Urbano de Bolonha, 1405, Nicoletto Vernias, Paulo de Veneza, 1429, e Gaetano de Thiene. No início do século XVI, Alexandre Achillinus, 1518, Augustinus Niphus, 1546, Zimara, 1532, continuam em Pádua as tradições averroístas.
VI. Iconografia do averroísmo. — A derrota do averroísmo inspirou frequentemente os pintores cristãos. Em particular, o pensamento de São Tomás vencedor das heresias, e especialmente a de Averróis, era bastante popular na Idade Média. Devia, portanto, tentar os artistas e, com efeito, eles o expressaram mais de uma vez. Já demos um exemplo disso no artigo ARISTOTELISMO.
Um afresco pintado em 1489 por Filippino Lippi, na igreja de Santa Maria sopra Minerva, em Roma, traduz maravilhosamente o triunfo de São Tomás de Aquino. O Doutor Angélico está sobre uma tribuna elevada, cercado pela Teologia e pela Filosofia à direita, pela Prudência e pela Caridade à esquerda; embaixo, à direita, Ário está à frente de um grupo de seus sectários; à esquerda, Sabelius precedendo aqueles que arrastou para a heresia; um jovem, perto de Ário, solicita-o a voltar-se para São Tomás; um dominicano aponta o santo doutor aos sabelianos. No centro do quadro, deitado sob os pés do Anjo da Escola, Averróis. É o mais vencido de todos. É dele, sobretudo, que triunfa a Sabedoria, como indica a inscrição que está entre suas mãos: Sapientia vincit malitiam e ainda a outra inscrição que, abaixo dele, ocupa o painel do meio da tribuna: D. Thome, ob prostratam impietatem.
Já antes de Filippino Lippi, Taddeo Gaddi havia pintado «o Anjo da Escola sentado em uma cátedra elevada, tendo a seu lado as personagens dos dois Testamentos e cercado pelas quatro ciências, cada uma delas sobrepujada pelo filósofo que é seu tipo: a seus pés estão Ário, Sabelius e Averróis. Em várias outras pinturas, vê-se este último atormentado pelos demônios, arrancando os cabelos, etc.». César Cantù, Les hérétiques italiens aux XIIIe et XIVe siècles, na Revue des sciences historiques, 1866, t. I, p. 498.
Quétif et Echard, Scriptores ordinis prædicatorum, t. I, p. 288, 295, 395; Martène et Durand, Thésaurus anecdotorum, t. V, col. 1795-1814; Du Boulay, Hist. univers. Paris., t. III, p. 432-443; Histoire littéraire de la France, t. XIX, p. 258-266, 350-355; t. XXI, p. 96-127; t. XXX, p. 230-279; Fleury, Histoire ecclésiastique, t. LXXXVI; Thurot, De l'organisation de l'enseignement dans l'université de Paris au moyen âge, Paris, 1850; Renan, Averroès et l'averroïsme, 8e édit., Paris, 1867; L. Delisle, Le cabinet des manuscrits de la Bibliothèque nationale, Paris, 1874; Salvatore Talamo, L'aristotélisme de la scolastique, 2e édit., trad. franc., Paris, 1876; Ch. Potvin, Siger de Brabant, no Bulletin de l'Académie royale des sciences de Belgique, 2e série, 1878, t. XLV, p. 331-357; Carlo Cipolla, Sigieri nella divina Commedia, no Giornale storico della letteratura italiana, 1886, t. VIII, p. 53-139; Denifle-Chatelain, Chartularium universitatis Parisiensis, Paris, 1889; Pierre Dubois, De recuperatione terre sancte, édit. Langlois, Paris, 1891; L. Hannes, Des Averroès Abhandlung : « Ueber die Möglichkeit der Conjonction, » oder: « Ueber den materiellen Intellekt, » in der hebräischen Uebersetzung eines Anonymus nach Handschriften zum ersten Male herausgegeben..., Halle, 1892; Cf. Bâumker, Die Impossibilia des Siger von Brabant. Eine philosophische Streitschrift aus dem XIII Jahrhundert, zum ersten Male vollständig herausgegeben und besprochen, em Beiträge zur Geschichte der Philosophie des Mittelalters, Munster, 1898, t. IV, fasc. 6; Mandonnet, Siger de Brabant et l'averroïsme latin au XIIIe siècle, Fribourg (Suisse), 1899; Revue thomiste, t. III, p. 704-718; t. IV, p. 18-35, 689-712; M. de Wulf, L'averroïsme, na Revue néo-scolastique, t. V, Louvain, 1900, p. 95-110; Picavet, Histoire de la philosophie médiévale, Paris, 1902. Ver Angélologie d'après les averroïstes latins, col. 1260-1264.
Autor original: A. Chollet
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