AVAREZA. — I. Definição. II. Moralidade. A. Beugnet. III. Pecados derivados. I. DEFINIÇÃO. IV. Remédios. — A palavra avareza vem do latim aveo, desejar ardentemente. Avaritia pode se decompor, segundo santo Tomás, Sum. theol., IIa IIae, q. CXVIII, a. 1, em aeris aviditas. A palavra grega correspondente, φιλαργυρία, tem o mesmo significado. Nós definimos a avareza: um amor desregrado pelas riquezas.
Esta definição pode explicar-se de duas maneiras. A primeira é a do homem prudente que ama os bens da fortuna enquanto lhe são necessários para a satisfação de suas necessidades e úteis para o exercício da caridade. A segunda é a do homem cupido que quer e amontoa a riqueza por ela mesma, sem preocupação com os deveres que ela impõe àquele que a possui. Esta segunda maneira inclui uma desordem, e é esta desordem que chamamos avareza.
2° Das riquezas. A palavra avareza foi empregada algumas vezes em um sentido amplo, e estendida ao desejo imoderado das honras e do prazer como ao das riquezas. S. Agostinho, Enar. in Ps. cxviii, serm. xi, n. 6, P. L., t. XXXVII, col. 1530. Santo Tomás escreve a este respeito, loc. cit., a. 2: Nomen avaritiæ ampliatum est ad omnem immoderatum appetitum habendi quamcumque rem. A avareza, neste sentido, se confundiria com o amor de si, a ambição e todas as paixões egoístas. Mas a significação própria da palavra é restrita à cupidez das riquezas. Santo Agostinho ele mesmo dá esta definição, P. L., t. XXXIV, col. 1242, e, no mesmo sentido que santo Tomás, emprega esta outra definição que tinha curso no cil., a. 1. Acrescentemos que é preciso compreender, sob o nome de riquezas, todos os bens exteriores, móveis e imóveis, que podem ser objeto de propriedade, principalmente o dinheiro que pode servir para a aquisição de qualquer outro bem.
II. Moralidade. — Temos de mostrar que a avareza é um pecado e qual é a sua gravidade.
III. PECADOS DERIVADOS. — Já que a avareza é, de sua natureza, um amor desregrado, consequentemente, ela é por si um pecado. Mas em que consiste esta desordem moral? Santo Tomás, loc. cit., a. 1, explica dois tipos de desregramento: O primeiro refere-se aos bens exteriores; pode implicar a avareza com relação à sua aquisição ou à sua conservação; e consequentemente se adquire ou se conserva mais do que se deve. A avareza é um pecado que vai diretamente contra o próximo, porque, do ponto de vista das riquezas exteriores, um homem não pode estar na superabundância sem que outro esteja na necessidade. É impossível, com efeito, que todos possuam ao mesmo tempo os bens temporais.
O segundo desregramento concerne às afeições interiores, quando se ama, ou se deseja, as riquezas, ou se delicia nelas de uma maneira imoderada: deste ponto de vista, a avareza é um pecado do homem contra si mesmo, porque sua afeição está por demais fixada nas coisas, embora não haja desordem no seu corpo, como pelos vícios carnais. Em consequência, a avareza é também um pecado contra Deus, como são todos os pecados mortais, enquanto o homem despreza o bem eterno por um temporal.
A estas considerações de razão podemos acrescentar outras provas para mostrar que a avareza é um pecado. 1° As reprovações, ameaças e anátemas contra os maus ricos, no Antigo como no Novo Testamento: Eccle., v, 9-10; Eccli., x, 9-10; xxxi, 5-11; Is., ii, 7; Baruch, iii, 16-18; Matth., vi, 24; xix, 23-24; Marc., x, 24; Luc, vi, 24; xii, 13-21; xvi, 19-26; Rom., i, 29; 1 Cor., v, 10; vi, 10; Eph., v, 5; Col., iii, 5; 1 Tim., vi, 9-10, 17-19; Jac., v, 1-6.
2° A insistência dos Padres da Igreja em precaver os fiéis contra a cupidez dos bens da terra. Santo Agostinho dirige ao seu povo vários sermões sobre este assunto: Serm., lxxxvi, P. L., t. XXXVIII, col. 627-632; clxxxvii, col. 953-959. São Gregório Magno coloca em relevo os aspectos culpáveis da avareza em diferentes capítulos de seu comentário sobre Jó. Moral. in Job, l. XIV, c. iii; l. XV, c. xix-xxiv; l. XX, c. ix; l. XXXI, c. xlv. P. L., t. LXXV, col. 1071, 1093; t. LXXVI, col. 150, 620.
3° Os decretos do direito canônico, sendo os clérigos muito apegados aos bens temporais. Can. igitur, dist. XXIII, c. ii; Can. Quicumque, caus. I, q. i, c. cviii.
IV. NATUREZA. — Santo Tomás, loc. cit., q. cxviii, a. 1, explica que a avareza pode ter duas formas: Ela é algumas vezes o desejo, a perseguição, a detenção dos bens terrestres contra os direitos rigorosos de outrem. Sob esta forma, ela é um pecado contra a justiça. Trata-se desta avareza no profeta Jeremias, xxii, 17: «Seus príncipes estavam no meio dela, como lobos sempre atentos a arrebatar sua presa, a derramar o sangue e a correr atrás do ganho para fazer sua avareza.»
Mais ordinariamente a avareza é um apego aos bens que se possui legitimamente; por esta exageração, o avarento recusa-se a servir-se deles na medida que seria conveniente, seja para o alívio das misérias de outrem, seja mesmo para a satisfação normal de suas necessidades pessoais. Sob esta forma, há, diz santo Tomás, loc. cit., a. 3, um pecado oposto à virtude da liberalidade. O santo doutor define a liberalidade, ibid., q. cxvii, a. 1: «uma virtude pela qual fazemos bom uso dos bens exteriores que nos foram dados para nossa sustentação.»
III. SUA GRAVIDADE. Digamos primeiro que, se a avareza é contrária à justiça, a título, seja de roubo, seja de injusta detenção, ela tem de toda evidência a gravidade desses pecados, mortale ex genere suo. S. Tomás, ibid., q. cxviii, a. 4. Ver Detenção e Roubo.
Mas se ela é apenas o apego exagerado ao seu próprio bem, contrário, como dissemos, à virtude da liberalidade, os moralistas concordam em dizer que ela é apenas falta venial ex genere suo. S. Tomás, loc. cit.; Noël Alexandre, Tract. de peccatis, c. v, a. 3, reg. 2, em Migne, Theol. curs. compl., t. XI, col. 853; Busenbaum, Medulla theologiæ moralis, l. V, c. iii, dub. II, Bruxelas, 1661, p. 530, reproduzido sem comentário em S. Liguori, Theol. mor., l. V, n. 68, Paris, 1884, t. i, p. 259, e em Ballerini, Opus theol. morale, tr. IV, De peccatis, n. 59, Prato, 1889, t. I, p. 574; Génicot, Theol. mor. institutiones, Lovaina, 1898, t. i, p. 150.
Este ensinamento unânime é fundado sobre considerações de razão que podem se resumir assim: Por uma parte, a virtude da liberalidade, prudente dispensação dos bens da fortuna, não obriga sub gravi, quando nem a justiça nem a caridade estão em jogo. Por outra parte, o apego à riqueza é legítimo em si mesmo e necessário em certa medida.
Ultrapassar a medida é uma falta que não parece constituir uma grave desordem moral. Mas também todos os autores observam que este pecado, venial em si mesmo quando o consideramos na sua simples oposição à virtude da liberalidade, ex genere suo, pode tornar-se e torna-se de fato mortal, em razão de circunstâncias que transformam ou agravam notavelmente o seu caráter de culpabilidade, per accidens.
Eis alguns exemplos:
1° O amor ao dinheiro pode chegar a tal exageração que o avarento se disponha a sacrificar os seus deveres de religião e a graça divina em vez do seu dinheiro. Tal disposição refletida e voluntária é mortalmente culpável.
2° O avarento, sem lesar direitos de justiça, pode violar, contudo, obrigações incontestáveis de caridade. Ele nunca faz esmola. Ora, há circunstâncias em que a esmola é gravemente obrigatória. Ver Esmola.
3° É preciso levar em conta também o dano que o avarento causa a si mesmo pelas suas preocupações exageradas e pelas suas privações imprudentes, seja na sua saúde e nos seus outros interesses temporais, seja também e sobretudo na sua vida cristã e nos seus interesses sobrenaturais. Daí que se possa encontrar, na vida prática, avarentos grave e muito gravemente culpáveis. É destes que o livro do Eclesiástico profere este julgamento severo, x, 9, 10: Avaro nihil scelestius quam amare pecuniam. São estes também que São Paulo exclui do reino dos céus, 1 Cor., VI, 10: Neque avari... regnum Dei possidebunt.
— III. PECADOS DERIVADOS. A avareza é um vício ou pecado capital. Um pecado deve ser considerado como capital, diz São Tomás, em razão sobretudo do fim que persegue: vitia capitalia dicuntur ex quibus alia oriuntur, præcipue secundum rationem causae finalis. Sum. theol., Iª IIª, q. lxxxiv, a. 1.
Qual é, pois, o fim próprio do pecado da avareza? Qual é o objeto onde se detém a vontade do avarento? Já respondemos que a riqueza e todos os bens que esta palavra designa são uma potência que pode tornar-se um arrastamento para fora dos limites do dever e, por conseguinte, uma fonte de pecados: Quid non mortalia pectora cogis Auri sacra fames? Virgílio, Eneida, 1. III, 56.
É preciso concluir que a avareza é contada, com justiça, entre os pecados capitais: quia respicit ad pecuniam habentem quamdam principalitatem inter bona sensibilia. S. Tomás, Sum. theol., IIª IIª, q. cxviii, a. 7.
Que pecados nascem desta fonte? São Gregório, Moral., 1. XXXI, c. xlv, n. 88, P. L., t. lxxvi, col. 621, enumera sete que constituem como que o exército especial deste chefe: Avaritia, proditio, fraus, fallacia, perjuria, inquietudo, violentiae et contra misericordiam obdurationes cordis oriuntur. São Tomás, loc. cit., a. 8, chama estes pecados de filhas da avareza: traição, fraude, logro, perjúrio, inquietação, violência e insensibilidade em relação aos infelizes.
E eis em que termos ele estabelece a genealogia deles: «A avareza, riquezas, excede de duas maneiras. Primeiro, ela se apega demais à conservação dos bens, e daí resulta a insensibilidade, pois o coração do avarento não é tocado pela compaixão, nem levado a socorrer os infelizes. Em seguida, a avareza excede na busca da fortuna de duas maneiras. Primeiramente, no afeto da vontade, produz a inquietação, porque causa ao homem preocupações e cuidados supérfluos, segundo o que é dito na Escritura: “o avarento nunca será saciado de dinheiro.” Eccle., v, 9. Segundamente, nos seus efeitos exteriores, utiliza por vezes a força para se apropriar do bem dos outros, o que é a violência; por vezes o dolo, que se chama logro, se consiste numa simples palavra; o perjúrio, se se lhe acrescenta um juramento; a fraude, se é cometido por atos e tem por objeto coisas; a traição, se tem por objeto pessoas, como se vê pelo exemplo de Judas, que trai o Cristo por avareza.»
IV. Remédios. Os moralistas e os autores ascéticos buscaram remédios contra o vício da avareza. Agrupamos sob três títulos os principais dentre estes remédios.
— 1°. CONSIDERAÇÕES DE ORDEM SOBRENATURAL. Estas considerações incidirão sobre dois pontos: 1° O exemplo de N. S. J.-C. Jesus era senhor de todas as riquezas do mundo; contudo, quis nascer, viver e morrer na pobreza: egenus factus est cum esset dives. II Cor., VIII, 9. Nasceu na manjedoura de Belém; viveu do trabalho das suas mãos na oficina de Nazaré; não tinha, durante a sua vida pública, onde reclinar a cabeça, Luc, IX, 58; morreu na indigência do Calvário e foi sepultado num sepulcro emprestado. Esta lição não pode ficar sem proveito para uma alma que guardou a lei.
2° A dificuldade da salvação para os ricos. Que nos baste recordar alguns textos escriturários neste sentido: Baruc, III, 18-19: «Onde estão aqueles que amontoam a prata e o ouro em que os homens depositam a sua confiança? Desceram aos infernos.» — Mateus, XIX, 24: «É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que entrar no reino dos céus.» — Lucas, VI, 24: «Ai de vós, ricos, o que tendes aqui abaixo é a vossa consolação.» — I Tim., VI, 9: «Aqueles que querem tornar-se ricos caem na tentação e no laço de Satanás, e em numerosos desejos vãos e perniciosos que mergulham o homem na sua perdição e na sua danação.»
— II. CONSIDERAÇÕES DE ORDEM RACIONAL.
1° O avarento não é feliz. Primeiro, ele não desfruta da sua fortuna. A sua paixão, que nada sacia, impõe-lhe fadigas e privações. Em seguida, vive numa perpétua inquietação de perder o que amontoou. Sabe-se que partido tiraram desta inquietação estreita e incessante os psicólogos que levam à cena as falhas da humanidade. Enfim, ele é e sente-se odioso a todo o mundo: aos pobres para quem só tem durezas; aos homens de negócios que tentou enganar; aos seus servos que esperam dele privações contra toda a razão.
2° O avarento será bem obrigado a deixar tudo na morte. Nada trouxemos a este mundo; não é duvidoso que também nada levaremos dele. Desde logo, para que servem as preocupações do avarento? Depois dele, os seus bens serão a partilha dos outros, talvez dos seus filhos, talvez de parentes distantes, talvez mesmo de estranhos, que lhe guardarão pouca ou nenhuma gratidão. São Francisco de Sales escreve na Introdução à vida devota, parte IV, c. x. Œuvres complètes, Paris, 1885, t. I, p.
216: «Se estais inclinada à avareza, pensai frequentemente na loucura deste pecado que nos torna escravos daquilo que só foi criado para nos servir; que na morte, de qualquer modo, será preciso deixar tudo e abandoná-lo nas mãos de tal que o dissipará ou a quem isso servirá de ruína e de danação.»
III. ATOS CONTRÁRIOS. Em virtude do adágio: contraria contrariis curantur, a avareza deve ser combatida pelo exercício das virtudes que lhe são opostas, liberalidade, justiça, caridade; e mais particularmente pelo cumprimento do dever da esmola. São Francisco de Sales, loc. cit., acrescenta às palavras que relatamos: « Violentez-vous à faire souvent des aumônes et des charités. »
A esmola tem uma dupla eficácia para a cura desta doença da alma que é a avareza: uma direta, pois ela reage por sua própria natureza contra a tendência deste vício; a outra indireta, pois é uma obra meritória que obtém da bondade de Deus, para aquele que a cumpre, graças de conversão e de santificação. Está escrito no livro de Tobias, IV, 7: « Faites l'aumône de votre bien et ne détournez votre visage d'aucun pauvre; la conséquence sera que le Seigneur ne détournera pas non plus son visage de vous. »
S. Thomas, Sum. theol., IIª IIª, q. cxviii; S. François de Sales, Introduction à la vie dévote, part. III, c. xiv-xvi, part. IV, c. x, Œuvres complètes, Paris, 1885, t. I, p. 142-151; Busaeus, Panarium seu summa remediorum spiritualium, v° Avaritia, Paris, 1894, t. I, p. 26 sq.; Ferraris, Bibliotheca canonica, juridica, moralis, etc., v° Avaritia, Venise, 1770, t. I, p. 177 sq.; Noël Alexandre, Theol. curs. compl., t. XI, De peccatis, c. 819-951; S. Liguori, Theol. moralis, t. I, 1. V, De peccatis, n. 68-70, Paris, 1884, t. I, p. 259 sq.; et tous les auteurs de théologie morale.
Autor original: A. Beugnet
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