AUDIENSES

AUDIENSES

AUDIANS, discípulos de Audius, antropomorfistas e partidários decididos da celebração da Páscoa cristã ao mesmo tempo que a dos judeus. Seu chefe, Audius ou Udo, nascera na Mesopotâmia, no século IV, de uma família ilustre, e fizera-se notar pela integridade de seus costumes e pelo ardor de seu zelo. Mas ele não podia tolerar a mais leve desordem na Igreja e repreendia, com grande liberdade de linguagem, os bispos e os sacerdotes todas as vezes que seus atos ou sua administração lhe pareciam deixar a desejar. Exaltava-se contra o luxo e o amor ao dinheiro e estigmatizava toda falta contrária ao dogma ou à disciplina. Nem sua piedade sincera, nem seu zelo pela ortodoxia da fé e pela manutenção da disciplina lhe fizeram perdoar suas intemperanças de linguagem. Por muito tempo esteve sujeito a vexames que suportou sem se queixar e sem romper com a Igreja.

Mas acabou por fundar uma seita que, a seu exemplo, pela austeridade, a probidade e o senso de justiça, afirmou-se como um protesto vivo contra as falhas da época. Seus partidários não quiseram mais se chamar cristãos e tomaram seu nome; viveram à parte, isolados do resto dos homens, longe dos centros ou na entrada das cidades, de preferência em mosteiros ou conventos, e propagaram-se rapidamente na Ásia e na Cítia; seguiram Audius entre os godos, ensinando a esses bárbaros os rudimentos da fé e propagando a prática do ascetismo e da continência. Organizaram-se em igreja e tiveram um clero próprio. Audius, com efeito, fora sagrado bispo por um bispo católico a quem ele conquistara para sua causa; depois dele, citam-se, entre outros, como bispos da seita, um certo Uranius na Mesopotâmia e um certo Silvanus na Gótia.

Com a morte desses chefes, os audians diminuíram sensivelmente e encontraram-se logo confinados em alguns raros conventos, seja em Cálcis não longe de Antioquia, seja na Mesopotâmia perto do Eufrates, sem a menor ação sobre o movimento intelectual da época. São Epifânio, a quem devemos estes detalhes, não pode se defender de um sentimento particular de simpatia por homens tão austeros: ele lhes é grato por não terem errado sobre a questão trinitária, em uma época em que o arianismo tinha tanto sucesso, Haer., LXX, P. G., t. XLII, col. 341; e, por um excesso de benevolência, trata-os de cismáticos e, antes do que de hereges, Anacephalœosis, I, III, 1, P. G., t. XLII, col. 869. Está, contudo, obrigado a constatar que se serviam de um grande número de apócrifos, sem dizer quais, e de blasonar seu antropomorfismo, como contrário à tradição eclesiástica e à regra da fé, assim como sua obstinação em celebrar a Páscoa ao mesmo tempo que os judeus.

Os audians, com efeito, entendiam mal a Escritura: tomando ao pé da letra seja as expressões escriturárias, que emprestam membros a Deus, seja os relatos das teofanias do Antigo Testamento, colocavam a semelhança do homem com Deus na corporeidade; eram antropomorfistas. Épiphane, Haer., LXX, 2, P. G., t. XLII, col. 348. Ver ANTHROPOMORPHITES, col. 1371.

Além disso, não levavam em conta as decisões tomadas em Niceia tocando a celebração da Páscoa, por ocasião do uso introduzido pelos quartodecimanos. Ver este nome. Obstinaram-se em celebrar a festa ao mesmo tempo que os judeus, sob este duplo pretexto, tão pueril quanto falso, de que seu uso, o único verdadeiro, pensavam eles, fora abandonado, em 325, por um espírito de baixa adulação ao imperador e para fazer coincidir a festa da Páscoa com o dies natalis de Constantino, S. Épiphane, Haer., LXX, 9, P. G., t. XLII, col. 353.

Apoiavam-se, muito erroneamente, na autoridade da Διδασκαλία τῶν Ἀποστόλων. Pois essa Διδασκαλία, documento desconhecido até aqui e em contradição, neste ponto, com as Constituições apostólicas, V, 17, P. G., t. I, col. 888, não permitia celebrar a festa da Páscoa ao mesmo tempo que os Judeus convertidos, isto é, o décimo quarto dia da lua, senão por amor à paz e para não contrariar esses judeu-cristãos. Sua autoridade, em todo caso, era nula perante a decisão do concílio de Niceia. Epifânio tem razão de observar que, ao manter, como faziam os audians, o uso judeu, podia acontecer que, certos anos, celebrassem duas páscoas, porque os judeus já não mantinham uma contagem rigorosa do equinócio. Haer., LXX, 11, P. G., t. XLII, 364.

É, além disso, reprovado aos audians que eles remetiam os pecados de uma estranha maneira, obrigando os pecadores a passar entre uma dupla cerca de apócrifos e a confessar suas faltas durante este exercício; aqueles que a isso se submetiam não viam ali senão uma pilhéria. Haer., IV, 10, P. G., t. LXXXIII, col. 783; altura do Prædestinatus, I, 50, P. L., t. LIII, col. 606. Após ter resumido São Epifânio, acrescenta que os audians foram combatidos por Zenon, bispo dos sírios, personagem, aliás, desconhecido. S. Épiphane, Haer., LXX, P. G., t. XLII, col. 330 sq.; S. Augustin, Haer., L, P. L., t. XLII, col. 39; Théodoret, H. E., IV, 10, P. G., t. LXXXII, col. 1141; Haer., IV, 10, t. LXXXIII, col. 428; Prædestinatus, I, 50, P. L., t. LIII, col. 605 sq.; Cassiodure, Hist. tripart., VII, 11, P. L., t. LXIX, col. 1077; S. Éphrem, Serm., XXIV, adv. hær., Opera, Rome, 1740, t. II, p. 497.

Autor original: G. Bareille

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