ANDRÉ DE CRETA (Santo) nasceu em Damasco por volta de meados do século VII e abraçou a vida monástica. Teodoro enviou-o como seu delegado ao sexto concílio ecumênico de Constantinopla, em 680. A atitude de André nas querelas doutrinais do seu tempo ainda não está perfeitamente estabelecida. Depois de ter combatido a heresia monotelita, André parece ter-lhe sido favorável sob Filípico Bardanes, 711-713, para depois regressar, após a queda deste imperador, a sentimentos ortodoxos. Sob Leão III, o Isauro, encontramos André entre os defensores das santas imagens. Ele tornou-se arcebispo de Creta por volta de 710. Morreu por volta de 720. A Igreja grega colocou-o no número dos santos e honra-o no dia 4 de julho.
André de Creta é considerado um dos melhores oradores eclesiásticos da época bizantina. Os vinte e dois discursos seus, publicados até hoje, são escritos em uma língua harmoniosa, cheia de poesia e de unção; suas divisões são claras e precisas; contêm muita doutrina, e sobretudo quando se trata de homilias, um número muito grande de citações da Escritura. Seus panegíricos, verossimilmente compostos a partir de trabalhos anteriores, reúnem, em proporções quase iguais, a história, o elogio e a exortação moral. Desses diversos discursos, cinco têm por objeto festas de N. S. J.-C.: um, sua Circuncisão, sua Transfiguração e o Domingo de Ramos; dois, a Exaltação da Santa Cruz; quatro são consagrados à Natividade da santíssima Virgem, três à sua Dormição ou Assunção, um à sua Anunciação; um ainda à ressurreição de Lázaro, à decapitação de São João Batista, ao apóstolo São Tito, a São Jorge o mártir, a São Nicolau bispo de Mira, a São Patápio. Vêm em seguida uma homilia sobre a parábola do fariseu e do publicano, e um discurso muito longo sobre a vida do homem e as lições da morte. Um panegírico do apóstolo São Tiago «irmão do Senhor» foi impresso pela primeira vez em 1891.
Mas André, arcebispo de Creta, é muito mais célebre ainda como poeta religioso ou himnógrafo. Atribui-se a ele a invenção ou, pelo menos, a introdução, na liturgia, do cânone, composição poética habitualmente formada por oito ou nove odes sucessivas, divididas elas mesmas em estrofes ou tropários. O mais célebre desses cânones, e a principal obra himnográfica de André, é o Grande Cânone, assim nomeado principalmente por causa de sua extensão. Ele compreende, com efeito, 250 estrofes repartidas em nove séries de odes escritas cada uma sobre um ritmo diferente, mas terminando todas pelo Theotokion ou estrofe em honra da Mãe de Deus. Durante essa longa série de versos, a alma culpada e penitente endereça a Deus um apelo ansioso à sua misericórdia; com grande reforço de textos e de exemplos tirados do Antigo e do Novo Testamento, é sempre o mesmo pensamento que reaparece, sobre a imensa fragilidade humana e a misericordiosa bondade de Deus que sozinho concede a salvação. Reprovaram a André, neste grande cânone penitencial, a sutileza, as longas digressões, as comparações forçadas: não se pode recusar-lhe ter atingido por vezes os mais altos cumes do lirismo cristão, por exemplo nesta passagem da 4ª ode: «O fim aproxima-se, ó minha alma, aproxima-se, e tu não pensas nisso, não estás preparada. O tempo urge, levanta-te, teu juiz está aí perto da porta. Assim como um sonho, assim como uma flor, o tempo da vida foge e desaparece. Minha alma, ó minha alma, desperta-te, por que dormir ainda? Volta a sentimentos melhores a fim de que Cristo nosso Deus te perdoe.» Os himnógrafos posteriores olham para André de Creta como seu mestre e seu modelo; a seus olhos, nada iguala a pureza da forma, a elevação do pensamento, a doçura harmoniosa do ritmo do qual ele encontrara o segredo. Eles chamam-no um «astro radiante», comparam-no aos sublimes ensinamentos, pontífice do Senhor, baluarte dos cretenses, ó André feliz em Deus! Vossos versos retumbaram como a cítara. Não há língua que não deva confessar-se vencida diante do charme de vossas palavras, ó André inspirado de Deus!» Pitra, Analecta sacra, t. I, Paris, 1876, p. 626. Ainda hoje a Igreja grega faz, na quaresma, e em duas semanas diferentes, o ofício do grande cânone; a primeira vez ela o divide entre os quatro primeiros dias da primeira semana; mas a segunda vez, na quinta-feira que segue o nosso quarto domingo, ele é cantado por inteiro. Deve-se ainda ao arcebispo de Creta vários outros cânones, sobre a conceição de Santa Ana, sobre a natividade de Maria, sobre a ressurreição de Lázaro, sobre as correntes de São Pedro, sobre a festa da Meia-pentecoste (25º dia após a Páscoa); triódios, ou cânones com três odes apenas, para a semana santa; idiomelos, ou antífonas tendo uma melodia original, para várias festas de N. S. e dos santos, e mesmo versos iâmbicos.
As obras impressas de André de Creta estão reproduzidas em P. G., t. XCVII, col. 805-1444, à exceção do sermão sobre o apóstolo São Tiago «irmão do Senhor» publicado pela primeira vez por Papadopoulos-Kerameus nos Ἀνάλεκτα Ἱεροσολομιτικῆς σταχυολογίας, t. I, São Petersburgo, 1891, p. 1-14, do cânone sobre as correntes de São Pedro publicado pela primeira vez por Pitra, Hymnographie de l’Eglise grecque, Roma, 1867, p. XLVI-LI, e reproduzido por W. Christ, Anthologia græca carminum christianorum, Leipzig, 1871, p.
157-161. Uma parte do grande cânone encontra-se também em Christ, ibid., p. 147-157. Além das obras impressas de André de Creta, encontrar-se-á em P. G., ibid., col. 802, 803, a lista de dezenove discursos ainda inéditos, à qual é preciso acrescentar uma segunda homilia sobre Lázaro, uma homilia sobre São Zacarias, pai de São João Batista, e um panegírico dos santos mártires de Creta.
A. Ehrhard em Krumbacher, Geschichte der byzantinischen Literatur, 2e édit., Munique, 1897, p. 165-166, e Krumbacher, ibid., p. 673-674; N. Nilles, Kalendarium manuale utriusque Ecclesiæ, Inspruck, 1897, t. I, p. 147-153; E. Marin, Les moines de Constantinople, Paris, 1897, p. 497-498, 512; W. Christ, Anthologia græca carminum christianorum, p. XLII; O. Bardenhewer, Les Pères de l’Eglise, trad. franç., Paris, 1899, t. II, p. 99; Dictionnaire d’archéologie chrétienne, t. I, col. 2034-2041.
Autor original: E. Marin
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