AMIANO MARCELINO

AMIANO MARCELINO

Amiano Marcelino, historiador de valor, era um grego originário de Antioquia. Dedicou-se cedo aos estudos, sem, contudo, negligenciar a carreira das armas. Serviu sob Constâncio, sob Juliano, o Apóstata, na Pérsia, e em diversas guerras sob os seus sucessores. Retirado em Roma, onde morreu por volta do ano 400, escreveu uma história romana em trinta e um livros: Rerum gestarum libri XXXI, para dar continuidade aos Anais de Tácito, desde o ano 96 d.C. (Nerva) até à morte de Valente em 378. Os primeiros treze livros estão perdidos. Os últimos dezoito, os mais interessantes por tratarem do período contemporâneo do autor, conservaram-se e constituem uma das fontes mais seguras e abundantes para a história do século IV, desde a elevação de Galo, irmão de Juliano, o Apóstata, ao posto de César. A obra de Amiano Marcelino não possui valor literário; a sua leitura torna-se penosa pela ênfase do estilo, pela busca de construções poéticas, pela estranheza e obscuridade das estruturas. O autor era um homem de leituras e citava ou imitava servilmente, e alternadamente, os seus autores favoritos: Virgílio, Horácio, Ovídio, Lucano, Plauto, Terêncio, Cícero, Aulo-Gélio, Salústio, César, Tácito, etc. O fruto do seu labor é uma marchetaria um tanto confusa, onde o mau gosto da época se sobrepõe aos defeitos pessoais do autor. Em contrapartida, criou uma mina de informações históricas, geográficas e arqueológicas. As suas informações são, ordinariamente, muito seguras, sendo a retidão do seu juízo e a imparcialidade dos seus relatos inatacáveis.

Amiano Marcelino falou do cristianismo em diversas ocasiões, com tanta consideração que certos críticos concluíram outrora que ele era cristão (Claud. Chifflet). O contrário é certo. Ele próprio não se declara em parte alguma cristão, embora escreva no final do século IV (por volta de 390) sob imperadores cristãos, numa época em que nenhum retorno de sorte poderia já galvanizar o paganismo. Quando fala de temas cristãos, de mártires ou de sínodos, introduz explicações e breves comentários que traem uma pena pagã, escrevendo uma obra destinada a leitores pagãos que possuem apenas um conhecimento vago e superficial do cristianismo. Pelo contrário, fala com naturalidade, facilidade e deferência sobre os usos pagãos, os auspícios e os augúrios (XXI, 4). É demasiado esclarecido para acreditar num politeísmo grosseiro; mais desligado do que o próprio Juliano das formas religiosas do paganismo, pertence àquela classe de pagãos que chegaram a uma espécie de monoteísmo bastante análogo ao deísmo racionalista. A crença numa divindade superior, fatum, numen, diretora dos destinos do mundo, vingadora dos crimes, remuneradora das boas ações, manifesta-se claramente em Amiano no relato do assassinato de Galo por Constâncio, em meio a uma grande abundância de imagens pagãs: vigilavit utrobique superni numinis aequitas... (XIV, 11, 24-26).

Amiano professa uma verdadeira estima pelo cristianismo, do qual se sente próximo pela sua crença num numen celeste, aeternum, divinum, perpetuum (XXV, 3, 15), summum, efficax (XIV, 11, 25), e pela seriedade da conduta moral. Ao mesmo tempo que louva em Juliano a ciência filosófica, as qualidades de estadista e de general, destaca o contraste entre os seus esforços para "fazer voltar à terra a justiça exilada no céu" e a iniquidade das suas proibições em relação aos cristãos: illud autem erat inclemens obruendum perenni silentio, quod arcebat docere magistros rhetoricos et grammaticos ritus christiani cultores (XX, 10, 7); reconhece a Joviano um certo mérito por ter sido christianae legis studiosus (XXV, 10, 15); deixa entrever a sua estima pelas virgens cristãs: inventas... alias quoque virgines christiano ritu cultui divino sacratas, custodiri intactas et religioni servire solito more, nullo vetante, praecepit (refere-se a Sapor, rei dos Persas), (XVIII, 10, 4). Da mesma forma, falava vantajosamente dos cristãos que deviare a religione compulsi pertulere cruciabiles poenas, ad usque gloriosam mortem intemerata fide progressi, et nunc martyres appellantur (XXI, 14, 10). Finalmente, Amiano não poupa elogios aos clérigos cristãos, sobretudo àqueles que, vivendo nos campos, espalhavam a edificação pela regularidade e austeridade de sua vida (XXVII, 3, 15). Se Amiano é bem disposto em relação aos cristãos, ele não é um deles: observa o cristianismo com simpatia sem temer os seus sucessos, mas sem penetrar os seus princípios, sem aprofundar as suas doutrinas, sem se entusiasmar ou mesmo se animar pelas controvérsias. O seu elogio aos clérigos campestres tem como contraponto a crítica aos costumes do clero de Roma, vivendo no luxo, nos prazeres, buscando as honras e as larguezas das matronas, pleiteando a sede episcopal. Havia assistido às lutas sangrentas que travaram os partidários do Papa Dâmaso e do seu competidor Ursino, e relata alguns traços disso: constat in basilica Sicinini, ubi ritus christiani est conventiculum, uno die centum triginta septem reperta cadavera peremptorum (XXVII, 3, 13). Assim como não suspeita do interesse que os cristãos dedicam à legitimidade dos seus bispos, tampouco apreende as nuances das doutrinas que colocavam os fiéis uns contra os outros. É a propósito do papel de Constâncio nas querelas arianas que Amiano escreve estas palavras frequentemente citadas: Christianam religionem absolutam et simplicem anili superstitione confundens in qua scrutanda perplexius quam componenda gravius excitavit discidia plurima ; quae progressa fusius aluit concertatione verborum ut catervis antistitum jumentis publicis ultro citroque discurrentibus per synodos, quas appellant, dum ritum omnem ad suum trahere conantur arbitrium, rei vehiculariae succideret nervos (XXI, 16, 18). É pouco crível que o historiador tenha aplicado a expressão religio absoluta et simplex ao cristianismo ortodoxo e pretendido estigmatizar o arianismo como uma superstitio anilis. É muito verossímil que o cristianismo que Amiano tem em vista seja um cristianismo filosófico, tal como o imagina, mais ou menos conforme ao seu próprio deísmo, e que a superstição que censura Constâncio por favorecer não seja tanto uma seita cristã, mas as subtilezas dogmáticas em si. Como estadista, reprova as disputas intermináveis de bispos ciumentos em dobrar todos os seus correligionários à sua maneira. A mesma reprovação encontra-se expressa indiretamente por Amiano Marcelino, sem distinção entre ortodoxos ou arianos, quando narra que Juliano, o Apóstata, chamou de volta os exilados (entre os quais se encontravam muitos católicos) a fim de reanimar as querelas teológicas: "Ele sabia", diz o historiador, "que os cristãos eram piores que as bestas ferozes quando discutiam entre si", XXII, 5º Amiano Marcelino é um sábio, cuja filosofia religiosa, reduzida a alguns princípios muito simples, ainda veste o traje das formas e das imagens pagãs. Frequenta uma sociedade muito misturada, onde pagãos e cristãos começam a suportar uns aos outros. Permanece no exterior do cristianismo; vê-o por fora; mas julga-o bem, com imparcialidade e independência, tanto quanto é possível a um escritor que permanece estranho ao detalhe da doutrina e ao mecanismo das instituições. O testemunho que lhes presta é sempre indireto, mas tanto mais precioso de recolher quanto não é influenciado por espírito de partido.

Edições: L. XIV-XXVI, por Sabinus, Roma, 1474; l. XIV-XXX, por Gelenius, Basileia, 1533; l. XIV-XXXI, Fr. Lindenbrog, Hamburgo, 1609; Henri e Adrien Valois, Paris, 1636 e 1681; Jacques Gronovius, Leiden, 1693; Ernesti, Leipzig, 1773; Wagner, Leipzig, 1808; Eyssenhardt, Berlim, 1871; Gardthausen, 2 vol., Leipzig, Bibl. Teubner, 1874 sq. — Cf. Claud. Chifflet, De Ammiani M.

vita et libris rerum gestarum monobiblion, Louvain, 1627; G. A. Cart, Quæstiones Ammianæ, Berlim, 1868; Teuffel, Histoire de la litt. romaine, tradução de Bonnard e Pierson, t. 1, Paris, 1883, p. 183 sq.

Autor original: H. Hemmer

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