ALOGES. "Aloyot". São Epifânio, Hær., LI, 3, P. G., t. XLI, col. 892, é o inventor deste termo para certos personagens asiáticos do final do século II; ele o faz derivar, não de ἀλόγως, sem razão, mas de ἄλογος, negador do Logos. Etimologicamente falando, e atendo-se apenas a esta primeira informação, tem-se o direito de concluir, e de fato concluiu-se, pela existência de uma seita caracterizada por sua oposição à doutrina católica sobre o Logos, por sua recusa em admitir a divindade do Verbo. Consequentemente, o pensamento volta-se imediatamente para os partidários exagerados da monarquia em Deus, para os anti-trinitários do final do século II e início do século III; tanto mais que ele designa Teódoto como um "provião" dos alogianoi, ibid., LI, 1, e que Teódoto foi um dos chefes da escola unitária em oposição à escola trinitária. Esta é a conclusão natural a ser extraída do relato de Epifânio, uma vez que ele afirma que os aloges "abandonaram a fé sincera", "que são completamente estranhos ao ensinamento da verdade", ἀλλότριοι δὲ τοῦ πνεύματος τῆς ἀληθείας, ibid., LI, 3, e verdadeiros anticristos, dos quais se trata na primeira Epístola de São João. I Joa., II, 18º E foi esta a conclusão que Hefele tirou no Tubing. Quartalschrift, 1851, p. 564, e 1854, p. 361; conclusão que é bastante conforme à breve notícia que Santo Agostinho dedica aos aloges. De hær., XXX, P.L., t. XLII, col. 31º De acordo com isto, os aloges são hereges especificamente caracterizados pela sua negação da divindade do Verbo e pela sua oposição aos escritos de São João, onde esta divindade é tão claramente ensinada e tão frequentemente afirmada.
Epifânio não se limitou a esta indicação geral. Ele nos deu a conhecer alguns dos motivos alegados pelos aloges para rejeitar em bloco os escritos joaninos. E estes motivos são os seguintes: o quarto Evangelho é inarmônico, dissonante; não agrupa os fatos da mesma maneira que os sinóticos; não segue nem a sua ordem pragmática, nem a sua sucessão cronológica. Quanto ao Apocalipse, é ridículo, obscuro e, sobretudo, falsamente profético. Tais razões, como se vê, não são de ordem doutrinária, mas do domínio da crítica. E é sobre o terreno da crítica que se coloca Santo Epifânio para refutá-los. Por um lado, de fato, ele aponta essa inconsistência estranha, que prova o pouco senso crítico desses aloges, segundo a qual eles atribuem esses dois escritos ao doceta Cerinto, sem notar que eles são a condenação formal desse herege, uma vez que contêm a afirmação mais solene e característica da divindade do Verbo. Quanto a ele, a objeção não foi feita para lhe retirar a convicção de que são do apóstolo São João. Pois ele mostra que os evangelistas não estavam obrigados a se repetir servilmente, mas, ao contrário, que eles se completam mutuamente e que o quarto Evangelho, composto por último e sob um ponto de vista muito especial, não procedeu de outra forma. Ele também, como os Sinóticos, proclamou a humanidade do Verbo, mas insistiu mais particularmente em sua divindade. Por outro lado, o Apocalipse só pode levar ao riso aqueles que são estranhos aos procedimentos da Escritura. Na Escritura, efetivamente, tudo tem um sentido profundo; não vê-lo não dá o direito de atacá-lo; e pretender que, ao ordenar escrever ao anjo da igreja de Tiatira, o Apocalipse se enganou, sob o pretexto de que não há igreja em Tiatira, é enganar a si mesmo. Pois, se não havia igreja em Tiatira no tempo de São João, houve uma depois dele; e se, sob a pressão dos frígios, ela acabou por se tornar completamente montanista, a ponto de os aloges terem de se resignar a abandoná-la, isso não é motivo para exclamar: "Não há igreja em Tiatira", e fazer disso uma objeção contra o apóstolo, mas sim uma razão para constatar que a profecia de São João se cumpriu.
Uma refutação tão detalhada não deixa de desconcertar um pouco o leitor. Parece resultar, com efeito, que a oposição dos aloges aos escritos joaninos não é motivada, como se poderia crer após a primeira informação, pela negação da divindade do Verbo, mas que ela é única e exclusivamente baseada em razões de ordem crítica, em uma pura questão de autenticidade. Consequentemente, não se sustentando mais a primeira afirmação de Santo Epifânio, seria necessário riscar os aloges do número dos hereges. Então, o que aconteceu? O fato é que nossos críticos contemporâneos se dividiram em dois campos: uns, em conformidade com as primeiras informações de Epifânio, continuam a tratar os aloges como hereges; outros, retendo apenas a refutação, concederam-lhes um atestado de ortodoxia e não quiseram ver em sua atitude senão uma das fases da controvérsia a respeito do cânon do Novo Testamento, no final do século II. É importante saber de que lado está a verdade!
Ora, Filastrio nos fala de certos personagens, cuja característica é terem rejeitado o Evangelho e o Apocalipse de São João. Hær., LX, P. L., t. XII, col. 1174. Retrocedendo mais, até testemunhas contemporâneas, tais como Santo Irineu e Santo Hipólito, podemos chegar a resultados mais precisos. Irineu nos assinala, a propósito do tetramorfo, certos adversários do quarto Evangelho, que ele não nomeia. Ele se contenta com uma alusão curta, mas precisa. Tillemont e Döllinger, Hippolytus und Kallistus, Ratisbona, 1853, p. 292, tiveram o erro de ver aí uma alusão aos montanistas: o contexto não o permite. Pois esses anônimos rejeitam esse Evangelho porque ele encerra a promessa do Paráclito; rejeitam igualmente todo espírito profético. Et evangelium et propheticum repellunt Spiritum. Irineu, Cont. hær., III, XI, 9, P. G., t. VII, col. 891. Evidentemente, isso não pode ser próprio dos montanistas, a menos que se faça Irineu dizer que eles rejeitam o Evangelho e o espírito profético, que não são os seus. Pois sabe-se que os montanistas alimentavam seus sonhos e suas esperanças quiméricas nos escritos joaninos e na primeira Epístola aos Coríntios, interpretados a partir de seu ponto de vista falso. Irineu acrescenta que, ao pretender suprimir toda profecia e todo carisma profético, esses anônimos pecam contra o Espírito Santo e caem no pecado irremissível: peccantes in Spiritum Dei, in irremissibile incidunt peccatum. Ibid. É este mesmo julgamento que se encontra sob a pena de Epifânio, quando ali ele escreve que, nos aloges, se realiza a palavra da Escritura, de que a todo blasfemador contra o Espírito Santo não será perdoado nem neste século, nem no outro: ἔχων δὲ καὶ ἐπ’ αὐτοὺς τὸ εἰρημένον, ὅτι τῷ βλασφημοῦντι εἰς τὸ Πνεῦμα τὸ ἅγιον, οὐκ ἀφεθήσεται οὔτε ἐν τῷ νῦν αἰῶνι, οὔτε ἐν τῷ μέλλοντι. Cf. Epifânio, Hær., LI, 35, P. G., t. XLI, col. 953.
Por outro lado, Santo Hipólito escreveu Capita adversus Caium. Ora, Caio era um antimontanista: seu Diálogo contra Proclo o atesta. Ele condenava o Apocalipse, atribuía-o a Cerinto, por causa do milenarismo, como nota Eusébio, H. E., III, 28, P. G., t. XX, col. 273, e muito provavelmente também, embora não tenhamos prova positiva, por causa do apoio que aí encontravam os montanistas. Condenava ele igualmente o quarto Evangelho? Certos críticos conjeturam que os Capita adversus Caium são uma parte do tratado apologético de Santo Hipólito em favor do Evangelho e do Apocalipse de João. Teríamos assim, em Caio, um aloge no sentido em que o entendeu Epifânio.
Contudo, esta hipótese precisaria de verificação.
Seja como for, graças à alusão precisa de Irineu, encontramo-nos perante, se não uma seita propriamente dita, cujo lugar natural seria numa heresiologia, pelo menos perante uma camarilha que se tinha claramente posicionado contra os montanistas e procurava subtrair-lhes o seu principal ponto de apoio, isto é, a obra do apóstolo São João, através de um processo radical mais hábil do que honesto. Pois sabemos, pelo cânone de Muratori, que, no final do século II, as obras de São João eram tidas como canónicas pela Igreja Romana.
A questão é, portanto, saber a que motivos obedeciam estes censores. A sua antipatia contra os montanistas era a causa única que os levava a rejeitar os escritos joaninos? Não haveria outras? O seu escrúpulo de crítica não seria acompanhado por uma preocupação de ortodoxia? E, se não falavam como precursores imediatos e aparentados dos monarquianos, não estariam a considerar que cumpriam um dever ao defender, em nome da tradição eclesiástica, o cânone das Escrituras do Novo Testamento, tal como o conheciam? E, neste último caso, não deveria o seu testemunho ser tomado em consideração para bem mostrar quão indecisa ainda estava a questão do cânone, no final do século II? A hipótese era de natureza a solicitar o espírito de M. Harnack. Epifânio, diz-se, é sujeito a reservas; Filastrio não possui uma autoridade preponderante; quanto a Irineu, se acreditarmos em certos críticos alemães, Harnack, Julicher, Einleitung in das N. T., p. 252; Schurer, Ueber den gegenwärtigen Stand der Johanneischen Frage, p. 71, e Corssen, Monarchianische Prologe, p. 109, é uma testemunha desqualificada pela sua demasiada credulidade, pelos seus erros históricos e pela sua falta de sentido crítico. Tanto mais que, sobre o ponto particular que nos ocupa, o escritor mais bem informado da antiguidade eclesiástica, Eusébio, é completamente mudo; São Jerónimo, igualmente. Desde logo, os álogos merecem sair da sua sombra discreta e reter a atenção: são testemunhas importantes. Não estando afiliados a nenhuma seita herética, depõem a favor da tradição. Harnack, Dogmengeschichte, t. 1, p. 616-621. Tal é a tendência: partindo de uma hipótese, não conduz, contudo, a uma realidade histórica incontestável, apesar do grande desejo que M. Harnack parece manifestar por ela. Pois não se descartam tão facilmente testemunhas como Irineu, Hipólito, Filastrio e Epifânio. Antes de os recusar, são necessárias razões sólidas, e as razões, devemos reconhecê-lo, faltam. No que diz respeito aos escritos de São João, os álogos não têm qualquer direito a passar por representantes oficiais da tradição eclesiástica. Os verdadeiros representantes desta tradição, Irineu e Epifânio, não teriam deixado de o invocar, na espécie, se se tratasse de uma questão tradicional; pois conhecem todo o seu valor; fazem apelo a ele nos seus escritos como a um argumento decisivo. Quanto à contradição, tão complacentemente relevada no testemunho de Epifânio, preferiríamos encará-la como mais aparente do que real. Epifânio, com efeito, vê primeiro serem tratados como hereges os adversários da divindade do Logos; encontrando-os sem nome, propõe designá-los pelo nome de álogos. A título de adversários do Logos, ele sabe que eles repelem necessariamente os escritos joaninos; pois, ao admiti-los, condenar-se-iam a si mesmos. Mas este motivo de ordem doutrinal não exclui motivos de outra espécie. E sucede que certos álogos, álogos da Ásia, tendo queixas de terem sido expulsos de Tiatira por montanistas empreendedores, esforçam-se por tomar uma desforra, negando-lhes o direito de apoiar as suas pretensões em escritos que, em vez de pertencerem ao apóstolo João, seriam obra de um herege notório e não seriam devidos senão à pena de Cerinto. Assim, longe de ver na refutação de Epifânio uma contradição que deve, só por si, entrar em linha de conta, estamos antes inclinados a ver nela um suplemento de informação, que nos revela os argumentos novos que os álogos da Ásia fazem valer contra os montanistas. Sem dúvida, na época das grandes controvérsias trinitárias tão vivamente debatidas, no final do século II e no início do III, entre monarquianos e trinitários, isto pode ser considerado, como diz M. Duchesne, «como um simples incidente de controvérsia», Les orig. chrét., 2e édit. lith., p. 258; mas este incidente liga-se, por outro lado, a uma questão de ordem dogmática.
Em resumo, os álogos não são nem montanistas (contra Tillemont e Dollinger), nem tradicionalistas na questão canónica (contra Harnack), mas verdadeiros hereges, monarquianos (contra Corssen), que merecem o nome que lhes deu Epifânio e que mereceriam ainda, devido à sua oposição ao montanismo, na Ásia, o de apneumáticos.
Irénée, Cont. hær., III, XI, 9, P.G., t. VII; Philastrius, Hær., P.L., t. XII, col. 1174; Épiphane, Hær., LI, P.G., t. XLI; Harnack, Dogmengeschichte, t. 1; Corssen, Monarchianische Prologe, Leipzig, 1896; Zahn, Geschichte des neutestamentlichen Kanons, t. 1, 1888; Jülicher, Einleitung in das N. T., 1894; Schürer, Ueber den gegenwärtigen Stand der Johanneischen Frage, Giessen, 1889; P. Schettgen, Die Lehre von den vier Evangelien, Texte, etc., t. XV, fasc. 1er, 1896; Rose, O. P., Aloges asiates et romains, dans la Revue biblique, 1897; P. Camerlynck, De quarti Evangelii auctore, 1899, p. 145-189.
Autor original: G. Bareille
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