ALLEN, ALLYN, ALAN, GUILHERME

ALLEN, ALLYN, ALAN, GUILHERME

ALLEN, ALLYN, ALAN, Guillaume. Guilelmus Alanus. — I. Estudante, professor e apóstolo na Inglaterra. II. Fundador do colégio inglês e professor na Universidade de Douai. III. Cardeal de cúria em Roma.

I. ESTUDANTE, PROFESSOR E APÓSTOLO NA INGLATERRA. — Guillaume Allen nasceu em Rossal, no condado de Lancastre, em 1532, sob Henrique VIII, no seio de uma antiga família católica. Em 1547, com quinze anos de idade, quando Eduardo VI acabava de suceder ao seu pai, Allen dirigiu-se à Universidade de Oxford; e lá teve por mestre o célebre professor Morgan, que mais tarde o instituiria seu herdeiro em favor do colégio inglês de Douai. Durante sete anos, Allen dedicou-se aos estudos filosóficos com o grande êxito que lhe valeram uma inteligência vasta e penetrante, um trabalho árduo e uma conduta admirada por todos. A vivacidade da sua fé e o ardor do seu zelo levaram-no aos primeiros graus do clero, quando obteve o seu diploma de mestre em artes ou doutor em filosofia, em 16 de julho de 1554. Era o mesmo ano em que Maria I Tudor subia ao trono do seu irmão Eduardo e reconciliava o reino com a Igreja romana.

O novo doutor era tido em tal estima que lhe confiaram imediatamente o ensino da lógica e da filosofia em Oxford. Duas vezes, em curto intervalo, os seus colegas elegeram-no como procurador da universidade; ao mesmo tempo, assumiu a direção do colégio de Santa Maria e, embora ainda não fosse padre, a rainha dignou-se conferir-lhe um canonicato no cabido da catedral de York. Mas, em 1558, Isabel, a cruel, chegava ao poder e, com ela, o cisma triunfante. Logo não houve mais segurança para os apóstolos da fidelidade à Igreja católica, para os papistas, como eram chamados desdenhosamente. O doutor Allen, um dos mais ardentes, despojado dos seus cargos e dignidades, teve, um dos primeiros, de pensar no exílio e veio buscar refúgio em Lovaina, no decorrer do ano de 1561. Lá, dedicando-se aos seus companheiros de infortúnio e à preocupação com a extinção do cisma, compôs uma primeira obra polêmica, em resposta ao bispo Jewel, um dos chefes da heresia (A defense of the catholic Church’s doctrine concerning purgatory and prayers for the dead), Antuérpia, 1565, 1 vol. in-8°. Este foi o ponto de partida de uma longa e muito viva controvérsia.

Tendo contraído ao lado do leito de um jovem amigo, Christophe Blount, o germe de uma doença infecciosa, o Dr. Allen julgou dever pedir ao solo e ao ar natal o restabelecimento da sua saúde, e retornou secretamente à Inglaterra em 1562. Assim que curado, com uma prudência e uma coragem admiráveis, percorreu o seu país de Lancastre, visitou frequentemente a sua querida cidade de Oxford, esforçando-se por confirmar os seus irmãos na fé ou de os reconduzir a ela. No decorrer deste laborioso retiro, compôs em inglês dois livros sobre o sacerdócio e sobre as indulgências para responder às hesitações, nestas matérias, de vários dos seus concidadãos (A treatise made in defence of the lawful power of the Priesthood to remit sins, of the People’s duty to confess their sins to God’s ministers, and of the Church’s meaning concerning Indulgences, commonly called the Pope’s Pardons, Lovaina, 1567, 1 vol. in-8°). Pouco depois, foi no ducado de Norfolk que exerceu o seu zelo, e foi de lá que lançou uma apologia muito oportuna intitulada: Certain brief reasons concerning the catholic faith, 1564. Este escrito, difundido, despertou contra Allen todas as iras reais e, após uma estada de três anos, teve de deixar a sua terra definitivamente pela causa da fé. Miraculosamente escapado daqueles que o perseguiam, partiu de Oxford em 1565 e retirou-se para Malinas, onde recebeu logo as ordens sacras e o sacerdócio. Lá ainda ensinou por algum tempo teologia num mosteiro; depois, em 1567, o Dr. Vendeville, professor de direito canônico na Universidade de Douai e mais tarde bispo de Tournai, levou-o consigo a Roma, aos pés de São Pio V. Assim começou a intimidade destes dois homens, que deveria ser tão fecunda para o bem da Igreja.

II. FUNDADOR DO COLÉGIO INGLÊS E PROFESSOR NA UNIVERSIDADE DE DOUAI. — Vendeville, tendo concebido muito justamente a mais alta estima pelo seu companheiro de viagem, não teve descanso enquanto não o trouxe para perto de si, em Douai. Tendo obtido êxito sem grande dificuldade, esforçou-se sempre por conciliar ao padre exilado todas as mercês e por favorecer todos os seus empreendimentos religiosos. Isabel tinha decidido arruinar o catolicismo na Inglaterra pela extinção e pela supressão do clero; assim, era severamente proibido ordenar padres e ensinar teologia. Talvez tivesse alcançado o seu objetivo, se Allen não tivesse concebido o projeto de fundar no estrangeiro, e primeiramente em Douai, alguns estabelecimentos destinados a formar missionários que iriam pregar a fé nas ilhas Britânicas. Com os conselhos e a proteção de Vendeville, e também de Galenus, chanceler da universidade, abriu, pois, em 29 de setembro de 1568, o célebre Colégio inglês de Douai, que deveria, até à Revolução Francesa, fornecer à Inglaterra tantos apóstolos e mártires. São Pio V aprovou a obra desde este primeiro ano e concedeu logo ao Dr. Allen, seja para a ordenação dos clérigos, seja para a jurisdição dos fiéis ingleses, poderes extraordinários, que foram renovados e estendidos ainda por Gregório XIII, Sisto V, Gregório XIV e Clemente VIII. Os inícios foram difíceis, mas, visivelmente auxiliado pela providência, Allen soube prover a tudo e assegurar os mais úteis concursos.

Entretanto, Allen não omitia pensar nos graus teológicos: nos dias 11 de outubro, 12 de novembro e 2 de dezembro de 1569, prestou sucessivamente os três atos do bacharelato; em 31 de janeiro de 1570, conquistou a sua licença sob a presidência de Galenus e, em 10 de julho de 1571, o mesmo Galenus proclamava-o doutor em teologia com uma satisfação transbordante. Já a universidade tinha agregado o sábio doutor na qualidade de professor de teologia e, quer na academia, quer no colégio, ele ensinava com uma atividade transbordante. Deus abençoou estes trabalhos e, após cinco anos, tinha podido enviar já mais de cem missionários para a Inglaterra. Em 1576, durante uma segunda viagem a Roma, erigiu na cidade eterna um novo colégio para os ingleses, e não tardou a receber o benefício de um canonicato da catedral de Cambrai.

Estas honras e estes sucessos irritaram a tal ponto a rainha Isabel que, durante a revolta dos Países Baixos, ela prometeu à Espanha fechar os portos ingleses aos insurgentes flamengos, caso se quisesse dissolver o colégio do doutor Allen. O comendador de Réquesens, governador espanhol dos Países Baixos, prestou-se a isso. Allen foi obrigado a deixar Douai em 1578 e a transferir o colégio para Reims, sob a proteção do cardeal de Lorena, príncipe de Guise, que agregou imediatamente o exilado ao cabido da sua metrópole. Em Reims, o colégio contou até duzentos estudantes e manteve a sua prosperidade até ao ano de 1593, quando foi restabelecido em Douai.

Foi durante este período de seu ensino em Douai e Reims que o doutor Allen aplicou-se especialmente a explicar a Sagrada Escritura com vistas às controvérsias com os anglicanos.

Nesse sentido, empenhou-se ativamente, em colaboração com seus colegas, Grégoire Martin e Richard Bristow, na tradução inglesa tanto do Novo Testamento (The New Testament of Jesus Christ, translated faithfully into English out of the authentical Latin, according to the best corrected copies of the same, diligently conferred with the Greeke and other editions in diverses languages, with arguments of books and chapters, annotations and other necessarie helpes, for the better understanding of the text, and specially for the discoveries of the corruptions of divers late translations, and for cleering the controversies in religion of these daies. — In the English college of Reims), quanto de toda a Sagrada Escritura, e essa versão, conhecida pelo nome de Bíblia de Douai, é ainda hoje utilizada em toda a Inglaterra e na América do Norte (The Holy Bible, faithfully translated into English out of the authentical Latin, diligently conferred with the Hebrew, Greeke and other editions in diverses languages, etc. by the English College of Doway, 2 vol. in-4°). Naquela época, compôs também seus tratados De sanctis imaginibus (s. l. n. d.), De praedestinatione, De sacramentis in genere, De sacramento eucharistiae et sacrificio missae, Antuérpia, 1576, os quais possuem um valor real em si mesmos, mas particularmente sob a ótica apologética de Allen.

Não tendo conseguido deter o zelo apostólico do doutor Allen, Isabel redobrou suas medidas de perseguição, mandando buscar e executar os sacerdotes católicos que se podiam capturar na Inglaterra, sobretudo aqueles que haviam sido alunos do mestre detestado ou que tentavam introduzir seus escritos no reino. Foi assim que um jesuíta, chamado Thomas Alfield, foi julgado por esta última causa e condenado à morte. Todos esses atos de uma tirania odiosa inspiraram ao grande exilado nobres e corajosas protestos, nos quais não se sabe o que admirar mais: se a inabalável firmeza dos princípios e da fé, ou a moderação, a prudência e a caridade cristã do apologista. Por vezes, são réplicas aos ataques caluniosos que se propagavam maldosamente contra os colégios ingleses e seus estudantes, representados como traidores de sua rainha e de sua pátria: Apology and true declaration of the institution of the two English colleges in Rome and Reims, Mons, 1581; — Apologia pro sacerdotibus Societatis Jesu et seminariorum alumnis contra edicta regia, 1 vol. in-8°, Tréveris, 1583; — Duo edicta Elisabethe regine, Tréveris, 1583. Por vezes, é uma exortação inteiramente sacerdotal aos católicos perseguidos: Piissima admonitio et consolatio vere christiana ad afflictos catholicos in Anglia, 1583. Por vezes, é a defesa deles contra o libelo de Cecil, declarando que todos os católicos mortos na Inglaterra foram previamente julgados de forma justa e convencidos do crime de lesa-majestade: A true, sincere and modest defence of English catholics that suffer for their faith both at home and abroad, against a false, seditious and slanderous libel intitled: The execution of Justice in England, 1583. Por vezes, ainda, é a glorificação dos mártires caídos pela fé: A briefe history of the martyrdom of twelve reverend priests, 1582, traduzido para o latim: Brevis narratio felicis agonis, Praga, 1583. Por vezes, enfim, é a defesa de um católico sobre uma questão de justiça internacional a propósito da rendição de Deventer: Defence of sir William Stanley’s surrender of Deventer, 1583.

A calúnia frequentemente aproveitou-se dessas obras para representar Allen como um felão e um fomentador de sedições. Fez-lhe também um crime ter encorajado Filipe II em seu projeto de expedição contra a Inglaterra, que deveria culminar na destruição da Invencível Armada. Em tudo isso, falta justiça. Allen não tem de responder por certos libelos difundidos sob seu nome, sem sua anuência ou participação; em particular, não está demonstrado que tenha prestado seu concurso a um escrito em duas partes que, por vezes, querem atribuir-lhe, e que contém violentos ataques contra a rainha Isabel. Este escrito, do qual a Armada recebera numerosos exemplares, continha uma declaração da sentença de excomunhão proferida por Sisto V e uma advertência à nobreza e ao povo da Inglaterra: Declaration of the sentence of Sixtus V, An admonition to the nobility and people of England, Antuérpia, 1588. Quanto aos seus atos e à sua conduta apostólica, Allen nunca seguiu outras regras que não os verdadeiros princípios da teologia católica sobre a subordinação das finalidades, e é sob esse prisma que convém julgá-lo. Quanto ao seu papel político, deve-se evitar avaliá-lo segundo as ideias modernas. Deve-se encará-lo segundo o direito internacional e o direito cristão, sempre aceitos no século XVI pelos povos católicos, e constatar-se-á que o doutor Allen deles se serviu com medida e caridade. E quanto à Invencível Armada, seu objetivo principal foi punir a rainha Isabel pelos socorros e encorajamentos que não cessava de dar à facção orangista; e, se Allen entreviu uma restauração possível da religião em caso de vitória, é preciso confessar que acalentava, nisso, uma esperança e um voto deveras legítimos.

III. CARDDEAL DE CÚRIA EM ROMA. — Em 1587, Allen retornou a Roma para resolver um litígio; à perseguição que esmagava o catolicismo haviam-se somado dissensões internas. Os missionários jesuítas gozavam na Inglaterra de uma grande e legítima influência: tinham trabalhado muito, sofrido muito desde a chegada de Robert Persons, o amigo e muitas vezes colaborador de Allen; já contavam, e tiveram depois, outros ilustres mártires, como o B. Edmundo Campion. Contudo, uma oposição bastante viva manifestava-se contra eles por parte de uma ala do clero. Segundo o julgamento do doutor Allen, cuja imparcialidade não pode ser posta em dúvida, havia erros de ambas as partes.

No decorrer desse mesmo ano de 1587, Filipe II conferiu a Allen a abadia de São Lourenço de Cápua e solicitou para ele as honras da púrpura romana. Sisto V nomeou-o, então, no consistório de 7 de agosto de 1587, cardeal-presbítero do título de São Martinho nos Montes (San Martino ai Monti). O doutor não pôde, desta vez, recusar como fizera a Gregório XIII e, desde então, foi envolvido muito ativamente no governo geral da Igreja. Como cardeal, tomou parte nos conclaves que elegeram Gregório XIV, Inocêncio IX e Clemente VIII; para a S. C. do Index, empreendeu a edição das obras de Santo Agostinho. Gregório XIV nomeou-o bibliotecário apostólico, após a morte do cardeal Caraffa, e encarregou-o, além disso, de prosseguir com o cardeal Colonna a revisão da Vulgata, ordenada e iniciada por Sisto V. Clemente VIII manteve-lhe tais encargos. Enquanto Allen se dedicava a esses labores, Filipe II designou-o para o arcebispado de Malinas, com o consentimento da Santa Sé (1589). Mas, de fato, ele jamais tomou posse de sua sede, retido que estava em Roma pelos graves assuntos de que estava encarregado.

Assim, durante seu cardinalato, mal podemos assinalar dele, além de uma correspondência cheia de interesse, alguns opúsculos, como um escrito contra Henrique IV, então Henrique de Navarra: Scriptum cardinalis Alani editum contra Henricum Borbonium, Roma, 1593; como seu panegírico de São Jacinto, pronunciado em Roma em 1594 (Elogium in S. Hyacinthi laudes ab Illmo Guilelmo Alano, S. R. E. cardinali exoratum et in Romano ut dicitur consistorio prolatum, editado por Bzovius, O. P., em Sertum gloriæ S. Hyacinthi, Veneza, 1598).

O grande negócio, assim como a grande ocupação do cardeal Allen, foi a direção das missões inglesas, das quais fora nomeado prefeito; dedicou-lhes todas as suas forças e todos os seus bens, com o concurso de Owen Lewis, seu amigo, de Gifford, seu teólogo, e do padre Persons. Após ter ainda garantido a fundação em missionários para as Ilhas Britânicas, o cardeal da Inglaterra, como fora alcunhado o grande Allen, morreu em Roma, pobre como vivera, em 16 de outubro de 1594.

Assim terminou Allen, na ativa realização de sua gloriosa divisa: Oportet meliora tempora non exspectare, sed facere. Com razão, seus biógrafos proclamaram-no salvador da pátria: Homo natus ad Angliæ salutem Guilelmus Alanus. Fitzherbert, Vita cardinalis Alani, p. 51º Depois do papa, os fiéis ingleses choraram amargamente sua perda como a de um valente apóstolo da Igreja: Hujus viri præstantissimi obitum, quotquot fidei causa persecutionem patimur, adhuc lugemus et tanquam orphani periisse nobis communem parentem magis ac magis in dies experimur. Pitseus, De illustribus Angliæ scriptoribus, — E não há nada de exagerado neste elogio que resume a vida de Allen: Hunc omnes tum illius tum nostri xvi scriptores sinceri summis laudibus et merito extulerunt tanquam christianæ religionis athletam fortissimum fideique in Anglia clypeum invincibilem et S. R. E. sacrique collegii singulare decus atque ornamentum. E contrario iniqui S. Matris Ecclesiæ hostes fideique avitæ desertores probris illum omnibus onerarunt odioque capitali prosecuti sunt. Eggs, Purpura docta, l. V, n. 46º Além das histórias gerais da Igreja e da Inglaterra, das histórias especiais das universidades de Oxford, de Douai e de seus colégios, consultar Fitzherbert, Vita card. Alani, Roma, 1608, reeditado por Knox; Pitseus, De illustribus Angliæ scriptoribus, Paris, 1619, p. 792; Suard, em Biographie universelle e Nouvelle Biographie générale de Didot, v° Alan; Records of the English catholics, t. I, The letters and memorials of William cardinal Allen, editado pelos Padres da Congregação do Oratório de Londres, Londres, 1882, in-4°; The first and second diaries of the English college, Douay, and an appendix of unpublished documents... with an Historical introduction by T. F. Knox, Londres, 1878, in-4°; Kirchenlexikon, Friburgo, 1882, v° Allen; Werner, Geschichte der apologetischen und polemischen Literatur, Schaffhausen, 1865, t. V; Dr. Alph. Bellesheim, Wilhelm Cardinal Allen, 1582-1594, und die Englischen Seminare auf dem Festlande, Mogúncia, 1885, vol. in-8°; Histoire du chapitre de l’église collégiale de Saint-Pierre de Lille, t. II, p. 26-29.

Autor original: H. Quilliet

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