ALEXANDRE DE HALES (DOUTOR IRREFRAGÁVEL)

São Domingos

ALEXANDRE DE HALES ou de ALES. — I. Vida. II. Escritos. III. Suma de Teologia. IV. Método. V. Doutrina. VI. Alexandre de Hales e São Tomás de Aquino.

I. Vida. — A data e o local do seu nascimento são desconhecidos. Tomou o seu nome do convento de Hales, no condado de Gloucester, onde se pensa que tenha feito os seus primeiros estudos. Veio a Paris, frequentou as escolas, foi ali recebido doutor e ensinou filosofia e teologia. Era um professor muito renomado quando entrou, em 1222, ou mais provavelmente em 1231 (Denifle, Chartul. univers. Paris., Paris, 1889, t. 1, p. 135), na ordem dos Frades Menores, os quais o encarregaram imediatamente da direção dos seus estudos. João de Florença, segundo geral dos franciscanos, tinha-lhes proibido assumir o título de doutor, como contrário à humildade que professavam. Alexandre, que portava esse título antes da sua receção na ordem, manteve-o com a sua cátedra sob o hábito de São Francisco. Os frades menores imitaram-no desde então. Durante a sua vida, a Universidade de Paris não pensou em contestar-lhes esse direito.

Alexandre trabalhava incansavelmente na preparação das suas aulas. Os seus historiadores dizem-no e temos a prova na Suma que reproduz o seu ensino. Designaram-no sob o nome de doctor irrefragabilis. Foi este título dado espontaneamente pelos seus alunos? Não sabemos. Vários autores pensam que lhe foi atribuído na sequência de uma bula de Alexandre IV, de 28 de julho de 1256, da qual se tratará mais adiante, e onde os seus sentimentos são tratados como irrefragáveis, sententiarum irrefragabilium. Seja como for, não é surpreendente que tenha despertado a admiração dos seus contemporâneos.

Teve certamente como discípulo João de La Rochelle. São Boaventura, que entrou na ordem de São Francisco em 1238, chamava mais tarde a Alexandre o seu pai e o seu mestre, pater et magister noster (IV Sent., l. II, dist. XXIII, q. II). O que supõe que também tinha seguido as suas lições. Foram estas também ouvidas por São Tomás de Aquino em 1244? Wadding e Sbaralea sustentaram-no. Fundavam-se num epitáfio que adornava o túmulo de Alexandre de Hales. Mas parece bem que o primeiro epitáfio colocado sobre esse túmulo nada continha de semelhante. Por outro lado, se acreditarmos nos biógrafos de São Tomás, este último teria começado o estudo das ciências sagradas em Colónia, na escola de Alberto Magno, e só teria vindo a Paris após a morte de Alexandre. Wadding acredita ainda que Duns Escoto foi aluno do primeiro doutor franciscano. Esta opinião não se apoia em nenhum texto; é, inclusive, totalmente inverosímil, pois Duns Escoto morreu em 1308, sessenta e três anos após a morte de Alexandre de Hales.

João de La Rochelle ensinou sob a direção de Alexandre, e figura em 1238 entre os mestres em teologia da Universidade de Paris (Denifle, op. cit., t. 1, n. 108, p. 158). Em 1242, Alexandre de Hales compôs, com os franciscanos João de La Rochelle, Ricardo e Roberto de Bastia, uma explicação da regra de São Francisco (Wadding, Scrip. ord. minorum, p. 9), e foi enviado ao capítulo geral da sua ordem que se realizava em Bolonha. Morreu três anos mais tarde, a 21 ou 27 de agosto de 1245 segundo Wadding (ibid.), a 15 de agosto segundo Denifle (op. cit., p. 187). Foi inumado na igreja do convento dos cordeliers em Paris, onde se via o seu túmulo até 1790. João de La Rochelle tinha-o precedido de alguns meses na sepultura (Denifle, ibid.).

II. Escritos. — Atribuiu-se a Alexandre de Hales um grande número de escritos filosóficos, históricos, exegéticos ou teológicos, dos quais a maior parte não lhe pertence. Falaremos apenas daqueles que foram impressos.

1° Obras filosóficas. — Alexandre de Hales tinha ensinado filosofia. É, pois, provável que tenha deixado trabalhos sobre esta ciência. Imprimiu-se sob o seu nome: 1. Commentarii in metaphysicam Aristotelis, Veneza, 1572, e 2. Expositio super tertium librum de anima (Oxford), 1480. Mas o primeiro destes trabalhos tem como autor Alexandre de Alexandria, que era geral dos menores em 1313. Quanto ao segundo, é tão raro que os críticos não puderam examiná-lo. Sbaralea, Supplementum Waddingi, Roma, 1806, p. 19, inclina-se a pensar que é também de Alexandre de Alexandria.

2° Obras históricas. — Atribuiu-se a Alexandre de Hales De factis Mahumedi, ou De origine, progressu et fine Mahumetes et quadruplici reprobatione prophetiz ejus, Estrasburgo, 1550; Colónia, 1551, mas esta obra tem como autor João de Gales, franciscano inglês do século XIII (Histoire littéraire de la France, t. XVIII, p. 326).

3° Escritos exegéticos. — Publicou-se sob o nome de Alexandre: Postilla in psalterium, Veneza, 1496; Leipzig, 1554; Veneza, 1556. Esta atribuição é errónea, pois a mesma obra foi também publicada sob o nome de Hugo de Saint-Cher, Veneza, 1516 e 1546, etc., e é bem deste último autor. Imprimiu-se ainda, sob o nome de Alexandre, a partir de um manuscrito do convento dos franciscanos de Antuérpia, Commentarii in Apocalypsim sancti Joannis, in-fol., Paris, 1647. Os críticos duvidam que este comentário seja da mão de Alexandre. Contudo, entre citações de autores do século XII, esta obra não contém nenhuma de escritores posteriores ao início do século XIII. É um índice a favor da sua autenticidade.

4° Obras teológicas. — Imprimiram-se sob o nome de Alexandre as obras seguintes: 1. Summa virtutum, Paris, 1509; obra inacabada. A Suma Teológica de Alexandre, da qual vamos falar, não contém as questões De virtutibus in genere que ele tinha anunciado. Concluiu-se que ele deveria ter escrito um tratado das virtudes, que se teria separado da suma. Mas veremos que a sua suma está inacabada e que oferece várias outras lacunas semelhantes. Por outro lado, verificou-se que a Summa virtutum, à qual se dava honra ao doutor franciscano, tinha semelhanças com a segunda parte da Suma de São Tomás de Aquino. Embora estas semelhanças fossem distantes (S. Bonaventure opera, Quaracchi, 1882, t. 1, p. 60, 61), acusou-se este último de plágio: o que envenenou a discussão. A verdade é que esta Summa virtutum não é de Alexandre, mas de um autor franciscano posterior (Zeiler, Der Katholik, 1879, t. 1, p. 38-39; S. Bonaventure, Opera, Quaracchi, 1882, t. 1, p. LXI, LXII; Prosper de Martigné, La scolastique et les traditions franciscaines, Paris, 1888, p. 55). Simler, Des sommes de théologie, Paris, 1871, p. 118-134, analisa bastante longamente a Summa virtutum, da qual descobriu um exemplar, e sustenta que é obra de Alexandre. Mas há uma grande diferença entre o que se diz da fé na Summa theologiae (ver mais adiante) e na Summa virtutum (Simler, op. cit., p. 127, 128). A Summa virtutum está além disso dividida em collationes, articuli e questiones, e não em questiones, membra e articuli. O que prova que nunca fez parte da Theologiae summa, cujas divisões são intituladas desta última maneira. Contudo, a Theologiae summa é a única obra atribuída a Alexandre pela bula de Alexandre IV, de 28 de julho de 1256 (ver mais adiante), que não teria deixado de assinalar também a Summa virtutum, uma vez que é distinta, se tivesse sido atribuída desde logo ao célebre doutor franciscano. — 2. Expositio quatuor magistrorum in regulam sancti Francisci, impresso no Firmamentum trium ordinum, Nuremberga, 1482. É a explicação da regra de São Francisco que vimos ser redigida por Alexandre em colaboração com três dos seus confrades. — 3. Um sermão sobre a Imaculada Conceição, atribuído erroneamente (cf. Prosper de Martigné, La scolastique et les traditions franciscaines, p. 367 seg.) a Alexandre de Hales (ver mais adiante a sua opinião sobre este dogma), foi impresso em Lovaina em 1663, pelos cuidados de Pierre de Alva. — 4. Questiones.

In quatuor Sentent. libros, Lyon, 1515. Esta obra não difere da Summa theologiæ, da qual trataremos a seguir. É verdade que autores antigos atribuíram a Alexandre o comentário ao Mestre das Sentenças; contudo, é provável que dessem o título de comentário à sua Suma, cujas grandes divisões correspondem às de Pedro Lombardo. Mais tarde, acreditou-se erroneamente que se tratavam de duas obras distintas. Oudin, Commentarius de scriptoribus ecclesiasticis, Leipzig, 1722, t. III, p. 131, 1382.

Dentre as obras que acabamos de enumerar, a explicação da regra de São Francisco é a única que certamente tem Alexandre de Hales como autor. Resta-nos apresentar sua obra principal, intitulada Universæ theologiæ summa.

III. UNIVERSÆ THEOLOGIÆ SUMMA. — 1° História. — Wadding narra e a Histoire littéraire de la France, loc. cit. infra, admite, em seu seguimento, que esta obra foi redigida por ordem de Inocêncio IV e que foi submetida ao exame de setenta doutores da Universidade de Paris. Nenhum texto conservado entre as bulas pontifícias ou nos arquivos da Universidade de Paris confirma tais afirmações. Denifle, Chartul., t. I, p. 329. Elas são tanto mais suspeitas quanto não se faz menção a elas na bula de Alexandre IV, de 28 de julho de 1256, que prescreve a conclusão da obra de Alexandre. Sbaralea, Bullarium franciscanum, Roma, 1759-1768, t. I, p. 151, 152. Esta bula encontra-se também em Echard, Scriptores ordinis prædicatorum, t. I, p. 361, que foi o primeiro a publicá-la in extenso, em Prosper de Martigné, op. cit., p. 50, e em Denifle, Chartul. univers. Paris., t. I, n. 286, p. 328. Segundo esta bula, Alexandre de Hales faleceu antes de ter podido concluir seu vasto trabalho; o franciscano Guilherme de Méliton recebeu a missão de finalizar a obra do Doutor Irrefragável, mas ainda não a havia cumprido em 1256. Alexandre IV ordena ao ministro-geral dos Frades Menores na França que acrescente a Guilherme alguns outros franciscanos para auxiliá-lo nesta tarefa. A bula dá a entender que Alexandre de Hales trabalhou em sua obra durante os últimos anos de sua vida até sua morte. Oudin, De scriptoribus ecclesiasticis, Leipzig, 1722, t. I, p. 217, diz que o complemento redigido por Guilherme de Méliton foi publicado na edição da Summa de Lyon, 1515. Ele não foi reimpresso nas últimas edições de 1575 e 1622. Estas, de fato, reproduzem o trabalho de Alexandre tal como saiu de suas mãos. Isso resulta de um grande número de indícios. O texto dessas edições contém muitas lacunas; está inacabado, como diremos logo mais. Cita frequentemente os três primeiros livros da Ética a Nicômaco de Aristóteles a partir de duas versões latinas do início do século XIII e nunca cita (realizamos o exame apenas para a segunda parte da Suma) os sete últimos livros, que foram traduzidos para o latim pela primeira vez em 1240. Vacant, Les versions latines de la Morale à Nicomaque, Paris, 1885, p. 6, 13, 14 e na Revue des sciences ecclésiastiques, 1885, t. I, p. 389 sq. As bulas citadas também nos provam que o texto da Theologiæ summa foi escrito inteiramente nos últimos anos que precederam a morte de Alexandre de Hales (1245), e antes de 1256, época em que a bula de Alexandre IV testemunha que ainda não havia sido feita nenhuma adição. A segunda parte, q. CLXI, m. XI, invoca, com efeito, uma decretal de Gregório IX de 1234. Por outro lado, a quarta parte, q. XXXI, m. II, a. 2, 4, estabelece a legitimidade das prescrições da regra de São Francisco por meio das aprovações que recebeu de Inocêncio III, Honório III e Gregório IX. Cita em particular as decretais Nimis prava e Nimis iniqua de Gregório IX. Decret., l. V, tit. XXXI, De excessibus prælatorum, c. 16, 17. Se a última redação desta questão XXXI tivesse sido concluída após o ano de 1245, e com maior razão após 1255, não se teria deixado de mencionar também as novas aprovações dadas à mesma regra, em 1245 por Inocêncio IV, e em 1255 por Alexandre IV. Podemos concluir, pela omissão dessas bulas em uma das últimas questões tratadas (a quarta parte é a última da Suma, e esta parte tem apenas 35 questões) e pelos outros indícios anteriormente notados, que a Suma, tal como a possuímos nas edições de 1575 e 1622, é inteiramente da mão de Alexandre e não contém nenhuma adição de Guilherme de Méliton. É a estas duas edições de 1575 e 1622, cujas divisões são idênticas, que se reportam as referências deste artigo.

2° Divisão e objeto. A Suma de Alexandre e os quatro livros das Sentenças. — Alexandre de Hales seguiu, em sua Suma, a divisão em quatro partes dos livros das Sentenças de Pedro Lombardo. Os títulos das edições de 1575 e 1622 expressam o objeto de cada parte, em uma enumeração que não corresponde de modo algum às ideias diretrizes de Alexandre. Eis como ele mesmo formula sua divisão, em um prólogo colocado no início da terceira parte (não há introdução no início da primeira): Inquisitio catholica de his quæ pertinent ad fidem quadripartita est. Prima pars pertinet ad cognitionem substantiæ divinæ trinitatis et unitatis; secunda ad opera divinæ conditionis; tertia ad personam Salvatoris in natura divinitatis et natura humanitatis, quarta vero pertinet ad sacramenta salutis et opera futuræ glorificationis. Assim, a primeira parte trata de Deus, a segunda das criaturas, a terceira de Cristo, a quarta dos sacramentos e dos fins últimos.

Cada parte é subdividida em questões. Nas últimas edições publicadas em 1575 e 1622, a primeira parte contém 74 questões; a segunda, 171; a terceira, 64; a quarta, 35. (A divisão não é exatamente a mesma nas edições anteriores para as três últimas partes, que nelas são divididas em um número maior de questões.) As questões são subdivididas em membros (membra); os membros em artigos e alguns artigos em parágrafos (§).

Dissemos que a grande divisão de Alexandre foi tomada de Pedro Lombardo. É visível que ele também se inspira nos quatro livros das Sentenças em suas subdivisões e nos desenvolvimentos que dá à doutrina. Contudo, não segue seu guia em tudo. Na primeira parte, Pedro Lombardo, após uma primeira distinção sobre a Escritura, começava pela Trindade e terminava com as questões de nossos tratados De Deo uno; Alexandre abre outro caminho que a Suma de São Tomás de Aquino haveria de seguir. Após duas questões preliminares De doctrina theologica, q. I, e De cognitione Dei, q. II, ele começa pela matéria De Deo uno, q. II-XLI, e aborda somente depois o mistério da santa Trindade, q. XLII-LXXIV, estendendo-se ainda mais que Pedro Lombardo sobre o assunto dos nomes divinos, q. XLVIII-LXX, onde se misturam as questões relativas ao De Deo uno e ao De Deo trino.

Em sua segunda parte, Alexandre segue passo a passo o Mestre das Sentenças. Como ele, ocupa-se sucessivamente do princípio das coisas, dos anjos, da obra dos seis dias, do homem e do pecado. Mas insiste mais nas questões filosóficas ou em outros pontos que lhe parecem importantes: desenvolve o que concerne às causas, q. I-VI (que divide em causas exemplares, eficientes e finais), a natureza das criaturas, q. X-XV, a natureza dos anjos, q. XXXI-XXXV, a natureza da alma humana, q. LXIX-LXXIII, e o pecado, q. XCIV-CLXXI, que estuda começando pela questão geral do mal, q. XCIV.

No seu terceiro livro, Pedro Lombardo vinculava à questão de Cristo a matéria da fé, da esperança... Alexandre de Hales coloca igualmente o estudo da moral na sequência do estudo de Cristo, objeto da nossa fé. Mas seu plano de moral, que prepara ainda o de São Tomás, é superior ao do livro das Sentenças. Ele começa pelo estudo das leis, sobre as quais se estende longamente: entra na matéria por duas questões, q. XXV, XXVII, De lege aeterna e De lege naturali, para passar à lei de Moisés, q. XXVIII-LV, na qual ele estuda todo o decálogo, e à lei evangélica, q. LVI-LX. Ele trata depois disso da graça, q. LXI-LXVIII. Seu plano compreendia em seguida um tratado das virtudes, dos dons e das beatitudes. Mas, como o diremos, ele não o preencheu e só pôde redigir duas questões, q. LXVII e LXIX, De fide formata e De articulis fidei.

A parte IV de Alexandre de Hales segue também o mesmo plano que o IV livro das Sentenças. Ela deveria abranger a matéria dos sacramentos em geral, dos sete sacramentos em particular e dos fins últimos; mas ela é inacabada e para no meio do sacramento da penitência. Alexandre insiste nas questões gerais relativas aos sacramentos e sobre as obras de satisfação, em particular sobre a esmola, q. XXIX-XXXV, o que lhe dá ocasião de se deter longamente na pobreza voluntária, tal como a prescreve a regra de São Francisco. À questão X, no meio do membro V, relativo à consagração, encontra-se intercalado um Tractatus de officio missae, que não é anunciado no plano da obra. É um comentário das orações e cerimônias da missa desde o Intróito até a comunhão.

3° Imperfeições e lacunas. — Sabemos pela bula de Alexandre IV, de 28 de julho de 1256, que Alexandre de Hales, surpreendido pela morte, deixou sua obra inacabada, perfecte pietatis imperfectus est labor. Tal como a possuímos, ela encerra, por conseguinte, matérias que não entram no plano anunciado, como o Tractatus de officio missae de que acabamos de falar. Outras são desenvolvidas fora de seu lugar natural. É assim que encontramos, na terceira parte, q. XL-XLIV, um estudo sobre as obrigações dos juízes, dos acusados, dos acusadores e dos advogados, por ocasião dos preceitos judiciários da lei mosaica. Há sobretudo nesta vasta enciclopédia teológica numerosas lacunas, isto é, numerosas omissões de partes necessárias ou anunciadas como devendo ser tratadas. Eis as principais dessas omissões. Não há prólogo geral no início da obra, embora haja um no início do livro III. O livro I parece completo. O livro II termina pela questão CLXXIX, De scandalo. No início desta questão, anuncia-se, contudo, estudos sobre o homicídio, seja em duelo, seja nos torneios, a rapina, a usura, o contrato fraudulento, o roubo. Esses estudos não se encontram na sequência da questão. Aqueles sobre o homicídio (não sobre o duelo e os torneios) e o roubo (não sobre a usura e o contrato fraudulento) são o objeto das questões XXXIV, De quinto praecepto, e XXXVI, De septimo praecepto, do livro III. Falta neste livro III os tratados sobre as virtudes em geral, a virtude formada de esperança, a caridade, as virtudes cardinais, os dons, os frutos e as beatitudes, tratados que deveriam ser feitos após o prólogo do livro III e as introduções às questões XXVI, LV, LXI, LXVIII. Falta no livro IV o que concerne aos sacramentos de extrema-unção, de ordem e de matrimônio, e os fins últimos, matérias que eram anunciadas pelo prólogo do livro III. Ver sobre essas lacunas uma dissertação de De Rubeis, em Summa theol. D. Thomae Aquinatis, t. IV, p. VI-XX, Nápoles, 1763.

Essas imperfeições não são imputáveis a Alexandre de Hales, pois ele as teria feito certamente desaparecer se a morte não lhe tivesse tirado o tempo. Ao deixá-las em sua obra, os frades menores do século XIII e os editores do século XIV, do XV e do XVI nos forneceram a prova de que possuímos verdadeiramente a obra de Alexandre sem retoque, e tal como saiu de suas mãos. Há lugar para nos felicitarmos.

Essa razão e as outras que indicamos mais alto na história da Theologia summa nos parecem colocar a autenticidade desta soma acima de toda contestação, ao menos para as partes que entram no quadro traçado no início das questões. O sábio P. Mandonnet diz, contudo, ter razões para lhe atribuir uma data posterior ao meio do século XIII; mas ele não indica essas razões. Revue thomiste, janeiro 1899, p. 691. Roger Bacon parece dizer ao contrário que esta soma seria anterior a Alexandre. Ele afirma que ela lhe foi atribuída, à sua entrada entre os franciscanos, por respeito. Opus minus, Londres, 1859, p. 326. É uma boutade que explica sua má disposição contra o doutor irrefragável. Em outros lugares ele reconhece a autenticidade desta soma. Em. Charles, Roger Bacon, Bordeaux, 1861, p. 107.

4° Edições e resumos. — A soma de Alexandre de Hales teve um número bastante grande de edições: Veneza, 1475, 4 in-fol., sob o título de Summa D. Thomae Alensis; Nuremberg, 1481, 1482, 4 in-fol.; Pavia, 1489, 4 in-4°; Veneza, 1496, 4 in-fol.; Basileia (Nuremberg, segundo Sbaralea), 1502; Lyon, 1515, 1516, 4 vol. in-4° (sob o título Quaestiones in quatuor Sententiarum libros, com o complemento de Guilherme de Méliton); Veneza, 1576, 1575, 4 vol. pequeno in-fol. Esta edição é a melhor. Ela contém no início cinco excelentes tabelas, impressas em 1576. O texto da soma foi impresso em 1575, com adições de títulos, de resumos, de conclusões para cada artigo, de referências marginais para as citações feitas no texto. A obra porta aí o título de Universae theologiae summa. Uma última edição, publicada em Colônia, em 1622, em 4 grandes in-fol., reproduz completamente a edição de 1575, mas sobre um mau papel que a tinta amarelou. A divisão em questões não é a mesma nessas duas edições que nas precedentes, nós já o notamos.

Pierre Roschinger compôs um resumo ou uma chave da grande obra de Alexandre de Hales: Repertorium in universam summam Alensem, Veneza, 1502; Lyon, 1517. Encontram-se outros resumos manuscritos em algumas bibliotecas. Cf. Sbaralea, p. 17.

IV. MÉTODO. — Desde muito tempo já, redigiam-se somas onde se buscava sintetizar em um corpo de doutrina o conjunto da teologia. Os quatro livros das Sentenças de Pedro Lombardo eram uma soma verdadeira, publicada sob outro título. Tinham feito outras somas na escola de Abelardo (ver este termo) e naquelas de São Vítor. Ao compor a sua, Alexandre de Hales não empreendeu, portanto, nada de novo. O objetivo que se propunha era o de seus predecessores; ele queria deixar uma síntese da teologia que servisse ao ensino das escolas, como testemunha a bula de Alexandre IV, de 28 de julho de 1256: Studia sua publicis utilitatibus commodavit et laboriosi operis sanctum aggrediendo propositum super quaestionibus theologicis... quam prolixam molitus est summam profectibus in lege Domini studentium compendiosius profuturam.

Contudo, sua obra se distingue das somas anteriores por dois caracteres que fazem de Alexandre de Hales o precursor de São Tomás de Aquino: 1° o uso não somente da lógica, mas de quase toda a filosofia de Aristóteles, e 2° a maneira de estudar cada questão em particular.

Até o século XIII, possuíam-se de Aristóteles apenas tratados de lógica; no início do século XIII, não se conheciam as outras obras deste filósofo senão por resumos ou traduções feitas do árabe e repletas de erros que as fizeram proscritas das escolas de Paris, em 1215, pelo legado Roberto de Courçon. Alexandre de Halés teve a vantagem de possuir quase todas as obras de Aristóteles. Jourdain, Recherches sur les anciennes traductions latines d’Aristote, 2ª edição, Paris, 1843; Vacant, Les versions latines de la morale à Nicomaque, Paris, 1885. Encorajado, sem dúvida, pelo decreto de Gregório IX de 23 de abril de 1231, que permitia explicar novamente na universidade de Paris todas as obras de Aristóteles, Potthast, Regesta pont. Rom., n. 8719; Denifle, Chartul., n. 87, p. 143, ele adotou também, em relação a essas obras, uma outra atitude que seus predecessores. Guilherme de Paris, que escrevia vinte anos antes, tratava ordinariamente Aristóteles como adversário e o combatia. Alexandre de Halés, ao contrário, apela à autoridade deste filósofo. Ele invoca bastante frequentemente seus escritos. Contudo, ele os invoca na maior parte das vezes apenas de passagem e para confirmar doutrinas estabelecidas por outros meios. Ele não se inspira menos na filosofia de Santo Agostinho do que na de Aristóteles. Lindres, Des Alexander von Hales psychologische Lehre em Philos. Jahr., 1888; De Wulf, Histoire de la philosophie médiévale, p. 254, 255. Ele possui em latim o De anima do filósofo de Estagira. No entanto, em uma questão consagrada inteiramente à definição da alma, parte II, q. LX, ele propõe sete ou oito definições, sem pedir nenhuma delas a Aristóteles. Ele não diz, como fará logo São Tomás, que a alma é a forma do corpo, mas que ela está unida ao corpo ad modum formae cum materia. Ele admite e concilia as diversas divisões do intellectus, que ele lê em Santo Agostinho, São João Damasceno e Aristóteles. Às vezes, aliás, ele conhece este último por interpretações de Avicena que serão logo rejeitadas. Além de um intelecto agente e um intelecto possível, ele admite, por exemplo, com Avicena, um intelecto material, parte II, q. LXIX, m. II, a. 2. Poder-se-ia dizer que Aristóteles é um de seus mestres em filosofia, mas que ele segue mais frequentemente as interpretações de Avicena do que o próprio texto do filósofo grego. Em teologia, Aristóteles não é seu mestre em nenhum título. Ele não vê nele um adversário; mas não apoia nenhuma conclusão em seus princípios. Os mestres preferidos de Alexandre, em teologia, são Santo Agostinho, São João Damasceno, Hugo de São Vítor, São Bernardo, Santo Anselmo. Contudo, mesmo nas questões puramente teológicas, Alexandre trai seu espírito filosófico por seus desenvolvimentos sobre a natureza íntima das coisas. Isso transparece da simples indicação que demos acima dos temas sobre os quais ele se deteve com maior predileção.

2° A maneira pela qual Alexandre de Halés estuda cada questão particular é mais característica. Ela difere do método mais ou menos oratório usado antes dele. Não apenas ele faz conhecer sobre cada ponto o pró e o contra, à maneira de Abelardo; não apenas ele busca, como Pedro Lombardo, determinar o que há de verdadeiro no pró e no contra e conciliar assim, em uma espécie de síntese, as opiniões discordantes; ele divide ainda a matéria em tantas divisões e subdivisões quanto necessário para esgotá-la e conforme exige uma completa clareza; ele estuda, enfim, cada membro dessas subdivisões à parte. Em cada artigo, ele enumera separadamente todas as autoridades que militam em favor de uma solução e todas aquelas que militam em favor da solução contrária; propõe, em seguida, sua solução; termina retornando às autoridades contrárias enumeradas no início, para combatê-las e, na maior parte das vezes, para explicá-las. Reconhece-se o método seguido constantemente por São Tomás de Aquino e do qual Alexandre de Halés pode ser considerado o pai. Segundo a comparação do papa Alexandre IV, em sua bula de 28 de julho, os argumentos da Suma de Halés apresentam o aspecto de um exército disposto em batalha para esmagar com seu peso os argumentos do erro: In qua sententiarum irrefragabilium ordinate sunt acies ad obterendam veritatis pondere contentiose pervicaciam falsitatis. Mas, como já percebemos, Alexandre, que frequentemente descobre com sagacidade os traços comuns das doutrinas que se assemelham, busca também, por vezes, conciliar opiniões díspares.

Sua método é, portanto, demasiado eclético. Esse ecletismo leva-o ainda a multiplicar as provas e as autoridades, em vez de se limitar às melhores. Como, por outro lado, ele se detém voluntariamente em todas as questões que lhe interessam, sua Suma tomou proporções extremamente consideráveis. Em sua bula de 28 de julho de 1256, o papa Alexandre IV chama-a de complexans. Ele nos ensina que, mesmo naquela época, os refinados a achavam prolixa; mas que os frades menores que a estudavam e sentiam a utilidade de todas as suas partes a julgavam breve: Prolixitatem quippe, si quam in eadem summa lector delicatus abhorret, studiosis vobis in ea sic reddit continua partium suarum utilitas brevem. Roger Bacon, que era todavia franciscano, apreciava, alguns anos mais tarde, com muito menos respeito, essa pesada Suma, da qual um cavalo teria mais do que sua carga, quae est plus quam pondus unius equi. Opus minus, Londres, 1859, p. 326.

V. DOUTRINA. — A doutrina de Alexandre foi sempre considerada uma doutrina segura. Não foi objeto de qualquer condenação. Recebeu, ao contrário, os maiores elogios do papa Alexandre IV, que a trata de irrefragável, sententiarum irrefragabilium, e chama Alexandre de um homem pleno de Deus, Deo plenus, nemo enim nisi in spiritu Dei loquens aeternae veritatis mysteria ex inquisitionis indagine attigisset. Bula de 28 de julho de 1256, loc. cit.

O primeiro doutor franciscano viveu em uma época em que a síntese da teologia se elaborava; ele contribuiu poderosamente para essa síntese ao inaugurar o método que deveria conduzi-la, ao preparar os materiais que deveriam entrar nela, ao propor questões novas que deveriam ser resolvidas; mas ele mesmo não produziu essa síntese, nem deu muitas soluções definitivas e destinadas a sobreviver-lhe. Ele fez escola apenas em seu tempo. A Suma de São Tomás suplantou a sua, e a escola particular dos filhos de São Francisco, a quem ele tanto honrara, vinculou-se a Duns Scot e a São Boaventura, que tinham utilizado os trabalhos de Alexandre, não a Alexandre em si mesmo. Este foi, a partir do segundo terço do século XIII, um teólogo respeitado, mas pouco estudado e até pouco consultado. Roger Bacon diz que sua Suma apodrece sem leitores entre os franciscanos. Exemplar apud fratres putrescit et jacet intactum. Opera inedita, Londres, 1859, t. I, p. 326. Não se faz nenhuma menção a ela na lista das obras que se colocavam nas mãos dos estudantes, em Paris, no final do século XIII. Denifle, Chartul. univ. Paris, t. I, n. 530, p. 644 sq.

Encontrar-se-á, nos artigos especiais deste dicionário, as principais opiniões que ele formulou, com seus contemporâneos, sobre as questões que se agitavam então. Já vimos, col. 175 e 189, o que ele pensava sobre o papel da contrição e da absolvição no sacramento da penitência. Limitar-nos-emos aqui a assinalar algumas particularidades interessantes de sua doutrina e algumas teorias que ele concebeu e que viveram até hoje.

1° Conceição da Santa Virgem. — Ele estuda em seu terceiro livro, q. IX, m. 1, a questão do primeiro momento da santificação da Santa Virgem. Atribui-se-lhe ter admitido o dogma da Imaculada Conceição, do qual os franciscanos seriam mais tarde os paladinos. A verdade é que, sem dizê-lo expressamente, ele supõe que a Santa Virgem deve ter sido santificada desde o primeiro instante da existência de sua alma racional. Mas, como ele admite que o corpo de Maria, assim como o dos outros homens, viveu certo tempo antes da infusão de sua alma racional (é o sentimento de Aristóteles, sustentado também por São Tomás de Aquino), conclui que a Santa Virgem não foi santificada antes dessa infusão, nem, por conseguinte, no momento de sua concepção (ativa), ou imediatamente após sua concepção (ativa), porque a santificação só pode aplicar-se a uma alma racional, a. 3. Ele não fala expressamente do momento da infusão da alma racional no corpo de Maria, isto é, do momento de sua concepção passiva, no qual devemos crer hoje que ela foi imaculada. Ele sustenta apenas que, após a infusão da alma racional da Santa Virgem, Deus a santificou antes de seu nascimento, a. 4, que essa santificação a purificou não somente do pecado, mas ainda da concupiscência ou do fomes peccati, isto é, da inclinação ao mal e da dificuldade de fazer o bem, a. 4. Crê, consequentemente, que a Santa Virgem foi, desde então, toda santa em sua pessoa; mas estima que sua natureza deve ter sido ainda santificada no momento da concepção do Salvador, in ordine ad filium ex ea generandum, e que ela foi então libertada do poder de pecar. Ibid., m. I, a. 12.

2° As diversas espécies de fé. — A teoria de Alexandre de Hales sobre a fé merece também ser assinalada. Ele a expõe nas questões LXIV e LVII de sua terceira parte. Não vejo que tenha examinado qual é o motivo da fé, nem que tenha notado claramente que ela não pode ter por objeto senão as verdades reveladas por Deus. Esta observação não se encontra em nenhuma das numerosas definições que ele dá da fé, part. III, q. LXVI, m. V, a. 1. Diz que o objeto da fé é o verdadeiro, enquanto é bom, verum in quantum induit rationem boni, q. LXIV, m. IV. Mas ele estuda sobretudo essa fé do ponto de vista de seu princípio subjetivo. Distingue três sortes de fé: 1. A fé humana e natural, que não é um dom de Deus, mas um estado (habitus) adquirido pelo raciocínio ou por um testemunho. Esta fé natural nos faz crer ex ratione vel ex auditu Scripturae, q. LXIV, m. IV, a. 1. É por esta fé natural que os demônios creem ao ver os milagres, q. LXIV, m. VIII; — 2. A fé informis, que não é acompanhada pela caridade. Alexandre a coloca entre as gratiae gratis datae, dando a esta palavra um sentido mais amplo do que aquele que lhe atribuímos. Ver Graça. Ele estuda, consequentemente, a fé informis ao tratar das gratiae gratis datae, q. LXIV, enquanto estuda a fé formata, q. LXVIII, ao tratar das virtudes. A fé informis é, pois, uma graça sobrenatural que nos dá conhecer a verdade e a ela dar nosso assentimento, mas não a de tender à verdade, q. LIV, m. 10. Em um trecho, Alexandre, tomando emprestada uma fórmula de São João Damasceno (cf. q. LVI, m. 1), define essa fé como indijudicabilis spes eorum quae a Deo nobis annuntiata sunt, q. LXIV, m. II. Crer-se-ia, neste momento, que ele entende a fé como os protestantes do século XVI; mas há entre ele e eles uma profunda diferença. Ele considera, de fato, essa fé informis como não podendo inspirar o amor de Deus, mas somente um temor servil, q. LXIV, m. VI. Admite até que os demônios não a perderam no momento de sua queda, que a guardam no inferno com a fé natural de que falávamos acima, e que ela é para eles uma fonte de torturas, ao esclarecê-los sobre sua desgraça, q. LXIV, m. VII-IX; — 3. A fé formata é aquela que a caridade acompanha. Ela nos dá tender para Deus afetivamente, crendo nele, q. LXIV, m. V.

Alexandre considera a fides informis e a fides formata como dois habitus sobrenaturais que permanecem distintos um do outro nos fiéis justificados. Mas pensa que, quando a fides formata entrou em uma alma, é ela quem produz todos os atos de fé, e que a fides informis, capaz apenas de atos de temor servil, cessa de agir nessa alma e ali permanece no estado de puro habitus, q. LXV, m. VI.

3° Instituição dos sacramentos em geral, e do sacramento da confirmação em particular. — Pedro Lombardo não estava ainda bem decidido sobre a instituição dos sacramentos da nova lei por Cristo. Admitia que o matrimônio foi instituído no tempo de Adão. Para os seis primeiros sacramentos, estimava que não puderam ter sido instituídos antes da vinda do Salvador; mas apenas tangenciava a questão e não examinava de forma alguma se foram estabelecidos por Cristo mesmo, pelos apóstolos ou pela Igreja. Sent., l. IV, dist. II, P. L., t. CXCII, col. 842.

Alexandre de Hales estuda a matéria em detalhe. Considerando a questão de uma forma geral, admite que Cristo instituiu todos os sacramentos da lei nova por si mesmo ou por seus apóstolos agindo em virtude de sua autoridade e de suas instruções. O batismo e a eucaristia foram estabelecidos por Jesus Cristo mesmo; a confirmação e a extrema-unção foram estabelecidas pelos apóstolos em virtude da autoridade e das instruções de Jesus Cristo. A penitência, a ordem e o matrimônio, que já existiam no Antigo Testamento, receberam de Jesus Cristo complementos que não tinham até ele. Tal é o ensino de Alexandre em seu estudo geral sobre os sacramentos, l. IV, q. V, m. II, a. 4. Mas mais adiante, quando trata em particular da confirmação, sustenta uma doutrina toda diferente. Ele rejeita, de fato, expressamente o sentimento que atribui a instituição aos apóstolos, e isso, diz ele, porque os apóstolos davam o Espírito Santo pela simples imposição das mãos, sem unção nem palavras; de onde conclui que eles não davam o sacramento. A seu ver, o sacramento da confirmação foi instituído, pela inspiração do Espírito Santo, no concílio de Meaux quanto à forma das palavras e à matéria dos elementos; e o Espírito Santo deu-lhe a virtude de santificar, l. IV, q. IX, m. 1.

Se Alexandre tivesse dado o acabamento final à sua obra, há razão para crer que ele teria colocado estes artigos em acordo e que teria apagado de seu livro esta opinião singular, que está em contradição com seu próprio ensino.

4° Causalidade dos sacramentos. — Alexandre mostrou um discernimento mais seguro na exposição original e profunda que faz da causalidade dos sacramentos. Não encontramos nada em Pedro Lombardo da teoria que ele formula; ela não se encontra tampouco no De sacramentis, atribuído a Hugo de São Vítor, a quem o doutor franciscano empresta, todavia, alguns elementos. De sacramentis, l. I, part. XI, c. V, P. L., t. CLXXVI, col. 323-326.

Eis o sistema de Alexandre de Hales. Todos os sacramentos não são apenas sinais, mas também causas eficientes, por uma virtude acidental que lhes advém, sobretudo, da instituição de Cristo e da sua paixão. Eles têm a virtude de produzir a graça santificante; mas é Deus mesmo quem derrama essa graça na alma, por causa do sacramento, e Ele só a derrama nas almas que não lhe opõem obstáculos. Existe um outro efeito que a bênção contida nos sacramentos produz em todos aqueles que os recebem, mesmo indignamente. Com efeito, todos os sacramentos imprimem por si mesmos na alma um caráter ou um ornamento. A diferença entre o caráter e o ornamento assim impressos pelos sacramentos é que o caráter é indelével, enquanto o ornamento se apaga com o tempo. O batismo, a confirmação e a ordem imprimem na alma um caráter indelével; é por isso que não se podem reiterar; os outros quatro sacramentos imprimem um ornamento que não é indelével: por isso, podem ser recebidos várias vezes, l. IV, q. V, m. IV. Se não me engano, é essa teoria de Alexandre de Hales que São Tomás indica como sendo sustentada antes dele e aceita, In IV Sent., l. IV, dist. I, q. I, a. 4, q. 1; à parte alguns detalhes, ela é ainda hoje considerada no Colégio Romano como expressando o verdadeiro pensamento do Doutor Angélico. Billot, De Ecclesiae sacramentis, q. LXII, LXIII, 2ª ed., Roma, 1896, t. I, p. 50 sq.

5º As indulgências e o tesouro da Igreja. — Alexandre de Hales foi também o primeiro a formular uma outra teoria que entrou no ensino católico. Ele faz derivar o valor das indulgências daquilo que se chama o tesouro da Igreja. Ele distingue o mérito do corpo da Igreja, meritum ecclesiasticae unitatis, do mérito próprio de cada fiel e do mérito de Cristo, nosso chefe, l. IV, q. xxi, m. 1, a. 1. As indulgências, segundo ele, são extraídas do tesouro espiritual da Igreja, isto é, dos méritos supererrogatórios, seja dos membros de Cristo, seja, sobretudo, do próprio Cristo. É por isso que não podem ser concedidas senão pelos bispos que têm a dispensação desse tesouro.

Entre os grandes teólogos do século XIII, foi São Boaventura quem mais se inspirou nos escritos do Doutor Irrefragável. Contudo, acusou-se São Tomás de plágio em relação a Alexandre de Hales. Essa acusação era ainda insinuada no século XVII por Jean (e não Bernard, como muitos o nomeiam) de la Haye, em uma vida de Alexandre inserida no início do comentário sobre o Apocalipse, publicado sob o nome deste último, Paris, 1647. Nos séculos precedentes, baseava-se, sobretudo, na semelhança da Suma Teológica de São Tomás com a Summa virtutum, atribuída ao Doutor Irrefragável. Mas vimos que essa Summa virtutum é de um autor posterior, o que retira da acusação a sua base principal. Jean de la Haye já não se serve desse argumento. Ele indica um grande número de artigos que, segundo ele, São Tomás tomou emprestados em parte da Theologia summa de Alexandre de Hales. Ele pretende até que o artigo 2, 1a parte, q. c, do Doutor Angélico reproduz textualmente o Doutor Irrefragável, parte II, m. I, q. xcv. Mas não há em comum entre esses dois artigos senão algumas provas, apresentadas, aliás, por São Tomás em outros termos que não os de Alexandre de Hales. As outras semelhanças assinaladas por Jean de la Haye são da mesma natureza, quando existem. A reprovação de plágio feita ao Doutor Angélico é, portanto, destituída de qualquer fundamento.

Mas há que reconhecer que São Tomás de Aquino deve algo a Alexandre de Hales. Vimos que ele adotara, para a forma dos seus artigos, o método inaugurado por Alexandre. Era, além disso, natural que ele utilizasse também o fundo da prolixa suma deste último, uma vez que nela encontrava excelentes materiais para pôr em obra. Entre os numerosos argumentos apresentados por Alexandre, era preciso podar e escolher. O Doutor Angélico fê-lo uma primeira vez no seu comentário sobre o Mestre das Sentenças. Fê-lo uma segunda vez na sua Suma Teológica, que é mais concisa. Ele não escolhe apenas entre os argumentos a propor, mas também entre as questões a tratar. Parece fazer alusão a Alexandre quando fala daqueles que fizeram sumas demasiado prolixas propter multiplicationem inutilium quaestionum, articulorum et argumentorum. Sum. theol., Prooemium. A sua Suma não é, certamente, calcada na de Alexandre, mas, tratando a mesma matéria, acontece-lhe frequentemente abordar as mesmas questões e servir-se das mesmas provas. Nada impede pensar que, ao escrever, ele tinha a obra do seu célebre precursor sob os olhos, e os pontos de contato entre as duas sumas, feitos por Jean de la Haye, parecem demonstrá-lo para certas passagens. A palavra atribuída a São Tomás por Gerson, de que ele recomendava, mais do que qualquer outro estudo, o de Alexandre de Hales, não tem, portanto, nada de inverossímil. De Rubeis, loc. cit. infra, p. 8. Mas com as semelhanças, existe entre os dois mestres uma diferença profunda. Dissemos que a prolixidade de Alexandre advém, em parte, do ecletismo com que ele aceitava, em conjunto, opiniões por vezes bastante díspares. Bem outra é a maneira do Doutor Angélico. Certamente, ele também tem o hábito de conciliar, tanto quanto pode, as antigas opiniões que expõe. Mas ele as concilia em virtude de princípios superiores, à luz dos quais se percebe uma relação profunda entre sentimentos que pareciam irredutíveis. As suas sínteses são novas e de uma justeza surpreendente, onde as de Alexandre consistiam por vezes em justaposições sem elo. Em outros termos, Alexandre limita-se, em muitos casos, a amontoar materiais mal adaptados e mal cimentados, enquanto São Tomás constrói, com esses materiais, um edifício de harmoniosa unidade e de perfeita solidez, nunca hesitando em rejeitar tudo o que não entra no seu plano ou não se enquadra nas suas conclusões.

O Doutor Angélico procede, em particular, desta maneira para os dados da filosofia de Aristóteles. Ele admite esses dados como Alexandre; mas, à diferença deste, ele exclui todos os sistemas que não se harmonizam com esses dados. Sobre este terreno filosófico, a sua obra tinha sido, aliás, preparada por trabalhos posteriores aos de Alexandre, quero dizer, pelos comentários de Alberto Magno (ver este verbete), que tinham posto a filosofia peripatética em harmonia com os dogmas e a moral do Evangelho. Assim, embora combatendo o que há de contrário à doutrina cristã em Aristóteles, o Doutor Angélico faz profissão aberta de lhe tomar emprestado o que ele tem de bom e de pertencer à sua escola.

Basta, aliás, lançar um olhar sobre o plano da suma do Anjo da Escola para reconhecer a sua incontestável superioridade. A primeira parte encerra os elementos dogmáticos dos dois primeiros livros da Suma de Alexandre; a terceira parte contém os elementos dogmáticos dos dois últimos. Mas a moral, dividida por Alexandre entre o seu segundo livro, onde ele estuda os pecados que ele liga à queda do homem, e o seu terceiro, onde ele estuda as virtudes e as leis que ele liga à encarnação, é reunida, por inteiro, pelo Anjo da Escola em uma parte distinta: a segunda. O plano de Alexandre obrigava-o a repetições; tinha, além disso, o inconveniente de deixar na sombra o que há de natural na moral. O plano de São Tomás não está sujeito a esses inconvenientes. Ele permite-lhe fazer uma construção original, na qual reúne, sem jamais se repetir nem se contradizer, os elementos da moral natural e da moral evangélica.

Apesar de uma originalidade e de um valor incontestáveis, Alexandre de Hales foi, portanto, muito inferior a São Tomás de Aquino. Contudo, deve-se atribuir a ele parte do mérito da superioridade do Doutor Angélico, pois preparou-lhe os caminhos e, juntamente com Alberto Magno, foi como que seu precursor.

Alexandre de Hales ainda não foi objeto de nenhum estudo completo e aprofundado. Pode-se consultar especialmente: 1° sobre sua vida e suas obras: Wadding, Scriptores ordinis minorum, in-fol., Roma, 1650; Sbaralea, Supplementum et castigatio ad scriptores trium ordinum sancti Francisci, in-fol., Roma, 1806; Histoire littéraire de la France, t. XVI, p. 312-328, Paris, 1835 (artigo de Daunou); Kirchenlexicon, t. I, p. 496-499, Friburgo, 1886 (artigo de Stöckl); S. Bonaventure Opera, Quaracchi, 1882, Prolegomena, t. I, p. L ss.; Simler, Des sommes de théologie, Paris, 1871, p. 97-107; Prosper de Martigné, La scolastique et les traditions franciscaines, Paris, 1888, p. 44 ss.; — 2° sobre seu método: Hauréau, Histoire de la philosophie scolastique, t. I, p. 129-141, Paris, 1880, que expõe também suas doutrinas filosóficas, mas de maneira pouco exata; Kirchenlexicon, loc. cit.; Picavet, Abélard et Alexandre de Halés créateurs de la méthode scolastique, na Bibliothèque de l’Ecole des Hautes-Etudes : sciences religieuses : Etudes de critique et d’histoire, 2ª série, Paris, 1896, p. 222-230; Simler, op. cit., p. 108-138; — 3° sobre suas doutrinas teológicas: De Wulf, Histoire de la philosophie médiévale, Lovaina, 1900, p. 253 ss.; Schwane, Dogmengeschichte, in-8°, t. 1, Friburgo em Brisgóvia, 1882, que indica todas as opiniões de Alexandre sobre as principais questões teológicas; Harnack, Dogmengeschichte, in-8°, t. II, Friburgo em Brisgóvia, 1890, p. 476 ss., 544; 4° sobre o uso que São Tomás fez da Suma de Alexandre: Jean de la Haye, Vita R. P. Alexandri de Halés, c. XI, na abertura de Alexandre de Hales, Commentarii in Apocalypsim, Paris, 1647, levando em conta os exageros deste autor; Noël Alexandre, Summa sancti Thome vindicata, in-8°, Paris, 1675; De Rubeis, em Summa theologica D. Thome Aquinatis, in-4°, Nápoles, 1763, t. IV, p. 3-20 e aut. 1 da nova edição romana das obras de São Tomás de Aquino, Roma, 1882; Prosper de Martigné, op. cit., p. 53-57. A. VACANT.



Autor original: P. MANDONNET

A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor