ALANO DE LILLE

São Domingos

Foi um dos homens mais notáveis do primeiro período da escolástica e um dos representantes mais autorizados da ciência católica, às vésperas desse século XIII que ouviria Alberto, o Grande, São Tomás de Aquino e São Boaventura. Nasceu em Lille por volta de 1144 e, após ter sido discípulo dos mestres que então brilhavam nas escolas de Paris e de Chartres, ensinou ele próprio, com o maior sucesso, na Universidade de Paris, da qual se tornou até reitor, e por algum tempo também em Montpellier. No auge da glória e com direito a esperar uma situação das mais brilhantes na Igreja, Alain deixou o mundo e tornou-se monge em Cister, onde morreu por volta de 1203. Homem de ciência universal, versado nas letras profanas e na ciência sagrada, filósofo, teólogo, orador, poeta, hábil controvertista e professor eminente, Alain passava por ser o prodígio de seu século. Foi apelidado pela admiração de seus contemporâneos de Alain, o Grande, e a posteridade conferiu-lhe o título de Doutor Universal.

É talvez essa reputação universal que fez com que, posteriormente, os historiadores confundissem com ele diferentes personagens do mesmo nome e da mesma época, e atribuíssem ao único Alain de Lille particularidades da vida de seus homônimos. É assim que o bispado de Auxerre não teve como titular Alain, o Grande, mas um outro Alain de Lille, que, inicialmente abade de Larrivour, tornou-se bispo em 1152 e, após ter renunciado a este título em 1167, entrou em Claraval, onde morreu e foi enterrado em 1185.

Hautcoeur, Histoire de l’église collégiale et du chapitre de Saint-Pierre de Lille, t. I, p. 63-66, Lille e Paris, 1896. O fato de a maioria dos manuscritos de nossa escolástica se encontrar na Inglaterra não prova a origem inglesa que alguns autores atribuem ao doutor universal. Na Histoire littéraire de France, D. Brial confundiu Alain de Lille com Alain de Tewkesbury, que, primeiro cônego em Benevento, tornou-se, ao retornar à Inglaterra, monge em Cantuária (1174), prior do convento de São Salvador (1179) e, finalmente, abade em Tewkesbury, onde morreu em maio de 1201. Por outro lado, parece que se deveria identificar Alain de Lille com um certo Alain du Puy, ignorado por todos os biógrafos e no qual alguns críticos modernos quiseram descobrir o autor de duas obras atribuídas com justiça a Alain de Lille.

As obras de Alain de Lille foram reunidas e publicadas por Migne, P. L., t. CCX, segundo as edições de Ch. de Visch, de Pez, de Mingarelli e segundo diversos manuscritos e incunábulos. Esta edição de Migne não é nem completa nem sempre bem correta. Uma série de sermões (Bibl. de Toulouse, século XII, n° 195) e o tratado De virtute et vitiis (Bibl. nat., século XII, n° 3228 F.) permanecem inéditos. Cl. Baeumker, na Alemanha, corrigiu e completou as Theologicae regulae (Handschriftliches zu den Werken des Alanus, Fulda, 1894); Th. Wright publicou uma edição pouco crítica das obras poéticas de Alain, Rerum Britannicarum medii aevi scriptores, t. II, Londres, 1872.

O poema intitulado Anticlaudianus, P. L., t. CCX, col. 487-576, permaneceu célebre durante toda a Idade Média. É uma vasta composição alegórica onde as sutilezas e as abstrações não faltam; o autor, em sua corrida através do mundo etéreo, vê e descreve tantas coisas que nos dá uma espécie de enciclopédia de seu tempo. Cf. Eug. Bossard, Alani de Insulis Anticlaudianus cum divina Dantis Alighieri comoedia collatus, Angers, 1885. De menor valor tanto pelo fundo quanto pela forma é outra composição alegórica, De planctu naturae: a natureza aparece ao poeta e queixa-se da perversidade dos homens. P. L., t. CCX, col. 431-487.

A obra principal de Alain, o tratado De arte sive de articulis fidei catholicae, é uma espécie de suma teológica, mais completa e mais científica, quanto ao fundo e à forma, que a de Pedro Lombardo. O método é mais escolástico, sendo mesmo geométrico em certos aspectos: procede por definições, axiomas e demonstrações. Em cinco livros, P. L., t. CCX, col. 596-618, o autor trata de Deus, da criação, da encarnação, dos sacramentos e dos fins últimos. Que Nicolau de Amiens (nascido em 1147) seja o autor desta obra, não é nada provável. Ver Hauréau, Hist. de la philos. scol., t. I, Paris, 1872, p. 502. Em suas regras teológicas, Regulae de sacra theologia, P. L., t. CCX, col. 618-684, Alain formula, em uma linguagem lacônica e de aparência algo paradoxal, uma série de teses emprestadas do dogma e da moral, e faz uma curta exposição seguindo principalmente Boécio. É este autor quem exerceu a maior influência sobre o espírito especulativo de Alain: encontra-se o vestígio disso em toda parte. Em filosofia, Alain professa uma tendência relativamente independente e conciliadora entre Platão, Aristóteles, os Padres da Igreja e seus predecessores. A reprovação de racionalismo teológico e de panteísmo feita a Alain por alguns historiadores carece de fundamento sólido, a menos que se considerem como racionalistas e panteístas todos aqueles que conheceram e comentaram o livro pseudo-aristotélico De causis, citado pela primeira vez no Ocidente por Alain, sob o título: Liber de essentia summe bonitatis. Ver Bardenhewer, Die pseudo-aristotelische Schrift über das reine Gute, Friburgo em Brisgóvia, 1882.

Sobre Alain de Lille, pode-se consultar os historiadores da filosofia escolástica, em particular Hauréau, Hist. de la phil. scol., t. I, Paris, 1872, e Mémoires de l’Académie des inscriptions et belles-lettres, t. XXXI; de Wulf, Hist. de la phil. scol. dans les Pays-Bas et la principauté de Liége, Lovaina e Paris, 1895; Dr. Baumgartner, Die Philosophie des Alanus de Insulis im Zusammenhange mit den Anschauungen des 12 Jahrhunderts, Münster, 1896; Braun, Revue des sciences ecclésiastiques; Essai sur la philosophie d’Alain de Lille, Lille, 1897-1899; Albert Dupuis, Alain de Lille, Lille, 1859. P. BRAUN.


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