2. AGRICOLA Jean (de seu verdadeiro nome Schnitler, ou ceifeiro) nasceu em Eisleben (em 1492), donde o nome de Islebius, sob o qual é mais geralmente designado por seus contemporâneos; estudou e ensinou em Wittemberg, onde se ligou de estreita amizade com Lutero, a quem acompanhou a Leipzig em 1519. Em 1525, foi pregador em Frankfurt-am-Main; e, de 1526 a 1536, em Eisleben; em 1527, inaugurou contra Melanchthon a primeira controvérsia antinomista; em 1530, encontrou-se na dieta de Augsburgo junto a Melanchthon; em 1536, tornou-se professor de teologia em Wittemberg e renovou a querela antinomista; em 1537, apareceu nos Estados da liga de Smalkalde. Perseguido pelo ódio de Lutero, em 1540, rendeu-se a Berlim, como pregador, à corte do eleitor Joaquim II; a partir desse momento e até sua morte, deveria desempenhar no eleitorado de Brandeburgo um papel muito ativo e muito importante; em 1548, preparava com Pflug e Helding o interim de Augsburgo; no mesmo ano, retomava ainda uma vez a controvérsia antinomista, a propósito das obras, e se obstinava na luta contra Melanchthon; morreu em Berlim em 1566.
Agricola foi um pregador célebre, um professor apreciado pela distinção de sua linguagem, um escritor fecundo. Seu recueil de provérbios alemães (com glosas) publicado em Magdeburgo em baixo-alemão (1528), depois em alto-alemão (1529), assegura-lhe um lugar na história da literatura alemã.
Mas, se ele se fez um nome entre os reformadores, é por suas opiniões particulares sobre a lei e as obras, de uma parte, e de outro lado pelo zelo com o qual serviu a política religiosa do eleitor de Brandeburgo. Nós vamos tratar esses dois pontos.
I. CONTROVÉRSIA ANTINOMISTA. — O antagonismo entre a Lei e o Evangelho, tal como o haviam concebido Lutero e Melanchthon, era uma das colunas do sistema protestante; mas podia-se entendê-lo com mais ou menos rigor; podia-se igualmente, sob o nome de lei, entender unicamente a lei mosaica ou bem também a lei moral; designou-se sob o nome de antinomistas ou nomianos os mais determinados adversários da lei mosaica, depois, como eles tomaram partido sem restrição contra as obras, acusou-se-os de desprezar também a lei moral. Era inevitável que tal controvérsia se levantasse no seio do protestantismo, já que ela nascia do fundo mesmo da doutrina luterana da justificação. Ou bem se expunha essa doutrina em todo o seu rigor, recusava-se às virtudes e aos seus atos toda relação com a salvação, e se expunha ao reproche de não levar em conta a lei moral; ou bem, assustado com as consequências da doutrina em virtude da qual o homem é justificado e salvo pela única imputação dos méritos do Salvador, olhava-se a conversão entendida no sentido preciso da palavra, o renovamento interior, como uma condição do cumprimento das promessas evangélicas, e era-se acusado de retirar do Evangelho seu caráter de boa nova e de estragar aos homens a doçura ao misturar-lhe preceitos e ameaças, ao fazer dele uma sorte de lei.
Em 1527, quando Melanchthon, em seus artigos sobre a visita das igrejas da Saxônia, disse que não se devia pregar somente a fé, mas a penitência que deve precedê-la, e recomenda pregar o Decálogo, Agricola pretendeu que isso era um ataque à doutrina da justificação pela fé somente e que o sentimento de arrependimento não pode ser inspirado senão pela fé; ele sustentou a ab-rogação plena e inteira da lei mosaica. Lutero, em uma conferência em Torgau (1527), levou Agricola a expor sua opinião de uma maneira menos agressiva: Agricola consentiu em fundir a lei e o Evangelho, de tal sorte que o Evangelho contivesse um certo elemento moral imperativo. A controvérsia cessou momentaneamente, mas para renascer dez anos mais tarde em Wittemberg.
É preciso confessar que Agricola concebia suas ideias com tão pouca clareza e que ele variava tão frequentemente em sua doutrina que se pôde imputar-lhe opiniões contraditórias. Era dar vantagem a Lutero que, em 1538, publicou contra seu adversário cinco dissertações passavelmente veementes. Acusou-se Lutero de ter caluniado Agricola; ao menos, ele apresenta de uma maneira inexata e excessiva a doutrina desse teólogo, ao mesmo tempo em que modificava ele mesmo sua teoria primitiva, por um efeito natural da polêmica. Foi ele quem deu à tese de Agricola o nome de antinomismo que lhe restou.
Lutero não podia nem refutar solidamente, nem desenganar Agricola, uma vez que ambos admitiam os mesmos princípios sobre a Justificação e que, no fim das contas, Agricola não fazia senão tirar as consequências extremas. Agricola, embora parecesse ceder e se retratar, voltava sempre às suas conclusões.
A ameaça do braço secular não faltou a Lutero. Suprimiram-se os escritos de Agricola; o eleitor da Saxônia falou em privá-lo de sua liberdade; Agricola refugiou-se em Berlim e publicou, sob os conselhos do eleitor, uma retratação quase tal como Lutero a exigia dele. Mas Lutero permaneceu implacável, e de seu lado Agricola nunca esqueceu seu rancor contra Lutero e Melanchthon. Em 1548, a influência de Agricola se fez sentir na redação do ínterim de Augsburgo, onde ele insinuou sua doutrina sobre a penitência. Por volta do mesmo tempo recomeçou, a propósito das obras, a controvérsia antinomista que se misturou desde então à controvérsia sinergística. No ínterim de Leipzig, Melanchthon admitiu uma cooperação do homem à ação divina. Agricola remeteu à frente sua tese favorita da ab-rogação da lei e sustentou que não se devia mais falar de obras ou que se devia renunciar ao Evangelho. Em 1559, tendo Melanchthon respondido ao Livro de Refutação "que as boas obras são necessárias à salvação, que uma nova obediência é necessária e devida, que esses princípios devem ser mantidos contra os antinomistas", Agricola convidou, do alto da cátedra, o povo de Berlim a pedir a Deus a confusão de Melanchthon: "Orai contra o belo arcanjo diabólico dos tempos novos que volta agora entre nós e quer impor as boas obras aos justos, a fim de nos fazer perder mais uma vez Cristo e seu Evangelho." Quando, no ano seguinte, Melanchthon morreu, Agricola não hesitou em declará-lo condenado se não tivesse mudado de sentimento antes de morrer; e ele excomungou publicamente o preboste de Berlim, Georges Bucholzer, que permanecera fiel a Melanchthon. Apoiando-se ele também no braço secular, fez-lhe proferir terríveis ameaças pelo eleitor de Brandemburgo, de quem ele era, como dissemos, tornado o instrumento.
II. AGRICOLA E A POLÍTICA RELIGIOSA DO ELEITOR DE BRANDEBURGO. — Em 1540, Joaquim II impôs ao eleitorado de Brandemburgo um novo regulamento eclesiástico. Esse regulamento mantinha, tanto quanto a coisa era possível, "as cerimônias e bons costumes do passado", mesmo a "missa latina", os ornamentos sacerdotais, a elevação da hóstia e do cálice, assim como muitas festas de santos, e em particular aquelas da "três vezes santa e bendita Mãe de Deus", os jejuns, abstinências, procissões, etc. Jean Agricola, capelão de Joaquim e pregador da catedral, prestou-se à manutenção dessas cerimônias e desses usos. Lutero, embora reconhecendo que era preciso passar pela vontade do eleitor, incriminou fortemente a conduta de Agricola, a quem tratou de "histrião e palhaço". Agricola não continuou menos a trabalhar em favor do absolutismo político e religioso de seu protetor: acusaram-no de cupidez, disseram até que fora comprado pelos judeus; parece antes ter agido por ambição, por vaidade e também por uma certa gratidão para com Joaquim. Em 1547, ele celebrou a vitória de Mühlberg por um serviço de ações de graças e louvou a Deus por ter entregue o inimigo a Sua Majestade Imperial. Em 1548, ele trabalhou, de acordo com o eleitor, para fazer aceitar o ínterim de Augsburgo; acusaram-no ainda de ter sido pago pelo imperador; é certo que ele recebeu nessa ocasião belas promessas e ricos presentes, mas ele estava de boa fé ao afirmar que o ínterim traria felizes frutos para toda a Alemanha.
Os últimos anos de Agricola foram perturbados pelas lutas violentas que, no eleitorado de Brandemburgo, puseram em confronto os estritos luteranos, os flacinianos, os melanchthonianos, os majoristas, os osiandristas, etc. Era a guerra de todos contra todos e todos buscavam o favor do eleitor. Também Agricola teve alguma dificuldade em manter sua autoridade.
O trabalho mais completo e o mais sério que apareceu sobre Jean Agricola é o de Kawerau, Johann Agricola, Berlim, 1881. A. BAUDRILLART.
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