AGRAPHA. — I. Natureza. II. Número. III. Importância.
I. NATUREZA. — Por esta expressão grega («não escritos», em oposição à «Escritura» e às «Escrituras» canônicas), costuma-se designar, desde Cotelier (1672), sentenças de Jesus Cristo que não foram consignadas nos Evangelhos canônicos, mas transmitidas pela tradição oral. A etimologia, que os supõe conservados sem registro escrito — «sem escrita», segundo a expressão de Clemente de Alexandria, Strom., VI, 7, P. G., t. IX, col. 284 — é falsa, pois muitas dessas palavras de Jesus foram reproduzidas nos escritos inspirados do Novo Testamento, que não os Evangelhos. Apesar da inexatidão do nome, prevaleceu o uso de chamar agrapha as palavras autênticas de Jesus, estranhas aos quatro Evangelhos reconhecidos pela Igreja, e citadas como tais pelos antigos escritores eclesiásticos. Uma vez que se entende por agrapha máximas que foram realmente pronunciadas pelo divino Mestre, excluem-se de seu número aquelas que se encontram nos Evangelhos apócrifos, a menos que seja provado por outra via que elas saíram verdadeiramente de sua boca.
II. NÚMERO. — A. Resch, Agrapha, in-8°, Leipzig, 1889, reuniu setenta e quatro dessas máximas que ele considera autênticas e cento e três que encara como duvidosas e apócrifas. Fez a exegese delas e concluiu que nenhum dos setenta e quatro agrapha autênticos corresponde ao gênero e à maneira do quarto Evangelho; todos apresentam o caráter de fundo e de estilo dos Evangelhos sinóticos, e as palavras que tratam do fim dos tempos e das doutrinas escatológicas são raras. Por outro lado, esses agrapha não têm qualquer parentesco com os Evangelhos apócrifos dos Egípcios e dos Hebreus. De onde provêm, então? M. Resch faz derivar todos de um único original hebraico, daquele escrito primeiro que os críticos alemães colocam na base dos três primeiros Evangelhos canônicos. Eles não teriam encontrado lugar nesses Evangelhos escritos, mas teriam sido conservados por outros documentos da antiga literatura eclesiástica. A obra de M. Resch, muito rica em materiais, é imperfeita do ponto de vista da crítica. Não só o autor parece ter sido dominado por sua teoria preconcebida de uma fonte hebraica, da qual derivariam os agrapha; ele ainda admitiu, com demasiada facilidade, a autenticidade de muitas palavras de Jesus Cristo. M. Ropes, Die Sprüche Jesu, in-8°, Leipzig, 1896, submeteu os materiais reunidos por Resch a uma crítica mais severa e chegou a resultados bem diferentes. Examinou todos os agrapha, uma parte dos apocrypha de Resch e citações novas. Agrupou todas essas sentenças em três categorias. As setenta e três primeiras não são atribuídas a Jesus Cristo, ao menos em seu teor atual, pelos autores que nos transmitiram; podem ter sido extraídas de coleções de agrapha sem valor. Outras onze (n°s 74-84) foram munidas de uma falsa etiqueta por falta de memória; são citações bíblicas, indicadas por erro como palavras de Nosso Senhor. Das últimas, quarenta e três (n°s 85-127) não são históricas; treze (n°s 128-140) permanecem duvidosas, mas poderiam bem ter um fundamento certo, e quatorze (n°s 141-154) são autênticas e históricas. Dessas quatorze, apenas cinco sentenças tinham sido admitidas e reconhecidas por Resch. Ropes conta nesse número o episódio da mulher adúltera, Joa., VII, 53-VIII, 11, que é certamente autêntico. Ver JEAN (Evangile de saint), VII, 1-11º Outras palavras dessa natureza são reproduzidas nos livros canônicos do Novo Testamento, tais como: «Mais bem-aventurado é dar do que receber», Act., XX, 35, e a passagem de São Paulo, I Cor., IV, 15-17º Outras foram relatadas pelos Padres; por exemplo: «Os cordeiros, quando são comidos, não temem os lobos.» Clemente de Roma, I Cor., V, 2-4; Funk, Opera Patrum apostolicorum, 2ª ed., Tubinga, 1887, t. I, p. 150. «Sobre as obras em que vos encontrar, vos julgarei.» S. Justino, Dialogus cum Tryphone, 47, P. G., t. VI, col. 580. «Sede prudentes banqueiros, controlai tudo, guardai apenas o que é bom.» Clemente de Alexandria, Strom., I, 28, P. G., t. IX, col. 924. Uma, enfim, ter-nos-ia sido conservada como uma lição do Codex Cantabrigiensis. Matth., XX, 28º Estas conclusões não são absolutamente certas. Outros críticos acharão autêntica ou duvidosa tal citação que ele considera apócrifa. P. Batiffol, La littérature grecque, Paris, 1897, p. 28-29º Em uma nova edição de seu livro (Texte und Untersuchungen zur Geschichte der altchristl. Literatur, 1906, t. XXX, fasc. 3 e 4), M. Resch reuniu 194 agrapha, dos quais apenas 76 lhe parecem autênticos.
III. IMPORTÂNCIA. — Os agrapha autênticos ou duvidosos não trazem nenhum elemento novo à história de Jesus e acrescentam pouco à doutrina do Mestre. Como foram conservados pela tradição oral, podem ser invocados como prova da existência dessa tradição, que se coloca legitimamente na base de nossos Evangelhos canônicos. Mas, fora deles, a tradição evangélica é de uma pobreza extrema. A maior parte dos pretensos agrapha não passa de interpolações, interpretações, citações de memória, bordados sobre o texto evangélico ou tradições gnósticas. Têm, contudo, uma certa importância do ponto de vista da história das opiniões por vezes singulares que surgiram durante os dois primeiros séculos do cristianismo.
Cotelier, Patres apostolici, Paris, 1672; 2ª ed., Antuérpia, 1698; Ecclesiae graecae monumenta, t. I-III, Paris, 1677-1686; Grabe, Spicilegium SS. Patrum ut et hereticorum seculi I, II et III, Oxford, 1698; Fabricius, Codex apocryphus Novi Testamenti, Hamburgo, 1703; 2ª ed., 1719; Lardner, The credibility of the Gospel-history, 2ª ed., Londres, 1748; Körner, De sermonibus Christi agraphois, Leipzig, 1776; Routh, Reliquiae sacrae, Oxford, 1814-1818; R. Hofmann, Das Leben Jesu nach den Apocryphen, Leipzig, 1851; R. Anger, Synopsis evangeliorum Matthei, Marci, Lucae, Leipzig, 1852; Bunsen, Analecta Ante-Nicena, Londres, 1856, t. I, p. 29; Westcott, Introduction to the Study of the Gospels, Londres, 1860; 2ª ed., 1881; Dodd, Sayings ascribed to our Lord by the fathers and other primitive writers, Oxford e Londres, 1874; Nicholson, The Gospel according to the Hebrews, Londres, 1879; Hilgenfeld, Novum Testamentum extra Canonem receptum, 2ª ed., Leipzig, 1884; B. Pick, The Life of Jesus according to extra-canonical sources, Nova Iorque, 1887; Zahn, Geschichte des neutestamentlichen Kanons, Erlangen e Leipzig, 1888-1892; Schaff, History of the Christian Church, Nova Iorque, 1889; Plumptre, N. Commentary for English Readers, t. I, p. 33; Handmann, Das Hebräerevangelium, em Texte und Untersuchungen zur Geschichte der altchristlichen Literatur, t. V, 3º fasc., Leipzig, 1888; A. Resch, Agrapha, aussercanonische Evangelienfragmente, ibid., Leipzig, 1889, t. V, 4º fasc.; 2ª ed., 1906, t. XXX, fasc. 3º e 4º; J. H. Ropes, Die Sprüche Jesu, die in den kanonischen Evangelien nicht überliefert sind. Eine kritische Bearbeitung des von D. Alfred Resch gesammelten Materials, ibid., Leipzig, 1896, t. XIV, 2º fasc.; E. Nestle, Novi Testamenti graeci supplementum editionibus de Gebhardt-Tischendorfianis, Leipzig, 1896; Dict. d’archéologie chrétienne, t. I, col. 979-984.
Autor original: E. Mangenot
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