ACCAS (São), que por vezes também é chamado Acca, Accus, Hacca, Alla, foi bispo de Hagustald, a atual Hexham, cidade do condado de Northumberland, na Inglaterra. Nasceu por volta do ano 668, muito provavelmente em uma família anglo-saxã e no reino da Nortúmbria. Foi, primeiramente, discípulo do bispo São Bosa, que havia substituído São Wilfrid em 678 na sede de York, após a primeira deposição deste pelo arcebispo de Canterbury, São Teodoro. Clérigo e monge simultaneamente, segundo um costume da terra e do tempo, começou por seguir, ao que parece, a regra de São Columbano. Contudo, algum tempo depois, talvez após a morte de Bosa, vemos que se ligou à pessoa de Wilfrid, sob cuja direção abraçou, verossimilmente, a regra de São Bento. Desde então, permaneceu fiel a Wilfrid e, até ao fim, partilhou as vicissitudes e lutas da sua existência atribulada: primeiro em York, onde aquele prelado tinha sido restabelecido bispo em 687, e depois, após a sua segunda deposição, nas provações e peregrinações do seu exílio. É então que o acompanha, talvez à Frísia, e certamente a Roma (704), onde Wilfrid solicita ao Papa João VI que se pronuncie entre ele e os seus inimigos, e onde ele próprio renova, como que na sua fonte, o seu amor pela Igreja romana e a sua dedicação à Sé Apostólica. No ano seguinte (705), após a intervenção do Papa ter restabelecido a paz na Igreja de York, foi devolvida a Wilfrid uma sede episcopal, não a de York, contudo — que foi entregue a João de Beverley —, mas outra, desmembrada daquela, que há algum tempo se tentava organizar e que tinha como centro o mosteiro de Hagustald. Accas seguiu-o nesta nova sede e, após a morte de Wilfrid, ocorrida quatro anos depois, sucedeu-lhe.
Como bispo de Hagustald, Accas prosseguiu a obra de Wilfrid, trabalhando particularmente, seguindo o seu exemplo, para fazer prevalecer em toda a parte a influência e as práticas romanas, na disciplina, nos ritos, no canto e até mesmo na arquitetura. Pregou e fez pregar o Evangelho às populações ainda pagãs da Nortúmbria. Mas foi, sobretudo, a ciência sagrada que constituiu o objeto da sua solicitude. Para a instrução dos seus clérigos, Beda informa-nos que ele tinha formado, no mosteiro que se erguia junto à igreja de Santo André, em Hagustald, uma biblioteca rica e escolhida, amplissimam ac nobilissimam bibliothecam, onde tinha reunido principalmente livros eclesiásticos. Ele próprio não era estranho à literatura. Se dermos crédito a Pits, De illustr. Angl. script., Paris, 1619, p. 114, teria composto vários escritos, entre outros: 1º uma história da vida e do martírio dos santos cujas relíquias repousavam na sua igreja; 2º ofícios para uso da mesma igreja; 3º vários poemas, de inspiração sobretudo eclesiástica; 4º um certo número de cartas a diversos destinatários. Terá Accas realmente composto todos estes escritos? Não ousaríamos afirmá-lo. Talvez a asserção de Pits, reproduzida pela maioria dos autores que vieram depois dele, repouse sobre algumas frases de Beda interpretadas de forma inexata. Devemos acrescentar, porém, que Du Cange assegurava ter lido, num manuscrito da abadia de Saint-Germain-des-Prés (n. 147), algo de Accas que não era, ao que parece, a carta de que falaremos a seguir. Cf. Fabricius, Bibliotheca latina mediæ et infimæ ætatis, Pádua, 1754, t. I, p. 8. Não se sabe o paradeiro desse manuscrito.
Seja como for, de Accas conservámos apenas uma carta. É endereçada a Beda. Nela, exorta o seu ilustre correspondente, em termos simultaneamente prementes e persuasivos, a redigir um comentário sobre o Evangelho segundo São Lucas, ao modo daquele que tinha empreendido para os Atos dos Apóstolos. Beda alegava, para declinar tal tarefa, tanto a dificuldade do trabalho quanto a existência de um comentário já feito sobre o mesmo livro por Santo Ambrósio. A amizade de Accas soube opor a ambas as razões respostas vitoriosas, uma vez que Beda cumpriu a tarefa. Pode-se consultar esta carta de Accas precisamente no início desse comentário ao Evangelho segundo São Lucas, nas obras de Beda, ed. Migne, P. L., t. XCII, col. 301-304. É seguida por uma epístola dedicatória de Beda a Accas, ibid., col. 303-308. A carta de Accas testemunha uma cultura distinta e justifica plenamente o elogio que Beda faz dele no cap. XX do livro V da sua *História Eclesiástica*: in litteris sanctis doctissimum.
Esta carta mostra-nos também as relações de estreita amizade que uniam Accas e Beda. As obras deste último fornecem-nos outras provas. É a pedido de Accas que o doutor anglo-saxão escreve o seu *Hexaemeron* ou comentário sobre os primeiros capítulos do Génesis, dedicando-lho, P. L., t. XCI, col. 9-12. É também a seu pedido que compõe as suas exposições alegóricas sobre o primeiro livro de Samuel, ibid., col. 499-500, e sobre os profetas Esdras e Neemias, ibid., col. 807-808, bem como os seus comentários sobre o Evangelho segundo São Marcos, ibid., t. XCII, col. 131-134, e sobre os Atos dos Apóstolos, ibid., col. 937-940. Dedica-lhe igualmente o seu tratado sobre o templo de Salomão, ibid., t. XCI, col. 735-738; uma dissertação sobre os acampamentos de Israel, ibid., t. XCIV, col. 699-702; e outra sobre um texto de Isaías, XXIV, 22, ibid., col. 702-710. As cartas de Beda a Accas podem ser consultadas nos locais citados. Encontram-se também agrupadas no t. XCIV da *Patrologia Latina* de Migne, col. 684-710. Elas revelam-nos a estima em que Beda detinha Accas e a parte de inspiração e de conselhos que este teve nos trabalhos do seu ilustre amigo.
Após ter governado durante vinte e quatro anos (709-733) a Igreja de Hagustald, Accas viu-se, ele também, como outrora o seu mestre Wilfrid, vítima de perseguição e deposto da sua sede episcopal (733). Por que motivo? Não sabemos. Após um exílio de três anos, pôde regressar a Hagustald, mas a sua sede episcopal não lhe foi devolvida. Morreu alguns anos depois, muito provavelmente no dia 20 de outubro de 740, com a idade de cerca de 72 anos. A sua memória permaneceu em veneração em toda a Inglaterra e foi logo honrado como santo. Certos martirológios fixavam a sua festa no dia 30 de novembro, outros no dia 28 de abril. Os bolandistas atribuíram-lhe a data de 20 de outubro. Menos conhecido que o seu mestre Wilfrid ou que o seu amigo, o Venerável Beda, Accas tem, contudo, o direito de ser colocado, imediatamente a seguir a eles, num dos primeiros lugares dessa falange de bispos e monges anglo-saxões que continuaram, nos séculos VII e VIII, a obra romana dos missionários enviados por Gregório, o Grande. Ele teve também a sua parte nesse despertar de atividade científica do qual a jovem Igreja anglo-saxónica dá, desde o início da sua existência, o brilhante espetáculo.
Beda, *Historia ecclesiastica gentis Anglorum*, l. V, c. XX, P. L., t. XCV, col. 270; Bale, *Scriptorum illustrium majoris Brytannie quam nunc Angliam et Scotiam vocant catalogus*, Basileia, 1557, p. 87; Ceillier, *Histoire générale des auteurs sacrés et ecclésiastiques*, Paris, 1752, t. XVII, p. 14-16, 36-37; 2ª ed., Paris, 1862, t. XII, p. 7-15, 21; Cave, *Scriptorum ecclesiasticorum historia literaria, a Christo nato usque ad seculum XIV*, Genebra, 1720, p. 406-407; Fabricius, *Bibliotheca latina mediae et infimae aetatis*, Pádua, 1754, t. I, p. 3; Brucker, *Historia critica philosophiae a Christo nato ad repurgatas usque literas*, Leipzig, 1766, t. III, p. 579, e sobretudo Joseph van Hecke, S. J., no tomo VIII de outubro dos *Acta sanctorum* dos bolandistas, ed. Palmé, 1866, p. 965-980. Encontrar-se-ão lá reunidos: 1º todos os extratos importantes da *Historia ecclesiastica* de Beda, do *Liber de statu et episcopis ecclesiae Hagustaldensis*, por Ricardo de Hagustald, do *Liber de sanctis ecclesiae Hagustaldensis et eorum miraculis*, por um autor anônimo do século XII, cônego regular, etc., que podem servir à história de Accas e dos eventos nos quais este esteve envolvido; 2º o único escrito conhecido deste bispo; 3º uma sábia dissertação crítica sobre ele, as suas relações com Wilfrid e Beda e os trabalhos do seu episcopado. Esta dissertação, muito bem conduzida, corrige diversos erros que circulavam sobre Accas e a história das igrejas de York e de Hagustald na sua época.
Autor original: L. JEROME
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