ABELARD (Artigos condenados por Inocêncio II). — I. Os documentos. — II. Verdadeiro sentido dos artigos condenados e sistema teológico de Abelardo.
I. Os documentos. — Da condenação de 1121 em Soissons, nenhum documento oficial restou. Segundo Oto de Freising, De rebus gestis Friderici I, l. I, c. xii, em Recueil des hist. des Gaules, t. XII, p. 654, reprochava-se a Abelardo o ensino do sabelianismo, e São Bernardo nos informa que as novas obras proscritas em 1141 reproduziam o livro queimado em Soissons. Epist., cxc, P. L., t. CLXXXII, col. 557. Ora, sobre a condenação de 1141, temos os rescritos de Inocêncio II e os Capitula errorum Abailardi.
1º RESCRITOS DE INOCÊNCIO II. — Numa carta endereçada em 16 de julho de 1141 aos arcebispos Henrique de Sens e Sansão de Reims, aos seus sufragâneos e ao abade de Claraval, o papa dizia:
Nos itaque, qui in cathedra sancti Petri, cui a Domino dictum est Et tu aliquando confirma fratres tuos, licet indigni residere conspicimur, communicato fratrum nostrorum episcoporum cardinalium consilio, destinata Nobis a vestra discretione capitula et universa ipsius Petri dogmata sanctorum canonum auctoritate cum suo auctore damnavimus, eique tanquam hæretico perpetuum silentium imposuimus. Universos quoque erroris sui sectatores et defensores a fidelium consortio sequestrandos et excommunicationis vinculo innodandos esse censemus. Jaffé-Loewenfeld, Regesta pontificum Roman., t. II, n. 8148; P. L., t. CLXXIX, col. 515.
Uma segunda carta do mesmo dia ordenava aos mesmos prelados que «encerrassem em mosteiros que parecessem convenientes Pedro Abelardo e Arnaldo de Bréscia, que fabricaram dogmas perversos e atacaram a fé católica, e que fizessem queimar seus livros onde quer que fossem encontrados». Jaffé-Loewenfeld, ibid., n. 8149; P. L., ibid., col. 517.
Destes textos, depreende-se: 1° que a doutrina de Abelardo e o autor ele mesmo são declarados heréticos; 2° que suas obras são condenadas ao fogo (ao menos a Introductio, o Sic et non e a Expositio Epistolæ ad Romanos, que são formalmente denunciadas por São Bernardo, Epist., cxc, P. L., t. CLXXXII, col. 1061, 1062); 3° que as proposições de Abelardo enviadas a Roma são especialmente reprovadas, sem que a censura que merecem seja determinada.
II. ARTIGOS CONDENADOS. — Não tendo sido conservada nenhuma lista absolutamente oficial, damos a mais completa, publicada por d’Argentré, Collectio judiciorum, Paris, 1728, t. I, p. 24, reproduzida por Mansi, Concil., t. XXI, col. 568, e Denzinger, Enchiridion, 10ª ed., n. 368-386. É a que foi comunicada a Abelardo no concílio de Sens, uma vez que, em sua retratação, P. L., t. CLXXVIII, col. 568; ed. Cousin, p. 720, ele a examina artigo por artigo (embora omitindo os artigos 3º e 16º). Ela concorda com a lista publicada por d’Amboise, Præfatio apologetica, P. L., t. CLXXVIII, col. 79, exceto pelos artigos 8 e 15º Finalmente, a lista enviada a Roma, descoberta por dom Durand e publicada por Mabillon, Sancti Bernardi opera, t. I, p. 640; P. L., t. CLXXXII, col. 1049, estava reduzida a catorze capítulos, com extratos de Abelardo longos demais para serem reproduzidos aqui. Marcamos, portanto, com um * os artigos 3, 14, 15-19 que, antes da sentença romana, foram suprimidos. No artigo 14, o texto ininteligível dado por d’Amboise, d’Argentré e Mansi: ad Patrem qui ab animo non est, foi retificado segundo o texto de Abelardo citado na lista romana. P. L., ibid., col. 1082. A data também é retificada segundo Jaffé-Loewenfeld, loc. cit.
Capitula Abelardi a concilio Senonensi a. 1141 et ab Innocentio II (16 jul. 1141) damnata.
1º Quod Pater sit plena potentia, Filius quædam potentia, Spiritus Sanctus nulla potentia. 2º Quod Spiritus Sanctus non sit de substantia Patris aut Filii. 3*. Quod Spiritus Sanctus sit anima mundi. 4º Quod Christus non assumpsit carnem, ut nos a jugo diaboli liberaret. 5º Quod nec Deus et homo, neque hæc persona, quæ Christus est, sit tertia persona in Trinitate. 6º Quod liberum arbitrium per se sufficit ad aliquid bonum. 7º Quod ea solummodo possit Deus facere vel dimittere, vel eo modo tantum, vel eo tempore, quo facit et non alio. 8º Quod Deus nec debeat nec possit mala impedire. 9º Quod non contraximus culpam ex Adam, sed pœnam tantum. 10º Quod non peccaverunt, qui Christum ignorantes crucifixerunt, et quod non culpæ adscribendum est, quidquid fit per ignorantiam. 11*. Quod in Christo non fuerit spiritus timoris Domini. 12º Quod potestas ligandi atque solvendi apostolis tantum data sit, non successoribus. 13º Quod propter opera nec melior nec pejor efficiatur homo. 14º Quod ad Patrem, qui ab alio non est, proprie vel specialiter attineat operatio, non etiam sapientia et benignitas. 15*. Quod etiam castus timor excludatur a futura vita. 16*. Quod diabolus immittat suggestionem per operationem lapidum vel herbarum. 17*. Quod adventus in fine sæculi possit attribui Patri. 18*. Quod anima Christi per se non descendit ad inferos, sed per potentiam tantum. 19*. Quod nec opus, nec voluntas...
Nem o ato exterior, nem a vontade deste ato, nem a concupiscência ou o prazer excitado por ela constituem o pecado, e nós não somos obrigados a querer sufocar este prazer.
II. VERDADEIRO SENTIDO DOS ARTIGOS CONDENADOS E SISTEMA TEOLÓGICO DE ABELARDO. — O sistema de Abelardo subverte os principais dogmas cristãos: 1° a fé e o método teológico; 2° a Trindade e a criação; 3° a encarnação e a redenção; 4° a natureza do homem e a graça; 5° a moral.
1° Erros sobre a fé e o método teológico. — Embora a série dos artigos não faça menção, o racionalismo inconsciente era a grande queixa de Guilherme de Saint-Thierry e de São Bernardo contra Abelardo: era a principal censura expressa na carta dos Padres de Sens a Inocêncio II. P. L., t. CLXXXII, col. 357. Apesar das magníficas apologias da fé (ver Introductio, l. II, P. L., t. CLXXVIII, col. 1026, onde se diz: credi salubriter debet quod explicari non valet), no fundo mesmo de seu sistema reina a confusão entre fé e filosofia. — 1º De ambos os lados, o objeto é o mesmo, os mistérios não existem mais: «A Trindade é uma das verdades que todos os homens creem naturalmente.» Theologia christiana, l. V, P. L., t. CLXXVIII, col. 1123; Introductio, l. II e III, col. 1051-1086; e Comm. in Epist. ad Rom., col. 803. — 2º Os filósofos foram divinamente inspirados como os profetas. Introductio, l. I, col. 998; Theologia christ., l. I, col. 1126-1165; De unitate, p. 4º Platão falou melhor que Moisés sobre a bondade divina. Theol. christ., l. II, col. 1175. Os filósofos estão, portanto, salvos; mais do que isso, são santos «cujas virtudes reproduzem a perfeição evangélica». Theol. christ., l. I, col. 1179-1206. — 3º O motivo da fé é rejeitado: «Não se aceita uma verdade de fé porque Deus a disse, mas porque a razão está convencida.» Introductio, l. I, col. 1050. «Apenas os ignorantes recomendam a fé antes de compreender.» Introductio, l. II, col. 1046-1057. — 4º A certeza da fé é abalada pela famosa definição que a torna uma opinião, uma conjectura: Est quippe fides existimatio rerum non apparentium. Introductio, l. I, col. 981; l. III, col. 1051; S. Bernardo, Epist., CXC, P. L., t. CLXXXII, col. 1061.
2° Erros sobre a Trindade e a ação divina (artigos 1, 2, 14, 7, 8, 3). — 1º O sabelianismo deveria nascer desse racionalismo latente. Assim que se quer explicar a Trindade pela razão, deve-se renunciar à distinção real das três pessoas. Para Abelardo, elas não são mais que os três atributos da divindade: potência, sabedoria e bondade; os nomes Pai, Filho e Espírito Santo são desviados do seu sentido próprio. Cf. Introductio, l. I, P. L., t. CLXXVIII, col. 989; l. II, col. 1086; Theol. christ., l. II, col. 1259-1261, 1278.
Daí vem a famosa comparação do sigillum æneum que indignava Guilherme de Saint-Thierry. P. L., t. CLXXX, col. 255. — Tal é a origem do primeiro artigo: ao Pai apenas pertence a omnipotência. Cf. Introductio, l. I, col. 994; l. II, P. L., t. CLXXVIII, col. 1068-1069; Theologia christ., l. I, col. 1136; veja-se sobretudo a primeira Apologia, édit. Cousin, t. II, p. 730. — «O Espírito Santo não é da substância do Pai e do Filho» (artigo 2), porque, no pensamento de Abelardo, o Espírito Santo, sendo amor, deve ser o amor não de Deus, mas das criaturas; todo amor deve ser, com efeito, diz ele, o amor de um outro. Introductio, l. II, P. L., t. CLXXVIII, col. 1072. — Vê-se também por que (no artigo 14) a potência é reservada ao Pai apenas, como ao Filho a sabedoria e ao Espírito Santo a bondade. — 2º Na obra da criação, Abelardo, seduzido pelos devaneios de Platão, substitui a liberdade e a omnipotência de Deus pelo otimismo mais exagerado: Deus não pode fazer nada de outra maneira senão como faz (art. 7), ele não poderia impedir o mal que permitiu (art. 8). O mundo não poderia ser melhor. Se Deus, com efeito, tivesse podido fazer melhor e não o tivesse desejado, seria ele infinitamente bom, e não se poderia acusá-lo de inveja? Introductio, l. III, col. 1093-1103; Theol. christ., l. V, col. 1324-1330. A Fidei confessio, col. 107, mais franca sobre o artigo 7, é ainda nebulosa sobre o artigo 8º O otimismo de Abelardo, sobre o qual se calam São Bernardo e Guilherme de Saint-Thierry, foi vivamente combatido pelo autor anônimo da Disputatio adv. Abail., P. L., t. CLXXX, col. 318-322, por Roberto Pulleyn, Sententiae, l. II, P. L., t. CLXXXVI, col. 696, por Hugo de Saint-Victor, De sacramentis, l. I, part. I, c. XXII, P. L., t. CLXXVI, col. 214, e pelo autor da Summa sententiarum, falsamente atribuída a Hugo. P. L., t. CLXXVI, col. 69º — 3° O panteísmo estaria contido na teoria do «Espírito Santo alma do mundo»? É certo que esta última ideia foi durante muito tempo uma das mais caras a Abelardo e que suas citações de Zenão, de Platão, de Virgílio e de Macróbio dão a impressão de uma concepção espinosista do mundo. De unitate et Trin., édit. Stölzle, p. 10; Theol. christ., l. I, P. L., t. CLXXVIII, col. 1144-1166; Introductio, l. I, col. 1019-1080. Mais de um de seus discípulos aceitou as consequências panteístas desta fórmula. Acreditamos, contudo, com de Rémusat, Abélard, t. II, p. 288, e Vacandard, Abélard, p. 238, que a acusação de panteísmo formulada contra Abelardo por Caramuel, Lobkowitz, Fessler e Rixner não é fundada. De resto, na revisão de sua Dialectica, part. V, édit. Cousin, p. 475, ele rejeitou expressamente esta teoria do mundo «animal imenso, vivendo de uma alma divina». Amaury de Chartres não deriva, portanto, dele, como se disse, mas de Escoto Erígena e, sobretudo, de Thierry de Chartres. Clerval, Les écoles de Chartres, p. 318.
3° Erros sobre a encarnação (art. 5, 4, 17, 18, 12). — A teoria de Abelardo sobre a pessoa do Homem-Deus contém em germe o nestorianismo, sapit Nestorium, dizia São Bernardo. Ele bem concedia que há em Jesus Cristo uma única pessoa, Epitome, c. XXIV, P. L., t. CLXXVIII, col. 1732, e que o Cristo, como Verbo, é uma pessoa da Trindade, mas negava que o Homem-Deus ou mesmo «esta pessoa que é o Cristo» seja uma pessoa da Trindade (art. 5). Cf. Apologia I* na édit. Cousin, t. II, p. 730. Sem dúvida ele não ignorava a comunicação dos idiomas, como diz Vacandard, Abélard, p. 248, mas há, além disso, uma concepção errônea da união hipostática que por muito tempo perturbará as escolas. Segundo Abelardo, Deus est homo; é preciso dizer Deus HABET hominem, o Verbo tomou, possui a humanidade, como uma veste com a qual não há identidade. Daí nascerá na escola de Abelardo a famosa tese Christus ut homo, non est aliquid, que, adotada por Pedro Lombardo, levantará tempestades até sua condenação por Alexandre III em 1179. Cf. III ABÉLARD (ÉCOLE D’) e ADOPTIANISME AU XIIe SIÈCLE. — 2º A redenção é totalmente aniquilada no sistema de Abelardo: «O Verbo não se fez homem para nos livrar do jugo do demônio» (art. 4), mas somente para dar um grande exemplo de caridade. Abelardo podia, sem dúvida, contra uma opinião exagerada de seu tempo, negar ao demônio um verdadeiro direito sobre o homem culpado, e torná-lo seu carcereiro, carcerarius.
Mas ele nega também os direitos da justiça divina, e destrói a satisfação de Cristo: Jesus não é de modo algum uma vítima que expia, é um modelo cuja paixão não tem outro objetivo senão excitar nosso amor. «Como a mordida de Adão em uma maçã seria expiada pelo crime bem mais horrível da morte de Jesus Cristo?» Expos. in Epist. ad Rom., P. L., t. CLXXVIII, col. 834-836; Epitome, c. XXI, col. 1730. Este erro é um daqueles que Abelardo mais explicitamente rejeitou em sua retratação. Ibid., col. 107. — 8º Abelardo negou a descida de Jesus Cristo aos infernos (art. 18) e atribuiu ao Pai o último advento (art. 17)? Faltam textos para decidir. A Expositio symboli, P. L., t. CLXXVII, col. 626, de onde parece extraído o 18° artigo, pode ter um sentido ortodoxo. — 4º O poder das chaves, deixado por Jesus Cristo à sua Igreja, parece destruído pelo artigo 12, que o reserva apenas aos apóstolos. A fórmula é bem de Abelardo, Scito te ipsum, c. XXVI, col. 674, e seu pensamento é muito obscuro, embora fale menos do poder de jurisdição do que do dom de discernimento no uso das chaves. Ele quer recusar o poder de absolver aos bispos simoníacos e indignos, preludiando assim os erros de Wycliffe. Em sua retratação, ele reconhece o poder das chaves nos ministros indignos, enquanto são tolerados pela Igreja; estas últimas palavras reservam a opinião muito difundida no século X de que a consagração feita por um sacerdote excomungado é inválida. Cf. Die Sentenzen Rolands, édit. Gietl, Friburgo, 1891, p. 217.
4° Erros sobre a natureza e a graça. — Abelardo não quer ser pelagiano, mas seu racionalismo reconduz-no sempre à negação da ordem sobrenatural. — 1º Nada mais de pecado original; pois, se Abelardo conserva a palavra, entende por ela uma pena, não uma falta (art. 9). Cf. Expositio in Epist. ad Rom., P. L., t. CLXXVIII, col. 867-873; Ethica, c. II, col. 639-641; c. XIV, col. 654; Epitome, c. XXX. A retratação de Abelardo sobre este ponto é ainda insuficiente. Ibid., col. 107. — 2º Nada mais de graça preveniente: a liberdade pode sozinha fazer fazer o bem (art. 6). Não é que ele negue a necessidade da graça, mas, como Pelágio, chamava de graça todo dom gratuito de Deus, até mesmo a própria liberdade. Este erro, muito claramente sustentado na primeira apologia, Opera, édit. Cousin, t. I, p. 731, é retratado na segunda, édit. Cousin, t. II, p. 721. P. L., t. CLXXVIII, col. 107. — 3º Nada mais de intervenção direta do demônio, limitando-se a sua ação a pôr em jogo as forças naturais dos elementos e das plantas (art. 16). Cf. Ethica, c. IV, col. 647.
5° Erros morais. — A Ética de Abelardo seria, segundo de Rémusat, sua obra mais original; mas ali também seu espírito excessivo em tudo o desviou. A moralidade subjetiva ou formal faz com que ele esqueça a moralidade objetiva dos atos. — 1º Sob pretexto de que não há desprezo de Deus fora do consentimento, ele não vê mais nada de mau nas inclinações da concupiscência, nem nos prazeres proibidos. Tal é o sentido do artigo 19, resumo muito exato da Ethica, c. I, col. 638-645. — 2º O ato exterior não tem mais valor moral (art. 13); Abelardo ousa escrever que «todos os atos não são bons ou maus senão pela intenção daquele que age». Ibid., c. VII, col. 630; cf. Epitome, c. XXXIV, col. 1755; Problemata Heloissæ, probl. 24, col. 710. — 3º Confundindo a ignorância invencível com a voluntária e culposa, ele desculpa formalmente até mesmo o deicídio dos judeus (art. 10). Cf. Ethica, cc. XI et XIV, col. 653 sq. — 4º Sobre a caridade, Abelardo caiu nos dois excessos contrários. Por um lado, exalta-a a ponto de negar todo mérito aos atos das outras virtudes, tal como lhe reprova a censura da Faculdade de Paris, em Hypap., t. CLXXVIII, col. 112; cf. Introductio ad theol., ibid., col. 984. A este erro relacionavam-se talvez os artigos 11 e 15, que excluem o temor filial tanto da alma de Jesus Cristo quanto das almas dos bem-aventurados. — Por outro lado, Mabillon, In oper. sancti Bernardi, P. L., t. CLXXXII, col. 1035, e Martène, In pref. ad theologian Abailardi, P. L., t. CLXXVIII, col. 1120, reprovam-lhe, com razão, ter rejeitado absolutamente o batismo de desejo e recusado à caridade o poder de justificar sem o sacramento. Cf. Expositio in Epist. ad Rom., l. II, P. L., t. CLXXVIII, col. 845; Theol. christ., l. II, col. 1205.
A censura da Faculdade de Paris em 1616, Op. Abail., ibid., col. 109-112, sinaliza ainda várias opiniões singulares de Abelardo sobre pontos especiais. Deter-nos-emos apenas em um artigo que não figura na lista de Sens, mas que foi condenado por Inocêncio III, visto que se encontra na série romana dos Capitula, c. IX, na ed. Cousin, t. II, p. 768, e Op. sancti Bernardi, P. L., t. CLXXXII, col. 1052. Abelardo ensinava sobre a eucaristia esta estranha opinião, de que Jesus Cristo cessa de estar presente sob as espécies assim que estas são tratadas desrespeitosamente, por exemplo, se caem no chão; donde a fórmula condenada: Corpus Christi non cadit in terram. São Bernardo, Epist., CXC, De err. Ab., c. IV, P. L., t. CLXXXII, col. 1062, e Guilherme de Saint-Thierry, Disput. adv. Abailardum, P. L., t. CLXXX, col. 280, ficaram também vivamente chocados com a teoria de Abelardo sobre os acidentes eucarísticos que, dizia ele, «estão no ar», estão «suspensos no ar». Cf. Die Sentenzen Rolands, ed. Gietl, p. 233-235.
I. FONTES DO SÉCULO XII. — 1º São Bernardo, as suas cartas à corte romana sobre Abelardo; as mais importantes são: as cartas CXCII e CCCXXXVIII endereçadas ao papa, em nome dos Padres do concílio de Sens, P. L., t. CLXXXII, col. 357, 540; à carta CCCXXXVII relaciona-se a coleção dos Capitula, ibid., col. 1049; as cartas pessoais de Bernardo ao papa, carta CLXXXIX, col. 354; carta CCCXXXI, col. 585, e sobretudo a carta CXC, que contém um verdadeiro tratado De erroribus Abailardi, col. 249-282; 2º Guilherme de Saint-Thierry, Epist. ad Gaufridum et Bern., Op. S. Bern., ibid., col. 53-84; Disputatio adv. Abailardum, P. L., t. CLXXX, col. 249-282; 3º Disputatio catholicorum Patrum adversus dogmata Petri Abelardi, refutação (anônima) da primeira apologia de Abelardo, P. L., ibid., col. 283-328; 4º Berengário, discípulo de Abelardo, publicou em seu favor o seu Apologeticus, coleção de injúrias contra os Padres de Sens, que permaneceu inacabada, da qual o autor enviou uma retratação equívoca ao bispo de Mende, nos Op. Abelardi, P. L., t. CLXXVIII, col. 1851-1873.
II. CRÍTICAS AOS ERROS DE ABELARDO. — A censura dos doutores da faculdade de teologia de Paris, publicada em 1616 como contraveneno das obras de Abelardo, Op. Abel., P. L., t. CLXXVIII, col. 109-112; Mabillon, Admonitio in opusc. XI S. Bernardi, P. L., t. CLXXXII, col. 1045; Martène, Observationes præviæ ad Theol. christ. Abel., em Thesaurus novus anecdot., t. V, p. 1139-1156, e Op. Abel., P. L., t. CLXXVIII, col. 1413; H. Hayd, Abélard und seine Lehre in Verhältniss zur Kirche und Dogma, in-4°, Ratisbona, 1863; Johanny de Rochely, Saint Bernard, Abélard et le rationalisme, in-12, Paris, 1867; d’Argentré, Collectio Judiciorum..., Paris, 1728, t. I, p. 20; Dr. J. Bach, Die Dogmengeschichte des Mittelalters vom christologischen Standpunkte, in-8°, Viena, 1875, t. II, p. 43-88; Vigouroux, Les Livres saints et la critique rationaliste, 3ª ed., in-12, Paris, 1890, p. de Régnon, Études de théologie positive sur la Trinité, in-8°, Paris, 1892, t. II, p. 65-85º Ver também as obras citadas no artigo precedente, sobretudo Hefele, Vacandard, dom Clément, bem como os trabalhos indicados dos PP. Denifle e Gietl.
Autor original: E. Portalié
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