AARÃO (hebr., Aharon, nome cuja significação é desconhecida), filho de Anrão e de Joquebede, da tribo de Levi, irmão mais velho de Moisés (Exod., VI, 20; VII, 7). Considerá-lo-emos sob dois pontos de vista: 1º como primeiro sumo sacerdote da antiga lei; 2º e, a este título, como figura de Jesus Cristo, o primeiro e soberano sacerdote da lei nova.
I. AARÃO, PRIMEIRO SUMO SACERDOTE DA LEI JUDAICA.
1º Sua preparação. — Antes de se tornar o intermediário oficial entre Deus e seu povo, Aarão foi o intérprete de seu irmão. Moisés sentia dificuldade em falar; sua língua era pesada e embaraçada. Este defeito parecia-lhe um grave obstáculo ao cumprimento da missão que Deus lhe confiava; ele não se sentia apto a libertar os israelitas da servidão do Egito. Aarão tinha facilidade de fala; ele era eloquente. Deus adjuntou-o ao seu irmão. «Ele será a tua boca», disse Ele a Moisés, «e tu serás como seu Deus» (Exod., IV, 10-16). Aarão deveria ser o profeta de Moisés, isto é, seu intérprete e o órgão de seus lábios (Exod., VII, 1-2). Moisés porá na boca [de Aarão] os discursos a serem feitos ao povo e a Faraó, e Deus assistirá aos dois irmãos (Constit. apost., l. II, c. XXIX, P. G., t. I, col. 676-677; Théodoret, Quest. in Exod., c. VII, P. G., t. LXXX, col. 248; Clément de Jérusalem, Ad carmina S. Gregorii, P. G., t. XXXVI, col. 369).
Em consequência, Aarão recebeu do Senhor a ordem de ir ao encontro de Moisés em direção à montanha de Horeb. Ele aceitou resolutamente o ministério do qual estava encarregado e obedeceu prontamente (S. Grégoire de Nazianze, Orat., II, P. G., t. XXXV, col. 512). Assim que encontrou seu irmão, abraçou-o e Moisés pô-lo a par dos desígnios do Senhor. Dirigiram-se ambos para a terra de Gessen, reuniram os anciãos de Israel e Aarão expôs-lhes as palavras que Deus tinha dito a Moisés. Operou prodígios para justificar sua missão e o povo creu em seus discursos (Exod., IV, 27-31). Cumpriu o mesmo ministério junto ao rei do Egito. Falou em nome de Jeová e de Moisés e, pela virtude de sua vara, fez cair sobre os egípcios as primeiras pragas. Sua prece concorreu com a de Moisés para obter a cessação desses flagelos, e Faraó discutiu com ele as condições da partida dos israelitas (Exod., VI, 13, 26-28; VII, 6, 8-12, 19-21; VIII, 5-6, 8, 12, 16-17, 25; IX, 8-10, 27-28; X, 3, 8, 16-17, etc.). No deserto, o povo considerava Aarão como um de seus chefes e murmurava contra ele; para reprimir essas queixas, Aarão anunciou da parte de Deus a vinda das codornizes e a queda do maná (Exod., XVI, 2, 6-10). Por ordem de Moisés, recolheu em um vaso a contenção de um gômer dessa comida miraculosa, a fim de que fosse colocada diante do Senhor como um perpétuo memorial (Exod., XVI, 33-34). Durante o combate contra os amalequitas, sustentou com Hur os braços suplicantes de Moisés, contribuindo assim para assegurar aos judeus uma vitória completa (Exod., XVII, 10-12). Foi convidado com seus filhos a comer diante do Senhor uma parte das vítimas imoladas pelo sacerdote Jetro (Exod., XVIII, 12). Aquando da promulgação do Decálogo e das primeiras leis sociais da nação judaica, encontrava-se com Moisés sobre o Sinai (Exod., XIX, 24). Enquanto, para receber os últimos preceitos divinos, Moisés subia sozinho ao cume, Aarão e seus filhos, com os anciãos de Israel, pararam a distância sobre o declive da montanha e foram honrados com a visão de Deus (Exod., XXIV, 1-2, 9-14). A falta de Aarão na fabricação do bezerro de ouro (Exod., XXXII, 1-6) não impediu a realização dos desígnios de Deus sobre ele. Moisés intercedeu em seu favor e afastou de sua cabeça o castigo que ele merecia (Deut., IX, 20).
2º Sua vocação e sua consagração. — Logo que Deus descreveu a Moisés sobre o Sinai todos os objetos necessários ao novo culto, instituiu um sacerdócio. Fixou a sua escolha sobre Aarão e seus filhos. Eles deveriam colocar no tabernáculo uma lâmpada que queimaria constantemente em honra do Senhor e velar pela sua manutenção perpétua (Exod., XXVII, 21). A vocação direta seguiu de perto esta primeira indicação. Deus acrescentou logo a Moisés: «Chama também a ti Aarão, teu irmão, com seus filhos, do meio dos filhos de Israel, a fim de que eles preencham para mim as funções do sacerdócio» (Exod., XXVIII, 1). Assim, por vontade divina, Aarão e seus filhos foram separados dos outros israelitas, delegados ao ministério sacerdotal e encarregados de cumprir as funções. Os sacerdotes judeus, distinguidos dos leigos, terão vestimentas especiais, santas e consagradas, que os honrarão aos olhos de todos e os ornamentarão durante o serviço divino. Moisés ele mesmo os revestirá, consagrará suas mãos e santificá-los-á para que eles possam, em seguida, exercer suas funções sacerdotais (Exod., XXVIII, 2-3, 35, 41). Deus regulou todas as cerimônias da consagração. Moisés deveria preparar as oblações e as vítimas, depois colocar Aarão e seus filhos à entrada do tabernáculo, à vista de todos. Após lhes ter feito tomar um banho de purificação, revesti-los-ia com seus ornamentos sacerdotais e consagraria suas mãos por uma unção santa. Eles imporiam, então, as suas mãos sobre os animais destinados a serem imolados. Moisés marcaria, com o sangue do carneiro de consagração, a extremidade de sua orelha direita e os polegares de sua mão e de seu pé direitos; aspergiria também as suas pessoas e as suas vestimentas. A consagração assim alcançada, os novos sacerdotes ofereceriam eles mesmos oblações e vítimas como primícias de seu sacerdócio. Comeriam uma parte da carne do carneiro de consagração, e todas estas cerimônias seriam repetidas durante sete dias consecutivos (Exod., XXIX). As funções particulares do sumo sacerdote na festa da Expiação são descritas (Exod., XXX).
Quando os instrumentos do culto e as vestimentas sacerdotais foram confeccionados pelos operários escolhidos de Deus e preenchidos com o seu espírito (Exod., XXXVI-XXXIX), Moisés erigiu o tabernáculo (Exod., XL), promulgou as prescrições relativas aos sacrifícios (Lévit., I-VI), depois consagrou Aarão e seus filhos conforme as ordens que recebera de Deus (Lévit., VII, 1-36; cf. Eccli., XLV, 7-21). Um salmista (Ps. CXXXII, 2) celebrou a unção sacerdotal de Aarão por Moisés como o gracioso símbolo da união fraterna. O óleo perfumado, derramado sobre a cabeça do sumo sacerdote, escorreu naturalmente sobre sua barba e sobre a borda de suas vestimentas. Este escoamento significava que os poderes e as graças do sacerdócio derivavam do sumo sacerdote para os simples sacerdotes (S. Thomas, Sum. theol., IIIa, q. LXXXIII, a. 5, ad 8um et 9um); significava também, segundo o salmista, as bênçãos divinas espalhando-se pelo sacerdócio sobre todos os filhos de Israel.
3º O seu exercício das funções sacerdotais. — Terminadas as festas da consagração, Aarão ofereceu pela primeira vez vítimas pelo pecado, holocaustos e ofertas pacíficas. Depois, abençoou o povo e a glória do Senhor manifestou-se à multidão, a fim de aprovar e autorizar ostensivamente o novo sacerdócio (Lévit., IX, 1-24). No mesmo dia, um fogo, aceso pela cólera divina, devorou os filhos de Aarão, Nadabe e Abiú, que tinham colocado nos seus incensários um fogo profano e estranho. Esta terrível punição mostrava a todos que Deus exigia dos sacerdotes a observação mais exata das menores prescrições do culto. Aarão compreendeu-o e calou-se. Moisés proibiu-o de guardar luto pelos seus filhos; não o censurou, contudo, quando soube que a dor o impedira de comer as sobras do sacrifício pelo pecado (Lévit., X, 1-3, 6, 16-20). Aarão celebrou a festa da Expiação (Lévit., XVI, 1-34). Os preceitos relativos aos sacrifícios e à pureza dos sacerdotes foram-lhe transmitidos por Deus ele mesmo (Lévit., XXI, XXII). Aarão fez com Moisés o recenseamento das tribos (Num., I, 44); recebeu diretamente de Deus ordens para os acampamentos e as marchas (Num., II, 4), e para o serviço dos levitas (Num., IV, 1). Colocou no Santo o candelabro de ouro (Num., VIII, 1-4); apresentou os levitas no dia da sua consagração (Num., VIII, 11, 19-22). Os israelitas impuros consultaram-no com Moisés para a celebração da Páscoa no Sinai (Num., IX, 6). Quando, com Maria, sua irmã, murmurou contra Moisés e discutiu a sua superioridade em relação aos dons divinos, o Senhor respondeu-lhe que Moisés recebera mais do que ele (Num., XII, 1-9). Os seus poderes sacerdotais foram discutidos à instigação de Coré. Os sediciosos reclamavam a igualdade espiritual de todos os judeus e desconheciam a hierarquia estabelecida por Deus; o Senhor manifestou claramente a sua vontade e fez perecer os levitas revoltados (Num., XVI, 3-40; cf. Ps. CV, 16-18; Eccli., XLV, 22-27; Sap., XVIII, 20-25). O povo, que murmurava no dia seguinte contra Moisés e Aarão, foi atingido por Deus com um mal devastador. Aarão colocou fogo do altar num incensário, lançou incenso sobre ele e correu para o meio da multidão que perecia. De pé, entre os vivos e os mortos, ofereceu incenso, rezou pelos culpados e, graças à sua intercessão, o flagelo cessou (Num., XVI, 44-50).
Esta dupla intervenção divina provava claramente que Deus tinha escolhido e designado ele mesmo Aarão como chefe do seu sacerdócio. A fim de impedir qualquer nova contestação, o Senhor quis ainda confirmar por um milagre o sacerdócio aaronita. A vara de Aarão, colocada no tabernáculo com as dos chefes das outras tribos, floresceu sozinha e cobriu-se de frutos. Um ramo, destacado do tronco e seco, não poderia produzir naturalmente flores e frutos. Deus, ao restituir-lhe a seiva e o verdor, mostrava que comunicara ao seu possuidor os direitos e os poderes sacerdotais com a eficácia divina de produzir os seus ricos e benfazejos efeitos (Num., XVII, 1-13; S. Nil, Peristeria, sect. XI, c. X, P. G., t. LXXIX, col. 917). Deus fê-la colocar no tabernáculo em memória perpétua do acontecimento (Hebr., IX, 4). As leis de pureza foram ainda dadas a Aarão (Num., XVIII, 1; XIX, 4). Por ter faltado com uma confiança absoluta em Deus, Aarão não veria a terra prometida (Num., XX, 12, 24); em consequência, morreu no monte Hor, após ter sido despido das suas vestimentas de sumo sacerdote (Num., XX, 25-30).
II. AARÃO, FIGURA DE JESUS CRISTO, O SOBERANO SACERDOTE DA LEI NOVA. — 1° Segundo São Paulo. — Dado o caráter figurativo da antiga lei, a analogia das situações bastava para justificar a comparação de Aarão, o primeiro sumo sacerdote dos judeus, com Jesus Cristo, o soberano sacerdote da lei nova. Mas São Paulo, sob a inspiração do Espírito Santo, esboçou esta comparação e indicou dois pontos de aproximação entre o sacerdócio pessoal de Aarão e o de Jesus. — 1º Do ponto de vista da vocação. — Nenhum homem tem o direito de arrogar-se a honra do sacerdócio; para portar o título, é necessário ter sido chamado por Deus como Aarão. É por isso que Cristo não se elevou a si mesmo à dignidade de pontífice; Deus glorificou-o e constituiu-o sacerdote eterno segundo a ordem de Melquisedeque (Hebr., V, 4-6). Assim, pois, apesar da diferença da sua ordem, Aarão e Cristo tiveram necessidade da vocação divina para serem honrados com o sacerdócio. — 2º Do ponto de vista da eficácia e da perpetuidade. — O sacerdócio aaronita é inferior sob este aspecto ao sacerdócio de Jesus Cristo. Se, com efeito, ele pudesse tornar os homens perfeitos e dar-lhes a justiça que torna agradável a Deus, não teria sido necessário que se levantasse um sacerdote de uma ordem diferente. A translação dos poderes sacerdotais para um membro da tribo de Judá ab-rogou, portanto, o sacerdócio levítico, e Jesus Cristo sucedeu a Aarão (Hebr., VII, 11-12; cf. S. Jean Chrysostome, In epist. ad Heb., homil. XII, 1 (P. G., t. LXIII, col. 97)).
2° Segundo os Padres. — Os Padres e os escritores eclesiásticos deveriam logicamente, ao que parece, partir dos dados de São Paulo para desenvolver ainda mais o caráter figurativo do sacerdócio de Aarão. Apenas, segundo o nosso conhecimento pelo menos, São Cirilo de Alexandria (De adoratione in spiritu et veritate, l. XI, P. G., t. LXVIII, col. 725-732) fê-lo. Ele lembra a vocação divina de Aarão, cita São Paulo e conclui que Aarão era o tipo de Jesus Cristo e do seu sacerdócio, que é um sacerdócio em espírito e em verdade. Deus ordenou a Moisés que se adjuntasse a Aarão; é uma prefiguração da enfermidade e da imperfeição da lei antiga, se ela estiver separada de Cristo. Que os judeus que ainda amam a sombra e a letra das instituições mosaicas saibam, portanto, que o seu culto e a sua religião serão vãos e inúteis se não se unirem ao sacerdote Jesus Cristo. Aarão, eloquente, que é dado por Deus a Moisés para o ajudar na sua missão de salvar Israel, é ainda o tipo de Jesus Cristo, que pode facilmente tudo aperfeiçoar. Israel não teria podido ser liberto se Cristo, representado por Aarão, não tivesse sido adjuntado a Moisés, cuja voz era fraca e impotente. Marquemos que, para fortalecer em Cristo a enfermidade da lei, Deus elevou Aarão ao ministério sacerdotal, a fim de o associar utilmente à obra redentora de Moisés. A lei é demasiado fraca para salvar e santificar os homens; Cristo, com a cooperação dos sacerdotes, é a salvação e a santificação do mundo. Deus, enfim, revestiu Aarão de ornamentos sacerdotais variados, a fim de marcar, por estas figuras, a glória do nosso Salvador. O bispo de Alexandria desenvolve depois, bastante longamente, o simbolismo místico das vestimentas sacerdotais de Aarão. São Cirilo de Jerusalém (Cat., x, P. G., t. xxxiii, col. 676) limita-se a afirmar o caráter figurativo de Aarão. Jesus Cristo, diz ele em substância, tem dois nomes; é chamado Jesus, porque é Salvador, e Cristo, porque preenche as funções do sacerdócio. Ora, para representar os dois poderes, real e sacerdotal, reunidos na pessoa de Jesus Cristo, Moisés deu ao filho de Navé, seu sucessor, o nome de Jesus, e ao seu irmão Aarão o de Cristo. Cristo, com efeito, é como Aarão sumo pontífice. Mais adiante (Cat., xii, col. 761), ele compara a virginal maternidade de Maria à vara florida de Aarão e faz este raciocínio: «Aquele que, em razão de um sumo pontífice figurativo (ἀρχιερέα), fez portar flores e frutos a um ramo seco e descascado, não concederá a uma virgem dar à luz, em razão do verdadeiro sumo sacerdote (τὸν ἀληθινὸν ἀρχιερέα)?» O autor das Constituições apostólicas (l. II, c. xxx, P. G., t. I, col. 677) considerou Aarão como a figura dos diáconos. Aos seus olhos, Moisés representava o bispo, e como Aarão era o profeta e o intérprete de Moisés, conclui que o diácono é o profeta do bispo e não deve fazer nada sem a sua ordem e direção.
Os Padres latinos indicaram outras aproximações entre os dois sacerdotes, Aarão e Jesus Cristo. Santo Ambrósio descreveu várias vezes o caráter figurativo desta bela cena bíblica de Aarão, de pé entre os vivos e os mortos e detendo, pela sua intercessão, a marcha do flagelo devastador. Aarão representava então o Cristo Jesus. «Não é a principal função de Cristo estar junto do Pai como advogado dos povos, oferecer a sua morte por todos, expulsar a morte e devolver a vida àqueles que a perderam?» (In Ps. XXXIX enarrat., n. 8, P. L., t. xiv, col. 1060). O sumo sacerdote judeu figurava, nesta circunstância, Cristo, sacerdote eterno segundo a ordem de Melquisedeque, vindo ao meio dos homens para apaziguar Deus (De XLII mansionibus filiorum Israel, P. L., t. xvi, col. 25). Do mesmo modo que Aarão impedia a morte de passar do corpo das vítimas para aqueles que ainda estavam vivos; assim o Verbo, presente invisivelmente em cada um de nós, separa nele as virtudes do cadáver das paixões e dos pensamentos pestilenciais. Ele mantém-se de pé como se tivesse vindo a este mundo para embotar o aguilhão da morte, fechar o abismo boquiaberto pronto a devorar-nos, dar a eternidade da graça aos vivos e conceder a ressurreição aos mortos (Epist., iv, n. 5, P. L., t. xvi, col. 890). As doze pedras preciosas da vestimenta de Aarão, que é a figura de Cristo, estão inseridas na vestimenta de todo verdadeiro sacerdote (De fide, l. II, prolog., n. 4, P. L., t. xvi, col. 560). A vara seca de Aarão, que brota e floresce, representa a carne de Cristo; ela estava seca e refloriu, pois, morta, ressuscitou (De XLII mansionibus, P. L., t. xvi, col. 25). Esta vara, depositada no tabernáculo, é ali a insígnia da graça sacerdotal. Tinha sido seca, mas refloriu em Cristo (Epist., iv, n. 4, P. L., t. xvi, col. 890). Esta vara que floresce sozinha no meio das varas das outras tribos, mostra-nos que, nos sacerdotes, a graça divina faz mais do que os talentos humanos; mostra também que a graça sacerdotal nunca deperece e que, na sua fraqueza, é capaz de produzir as flores dos poderes que ela tem o encargo de exercer. Este milagre produziu-se no declínio da vida de Aarão para significar que o povo judeu, envelhecido pela longa infidelidade dos seus sacerdotes, refloreceria pela fé e pela devoção e reviveria pela graça, após séculos de morte (Epist., lxii, n. 58, col. 1204). A vara de Aarão significa ainda que a autoridade sacerdotal deve ser reta e deve persuadir o que é útil mais do que o que é agradável. Os preceitos dos sacerdotes podem bem parecer amargos por um tempo a vários, e não ser entendidos pelos seus ouvidos, mas, enfim, como a vara de Aarão, eles reflorecem quando se acreditava que estavam secos (Epist., xi, n. 2 e 3, col. 1113). O autor do Liber de promissionibus et predictionibus Dei (l. II, c. x, P. L., t. li, col. 779-780) reconhece na vara florida de Aarão Jesus Cristo sacerdote e, nos seus frutos, os apóstolos e a Igreja. São Gregório Magno (Hom. in Evang., l. II, homil. xxxiv, n. 8, P. L., t. lxxvi, col. 1244) traduz o nome de Aarão por «montanha de força» e reconhece nesta forte montanha o nosso redentor. Quando Aarão sustentava com Hur, sobre a montanha, as mãos de Moisés, figurava o mediador estabelecido entre Deus e os homens, que veio aliviar, espiritualizando-os, os pesados fardos da lei antiga que a carne não podia suportar. Santo Isidoro de Sevilha (Allegoriæ quædam Scripturæ sacræ, n. 60, P. L., t. lxxxiii, col. 109) considerou em Aarão o sacrificador. Quando, espalhando o sangue das vítimas, expiava os pecados do povo, representava Jesus Cristo, que apagou os pecados do mundo pela efusão do seu sangue. Alcuíno (In Ps. CXXXII, 2, P. L., t. c, col. 637) viu, em Aarão, Cristo, que penetrou sozinho no Santo dos Santos, não com um sangue estranho, mas com o seu próprio, a fim de interceder por nós junto do Pai. O óleo perfumado, que escorre da cabeça de Cristo, é o Espírito Santo, que se espalha sobre todos os que combateram vitoriosamente por ele — os apóstolos, os mártires e os fiéis santificados —, assim como sobre a Igreja, que é uma vestimenta tingida no sangue do Salvador. Aos olhos de São Pedro Damião (Collectanea in Vetus Testamentum, In Num., c. 1, P. L., t. cxlv, col. 1034-1035), Aarão e seus filhos representam os pontífices da lei nova, e os levitas, os clérigos. Estes são separados dos leigos e destinados ao ministério sagrado quando são oferecidos aos seus pontífices para a ordenação. Para Ricardo de São Vítor (Adnotatio in Ps. xcvi, P. L., t. cxcvi, col. 331), Aarão, cujas principais funções eram tornar Deus propício pela oração e pelo sacrifício, representa o novo sacerdócio que deve plenamente apaziguar o Senhor. Filipe de Harveng (De dignitate clericorum, c. ii, P. L., t. cciii, col. 669) reencontrava em Aarão e seus filhos toda a hierarquia católica; Aarão figurava os bispos, seus filhos os sacerdotes, e os levitas os simples clérigos. Todos eram escolhidos entre o povo cristão; uma vez que dele tinham sido separados, deviam levar uma vida santa. Ruperto (Comment. in Matth., l. II, P. L., t. clxviii, col. 1368-1369) tinha descoberto um aspeto novo. Antes de preencher as funções sacerdotais, Aarão era obrigado a purificar-se e a tomar os seus ornamentos sagrados. Era assim a figura do soberano e verdadeiro sacerdote, Jesus Cristo, que, no início do seu ministério, quis ser batizado por São João Batista.
3º Na iconografia cristã. — Não conhecemos imagens antigas que reproduzam o caráter típico de Aarão. Assinalemos apenas que, em Roma, no século XVII, representou-se simbolicamente o sacerdócio cristão pela vara de Aarão que floresce no meio de varas secas. Em 1610, L. Gauthier gravou, para o frontispício da Royale Prestrise de Pierre de Besse, os dois sacerdócios da antiga e da nova lei: Aarão, com o incensário, regale sacerdotium, e um Papa, segurando com uma mão o ostensório e, com a outra, a cruz de tripla cruzeta (X. Barbier de Montault, Traité d’iconographie chrétienne, in-8°, Paris, 1890, t. I, p. 325).
É assim que se conservou sempre e que se desenvolveu, em direções um pouco divergentes, o caráter figurativo do sacerdócio de Aarão. O sumo sacerdote judeu, em diversas circunstâncias da sua vida e do seu ministério, representou ora diretamente o soberano sacerdote da lei nova, Jesus Cristo, ora os diferentes ministros do sacerdócio cristão que participam todos nos poderes e nas graças do Verbo encarnado, todo-poderoso mediador entre Deus e os homens.
E. MANGENOT.
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