ADRIANO VI

São Domingos

6. ADRIANO VI. Adriano Dedel, chamado também de Adriano Boeyens, do nome de batismo de seu avô paterno, nasceu em Utrecht, em uma família honrada, em 1º de março de 1459.

Ele estudou sucessivamente com os hieronimitas de Delft, na famosa escola latina de Deventer, ou, segundo outros, na de Zwolle, e na Universidade de Lovaina. Foi nesta última cidade que, em 1491, conquistou o grau de licenciado em teologia e, no ano seguinte, o de doutor. Desde então, devido a um abuso muito comum naquela época, foi provido de vários benefícios situados em diversos lugares. No seio da própria universidade, que ele dotou com um grande colégio conhecido ainda hoje sob o nome de Colégio do Papa, foi elevado duas vezes às honras do reitorado.

Em 1507, foi escolhido como preceptor do arquiduque Carlos da Áustria, que se tornou mais tarde o imperador Carlos V. Durante uma missão importante que lhe foi confiada na Espanha (1515), triunfou rapidamente das primeiras desconfianças que o haviam acolhido, e logo possuía toda a estima de Fernando, o Católico, e de seu ministro, o célebre Ximénez. Após a morte de ambos, teve uma grande participação no governo interino do país, até que foi, em 1520, estabelecido como único vice-rei para Carlos V, que iria receber a coroa imperial da Alemanha. Entretanto, havia sido nomeado, pela influência de seu antigo aluno, bispo de Tortosa, na Catalunha, e cardeal.

No ano seguinte, o conclave, reunido para dar um sucessor a Leão X, designou, pela unanimidade dos sufrágios menos um, o cardeal Dedel, que era considerado geralmente como um santo. Esta escolha, que não podia deixar de agradar ao imperador, não parece, contudo, ter sido inspirada por ele.

Ao subir ao trono pontifical, Adriano VI teve sobretudo quatro objetivos: reformar a corte romana e a administração eclesiástica, reconciliar entre si os príncipes cristãos, deter os progressos do protestantismo e, enfim, livrar a Europa dos turcos.

Tanto quanto Leão X amou o luxo e a magnificência, seu sucessor mostrou-se, logo de início, simples e inimigo do fausto. Um de seus primeiros cuidados foi reduzir consideravelmente o séquito e as despesas de sua casa e de seu entorno. A oportunidade e a necessidade dessas mudanças não foram, infelizmente, compreendidas pela maioria dos romanos e, embora admirassem as altas virtudes de Adriano, nunca lhe perdoaram o que chamavam de sua mesquinhez.

É o mesmo desígnio de uma reforma séria da Igreja in capite et in membris, para opor-se às temeridades dos inovadores, que transparece nas negociações iniciadas com os príncipes-eleitores presentes na Dieta de Nuremberg (1522-1523). Por meio de seu legado Chieregati, o papa propunha, nomeadamente, reunir um concílio geral na Alemanha. Mas seus leais esforços não encontraram o concurso que ele tinha o direito de esperar. Em vão insistiu junto aos príncipes para levá-los a executar, ao menos, o decreto de Worms e a proscrição das novidades religiosas; em vão endereçou ao eleitor Frederico, o malfadado protetor de Lutero, um breve todo impregnado de bondade e indulgência: não lhe responderam senão com amargas queixas, reeditando as reclamações do povo alemão já formuladas em Worms e conhecidas na história sob o título de Gravamina nationis Germanicae. Obteve, contudo, a promessa de que se protegeria a unidade e a tradição da Igreja contra todo atentado ulterior durante um ano, prazo julgado necessário para reunir o concílio, e que não se permitiria, durante o mesmo intervalo, explicar o Evangelho ao povo de outra forma que não a dos comentários autorizados. Mas esses compromissos não foram cumpridos, e Lutero, embora tivesse sido posto há muito tempo sob o banimento do império, pôde permanecer muito tranquilo em Wittemberg e continuar, sem impedimentos, sua obra nefasta. A morte prematura do papa veio, aliás, interromper os preparativos do concílio.

Em outra ordem de ideias, Adriano VI sempre pensara em organizar uma grande cruzada contra os turcos. Desejoso de agrupar para este fim as forças da cristandade, recusou primeiro, com uma constância muito meritória, tomar partido por Carlos V, seu amigo e benfeitor, em seus conflitos com Francisco I. À notícia da tomada de Rodes por Solimão, enviou a todos os soberanos da Europa cartas prementes, que eram um verdadeiro grito de alarme. Mas quando, a favor mesmo dos sucessos do crescente, Francisco I quis aproveitar suas vantagens na Itália, Adriano viu-se arrastado, apesar de si mesmo, à liga concluída por Henrique VIII, Carlos V e a República de Veneza contra o rei da França. Aqui também foram vãos seus esforços para manter ou restabelecer a unidade de vistas e de ação, permanecendo ele mesmo fora e acima de todas as divisões.

No total, apesar das melhores intenções, o piedoso pontífice não conheceu quase nada das alegrias do sucesso. Este balanço, sobretudo negativo, poderia explicar em certa medida o julgamento sumário e severo de Pallavicini: "Foi um excelente eclesiástico, mas um papa medíocre." Sem serem tão categóricos, outros historiadores judiciosos estimam que a ação de Adriano VI nem sempre apresentou a prudência e a firmeza que as circunstâncias reclamavam. Reprocharam-lhe, nomeadamente, não ter compreendido o caráter profundamente sedutor e perigoso das doutrinas de Lutero. Eis como ele as apreciava quando ainda era apenas cardeal: "Tais heresias parecem-me tão grosseiras e tão palpáveis que revoltariam um simples aluno de teologia, por pouco que seja iniciado nos elementos desta ciência. Espanto-me muito que um sectário desta sorte possa impunemente errar e impunemente espalhar o veneno pernicioso de seus erros e de seus sonhos." Reprocharam-lhe também ter exagerado a gravidade dos abusos a suprimir, sobretudo ter feito a este respeito confissões muito explícitas e, no mínimo, inoportunas. É certo que as instruções públicas que endereçou ao seu legado Chieregati (Raynaldi, Annal. eccles., an. 1522, n. 70) contêm declarações de uma rara franqueza, mas das quais espíritos prevenidos e mal-intencionados, como existiam muitos então, podiam facilmente abusar.

Adriano VI morreu em 14 de setembro de 1523. Não tinha ocupado a Santa Sé senão durante vinte meses e cinco dias, tempo suficiente, todavia, para conhecer e sofrer uma das crises mais graves que a Igreja jamais atravessou. Sobre seu túmulo, na capela alemã da basílica de São Pedro, lê-se este modesto epitáfio que, se não é obra dele mesmo, reflete ao menos fielmente seus sentimentos e suas ideias: Hadrianus sextus hic situs est, qui nihil sibi infelicius in vita duxit quam quod imperaret.

Adriano VI foi, ao mesmo tempo, um teólogo de sólida doutrina e um amigo esclarecido das belas-letras. Temos sobre este ponto um testemunho pouco suspeito, o de Erasmo: Adrianus, disse ele, favebat scholasticis disciplinis; nec mirum si illis favebat in quibus a teneris unguiculis educatus, longo intervallo precedebat omnes; sed ita favebat tamen, ut apud eum prima esset pietatis ratio; satis etiam equus et candidus erga bonas litteras ac linguas. Seus principais trabalhos interessando a teologia são:

Quaestiones quodlibeticae, Lovaina, 1515, in-fólio de 134 folhas, que tiveram um grande número de edições. São discursos, em forma de teses públicas, pronunciados nas reuniões solenes que, todos os anos, no mês de dezembro, se realizavam durante oito dias na escola da faculdade de artes. — 2º Questiones in IVem Sententiarum, præsertim circa sacramenta, in-fólio de 177 folhas, Lovaina, 1516. Foram publicadas antes de terem sofrido uma última revisão e à revelia do autor, que lamentou vivamente este traço de zelo inconsiderado por parte de alguns de seus amigos. Pelo seu conteúdo, esta obra é mais um tratado completo sobre os sacramentos do que um comentário sobre o Mestre das Sentenças. — 3º Dois discursos, que datam do tempo em que Adriano era bispo de Tortosa: Sermo paræneticus in complutum hominis christiani agonizantis; — Sermo de seculo pertuso sive de superbia. — 4º Commentarius sive expositiones in Proverbia Salomonis, c. I-XVI, 6. Escrita tendo em vista o doutorado em teologia, esta obra exegética nunca foi impressa na íntegra. O manuscrito autógrafo encontra-se conservado na biblioteca do grande seminário de Malinas.

Não falamos nem das diversas coleções de ordenações e regulamentos emanados do papa Adriano VI, nem de sua correspondência, da qual uma parte foi publicada por Gachard, sob este título: Correspondance de Charles-Quint et d’Adrien VI, in-8°, Bruxelas, 1879.

Nas Questiones in IVem Sententiarum, foi notada a afirmação de que o papa pode errar, inclusive no que tange à fé. Contudo, é muito erroneamente que alguns adversários da infalibilidade viram aí, outrora, um grave argumento a seu favor, ou que, ainda em nossos dias, alguns outros se fingem escandalizados com isso. Composto por Adriano muito antes de sua elevação à cátedra de Pedro, o livro de onde a citação foi extraída não participa, evidentemente, de forma alguma da autoridade dos atos pontifícios. Ademais, nem sequer está provado que a asserção em questão se aplique, no pensamento de seu autor, às definições ex cathedra; não seria, portanto, nada mais que a reprodução de uma opinião teológica que encontramos muitas vezes, muito antes do século XVI, sob a pena dos próprios papas ou em documentos por eles aprovados. É assim que Inocêncio III escrevia: “A fé é-me a tal ponto necessária que, se por qualquer outra falta eu respondo apenas ao julgamento de Deus, pelo único pecado que eu cometesse em matéria de fé, eu me torno sujeito ao tribunal da Igreja.” E, já anteriormente, lia-se no Decreto de Graciano (dist. XL, c. VI) estas palavras de Bonifácio, arcebispo de Mogúncia: “Nenhum mortal tem a pretensão de repreendê-lo por suas faltas (o soberano pontífice); pois, estabelecido juiz de todos, ele mesmo não reconhece nenhum juiz, a menos que venha a trair com um erro contra a fé.” Nesses textos e em muitos outros semelhantes, o papa é manifestamente considerado como doutor privado. Ver INFALIBILIDADE.

Raynaldi, Annal. eccles.; Gaspard Burmann, Analecta historica de Hadriano VI, Utrecht, 1724; L. E. Rosch, Iets over paus Hadrian VI, Utrecht, 1836; Hoefler, Papst Adrian VI, Viena, 1880; Lepitre, Adrien VI (tese), 1881. Para a nomenclatura completa das obras de Adriano VI, Reusens, Syntagma doctrinæ theologicæ Adriani VI, Lovaina, 1862; Anecdota Adrian VI, Lovaina, 1862; sobretudo o art. Boeyens, na Biographie nationale publicada pela Académie royale de Belgique, Bruxelas, 1868.



Autor original: J. FORGET



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