
Ocorreu por vezes na antiguidade eclesiástica que os penitentes morressem inopinadamente sem que se pudesse reconciliá-los. Qual era a conduta da Igreja nesses casos? Iria tratar esses mortos como os fiéis que morriam na comunhão e na paz da Igreja? Ou, ao contrário, como aqueles que morriam na impenitência? A mesma questão se colocava para aqueles que tinham sido injustamente condenados e que morriam sem ter sido reconciliados. A bem dizer, houve divergências na prática das Igrejas, umas se pronunciando pela severidade, outras ao contrário pela indulgência. No século V, a uniformidade estabeleceu-se quase por completo. No V concílio ecumênico (II de Constantinopla), estudou-se mais de perto uma outra questão, a de saber se se podia condenar, excomungar e anatematizar os mortos (sobretudo na conferência V), Mansi, Collec. conc., Florença, 1763, t. IX, col. 2380 sq. Respondeu-se pela afirmativa e, desde esse tempo, apesar de algumas hesitações no Ocidente, quase todas as Igrejas adotaram essa conduta. Do mesmo golpe estava resolvida a primeira questão; pois se se pode condenar os mortos, pode-se absolvê-los. Mas por estas palavras "condenar" ou "absolver os mortos", não se deve entender um julgamento que afetaria o estado de uma alma após a morte; condenar um morto era recusar-lhe a sepultura eclesiástica e os sufrágios da Igreja, apagar seu nome dos dípticos da Igreja, não oferecer por ele nem preces, nem sacrifícios. Absolvê-lo era, ao contrário, conceder-lhe a sepultura eclesiástica e os sufrágios da Igreja, tratá-lo em uma palavra como se ele tivesse morrido na comunhão da Igreja. É o que se encontrará explicado no ritual romano, que contém ainda o rito para absolver um excomungado após sua morte. Tit. III, De sacramento poenitentiae, c. IV.
BIBLIOGRAFIA: Morin, Commentarius historicus de disciplina in administratione sacramenti poenitentiae, l. X, c. IX, Antuérpia, 1682, p. 738; dom Chardon, Histoire des sacrements, IV, sect. IV, c. XX, em Migne, Cursus completus theologiae, Paris, 1840, t. XX, p. 685; Bingham, The antiquities of the christian Church, t. VII, p. 210.
Autor original: F. CABROL